Crónicas da fronteira (2): Confusão


Luís Naves,

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Em Szeged, sul na Hungria

A crise de refugiados está a gerar vários incidentes em toda a Hungria. Em Roszke, junto à fronteira, a polícia controlou um motim no centro onde são concentrados os pedidos de asilo, mas antes do reforço policial surgir no terreno, um grupo de 300 pessoas fez-se à estrada, tendo estes migrantes não registados sido interceptados quilómetros mais à frente, já junto a Szeged. Perto do local, está a ser construída uma expansão mais adaptada às condições de clima, que se vão agravar nas próximas semanas.

As televisões húngaras estão a emitir directos de incidentes em vários locais. Centenas de pessoas partiram da estação de Keleti e caminham na auto-estrada, rumo à fronteira austríaca. Neste momento, sem conflito, o grupo encontra-se a 25 quilómetros de Budapeste, protegido pela polícia e felizmente num tempo invulgarmente quente. Alguns veículos param junto aos refugiados para distribuir água e comida.

Na estação ferroviária de Bicske, perto de Budapeste, um comboio foi parado pelas autoridades e centenas de pessoas escaparam, enquanto muitas outras aceitaram ser levadas para centros de registo. Não houve resistência ao transporte em autocarros. Foi explicado a estes migrantes que após o registo, obrigatório pelas leis de Schengen, os campos de refugiados não serão prisões e estão efectivamente abertos à livre circulação. A situação é confusa e parece estar ligada à necessidade de travar a viagem descontrolada de dezenas de milhares de pessoas. A confusão beneficia os traficantes e prejudica todos os outros envolvidos.

A Hungria tenta desesperadamente segurar a sua fronteira e cumprir as regras do espaço de livre circulação, ou seja, registar os migrantes e iniciar o procedimento de asilo para aqueles que têm direito a esse estatuto. Nem todos fugiram de conflitos e o governo húngaro, apoiado pelos seus congéneres do grupo de Visegrad (que tem bastantes votos no Conselho Europeu), recusa a imigração económica, garantindo asilo apenas aos refugiados de guerras. Por outro lado, é difícil resistir aos apelos para deixar passar os refugiados sem o devido registo, o que não seria aceitável para os países a jusante deste rio de gente, ou seja, para Áustria e Alemanha.

Esta crise humanitária coloca em causa a actual configuração das políticas de fronteira na Europa, bem como as de imigração e asilo. Cada país tem o seu modelo, mas o horror das imagens de naufrágios no Mediterrâneo e o desespero de muitas destas pessoas reforçam as teses federalistas de que é necessária uma política comum para todas estas áreas. No plano político, colocam-se questões de soberania e a diferença de padrões (por exemplo, subsídios) explica que os migrantes queiram ir para a Alemanha sem serem registados no primeiro país onde chegam. É sobretudo isto que está na mesa das negociações entre os países europeus, pois no futuro seria sempre Bruxelas a decidir quantos imigrantes cada país receberia, algo que aqui, na linha da frente, é considerado inaceitável.

 

Foto minha: refugiados que chegaram hoje a Roszke.

0 comentários em “Crónicas da fronteira (2): Confusão”

  1. Os amantes da globalização e federalistas que resolvam o problema que eu por mim não verterei uma gota de suor por eles.

  2. “Nem todos fugiram dos conflitos” e o governo húngaro tem uma varinha de condão que lhe diz este é, aquele não. A atitude da Hungria é feia, injustificável e ditatorial. Se assim é, como fazem a Itália e a Grécia onde todos desembocam?

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