As últimas semanas demonstraram que a sociedade portuguesa tem no seu código genético certa tendência para a intolerância. Instalam-se a retórica de tudo ou nada, a má qualidade do debate público, a agressividade dos comentadores e um argumentário fantasista da esquerda, que vê em simples manobras tácticas grandes batalhas ideológicas. A propósito do espirro de um dirigente, tornou-se moda dizer que a direita se radicaliza; isto agora vai mudar tudo, dizem outros, vendo vastas cedências na declaração burocrática de um responsável europeu que quer tudo na mesma; vem aí a “austeridade inteligente”, afirmam certos crentes, como se a austeridade fosse “estúpida” ou “inteligente”, conforme o autor.
O sistema anterior ao resgate era insustentável e a Europa mudou. Há problemas nacionais como desemprego de longa duração, fragilidade económica, crónica falta de capital, défice de qualificações, influência excessiva de grupos de interesses, crise demográfica, enfim, todas as dificuldades tradicionais continuam em força, mostrando que as reformas impostas pelos credores foram insuficientes.
Neste contexto, a política entrou numa onda de crispação que pretende ignorar o voto de 38% do eleitorado. A direita tem um problema grave: só será poder com maioria absoluta, pois acabou de vez a solução bloco central que permitia resolver situações de impasse, como era o caso a 4 de Outubro. Se não aparecer um novo partido ao centro, CDS e PSD terão todas as razões para se entenderem em coligações pré-eleitorais, mas precisarão de 43% dos votos, o que é a fasquia mais alta da Europa para partidos tradicionalmente de poder evitarem ser oposição eterna. No futuro, independentemente do que disser antes das eleições, o PS ficará colado a parceiros que até hoje eram sobretudo partidos de protesto à sua esquerda*. Acabou a alternância dos dois grandes partidos moderados do centro, que era a base do regime. A bipolarização decidida por António Costa, criando dois campos nítidos, pouco coerentes, radicalizados e muito antagónicos, foi um erro crasso e surge numa altura em que é o pior sistema possível para um país que precisa de continuar as reformas.
* Embora o partido comunista tenha presença no poder autárquico, a sua vocação é claramente de protesto e o bloco, sem poder autárquico significativo, tenderá provavelmente a integrar futuros governos.

“O sistema anterior ao resgate era insustentável e a Europa mudou. Há problemas nacionais como desemprego de longa duração, fragilidade económica, crónica falta de capital, défice de qualificações, influência excessiva de grupos de interesses, crise demográfica, enfim, todas as dificuldades tradicionais continuam em força, mostrando que as reformas impostas pelos credores foram insuficientes.”
Se um remédio não cura a doença, então a lógica é aumentar a dose. Não tente curar a dor de cabeça com estricnina ou ainda acaba morto.
Nisto das alianças do PS nunca percebi que alternativa queriam os seus detratores. Imaginemos que o PS se aliava ao PSD. Passava a ser o CDS nº 2? Qual o interesse disso, quer para o PS, quer para o país?
Que vantagens tinha o país em ter uma governação sem oposição?
Eu sei que a linha política que se escolhe parece aos próprios sempre a única com lógica, mas custa-me a compreender porque é que se considera que uma aliança à esquerda é trair o eleitores, mas uma aliança à direita é servir os mesmos eleitores. Se o PSD tinha exatamente a linha política do PS, concorreu a eleições somente pelos lugares no governo. Se tinha linhas diferentes não se pode queixar de ter sido preterido nas alianças.
Se os que se interessam pelas maquinas partidárias, fizerem o que eu acho ser o seu dever, vão estudar muito bem as eleições de 20D aqui dos nossos irmãos do lado e arranjar maneira de mobilizar os 43% de desinteressados (e que julgo estar a crescer) , preparando-se para a nova geometria, mais parecida com os paíse s bem organizados e governados. Se insistirmos em seguir os modelos sul americanos, em que os ressabiados ficam possessos e desatam os neuronios em queda livre, vamos mal.