Enquanto aqui na parvónia se discute o número de horas de sono de Marcelo Rebelo de Sousa e se fazem profundas reformas estruturais tipo-reposição-dos-feriados, as discussões europeias são sobre o possível colapso da União Europeia, a eventual saída do Reino Unido da UE e o aparente fracasso das políticas de integração dos refugiados e imigrantes que estão a chegar à Europa em quantidades nunca antes vistas*. O artigo de Brendan Simms e Timothy Less cuja leitura proponho, publicado em Novembro na revista New Statesman, produz um pequeno arrepio na espinha e deve ser lido sem complexos e com atenção. Brendan Simms é autor de um livro que me impressionou e sobre o qual já escrevi. Julgo que entretanto foi publicado em português.
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A União Europeia atravessa a sua pior crise de sempre, com dois problemas aparentemente insolúveis, a instabilidade da moeda única e um fluxo migratório sem precedentes. Vários Estados mostram sinais de fragmentação interna e a periferia é uma zona de desastre, na Ucrânia por exemplo, onde se instalou uma rebelião ou guerra civil. Nos próximos meses, a UE vai negociar um entendimento com o Reino Unido, que pode incluir alterações nos tratados, mas se houver acordo e o Brexit for evitado, as questões não vão desaparecer e outros países tentarão negociar excepções. Talvez essas reformas possam adiar a eventual fragmentação da UE, mas os precedentes austro-húngaro ou jugoslavo continuarão a surgir nas discussões, sobretudo se os populistas chegarem ao poder em algum dos países de maior dimensão. Imagine-se a vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas do próximo ano: o fim da UE seria quase inevitável.
Portugal, como é evidente, não tem plano B para situações de catástrofe. Após graves incidentes em Colónia, a opinião pública alemã mudou de um dia para o outro sobre a questão dos refugiados, mas em Portugal estas notícias são chutadas para canto. O fracasso das elites europeias estimulou o avanço de forças populistas um pouco por toda a parte, a crise financeira mundial pode ter uma terceira vaga que destruirá os melhores planos de recuperação económica, mas em Portugal a discussão é sobre a magia do estímulo económico que trará o fim da sobretaxa.
As elites das instituições comunitárias foram porventura demasiado longe na apropriação de poderes nacionais, contra o desejo dos eleitorados, que desconfiam destas burocracias não eleitas. Os dirigentes subestimaram a insegurança económica e até física que muitos europeus sentem; os incidentes de Colónia não deixam de ilustrar isso mesmo. De repente, a sociedade alemã absorveu centenas de milhares de pessoas provenientes de uma cultura muito sexista, que despreza os valores dos anfitriões. Isto não podia ser mais simbólico: segundo o mito a Europa foi raptada e violada. No fundo, é como se alguém dissesse: ‘obrigado pela ajuda, mas as vossas mulheres são umas prostitutas’. Como é que se faz a integração de pessoas que pensam desta maneira?
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Por aqui, tudo vai bem, temos uma visão mítica do assunto, embora as lições dos últimos anos estejam já devidamente esquecidas. Quando estão em dificuldades, os países mais fortes tendem a impor a sua vontade aos mais pequenos, e foi a isso que a Alemanha fez nas quotas de refugiados e durante a crise das dívidas soberanas, impondo políticas que podiam ter sido mais suaves e graduais. Portugal, um país que cumpriu o que lhe foi imposto e assim obteve crédito nos mercados, prepara-se agora para seguir o caminho inverso. Caso falhem as promessas mais ilusórias do novo poder socialista, a Alemanha terá três opções para lidar com os portugueses: ou deixa deslizar o défice orçamental e o euro perde credibilidade ou obriga o governo português a cumprir e criará uma crise política que levará a novas eleições. A terceira hipótese é a definição de reformas profundas na zona euro, criando um sistema a várias velocidades com moedas nacionais e câmbios fixos, algo para o qual falta vontade política ou tempo.
Se a Europa continuar com esta incapacidade, talvez Portugal tenha outra vez o escudo e os nacionalistas dominem o leste; os partidos de extrema-direita farão uma festa com cada incidente envolvendo refugiados; os eurocépticos reclamarão a devolução de poderes; os secessionistas serão mais poderosos na Escócia, na Flandres ou na Catalunha; os Balcãs e a Ucrânia podem mergulhar no caos. O terrorismo acabará com Schengen, estamos em crise há sete anos, cresce a paralisia institucional, já não existem territórios homogéneos, a identidade dissolve-se numa amálgama, as elites andam surdas.
* uso a expressão refugiados e imigrantes porque é disso que se trata: metade da multidão é de refugidos, a outra metade de imigrantes económicos. Tem havido sugestões de que estas designações foram sempre usadas politicamente e não são inocentes. Geralmente, trata-se de contestar o uso da palavra ‘migrantes’, mas não vejo onde está a ilegitimidade, já que muitos ‘refugiados’ não terão direito a asilo, pois são provenientes de países sem conflitos generalizados, como Irão, Egipto, Sudão, Nigéria, Kosovo, entre outros.


As excepções que os anglosaxonicos querem, para alem das que já têm, concordo que seja o maior sobressalto para a UE. Isto porque a maioria dos países são muito fracos, isolados, e se a Alemanha tremer voltamos as velhas politica dominadoras do eixo Londres-Washington.
Quem acompanha a vida social e media dos EUA interna , já viu e vê diariamente, cronicas mais tremendistas desde sempre e que se saiba amanhã não é véspera desse dia; nem lá nem cá claro.O anuncio do fim foi/é exagerado
Antes de esta Europa os erros ou os exitos de um dirigente alemão repercutiam-se essencialmente na Alemanha.
PS- Para bom entendedor …
“…a instabilidade da moeda única …”
O autor critica o populismo ao mesmo tempo que chora a falta de instrumentos do populismo como a impressão de moeda.
Com esforço talvez perceba que o populismo é que faz os Governos terem défice e que a sua acumulação constrói a dívida.
E neste mundo ignorante estão todos contra a dívida mas a favor do défice.
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“o fundo, é como se alguém dissesse: ‘obrigado pela ajuda, mas as vossas mulheres são umas prostitutas’. Como é que se faz a integração de pessoas que pensam desta maneira?”
Bem dito.
Não se faz porque é impossível.
Mas o internacionalismo marxista em que a clique politica-mediática vive não pode deixar de efabular que no Mundo somos todos iguais, de canibais da Nova Guiné a Esquimós do Alaska, todos iguais excepto… a “extrema direita”.
E não pode deixar de ser assim porque para tomar o poder no Ocidente precisa que o Ocidente unilateralmente se desarme: psicologicamente, culturalmente, militarmente. E que melhor justificação para se desarmar se se apresentar que não há inimigos porque somos todos iguais.
O objectivo foi, é incentivar o baixar da guarda a todos os níveis.
“O fracasso das elites europeias estimulou o avanço de forças populistas” e porque não o fracasso de forças populistas estimulou o avanço de forças radicais?
No meu entender, populista é o que promete e não cumpre, servindo-se dessas promessas para chegar ao poder. Não é o caso da grande maioria dos políticos europeus?
É que para mim não há elites europeias no poder, essas estão resguardadas, não se querem misturar com a merda inqualificável dos políticos que grassam por esta Europa.
Que quadro é o que ilustra este post?
Europa (raptada por Zeus)
O artigo lincado é a usual conversa eurocética e nacionalista dos ingleses. É um artigo escrito por ingleses e parte sempre do mesmo ponto de vista: o poder legítimo está nas nações e a Inglaterra não tem nada que ser governada por outros europeus. O que o artigo faz é estender essa conversa a todo o resto da Europa, como se todos os restantes povos europeus tivessem as mesmas obsessões nacionalistas que os ingleses têm.
A extrema-direita alimenta-se da cretinice militante da esquerda.
Há algo mais extremo na Europa que o islamismo?
Os guetos de amanhã constroem-se com as transigências de hoje.
À ficção do reino do Sião de ontem corresponde a realidade do Estado islâmico de hoje.
Pela bitola actual todos os Governos Europeus dos anos 80 eram de Extrema Direita. Para não falar que dos Governos hoje em África, na América Latina.
É este o nível 1984 em que estamos de desonestidade politico-jornalista.
Devo confessar-lhe que fiquei sem saber o que defende ou o que preconiza para esta Europa.
Vamos por pontos. A questão inglesa sobre os imigrantes ou migrantes que recebe não deixa de fazer sentido no contexto das finanças públicas do UK (refiro-me ao pagamento de subsídios por parte do estado inglês). Mas tudo isto ocorre precisamente porque a UE de Merkel/Sarkozy não possuíam uma visão de conjunto para esta Europa. As imposições e critérios acéfalos na forma como pretenderam lidar com esta crise visava exclusivamente salvaguardar os seus interesses e os interesses de suas instituições financeiras de um colapso para o qual as mesmas anteriormente tinham contribuído.
É notório que os cidadãos europeus abandonados, na falta de outras oportunidades em seus próprios países, seguiriam o caminho dos países que lhes pudessem oferecer o pão que lhes era retirado. O próprio UK foi daqueles que, até se ver confrontado com os subsídios que também paga por cada cidadão que chega – esteja ou não empregado -, alinhou com o status quo. E agora, com a necessidade adicional de investir na guerra que leva a efeito há bastantes anos no médio oriente, vê-se na obrigação de pressionar a UE a alterar as regras que anteriormente aceitou.
Por outro lado, a ingenuidade europeia e dos líderes europeus não foi capaz de entender que jamais se estabiliza o que é instável. E essa instabilidade tem que ver também com toda a região dos balcãs (onde existe uma insanável diversidade étnica, religiosa e cultural) e as desconfianças existentes entre alguns dos países a leste, onde se inclui a Ucrânia, a Hungria, a Polónia e outros mais.
Por outro lado, apelidar de populismos o clamor e o lamento das populações, usando o falso rigor orçamental e os anacronismos de carácter histórico, isto é, usar os conceitos e ideias de uma época passada para lidar com um acontecimento particular de um tempo preciso, o que vivemos, é vestir o fato de avestruz e colocar a cabeça na areia.
Quer a Alemanha, quer a França, quer a Holanda e outros mais jamais sobreviverão sem os países de sua periferia. E o grave erro por esses cometidos foi tratar como periférico o que lhes é central.
Estou à vontade com o que aqui reproduzo, pois isto vai ao encontro de tudo quanto por antecipação afirmei. Alguém poderá dizer que eu sou um iluminado. Somente responderei que o problema não reside em minha iluminação mas no facto de esses outros serem como lâmpadas fundidas.
Mais ainda, afirmei que a Alemanha não tinha condições internas e externas para levar a efeito a pseudo-integração de refugiados, e esta situação só seria resolvida com forte empenho da comunidade internacional. Também afirmei que as ocorrências no médio-oriente levadas ao limite conduziriam a uma inevitável intervenção russa e chinesa no conflito, o que ocorreu.
Portanto, a questão primordial que agora importa discutir é termos consciência que as grandes potências preparam-se para avançar com uma economia de guerra, e todos os pretextos lhes parecem válidos para atingir seus objectivos.
A Arábia Saudita e a Turquia, incomparavelmente mais instáveis que a coesão vivida pelos persas, isto é, no Irão, deixaram de ser referência estabilizadora para seus aliados. E a consciência de que assim acontece pode levar a um passo mal dado com o único objectivo de tentar evitar a implosão destes regimes. Mais claro, é preferível apelar a um nacionalismo sem sentido e a uma guerra contra o Irão, que originará uma guerra mundial, para disfarçar as fraquezas internas.
Concluindo, estamos ainda no fio da navalha. Alguém pensará que poderá nela barbear-se, mas ficaremos todos sem pescoço.
Cá pelo burgo, o que importa mesmo é a quantidade de pontes que vamos ter este ano e sobretudo se o benfas vai ser campeão. Ate Junho saberemos as respostas. No entretanto, os amores e desamores do CR7 e as viagens de outros pseudo-famosos, vão ocupar o resto do tempo do pessoal, nos intervalos das novelas. A Europa?, deixem la isso para os estrangeiros, mandem “mazé” o dinheiro para irmos comprar BMW e Mercedes.