As crises europeias quase parecem provocadas por um desejo de mudar, ignorando tratados e reduzindo a actual complexidade. Não é segredo que muitos dirigentes comunitários desejam que os ingleses saiam, que os ‘irresponsáveis’ do sul saiam e que o alargamento seja revertido. É uma visão trágica, mas os países do Sul têm sido tratados com desprezo, os de Leste com uma inaturável condescendência e os ingleses, esses, diz-se que continuam ao serviço da América.
O texto cuja leitura proponho é extenso, está em duas partes, infelizmente apenas em inglês, mas convém fazer a sua leitura, para se perceber o grau de frustração que se instalou nos chamados países de Leste, onde a atitude em relação à Alemanha começa a ser um desalentado ‘eles arrastam-nos estupidamente para os maiores sarilhos e depois abandonam-nos na latrina’. Aqui está a primeira parte e aqui está a segunda parte. A historiadora Maria Schmidt é pró-Fidesz e, portanto, próxima do líder húngaro, Viktor Orbán. Não recomendo a leitura a alminhas sensíveis, mas o texto é um vislumbre raro daquilo que pensam os intelectuais de uma corrente que tem tido escassas oportunidades para se manifestar.
Do ponto de vista ocidental, sendo impossível ‘disciplinar’ estes países, o melhor caminho será o da ruptura. Nos meios de comunicação, a história unilateral está a ser contada segundo um guião previsível: de um lado, há governos autoritários de extrema-direita e, do outro, os que defendem a concórdia no mundo. Países como Hungria e Polónia estão a ser diabolizados sem perdão, acusados de derivas neo-fascistas e ultra-nacionalistas, de atropelos imaginários e muros ilegais. O arrastão mediático é evidente e todos os argumentos servem, dos delírios de aproximação a Moscovo às invenções anti-semitas. Nestas interpretações ignoram-se as centenas de ataques que se registaram em países ocidentais contra os refugiados (mostrando que a integração dentes será difícil), ignora-se que a crise migratória foi uma imposição alemã aos seus vizinhos, que os tratados não incluem decisões colectivas sobre políticas de imigração, ignora-se ainda que o governo húngaro recusou obedecer a um programa de ajustamento do FMI e mandou a factura da crise aos bancos (sobretudo austríacos e alemães) e que o novo governo polaco se prepara para passar uma factura semelhante, que é o sonho do Bloco de Esquerda. A ideia de que estamos perante regimes não-democráticos, apesar de falsa, foi tão repetida que já parece autêntica. A ruptura será mais fácil se pensarmos nestes países como pré-ditaduras, sem liberdades e onde os regimes se fazem eleger através de chapeladas eleitorais. A vontade dos povos está a ser ignorada, sem dúvida, mas é pelas interpretações jornalísticas.
A crise europeia é hoje, acima de tudo, um desfasamento entre os partidos tradicionais que fizeram a UE e a rebelião eleitoral que alastra no Sul e Leste, com contestações populistas, de esquerda nos primeiros países e de aparência direitista nos segundos*. A Alemanha, a grande vencedora desta crise, terá de escolher entre apagar fogos nos pequenos Estados ou aproveitar a contestação para quebrar as amarras e avançar para um núcleo duro europeu onde caberão poucos membros da actual UE (França, Itália, Holanda, Áustria, Bélgica e talvez Espanha) e onde os alemães serão ainda mais inflexíveis e dominadores. A tentação de acabar com a UE que conhecemos parece irresistível.
* Uso a palavra ‘aparência’ porque o Leste funciona como a imagem ao espelho do ocidente: os pós-comunistas chamam-se socialistas e querem manter o máximo da ordem política anterior, sendo portanto conservadores; a direita conservadora é na realidade reformista, pois deseja mudar todas as estruturas políticas. Essa mudança, que na Hungria está consumada, é vista pelos media ocidentais como exemplo do horror, por razões que Schmidt procura explicar no texto.


“a crise migratória foi uma imposição alemã aos seus vizinhos”
!!!
Eu diria que foi uma imposição dos migrantes aos europeus.
Ou então que foi uma imposição da Turquia (que desistiu de controlar a sua fronteira marítima) à Europa.
Imposição alemã é que não foi certamente: a Alemanha não tem culpa de que centenas de milhares de pessoas tenham entrado na Europa.
Quando a chanceler alemã disse que a Alemanha aceitava todos os refugiados da Síria, fez um convite que ignorou o facto destas pessoas terem de atravessar uma série de países que faziam parte da zona Schengen de livre circulação. Os países de passagem ficaram numa situação desesperada: se aplicassem as regras de Schengen, mergulhavam no caos e na desobediência civil; se não cumprissem essas regras, teriam um comportamento ilegal. Este problema não foi compreendido entre nós, é pena, e a autora do texto cujo link incluí no post faz referência a isto, afirmando que a Alemanha não pensou nos vizinhos e que o comportamento correcto de Berlim teria sido ir buscar os imigrantes de que precisava aos países onde estes estavam. Numa visão um pouco mais cínica, o que esteve em causa não foi apenas a crise humanitária dos refugiados, mas uma migração em massa que incluiu pessoas de países sem guerra (pelo menos metade do total) e que respondem a uma necessidade que a Alemanha tem de mão-de-obra barata. Infelizmente, o que escrevi é politicamente incorrecto e a opinião pública portuguesa nunca compreendeu este elemento da equação.
Os países de passagem ficaram numa situação desesperada: se aplicassem as regras de Schengen, mergulhavam no caos e na desobediência civil
Não entendo. Então o Luís Naves não afirmou, em posts anteriores, que a Hungria se limitou a aplicar as regras de Schengen? Que a Hungria controlou as suas fronteiras e procurou recensear os migrantes, conforme era sua obrigação de acordo com Schengen? A Hungria não mergulhou, que eu saiba, no caos nem na desobediência civil…
Diz que me leu, mas afinal não leu. Se tivesse lido o que escrevi, não teria dúvidas de que a Hungria mergulhou no caos quando tentou aplicar as regras de Schengen. O país ficou paralisado, sem comboios e com grupos de refugiados em fuga pelo território, acampando onde calhava, recusando obedecer às instruções da polícia.
No fundo, estas discussões não levam a lado nenhum. Eu estive lá, assisti às situações, mas o que vi e descrevi não é reconhecido como realidade.
A opinião pública foi massacrada com uma propaganda que a impede de perceber que metade da multidão não é de refugiados, que na UE não existe política comum de imigração, que os países do leste da UE têm governos eleitos e são soberanos, que Schengen está à beira do colapso, que a integração dos refugiados é problemática, que as conveniências da economia alemã não devem ditar o procedimento dos vizinhos e ainda que o falhanço das elites europeias está a alimentar uma vaga populista que alastra um pouco por toda a parte, com expressão nas urnas. Das duas uma: ou acabamos com o processo democrático e impedimos os populistas de ascender ao poder proibindo os seus partidos ou teremos de ouvir o que eles dizem.
Entretanto, instalou-se uma fractura entre países ocidentais e de leste. Os húngaros olham para a Alemanha como o seu aliado tradicional, embora pouco fiável (o artigo do link sugere isso mesmo); mas parte significativa da Polónia tem uma perspectiva mais dramática, olha para a Alemanha como um país perigoso.
Ao contrário do mito, o Fidesz de Viktor Orbán não é um partido eurocéptico, mas europeista, que tem evitado confrontos demasiado directos com Bruxelas, acabando sempre por negociar algum meio termo. Não é o caso do novo governo polaco.
Quando a chanceler alemã disse que a Alemanha aceitava todos os refugiados da Síria, ignorou o facto destas pessoas terem de atravessar uma série de países
Não entendo esta argumentação.
Quando nos anos 60 a França aceitou receber centenas de milhares de imigrantes portugueses, não teve que se preocupar com o facto de estes terem tido que atravessar a Espanha – frequentemente a pé. Esse era um problema dos próprios imigrantes e, talvez, das autoridades espanholas – não era um problema da França.
Se a Alemanha declara aceitar todos os sírios que se apresentem nas suas fronteiras, então os países de atravessamento só têm que fazer uma coisa – meter todos os sírios em comboios a atravessar o país, por forma a que eles cheguem o mais depressa possível à Alemanha.
É, aliás, isso mesmo que têm feito a Macedónia, a Sérvia e outros países dos Balcãs – facilitar o atravessamento dos migrantes para que eles possam o mais rapidamente possível chegar ao destino que almejam.
O problema não está, portanto, em a Alemanha aceitar acolher os sírios; o problema existiria, isso sim, se a Alemanha não aceitasse acolhê-los! Aí sim, seria um problema grave para os outros países!
Mas os não refugiados voltam para trás, pelo menos em teoria, e com a Alemanha não se sabe se a teoria não será a prática. O migrante do Bangladesh que chegou a Munique e foi registado na Hungria ou na Macedónia ou na Grécia pode ser devolvido à procedência. Afinal, não é um refugiado sírio ou iraquiano. Até sobre os afegãos há dúvidas.
Esta multidão inclui egípcios, kosovares, nigerianos, sudaneses, iranianos. Ao fim de meses ou anos os pedidos de asilo podem ser recusados e o cidadão volta para trás. As regras de Schengen estabelecem que ele regressa ao país de registo, que por sua vez procede ao repatriamento.
A comparação com a imigração portuguesa é extraordinária, pois não consta que houvesse passagem diária de dez mil portugueses pelo território espanhol. Aliás, enquanto a actual crise de refugiados envolveu algumas centenas de pessoas por dia, ninguém se preocupou com ela. A crise estalou por volta de Julho, quando começaram a aparecer nas fronteiras externas da UE mais de mil pessoas por dia.
A comparação com a imigração portuguesa é extraordinária, pois não consta que houvesse passagem diária de dez mil portugueses pelo território espanhol.
Claro, por isso mesmo é que eu digo, a crise não foi criada pela Alemanha – a qual, pelo contrário, tentou resolver a crise, acolhendo os migrantes -, ela foi criada pelos migrantes, quando decidiram acorrer em massa à Europa. E foi criada pela Turquia, quando resolveu permitir a migração em massa para a Europa.
Recordo que toda esta nossa discussão partiu da sua afirmação, que considerei extraordinária, de que a culpa da crise foi da Alemanha quando decidiu acolher os sírios. Em minha opinião quem causou a crise foram os migrantes e a Turquia, não foi a Alemanha, pelo que María Schmidt não tem nada que se pôr a lançar acusações a esta.
os pedidos de asilo podem ser recusados e o cidadão volta para trás. As regras de Schengen estabelecem que ele regressa ao país de registo, que por sua vez procede ao repatriamento.
Neste ponto o Luís Naves tem toda a razão, a Europa não tem uma política de asilo e emigração comum, o que faz na prática com que os países que têm fronteiras externas se possam lixar. Esses países recebem migrantes e ficam sobrecarregados com eles se nenhum outro país estiver disposto a acolhê-los.
A solução para isto passa por exigir que a Europa passe a ter uma política de asilo e imigração comum. Não passa por querer ter políticas separadas e nacionalistas, que é aparentemente a opção da Hungria e da Polónia.
“o governo húngaro mandou a factura da crise aos bancos”
Não sei bem a que se refere o Luís Naves, mas penso que é ao facto de o governo húngaro ter feito uma lei de acordo com a qual os húngaros ficaram autorizados a pagar em moeda local (forint), desvalorizada, dívidas que contraíram em euros junto dos bancos austríacos e alemães.
Ora bem, o que essa lei faz é efetivamente autorizar a violação de normas contratuais que foram livremente aceites pelos húngaros que contraíram tais dívidas. Não me parece que tal seja aceitável.
Isso seria como agora vir o governo português dizer que as obrigações do BES que alguns cidadãos portugueses compraram são efetivamente depósitos a prazo e que como tal devem ser honradas pelo Novo Banco.
Nada disso. O que aconteceu foi uma desvalorização da moeda que, na prática, levou centenas de milhares de pessoas à impossibilidade de pagar empréstimos contraídos em euros e francos suíços. Ou o país ficava eternamente endividado ou o governo inventava um câmbio intermédio que permitisse pagar as dívidas. Os bancos acabaram por beneficiar. Mas a referência do meu texto vai além desta lei: foram criados impostos especiais para a banca e para as empresas que tinham rendas excessivas. Alguns bancos foram nacionalizados. A Hungria é o único país onde a retórica do Bloco de Esquerda foi levada à prática, mas curiosamente nunca apareceu como exemplo de que era possível fazer de outra forma. Tem imensa graça.
Obviamente, os empréstimos eram pagos na moeda local, o montante em dívida é que ia subindo. Ninguém consegue pagar um empréstimo contraído com o forint a 230 por euro, quando a moeda entretanto desceu para 315 por euro, em apenas dois ou três anos. Se não me enganei nas contas, num empréstimo original, por cada mil euros a taxa de juro de 3%, o encargo passava de 7600 para 10.500, o que corresponde a um agravamento de 37% na hipoteca. Isto é válido para a Polónia e não tem nada a ver com o BES, porque em ambos os casos a maior parte do sistema financeiro está nas mãos de estrangeiros.
O que aconteceu foi uma desvalorização da moeda que levou centenas de milhares de pessoas à impossibilidade de pagar empréstimos contraídos em euros
Pois. Na prática, essas pessoas aplicaram um calote aos bancos que lhes tinham emprestado dinheiro. E o governo húngaro sancionou esse calote.
Agora eu digo, se o Estado português tivesse aplicado um calote similar aos bancos que lhe emprestaram dinheiro, o Luís Naves acharia bem?
Quando as pessoas pediram empréstimos em euros, não sabiam que estavam a incorrer em risco cambial, que é o maior de todos os riscos na finança?
A mim admira-me que uma pessoa como o Luís Naves, tão conservadora no que diz respeito ao Estado português, que exige que o Estado português seja tão sério perante os bancos alemães que lhe emprestaram dinheiro, exiba tanta tolerância quando se trata de húngaros a dar calotes a esses mesmos bancos alemães!
Tadinhos dos capitalistas, sofreram calotes…
O sul da Europa adotou a democracia do norte.
Subverteu-a, retirou o povo da equação, e tornou-a o paraíso da corrupção, em sentido lato e estrito.
O que agora está acontecendo é a tendência para devolver a democracia ao povo.
Simples.
Tentar encontrar coerência e ordem no meio de este caus já instalado?.
Unir o (tão) heterogéneo ?.
É interessante mas irreal….
Alguma vez a França alinharia nesse famoso núcleo duro da UE par a apar com a Alemanha?.
Os próprios ditos EUA, que eram originalmente comunidades criadas a partir do zero, só “conseguiram” a “União” com uma guerra civil….
A França vai entrar neste núcleo duro, apesar da hostilidade da Frente Nacional e da extrema-esquerda. Se Hollande ou Sarkozy vencerem as presidenciais (ou um candidato republicano ou socialista que ainda não apareceu), o projecto de acelerar a integração com a Alemanha estará sobre a mesa.
cagaram tudo e muitas outras diabruras
na Áustria onde vivi, país a sério
uma senhora que conheci completou o 13º ano de escolaridade na década de 1890
PORRA!
A ambição expansionista em todos os sentidos dos países do Centro Europa visava única e exclusivamente potenciar a sua capacidade produtiva, quer na indústria quer na agricultura, transformando os demais em meros consumidores. Esta situação, em simultâneo, proporcionava a deslocalização de indústrias para aumentar seus lucros e aproveitar os benefícios fiscais, deixando, em matéria produtiva, uma espécie de uma terra de ninguém em muitos países europeus. OS USA também sofreram com tais deslocalizações, para o México e para países da Ásia.
Na realidade a dita coesão é de enorme vacuidade, e o termo só se usa para expressar um não sei quê.
Coesão significa que os recursos humanos por outros suportados devem estar ao serviço daqueles que necessitam de tal mão-de-obra. Outros exemplos poderiam ser dados para significar tal coesão, mas o espaço é um local de comentários e não de teses.
Mais grave ainda, com crise a ocidente a Alemanha ensaia sua tão secular almejada expansão a leste. Iniciou tal processo da pior forma, desafiou os interesses russos no Chipre e foi atrevida na Ucrânia. O resultado é conhecido.
Mas não fica por aqui.
A UE não soube reconhecer como espaço de equilíbrio o médio-oriente, limitando-se a seguir as absurdas políticas do eixo Londres-Washington. O envolvimento foi de tal forma comprometedor que quer a Turquia quer a Arábia Saudita lançam-se em aventuras perigosas na certeza de que tal acção comprometedora permite-lhes jogadas absurdas e desprovidas de senso que se verificam através do abate de um avião russo e a morte dos activistas na Arábia, entre esses o dignitário xiita Nimr Baqir.
Estas situações dão origem ao inevitável: quer na Turquia quer na Arábia Saudita iniciar-se-á um processo de implosão dos regimes instalados. É de todo impossível uma vitória ocidental em tal terreno e com a Rússia surpreendentemente preparada para anular qualquer supremacia aérea na região. E como isto é um facto nunca mais existiu um sobrevoo sobre a Síria por parte de aviões turcos para atacar o PKK.
Portanto, desengane-se quem pensa que quer a coligação, com excepção para a França, quer a Rússia estão por lá para anular ou neutralizar ou eliminar o EI. Estas forças estão no terreno para marcar posições e afirmarem seu domínio.
Com este cenário, à UE não lhe restará outra alternativa que não a de ser verdadeiramente unida e encontrar a partir de agora a coesão; e qualquer ruptura, em particular com os países do Sul, onde se inclui Portugal, seria aumentar as probabilidades de grave desestabilização de forças quer no quadro da Nato quer no quadro da estabilidade dos países da Europa Central.
Caro Luís, isto é um comentário longo. Hesitei, porque os textos da Maria Schmidt causaram-me tanto repúdio, há tanta coisa que acho errado e até desprezível neles que tinha duvidas que valesse a pena comentar. O que me levou a fazê-lo é que os artigos são em tão grande parte sobre Alemanha.
Maria Schmidt informa-nos que a Alemanha é dominada por uma elite proveniente da extrema esquerda da geração ’68, tendo instalado o pensamento único do „politicamente correcto“, na comunicação social, incluindo meios de comunicação comummente considerados de direita, como a FAZ ou Die Welt. Essa visão é, como praticamente tudo que a autora diz sobre a Alemanha, retida da argumentação do movimento alemão anti-imigração PEGIDA („Patriotas Européus Contra a Islamização do Ocidente“) que cunhou para isso o termo „Lügenpresse“ – („Imprensa da Mentira“).
Maria Schmidt diz ainda que a Alemanha é dominada por políticos provenientes do mesmo meio, como Schröder e Fischer (lembrando o seu passado de soissant huitards mas não esquecendo de referir os seus contratos milionários que hoje têm no mundo dos negócios internacionais) e por políticos alegadamente super-assimilados provenientes da antiga RDA, como Angela Merkel e Joachim Gauck.
O resultado é, de acordo com Maria Schmidt, que esta „velha-nova Alemanha carceçe tanto de emoção como de razão, [que] o terror moral e a cultura da vitimização reina sobre tudo, cujo resultado é a dominante Willkommenskultur. A essência disto tudo é que faculta o sentimento de ser apreciado pelo comportamento correcto a todos que escolham cobardia e a própria sumissão.“
Mais a frente ela repete o argumento antigo de que os alemães sofrem de um complexo de culpa histórico: „Despe uma nação da sua auto-estima, envergonha-a e depois podes fazer tudo com ela que te apetece“.
Tudo é tão superficial, tão carregado de ressentimento e de clichés que me podia ficar por um encolher de ombros. Mas sempre é o Luis Naves que fez um link para estes textos. Assim vou tentar responder com calma.
Sei pouco da Hungria. mas conheço a Alemanha, a de Leste – antes e dopois da queda do muro -, a de Oeste, e a Alemanha reunificada. Vivo em Portugal ha 20 anos, mas passei as últimas duas semanas na minha terra, e estive muito empenhado em tentar perceber em primeira mão os sentimentos, a postura dos meus compatriotas em relação a questão dos refugiados.
Quanto à alegada falta de auto-estima, verifiquei o contrário: Vi os alemães mais confiantes e a-vontade de sempre. As pessoas estão bem, há emprego para praticamente todos, há boas perspectivas económicas, quer ao nível geral quer ao nível particular. Quanto ao complexo de culpa, a minha observação não me trouxe novidade: esta acusação é hoje mais ridícula do que nunca, um cliché que há 30 anos tinha algum fundamento deu entretanto, e bem, lugar a um sentimento de responsabilidade histórica, sim, mas livre de complexos pessoais. O que é natural dado que praticamente ninguém das gerações com responsabilidades no tempo Nazi ainda está vivo.
Desde sempre me parece que quem muito invoca o orgulho patriótico tem exatamente a falta de auto-estima que aqui imputa a outros.
Sim, existem na Alemanha irmãos no espírito de Maria Schmidt. É o referido movimento PEGIDA e o novo partido político AfD („Alternative für Deutschland“ = „Alternativa para Alemanha“) que em sondagens recentes (novembro 2015) representa ca. de 10% dos eleitores. Estudos sociológicos indicam que este eleitorado é composto por maioria por homens acima dos 50 anos, maioritáriamente habitando no território da antiga RDA, com emprego, mas com uma perspectiva de receber uma reforma – comparavelmente – baixa. (Para o argumento que os imigrantes contribuirão para que as suas reformas fiquem melhores, têm porém e curiosamente pouca receptividade.)
O quê dizer sobre o facto de eles não se revêem na opinião públicada, de darem mais crédito ao que lêem no circulo dos seus amigos facebook do que em jornais ditos de referência? E que atribuem a uma conspiração que as opiniões que ouvem na sua tasca de preferência (em Dresden com 0,4% muculmanos mas provavelmente não em Munique ou Berlim, com 6,5% muçulmanos) não são maioritários na opinião publicada?
(continua)
Eu leio regularmente 5 jornais: Der Spiegel (centro-esquerda), Die Zeit (centro-direita, cujo editor foi Helmut Schmidt), Süddeutsche Zeitung (centro-esquerda), FAZ (centro-direita, próxima do mundo das finanças) e Die Welt (direita, fundado pelo inveterado anti-comunista Axel Springer). Entre eles, Zeit e Süddeutsche têm de facto um elemento de comunhão com os seus leitores que contê uma certa nocão de superioridade moral. Do outro lado, sinto a mesma cumplicidade na partilha de valores de direita na FAZ e Welt e os seus leitores. Der Spiegel é um semanário de investigação puro e duro, ainda hoje agradavelmente confrontacional para todos os lados. Há agendas políticas? Claro que há. Como sempre houve. Há artigos encomendados, fretes? Vezes demais. Mas nada que se compara, por exemplo, com a imprensa portuguesa. „Lügenpresse“?
Vão dar uma volta!
Nos artigos da Maria Schmidt também não falta a palavra da „invasão“ (termo bélico) dos refugiados e pretensos refugiados, e a ameaça que esta constitui para a cultura cristã. Schmist cita na íntegra uma resposta de Angela Merkel, onde instiga os preocupados com isso de afirmarem o seu cristianismo de forma mais assertiva. Confesso que não percebo mesmo porque Maria Schmidt se escandaliza com isso. Respeito os que procuram viver os valores do cristinaismo, indignam-me aqueles que dele se aproveitam como marcador étnico-cultural. Ter nascido como cristão vale nada. Agir como um cristão vale muito.
Quanto a invasão, o próprio Schäuble encontrou numa conferência uma boa imagem da sua dimensão. Disse à plateia: „Estamos aqui numa sala com 500 lugares. Imaginem que abrimos aqui a porta e deixamos entrar mais seis ou sete pessoas. Vai descaraterizar a composição da plateia?“
Dito isso, as coisas não são todas fáceis na Alemanha. A administração alemã, tão famosa pela sua eficiência, viu-se e ainda se vê mal preparada para o desafio. Tive oportunidade de falar com amigos que estão encarregues, por obrigação profissional, de lidar com o problema, e fiquei impressionado com a sua calma, a sua confiança e o seu profissionalismo. E com a ausência quer de medo, quer de sentimentalismo. Essa postura encontrei também em que ajuda por voluntariado. Muitos deles são apoidados pelas empresas onde trabalham, que lhes disponibilizam folgas pagas para o exercer. Mas claro que há tmabém emoção. A minha mãe contou com orgulho o seguinte episódio (em que ela, com os seus 78 anos, não estava pessoalmente envolvida): Na vila ao lado da nossa, de 5000 habitantes, existe um antigo aeroporto militar britâncio com habitações vagas para 2000 pessoas. O governo do Estado Renânia Norte-Vestfália decidiu transforma-lo num centro de acolhimento provisório. Quando um bando de grunhos xenófobos, perdão, um grupo de patriotas preocupados resolveu fazer uma visita à vila para impedir a chegada dos refugiados a força. A populacão da vila, por sua vez, em massa, assegurou que esse não alcançou o seu objetivo.
Os cidadãos de Elmpt sabem, não tenho dúvudas, que as coisas não são fáceis. Que o alojamento provisório é apenas o primeiro passo. A integração ainda estará por fazer e será uma tarefa enorme. Decerto não resulta, se os 2000 ficarão por anos em Elmpt. Mas se se consegue o que se pretende, que no fim ficarão apenas 5 ou 10 pessoas nesta vila, o que corresponde ao rácio normal se todos os alemães colaboram, não vejo como a integração não acabará por ter sucesso.
No geral a minha impressão da ajuda alemã é essa: Os alemães ajudam porque podem e porque querem. Não por expiação dos crimes dos seus antepassados, não por sentimentalismo, mas porque sabe bem fazer a coisa certa. Sabe bem fazer a diferença.
Luís, isto é o segundo de três cmentários, ou melhor, a parte do meio do meu comentário longo. Não recebeu as outras partes? Diga, s.f.f., e os envio outra vez. Só assim se percebe o que disse…
Noutra folha da história está o indesculpável e brutal exercício do poder económico da Alemanha sobre os seus vizinhos mais fracos no leste e no sul. Aqui estou tal como o Luís, muito crítico. Mesmo na questão dos refugiados. Reconheço que poucos têm as condiçioes económicas e sociais para ajudar tanto como Alemanha. E reconheço a desproporcional carga que o problema representa para paises como a Grécia, a Hungria e a Itália. Embora também aqui há comportamentos públicos e privados que só posso lamentar e censurar. Como censuro a fraca disponibilidade de outros países que não estão na linha de frente. Faço o meu juízo moral. Mas compreendo que não se pode impor o acolhimento de refugiados a força.
E ainda noutra folha da história está o problema do afastamento da Hungria e da Polónia dos valores europeus. Não confundamos a pressão alemã neste assunto e a imposição de uma lógica financeira que beneficia a Alemanha em detrimento de outros países europeus com o repúdio que a UE finalmente mostra em relação aos desenvolvimentos políticos na Hungria e agora na Polónia. O que está acontecer aqui é a desmontagem de pilares fundamentais da democracia, da independência da justiça e da liberdade da imprensa. Não tenho dúvidas: Um país que abandona estes valores, por sufrágio democrático ou não, não tem lugar na UE.
Obrigado!
Olá Lutz, bem podias por este texto no Quase em Português e escrever lá de vez em quando!