
… e agora também o Chile. Começa a parecer-me evidente que a natureza está farta de nós.
Subscrevo, integralmente, este veemente protesto da Luísa contra mais um dos inúmeros abusos dos nossos queridos governantes sobre a brandíssima índole dos portugueses. Há limites para o descaramento.
numa notícia do Sapo sobre o caso PT/TVI e o depoimento de Rui Pedro Soares na Comissão de Ética. O estado de desânimo e impotência em que todos andamos está bem espelhado neste desabafo, que me arrancou primeiro um sorriso desprevenido mas, logo a seguir, uma enorme tristeza)

Hieronymus Bosch, o visionário (1450 – 1516)
Deixo aos meus colegas de blogue, bem mais versados do que eu em matéria de política, a análise exaustiva da entrevista que deve ter registado as mais altas audiências da SIC (e de qualquer outro canal televisivo) nos últimos tempos. Quanto a mim, vi-a com outros olhos e ainda não me refiz do choque. Do choque de ter confirmado, definitivamente e sem sombra de dúvida, uma desconfiança que já me atormentava há algum tempo: estamos a ser governados por um alien. Não pode ser humano alguém que aguenta há tanto tempo o que Sócrates tem aguentado de acusações ao seu carácter (sobretudo se está inocente, como afirma) sem um tremor de voz, um franzir de sobrancelhas, um humedecimento de olhos, uma transpiração de mãos, sei lá… qualquer sinal de que "sente", além de pensar. À nossa frente não esteve apenas um animal feroz, esteve sobretudo uma criatura que não deprime nunca, que é totalmente impermeável a ataques, por mais graves que sejam, e de uma frieza e capacidade de resistência que fariam empalidecer de vergonha qualquer mártir cristão e transformar a Joana d’Arc num calimero. Por baixo do impecável fato escuro e da gravata monocórdica só pode haver um mutante, daqueles que parecem quase, quase humanos, não fora o chip que os comanda não incluir o ficheiro das emoções. Se lhe picarmos a pele com um alfinete, aposto que não sai nem um pingo de sangue. Diz exactamente o que está programado para dizer, sem espaço para o menor improviso ou jogo de cintura espontâneo. Se lhe sai uma pergunta fora do alinhamento, rebobina e recomeça do princípio, com toda a calma. É uma máquina imperturbável. Miguel Sousa Tavares, entusiasmado ao princípio por achar que lhe arrancaria uma qualquer reacção que traísse desconforto, tristeza ou hesitação, foi desistindo aos poucos até desanimar completamente, ao perceber que falava com um muro de cimento armado. Esta entrevista teve em mim um efeito revelador. Percebi finalmente, com enorme apreensão, qual é o grande trunfo de Sócrates: nada o demove porque nada o comove. E não sei o que se passa convosco, mas a mim preocupa e assusta saber que o país está entregue a uma espécie de robocop em versão Armani.
When Charles de Gaulle decided to retire from public life, the British ambassador and his wife threw a gala dinner party in his honor. At the dinner table, the Ambassador’s wife was talking with Madame de Gaulle:
– "Your husband has been such a prominent public figure, such a presence on the French and international scene for so many years! How quiet retirement will seem in comparison. What are you most looking forward to in these retirement years?"
– "A penis" — replied Madame de Gaulle, smiling.
A huge hush fell over the table. Everyone heard her answer… and no one knew what to say next.
Le Grand Charles leaned over to his wife and said:
– "Ma cherie, I believe ze English pronounce zat word, ‘appiness!’"
"Então diga lá: porque é que está vestido de mulher? Tem algo lá dentro de si, é?"
(Jornalista da TVI em entrevista de rua no carnaval da Madeira)
A famosa 5a sinfonia de Beethoven, brilhantemente adaptada pelo escritor, cómico e actor Sid Caesar (para quem Woody Allen escreveu guiões no princípio da sua carreira).
(Nota: A propósito do dia dos namorados, porque uma boa discussão – com sentido de humor – faz muito mais pelo Amor do que oferecer corações de carpélio e rendinhas.)
Esqueçamos, por um momento, a legalidade ou ilegalidade dos meios que levam à investigação do primeiro ministro. Esqueçamos o inacreditável número de escândalos em que o seu nome está envolvido desde o primeiro dia, com razão ou sem ela. Esqueçamos a possível manipulação do aparelho judicial. Esqueçamos o papel da comunicação social. Esqueçamos a pressão política da oposição, sintomaticamente unida como há muito tempo não se via. Esqueçamos a crise económica. Esqueçamos todos estes sound bytes que nos deixam aturdidos e confusos, no meio de uma situação caótica e inédita na história recente deste país. A minha questão vai muito mais atrás, muito mais fundo: onde anda a velha honra portuguesa, a verticalidade e o carácter que fizeram com que – por infinitamente menos do que as suspeitas que pairam sobre Sócrates – vários políticos tivessem posto o superior interesse do país acima do seu e se tivessem afastado pelo seu próprio pé, até que tudo estivesse esclarecido e o seu nome estivesse limpo?
É a velha história da mulher de César, que em política não é uma questão menor. Não está em causa apenas a credibilidade de um primeiro ministro, mas também a das instituições e a de um país inteiro, perante si próprio, a Europa e o Mundo. Até a tradicional apatia dos portugueses já foi sacudida, acicatada por uma situação de carência generalizada e pelo cansaço da impotência. Já não resta ao primeiro ministro muito tempo para sair dignamente desta situação aberrante. E fico abismada com aquilo a que assisto: será que Sócrates prefere ser "empurrado" por uma enxurrada de lama que há-de um dia destes soterrá-lo de vez, julgado e linchado em praça pública muito antes de que a justiça o condene ou ilibe? Será que o vício do poder e a arrogância de não dar o braço a torcer valem, para ele, este enxovalho sem precedentes? Qual o limite do preço a pagar pela ambição?

O que há de inebriante no mau gosto
é o prazer aristocrático de desagradar.
(Baudelaire)

Sōkrátēs Sócrates
Sōkrátēs buscava o Conhecimento. O seu método para alcançá-lo era o diálogo e a humildade de formular todas as perguntas.
Sócrates prefere o Desconhecimento. O seu método para alcançá-lo é o monólogo e a arrogância de calar todas as perguntas.
Um pensamento de Sōkrátēs – Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente, responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir imparcialmente.
Um pensamento de Sócrates – Quatro características deve ter um juiz: não ouvir escutas, responder obedientemente, ponderar nos riscos que corre e decidir se quer continuar a ter emprego.
Sōkrátēs provocou uma ruptura sem precedentes na Filosofia grega.
Sócrates provocou uma ruptura sem precedentes na Auto-Estima portuguesa.
Sōkrátēs tinha um lema: Só sei que nada sei.
Sócrates tem um lema: Eu é que sei.
Sōkrátēs auto- intitulava-se “um homem pacífico”
Sócrates auto-intitula-se “um animal feroz”.
Sōkrátēs foi condenado à cicuta.
Sócrates nem pelas escutas foi condenado.
Sōkrátēs deixou-nos incontáveis dádivas.
Sócrates deixa-nos incontáveis dívidas.
ADENDA / CONTRIBUTOS:
Sōkrátēs usava uma longa barba atestando a sua honra.
Sócrates bem pode começar a pensar em ‘pôr as barbas de molho’.
(Luis Reis Figueira)
Sōkrátēs – filosofou porque não havia futebol.
Sócrates – ainda por cima é do Benfica.
(Zé Luís)
O tempo de Sōkrátēs é o da sua grande Atenas.
Sócrates detesta o tempo de Antena dos outros.
(José Ricardo Costa)
Sōkrátēs fez a gosto a sua Escola.
Sócrates fez a sua escola em Agosto.
(P. Duarte)

A ler aqui um interessante artigo da nossa Marta Caires sobre uma figura feminina da História Universal que tem inspirado artistas, filósofos e cientistas de todas as épocas, e que é a personagem principal do último filme de Alejandro Amenábar: Hipátia de Alexandria.
Bater no fundo pode até ser desejável, se significar um renascer das cinzas e uma natural subida, por não ser possível descer mais. Infelizmente, até nisto Portugal parece ter descoberto uma originalidade: a de estar sempre a bater no fundo, repetidamente, como uma bola de borracha incapaz de estabilizar por causa da lei da gravidade. Da gravidade do que se passa lá no fundo, sobretudo.

O homem de camisola cinzenta está acompanhado de uma espalhafatosa mulher de branco, que se pendura nele ostensivamente para que não restem dúvidas quanto à natureza da relação. A mulher de castanho, que já foi casada com o homem da camisola cinzenta, está agora com o homem de calças azuis e ambos estão muito sorridentes. O homem de gabardina esteve noivo da mulher espalhafatosa de branco e é, por sua vez, pai do genro do homem da camisola cinzenta. A mulher de castanho foi namorada do homem de casaco de botões dourados, que é íntimo do homem de camisola cinzenta e da mulher espalhafatosa de branco. O homem de gabardina faz-se acompanhar da sua mais recente conquista, uma mulher de encarnado que o olha embevecida. A prima do homem da camisola cinzenta, velha conhecida da mulher espalhafatosa de branco e da mulher de castanho, acompanha o homem de casaco de botões dourados que é, segundo ela, o seu maior amigo. O homem de calças azuis é amigo de infância do homem de camisola cinzenta e a mulher espalhafatosa de branco já foi sua secretária.
(Todos eles ocuparam ontem à noite, em simultâneo e durante algumas horas, um espaço de cinco ou seis metros quadrados. O espaço continua de pé e todos estão vivos e de saúde.)
Excepto no sentido de oportunidade, era superlativa em tudo: uma saia curtíssima, uma bota altíssima, um decote fundíssimo, um cabelo loiríssimo e, muito provavelmente, um único neurónio atarefadíssimo, por falta de companhia e de ajuda. A idade era um mistério, a personagem um total erro de casting na mercearia do senhor Paredes. Entrou com uma pose de star, arrastando as longas pernas por entre as caixas de fruta e as pilhas de bacalhau seco. Parou e rodou, num gesto que lhe terá parecido de grande efeito plástico, a meio do corredor estreito, mais ou menos onde as hortaliças acabam e os detergentes se alinham num arraial de cores histéricas. Já com a certeza absoluta de ter captado a atenção da embasbacada plateia, fez beicinho e sussurrou, numa voz de mimo: “Tem échalottes?” (abro aqui um parentesis para dizer que a pronúncia francesa estava longe de ser aceitável, mas convicção não lhe faltava). O senhor Paredes não tinha nem sabia o que isso era, mas lia-se-lhe na expressão desolada a contrariedade de não poder satisfazer a nova freguesa. Habituado a aviar chouriços e pão de Mafra, o pedido deve ter-lhe soado a uma bizarria culinária completamente dispensável. Olhou para mim em desespero, convencido talvez de que, dos presentes, só eu poderia salvá-lo do aperto: nem a vizinha Ermelinda, embrulhada no seu xaile de viúva, nem a dona Odete dos Correios, já a preparar a tesourada para quando a lambisgóia saísse, nem o drogado que todos os dias pede um pão e uma fatia de fiambre e manda assentar a despesa numa conta imaginária, nenhum deles fazia a mais pálida ideia do que é e para que serve tal coisa. Restava eu, a última esperança do senhor Paredes. Perguntei à improvisada Madonna para que queria as chalotas e, quando me disse que era para caramelizar, sugeri-lhe que escolhesse as cebolas mais pequenas da grade em frente e que as misturasse com alguns dentes de alho, para avivar o sabor (para os puristas que me leiam, não é exactamente igual, eu sei, mas substitui perfeitamente se o tempero for esmerado). A mulher olhou-me de cima a baixo, avaliando a minha capacidade de proferir sentenças sobre requintes gastronómicos. Pareceu razoavelmente convencida, encolheu os ombros com ar enjoado e, sem me agradecer a dica, seguiu a minha sugestão. Pagou e saiu, sempre em pose, deixando atrás de si um rasto de perfume e um resmungo bem audível “este país é uma miséria!". E eu, que estava com pressa, não saí dali sem apreciar – até ao último – o impagável chorrilho de comentários que se seguiu. Rimos com gosto, unidos pela deliciosa cicuta da maledicência. Neste país pode não haver chalotas nas mercearias de bairro, mas há um abençoado sentido de humor que nos compensa de muitas faltas.
Rosa Lobato de Faria
(20 de Abril de 1932 – 2 de Fevereiro de 2010)
Menos um espírito livre neste país, que tanto precisa deles.
1. Ricardo Salgado afirma, numa entrevista concedida ao Público, que "Os bancos portugueses tiveram um comportamento espectacular nesta crise". Assim mesmo, sem hesitações. Depois da surpresa que uma afirmação categórica destas me causa, acabo por dar-lhe razão: os bancos portugueses deram espectáculo, é verdade. Pena é que, no caso de alguns, tenha sido um espectáculo tão triste.
2. Num alerta noticioso que me traz diariamente os principais títulos da imprensa escrita nacional, leio este, do Jornal de Notícias: Ministro admite abdicar de salário. Fico com uma enorme curiosidade de saber quem é este extraordinário caso de samaritanismo governamental e sigo o link… que me leva, afinal, ao seguinte aviso: "Lamentamos, mas ocorreu um erro que nos impossibilita de mostrar a página pretendida. Dentro de alguns segundos será encaminhado para a página de entrada no site do JN.". O samaritano arrependeu-se, presumo. Já não há estrelas no céu, como diria o Rui Veloso.