Peter loves Mary who loves James who loves Grace who loves George who loves everybody


Ana Vidal,

 

O homem de camisola cinzenta está acompanhado de uma espalhafatosa mulher de branco, que se pendura nele ostensivamente para que não restem dúvidas quanto à natureza da relação. A mulher de castanho, que já foi casada com o homem da camisola cinzenta, está agora com o homem de calças azuis e ambos estão muito sorridentes. O homem de gabardina esteve noivo da mulher espalhafatosa de branco e é, por sua vez, pai do genro do homem da camisola cinzenta. A mulher de castanho foi namorada do homem de casaco de botões dourados, que é íntimo do homem de camisola cinzenta e da mulher espalhafatosa de branco. O homem de gabardina faz-se acompanhar da sua mais recente conquista, uma mulher de encarnado que o olha embevecida. A prima do homem da camisola cinzenta, velha conhecida da mulher espalhafatosa de branco e da mulher de castanho, acompanha o homem de casaco de botões dourados que é, segundo ela, o seu maior amigo. O homem de calças azuis é amigo de infância do homem de camisola cinzenta e a mulher espalhafatosa de branco já foi sua secretária.

 

(Todos eles ocuparam ontem à noite, em simultâneo e durante algumas horas, um espaço de cinco ou seis metros quadrados. O espaço continua de pé e todos estão vivos e de saúde.)

32 comentários em “Peter loves Mary who loves James who loves Grace who loves George who loves everybody”

  1. Sinal dos tempos?

    (Mais) Este reparo da Ana remeteu-me de imediato para o poema do Carlos Drummond de Andrade que um dia “postei” com o título “Lili (êta, vou tchi contá)” e que me atrevo a recordar aqui:

    QUADRILHA

    João amava Teresa que amava Raimundo
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa para oconvento,
    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
    Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes
    que não tinha entrado na história.

    Carlos Drummond de Andrade, antologia poética, 80

    :))))

  2. …portanto…o homem de camisola cinzenta e a mulher de castanho, mais o homem de casaco de botões dourados e a mulher espalhafatosa de branco…
    pois,…, é evidente, saltava logo à vista que não podia ser outra coisa!

  3. Querida Ana: confuso, mas ainda ortodoxo (pareceu-me). Do que pode concluir-se que a confusão «ainda vai no adro». ;-D

    1. Aí está, Luísa. Muuuuuito ortodoxo, afinal de contas. Não sei se havia casacos de botões dourados cruzados com gabardinas, mas se havia… eram muito discretos.
      🙂

  4. Há falta de melhor -uma frase feita -tudo está bem, quando acaba bem…O pormenor dos “botões dourados”, muito relevante, não poda faltar…;))
    ( se há coisa que me encanita são casacos de homem com botões dourados)

  5. “Pera lá”. Afinal quem tinha a camisa amarela com as bolas verdes às riscas vermelhas e pintas roxas com as golas debruadas a prateado dourado a fugir para o laranja cor de limão a virar para a lima. Por falar nisso… marchava uma caipirinha.
    Mas, afinal, estava-mos a falar de quê?

      1. Lamento Ana, mas eu é caipirinha mesmo. E umas bejecas no verão.
        Quanto ao tinto, há uns tempos alguém me ia batendo, pois com um daqueles xpto, a preço mais xpto ainda, provei, não gostando, toca de misturar 7Up. Consegue imaginar a cena?

  6. Não sei o que intriga mais: se o emaranhado de relações pessoais, se a proeza de todos vestirem cores diferentes. 🙂

    um abraço

  7. Ana, estou pior que o Pedro. Perdi-me por completo antes de ter chegado a meio. Não vou lá nem com GPS. Mas a Teresa tem razão… não te falta inspiração. 🙂

  8. «A maior proeza é a coexistência pacífica do arco-íris.»

    Palavras tuas, Ana, e eu concordo. Tal como te disse, no regreso de um grande jantar, quando me contaste esta história, disse-te que viria de imediato cuscar. Ri a ler as entrelinhas. Engraçado como a abertura me remeteu, tal como à Maria do Sol (que lindo nome!), para o delicioso poema de Calos Drummond de Andrade.

    O pior é que, conhecendo algumas das figuras representadas, de repente a coisa fica menos cómica. Algumas dessas figuras, em épocas diferentes para nós duas, beiraram as nossas vidas. Sem demasiada importância, é certo. Mas estiveram nelas, e não me parece que gostemos muito disso, mesmo não renegando o que fomos outrora, porque ainda o somos (esta sabes de quem é).

    Bonito é ser sempre a senhora de uma certa cor, que sabe continuar a relacionar-se bem com todo um estranho espectro cromático 🙂

    Foi um óptimo jantar, Ana! (o nosso desta noite, claro!)

    1. Ora, Teresa, com o tempo aprendemos a ser um bocadinho daltónicas… e ao mesmo tempo, paradoxalmente, aprendemos a apreciar muito mais as cores menos primárias. Não concordas?

      😉

      1. Não posso concordar mais, Ana. Não sei se será uma certa dose de sabedoria que se vai adquirindo com o tempo, se será uma mera regra de sobrevivência.

        Na prática, não consigo ser amarga, não sei guardar ressentimentos, tal como tu não sabes, e ainda bem. Nada nos custa ser amáveis. Os agravos passados são isso mesmo: passados.

        Pequena nota: isto só funciona quando se tem sentido de humor. Coisa que, graças a Deus, ambas temos 😉

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