Nouvelle cuisine à portuguesa


Ana Vidal,

 

Excepto no sentido de oportunidade, era superlativa em tudo: uma saia curtíssima, uma bota altíssima, um decote fundíssimo, um cabelo loiríssimo e, muito provavelmente, um único neurónio atarefadíssimo, por falta de companhia e de ajuda. A idade era um mistério, a personagem um total erro de casting na mercearia do senhor Paredes. Entrou com uma pose de star, arrastando as longas pernas por entre as caixas de fruta e as pilhas de bacalhau seco. Parou e rodou, num gesto que lhe terá parecido de grande efeito plástico, a meio do corredor estreito, mais ou menos onde as hortaliças acabam e os detergentes se alinham num arraial de cores histéricas. Já com a certeza absoluta de ter captado a atenção da embasbacada plateia, fez beicinho e sussurrou, numa voz de mimo: “Tem échalottes?” (abro aqui um parentesis para dizer que a pronúncia  francesa estava longe de ser aceitável, mas convicção não lhe faltava). O senhor Paredes não tinha nem sabia o que isso era, mas lia-se-lhe na expressão desolada a contrariedade de não poder satisfazer a nova freguesa. Habituado a aviar chouriços e pão de Mafra, o pedido deve ter-lhe soado a uma bizarria culinária completamente dispensável. Olhou para mim em desespero, convencido talvez de que, dos presentes, só eu poderia salvá-lo do aperto: nem a vizinha Ermelinda, embrulhada no seu xaile de viúva, nem a dona Odete dos Correios, já a preparar a tesourada para quando a lambisgóia saísse, nem o drogado que todos os dias pede um pão e uma fatia de fiambre e manda assentar a despesa numa conta imaginária, nenhum deles fazia a mais pálida ideia do que é e para que serve tal coisa. Restava eu, a última esperança do senhor Paredes. Perguntei à improvisada Madonna para que queria as chalotas e, quando me disse que era para caramelizar, sugeri-lhe que escolhesse as cebolas mais pequenas da grade em frente e que as misturasse com alguns dentes de alho, para avivar o sabor (para os puristas que me leiam, não é exactamente igual, eu sei, mas substitui perfeitamente se o tempero for esmerado).  A mulher olhou-me de cima a baixo, avaliando a minha capacidade de proferir sentenças sobre requintes gastronómicos. Pareceu razoavelmente convencida, encolheu os ombros com ar enjoado e, sem me agradecer a dica, seguiu a minha sugestão. Pagou e saiu, sempre em pose, deixando atrás de si um rasto de perfume e um resmungo bem audível “este país é uma miséria!". E eu, que estava com pressa, não saí dali sem apreciar – até ao último – o impagável chorrilho de comentários que se seguiu. Rimos com gosto, unidos pela deliciosa cicuta da maledicência.  Neste país pode não haver chalotas nas mercearias de bairro, mas há um abençoado sentido de humor que nos compensa de muitas faltas.

38 comentários em “Nouvelle cuisine à portuguesa”

  1. Ana muitos parabens, o texto está delicioso, divertido e muito bem escrito. Já agora, agradeço-lhe a dica culinária, é que nem sempre se encontram échalottes…
    :))

  2. O que já me fartei de rir…
    Há por aí muito “cachalote” cor de rosa, há.
    Ai este país…. É a sorte dessa gente viver neste país, porque provavelmente noutro, o pedantismo não se lhes afigurava tão… sorridente.
    Adoro a maneira como narra estas suas “experiências”.
    Ainda por cima, tem cá uma pontaria…

  3. E também há, neste país, gente muito mal agradecida. Eu, por exemplo, se encontrasse de repente uma pessoa como tu na minha frente a sugerir-me alho em pó para a transpiração, agradecia penhoradamente e ia logo para casa liquefazer dois dentes de alho concentrado e metê-lo a martelo no ‘spray’ do desodorizante. É que basta olharmos para avaliar com quem temos a honra de falar…

  4. (eheheheheh)
    Estou a imaginar-te na cena… a fezer-lhe a sugestão serenamente… eheheheh
    Muito bom texto, Ana. 🙂

  5. “Abençoado sentido de humor” e abençoada Ana que “olha” e escreve assim…;))
    Obrigada, Ana, por esta deliciosa crónica e pela dica – chalotas travestidas – muito útil, poiis aqui é raro aparecerem e quando as há são caríssimas …Já no seu “Pastéis de nada” deliciava-me…;))

    1. Como é que descobriu os meus pasteis, Maria?? Mas obrigada por essas palavras tão simpáticas. Ah, e “chalotas travestidas” teria sido um excelente título para este post!
      🙂

  6. Esse seu texto é uma delícia em todos os sentidos.
    No sentido culinário é um must para qualquer cibernauta cozinheiro.
    Obrigado pela dica – hei-de experimentar as “échalottes” na primeira oportunidade.

  7. Ó Ana que texto maravilhoso! Enquanto houver este magnífico humor nacional o país tem salvação e o Ramalho Ortigão -em verso, pois! – pode renascer.

    1. Helena, que exagero! Mas venha de lá o Ramalho Ortigão outra vez com as suas farpas certeiras, que há muito para contar. E estou inteiramente de acordo contigo: o humor é um dos poucos trunfos que ainda temos, mas é dos bons. Só ele nos pode salvar deste cinzentismo tenebroso em que nos vamos afundando aos poucos.

    1. Não dava mesmo, Pedro. O que me fez espécie é que toda aquela exibição foi um total desperdício naquele sítio, com aquelas pessoas! Parecia um filme cómico… dos maus.

  8. Como é que uma flausina dessas ainda frequenta mercearias de bairro e não apenas lojas gourmet » é o enigma. Provavelmente, por medo de que, nas lojas gourmet », ninguém lhe decifrasse o tal franciú técnico. Mas o melhor mesmo são os Srs. Paredes e as Sras. D. Odetes e Ermelindas das nossas vizinhanças bravias. Imagino o «pratinho», mesmo sem échalotes », depois da saída da flausina de cena. Estes episódios – ou, no caso, a sua descrição, Ana – recuperam-nos os dias. 🙂

    1. «Como é que uma flausina dessas ainda frequenta mercearias de bairro»? Simples: é que a flausinice não costuma ser mais do que aparência, mais ou menos alimentada pelo tamanho do neurónio exclusivo.

      1. João, segundo o Camilo (Novelas do Minho), havia um sábio antigo que achava que a cabeça dos homens tinha três miolos e a das mulheres só um. Embora a ciência (e o próprio Camilo) o tenham desmentido cabalmente, a nossa flausina será, portanto, do género das mulheres que fundamentaram, ao sábio antigo, a sua tese. 😉

  9. Que delicioso este seu texto, Ana, que mesmo sem as chalotas ficou uma maravilha e com aquele sabor muito especial que costumam ter todas as iguarias que aqui nos serve. Como ontem não andei por aqui, só agora o provei e creia que me ri a bom rir. E olhe que não se trata nada da insípida ‘nouvelle cuisine’, mas sim de muito boa cozinha à Portuguesa. Os ‘chefs’ Ramalho e Eça dificilmente teriam feito melhor.

    1. Obrigada, Luís. O humor é o que nos resta e o que nos pode salvar, como diz a Helena SC. Se não acreditasse firmemente nisso, acho que já me tinha atirado da ponte sobre o Tejo…

      🙂

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