
Não bastava a crise económica generalizada, a insegurança do terrorismo à escala planetária, o aquecimento global… agora até as doenças dos porcos constituem uma ameça de pandemia. A humanidade está a atravessar um qualquer fim de ciclo.

Não bastava a crise económica generalizada, a insegurança do terrorismo à escala planetária, o aquecimento global… agora até as doenças dos porcos constituem uma ameça de pandemia. A humanidade está a atravessar um qualquer fim de ciclo.

Com tudo o que conhecemos do passado de Pedro Santana Lopes, preocupa-me seriamente a bandeira da sua candidatura: o que será que ele quer dizer com a promessa de "recuperar a alegria" em Lisboa?
Quando penso no que foi para mim o dia 25 de Abril de 1974 não posso deixar de esboçar um sorriso, entre divertido e envergonhado. É que esse dia, fulcral para a minha vida futura – e para a de todos nós, de uma forma ou de outra – foi vivido por mim como uma alucinante ficção, uma aventura inesperada numa qualquer twilight zone que eu desconhecia em absoluto, conduzida por um guião que podia ter saído da pena dos Monty Python. As razões desta alienação? É simples: em minha casa não se falava de política, pelo que eu e as minhas irmãs estavámos completamente a leste do paraíso. Aprendi no curso intensivo das ruas, da rádio e da televisão, nas semanas que se seguiram, tudo o que até aí me fora ocultado. Mas no "dia D", confesso, não percebi nada, a não ser que alguma coisa muito estranha se estava a passar à minha volta. E gostei da confusão, da alegria das pessoas, como qualquer adolescente que vê um turbilhão de novidades agitar a rotina, ainda que elas pareçam absurdas.
Começou logo de manhã, com a chegada ao liceu: os muros exteriores estavam pintados com palavras escritas a encarnado, em letras garrafais. Como não sabia o que queriam dizer, achei que era uma língua estrangeira. Afinal, as palavras eram PIDE (abaixo a…), FASCISMO (não ao…), etc. Depois seguiu-se a prisão de um contínuo (por sinal o que mais detestávamos), levado por militares que sorriam para nós e nos faziam sinais esquisitos com os dedos (o V da vitória, provavelmente). Não houve aulas todo o dia e acabámos por voltar para casa por recomendação explícita da minha mãe, que nos mandou buscar no fim da manhã. Seguiu-se a mais delirante programação televisiva de que tenho memória: bocados de episódios de séries americanas já desaparecidas alternando com músicas desconhecidas, e tudo isto permanentemente interrompido por uns barbudos vestidos de camuflados verdes e de metralhadora a tiracolo, que liam nervosamente uns "comunicados" em folhas de papel amarrotadas, com ar circunspecto. Apelavam à calma e falavam em grandes mudanças, repetindo à exaustão palavras como "liberdade", "ditadura", "povo", etc. Eu estava calmíssima (bendita inconsciência!) mas muito divertida com tudo aquilo. O dia acabou com toda a população lá de casa colada ao televisor e à telefonia: os meus pais sérios, numa tensão controlada, a minha avó assustadíssima, as criadas (sim, tínhamos "criadas", peço desculpa…) aos gritinhos histéricos por verem tantos magalas por todo o lado, e ainda mais ignorantes do que se passava do que nós, se é que isso era possível.
Os meses que se seguiram foram trepidantes, e quase tudo o que eu tinha como garantido até ali, deixou de sê-lo e mudou irreversivelmente. Para muito melhor, sei-o hoje. Mas a verdade é que a minha geração foi criada e educada para habitar um mundo que lhe desapareceu debaixo dos pés de um dia para o outro. Teve de apagar toda a matéria dada e seguir em frente, com nova cartilha.
Para mim, um bom filme tem de ter, acima de tudo, uma boa história. Imediatamente a seguir, uma boa representação. E só depois, tudo o resto: realização, fotografia, som, cenários, figurinos, etc. Os aspectos técnicos de um filme não me prendem muito nem me empolgam, provavelmente porque não percebo o suficiente do assunto para que isso aconteça. Digamos que só reparo neles quando são excepcionalmente bons ou ostensivamente maus, o que já diz tudo sobre a minha capacidade crítica. Dêem-me um bom argumento, defendido por bons actores, e está garantida a minha paixão.
Quem tem medo de Virgínia Woolf? é um bom exemplo disso. Está entre o Teatro e o Cinema, ou não fosse este argumento uma autêntica obra prima de Edward Albee, um dos grandes dramaturgos americanos e mestre em tramas de labirintos psicológicos. E é esse despojamento de artifícios o que mais me apaixona no filme, porque, dispensando aparentemente tudo o que é acessório, não nos deixa escapatória ao colete de forças em que se vai transformando, a cada minuto que passa. E no entanto, o filme foi nomeado para TODOS os Oscares do ano em que concorreu (1967), façanha ainda hoje única na história do cinema. Das 13 nomeações ganhou 5, nas seguintes categorias: Melhor Actriz (Elizabeth Taylor); Melhor Actriz Secundária (Sandy Dennis); Melhor Direcção de Arte – Preto e Branco; Melhor Fotografia – Preto e Branco e Melhor Figurino – Preto e Branco. As outras 8 nomeações: Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Actor; (Richard Burton); Melhor Actor Secundário (George Segal); Melhor Montagem; Melhor Banda Sonora; Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som.
Albee convida-nos – ou obriga-nos, melhor dizendo – a um perturbante mergulho no abismo da intimidade de um casal maduro, desgastado e em queda livre. O meio intelectual a que pertencem não serve de bálsamo, mas antes de agravante, aos argumentos de ambos, sofisticadamente ácidos e letais. É uma luta de galos condenada a um desfecho trágico, por entre jogos de sedução e perversidade próprios de quem se conhece profundamente e se compraz numa auto-destruição lenta, torturante, sádica e falseada até à exaustão. A parada é alta, muito alta. O confronto é generosamente regado a álcool, tornando ainda mais terríveis as acusações, ainda mais expostas as fracturas, ainda mais patéticas as fragilidades, ainda mais desesperadas as tentativas de salvação. Somos arrastados para um sorvedouro de emoções que nos tira o ar dos pulmões, impotentes voyeurs diante de um espectáculo íntimo em que nos sentimos simultaneamente intrusos e cúmplices. Cúmplices de Martha e de George, à vez, ou de ambos, por percebermos que o cimento que une um casal nem sempre é feito de nobreza ou de beleza, mas não deixa por isso de ser cimento. E também cúmplices dos atónitos e manipuladíssimos Honey e Nick, dois jovens a quem as ilusões de um eterno romantismo conjugal são arrancadas de uma só vez e a sangue frio, pelo aterrador espelho de um possível (provável?) futuro. Uma simples e inocente visita de cortesia, após uma festa, transformada num pesadelo que os marcará para o resto da vida.
Quem tem medo de Virgínia Woolf? é o esplendor e a miséria da condição humana vista à lupa, à nossa disposição durante uma hora e meia. E nada nos perturba mais do que aquilo que nos serve de espelho. Nas palavras do próprio Edward Albee, “o Teatro do Absurdo serve para que possamos mergulhar um pouco mais nas nossas próprias loucuras e deixar de ver as dos outros com tanta supresa”.

Bette Davis e James Stewart (e também James Mason, ao que consta) chegaram a estar indicados para encarnar este casal psicótico, mas a escolha final da arrasadora dupla Taylor-Burton – casados na vida real por duas vezes e protagonistas de guerras e reconciliações antológicas – confere ao filme um misticismo especial e uma insubstituível chancela de realidade. A bela Elisabeth Taylor deixou-se engordar e desfigurou-se para melhor servir esta personagem devastada pela vida e pelo álcool, o que lhe valeu, além do Óscar, o respeito de quem não a considerava como actriz. Richard Burton, por excelência um homem do Teatro, está magistral no papel do frustrado George. E também os novos – Sandy Dennis e George Segal – parecem ter nascido para aqueles papeis. A tensão do texto foi de tal ordem que Sandy Dennis, grávida de poucos meses no início das filmagens, abortou espontaneamente.
Finalmente, last but not the least, o realizador: na sua primeira obra, Mike Nichols assina uma verdadeira peça de arte. E estava inspirado, já que logo no ano seguinte realizou outra – The Graduate – outro dos filmes da minha vida.
Nota: Republico hoje este post em memória de Liz Taylor.

De vez em quando, neste anestesiado mundo em que vivemos, aparece uma história extraordinária que nos faz levantar a sobrancelha, nos arranca um sorriso ou uma lágrima, nos faz questionar essa estranha abstracção a que chamamos acaso. Esta é uma dessas histórias.
Não é pelo facto de três homens com um passado (in)comum se terem encontrado através da net, já que isso é vulgar, hoje em dia. Mais ainda, se existem interesses e experiências a partilhar que justifiquem uma pesquisa. Não é pelo facto de estes três homens terem combinado uma peregrinação de saudade, de desagravo ou de salvação, ao paraíso perdido cujo espírito os terá, talvez, mantido vivos e conduzido, por entre insuportáveis memórias, a uma qualquer possibilidade de paz.
O que é extraordinário nesta história é que estes homens tenham chegado a Auschwitz exactamente no mesmo momento, tenham tido os braços marcados com minutos de intervalo, tenham vivido juntos as mesmas experiências aterradoras e se tenham salvo, sem nunca mais se encontrarem ou saberem uns dos outros. Até agora. Três números seguidos, três figuras desamparadas numa longa fila de condenados. Números que ficaram gravados a ferro e fogo, a impedir para sempre a benção do esquecimento. Novos nomes, vidas refeitas, esperanças renascidas. E, sessenta anos depois, a descoberta de uma partilha tão terrível como íntima.
Deixei de fumar há quase dez anos, mas jurei a mim própria que não me tornaria num desses fundamentalistas prontos a matar, a rajadas de metralhadora, quem ainda não se libertou do vício. E, felizmente, consegui cumprir a jura.
Claro que os ambientes despoluídos são mais saudáveis, claro que fumar não é bom para ninguém, claro que os fumadores passivos são injustiçados. Mas não consigo deixar de ver, em alguns desses irredutíveis ex-fumadores, a frustração de ter perdido um prazer e, até, uma certa inveja dos que consideram suicidas e inconscientes. Pior ainda: noto-lhes uma certa pose farisaica, de quem se acha superior por ter substituído o vidro dos seus telhados por uma resistente chapa de zinco, e está pronto a atirar pedras aos cristais alheios, por se saber a salvo de represálias. Há uma frase de Agustina Bessa Luís, no livro Prazer e Glória, que resume bem o que quero dizer: Não há império maior do que o que se tem sobre os vícios dos outros. Grande, grande verdade.
Enfim, não defendo o tabaco. Sei que é francamente prejudicial à saúde, que pode matar a longo (e às vezes a curtíssimo) prazo. Mas reconheço aos outros o direito a um vício que – ainda me lembro muito bem – dá um enorme prazer. Se querem viver ou matar-se assim, quem sou eu para dizer-lhes que não o podem fazer? Sejamos sérios: o tabaco não é um serial killer solitário, numa cruzada cega contra os humanos. O stress, a solidão, a falta de dinheiro, o excesso ou a falta de trabalho, a poluição e, sobretudo, a ausência de perspectivas de um futuro mais risonho, formam um gang letal. E estamos (quase) todos nas mãos desse gang.
Parabéns aos que não fumam, nunca fumaram ou já deixaram de fumar, e… boas baforadas aos restantes, e que dêem uma ou duas por mim.
Este é um excerto da última entrevista do Miguel Esteves Cardoso à Ler, que vale a pena ler na íntegra. O eterno enfant gaté da nossa praça volta em força, com a crítica mordaz e desassombrada a que sempre nos habituou. Eu confesso-me fã, desde já e desde sempre. O que não significa que concorde com ele incondicionalmente, ou que lhe dê sempre razão. Por conta da graça, da acutilância e da ausência de teias de aranha, perdoo-lhe muitas vezes os excessos, as vaidades indisfarçáveis e até as crueldades desnecessárias.
Está mais velho, mais volumoso e compreensivelmente mais quebrado, ou não seria o Hotel Palácio um dos cenários escolhidos para a entrevista. Mas reparem na malícia que o olhar ainda conserva, como que a medir o alcance das provocações sobre alguns dos intocáveis nacionais…
«Ó Ricardo Salgado, quanto do teu sal
é de Pinochet o capital?»