Obviamente, demite-se


Ana Vidal,

Ofereço a Dias Loureiro este texto do escritor mexicano Juan José Arreola, por me parecer um bom epitáfio para uma saga lamentável, que durou uma eternidade. O gesto da demissão poderia até ter sido bonito, se tivesse ocorrido há mais tempo. Agora, até a frase que acabei de ouvir-lhe – "A minha protecção é a minha consciência" – parece uma anedota.

 

 

Acabo de proclamar a independência dos meus actos. À cerimónia compareceram apenas alguns desejos insatisfeitos, duas ou três atitudes condenáveis. Um propósito nobilitante, que prometera aparecer, enviou à última hora a sua escusa humilde. A cena transcorreu num silêncio pavoroso.

Creio que o erro esteve na proclamação ruidosa: trombetas e sinos, foguetes e tambores. E, para culminar, uma engenhosa queima de moral pirotécnica, que não chegou a arder de todo.

No final das contas, achei-me sozinho comigo mesmo. Despojado de todos os atributos de caudilho, os confins da noite me encontraram empenhado na simples tarefa de escritório. Com os últimos restos de heroísmo, atirei-me à penosa incumbência de redigir os artigos de uma extensa Constituição, que amanhã submeterei à assembleia-geral. O trabalho divertiu-me um pouco, apagando do meu espírito a triste impressão do fracasso.

Leves e insidiosos pensamentos de rebeldia voam como mariposas nocturnas em volta da lâmpada, enquanto sobre os escombros da minha prosa jurídica passa, de quando em vez, um ténue sopro da Marselhesa.

 

(JJA

– Liberdade)

Os novos Robin Hood


Ana Vidal,

 

Gostei de ler esta notícia. Em tempos de crise generalizada – inclusivamente de valores – e de um desalento qua vai avançando, imparável, minando todas as vontades e iniciativas, é bom saber que a consciência social ainda existe nos espíritos de quem pode, realmente, ser parte da solução dos problemas. Recuso o negativismo de ir à procura de um qualquer motivo escondido, de uma qualquer estratégia de aproveitamento pessoal, de um qualquer… sei lá. Prefiro pensar que vivemos tempos de profundas e dramáticas mudanças, e que é sempre nessas alturas que as consciências despertam para a solidariedade. Deixem-me acreditar nisto, está bem?

 

A reboque


Ana Vidal,

 

Já disse aqui o que penso desta coisa que apareceu este ano, chamada Projecto Amália Hoje. Não vou repetir-me. Mas hoje vi os meninos do "projecto" em palco – nos Globos de Ouro da SIC – cheios de uma importância que nunca terão, embandeirando em arco numa homenagem à sua musa. Ou, mais exactamente, àquela que lhes vai permitir, a reboque do seu nome, vender muitos discos e cassetes piratas.

 

Engoli em seco e sustive a respiração, à espera de que aquilo acabasse. Findo o suplício, ainda abananada mas já quase refeita da agressão, veio o golpe de misericórdia na voz da bela Bárbara. Exibindo o seu mais hollywoodesco sorriso, comovida, brindou a plateia com esta espantosa frase:

 

"São momentos destes que levam Amália para a intemporalidade."

 

Tirem-me daqui.

 

Fixações


Ana Vidal,

"Estava nos outros sítios, punha o nariz no chão e pensava: eu queria era estar na Capadócia…"

 

"O meu marido fixou que eu tinha esta fixação pela Capadócia e trouxe-me cá."

 

"Até a minha filha já dizia: Ó mãe, cala-te com a Capadócia!"

 

Interessantes declarações de Maria Cavaco Silva em entrevista ao telejornal da RTP 2, agora mesmo. Em directo de onde? Isso mesmo… da Capadócia!

 

Fico contente por lhe ter passado a fixação. Com tanta desgraça à nossa volta, uma primeira -dama de nariz no chão não faz muito pela auto-estima nacional. 

 

 

Diz ao Barroso


Ana Vidal,

 

 

Tens dúvidas, ideias, queixas, perguntas, achegas, bitates, opiniões? Diz ao Barroso. Queres participar directamente na construção do futuro da Europa? Diz ao Barroso. Tens uma teoria brilhante sobre o que a Europa pode fazer por ti? Diz ao Barroso.

 

Mas… espera aí. Vais ter de aprender inglês, francês, espanhol, italiano, alemão ou até polaco, se quiseres dizer coisas ao Barroso. Quê.. ele é português? Paciência, isso não interessa nada. Deixa de ser preguiçoso e aprende uma língua qualquer para falares com o Barroso, que está impaciente pelas tuas palavras mas já não sabe falar a tua…

 

Com um bocadinho de sorte até vais conhecê-lo pessoalmente, se te despachares. Olha aqui:

 

De que é que estás à espera, hein?

 

Os quadros das nossas vidas (2)


Ana Vidal,
Dando seguimento a este post do Pedro Correia sobre um quadro de Goya, aqui fica uma segunda proposta.

 

 

AS FERIDAS DE FRIDA

 

As feridas de Frida Khalo foram muitas, e quase todas tiveram nome de mulher. 

 

Diego Rivera, o homem a quem ela chamava carinhosamente "panzón" por causa do volume da sua barriga, tinha, além disso, idade para ser seu pai e era "feo como un cerdo", nas palavras de uma amiga de Frida.

Pelo seu lado, Frida era uma mulher-menina, fisicamente frágil (quanto a força interior, a conversa é outra) e doente, um vidrinho colorido e exótico que Diego gostava de exibir.

 

Porém, nada disso impediu que se tivessem amado loucamente e que esse amor, aparentemente tão desequilibrado, se tenha já tornado lendário. É claro que, visto à distância e a frio, tudo parece mais romântico. A verdade é que Frida sofreu muito, também, por causa desse amor. E, se acabou por transformar-se numa excêntrica para a sociedade mexicana ao liberalizar, também ela, as suas relações amorosas, foi porque nunca conseguiu que Diego correspondesse ao modelo que ela queria para a sua vida afectiva. Foi ele o seu mentor no mundo da arte, mas foi também ele que moldou nela a provocação e a révanche, que a perverteu e obrigou a reagir assim, como uma fera ferida que mostra as garras para se defender e acaba atacando também.

Diego Rivera era um homem torturado e conflituoso, dado a excessos e, sobretudo, muitíssimo mulherengo. Como artista plástico era um ícone já na sua época, aclamado e respeitado internacionalmente, o que acrescentava uma aura de mito ao charme rude que o caracterizava. Essa combinação produzia um efeito mágico no universo feminino e anulava totalmente o seu desastrado aspecto exterior. Dizia-se dele, não com certeza sem um certo exagero, que era magnético. O rol de mulheres que lhe caíu aos pés – antes, durante e depois do casamento com Frida – foi quase infindável, e essa fama era um rastilho poderoso que incendiava as novas candidatas.

 

Para além das insuportáveis dores físicas que a fatalidade lhe causou* (provocando-lhe ainda a impossibilidade de ser mãe, como dano colateral), Frida sofreu incontáveis humilhações com as infidelidades de Diego, as quais, aliás, culminaram na mais dolorosa de todas: um caso do marido com a sua própria irmã, dentro de portas. Esse drama quase a levou ao suicídio, e fez com que cortasse o cabelo (uma das suas imagens de marca, em penteados elaborados), se desfizesse de todos os enfeites e até que se vestisse de homem, matando impiedosamente toda a sua feminilidade e exuberância transbordantes. Mas Frida era uma artista: exorcizou todas as dores na pintura, deixando para a posteridade, nos seus quadros, um retrato arrepiante do seu sofrimento. E também da sua coragem. Aqui fica a minha homenagem a essa grande mulher, que morreu cedo mas teve uma vida plena. Admiro, nela, a obra e a  personalidade, ambas de uma originalidade espantosa. Admiro a fibra, a firmeza das convicções (políticas e não só), a ousadia, a coragem física. E admiro-a pela marca indelével que deixou na história da pintura e na história do seu tempo.

 

Quanto a mim, a obra de Frida Khalo tem de ser apreciada no seu conjunto, porque é a leitura da sua própria vida. São muitos os quadros de que gosto, não consegui decidir-me por um só. Aqui ficam, por isso, alguns dos que considero mais significativos.

 

 

*Vítima de poliomielite infantil, aos 6 anos, ficou com a perna direita defeituosa, mais delgada e curta que a perna esquerda; aliás, essa perna acabaria por ser amputada. Aos 18 anos, foi vítima de um acidente brutal: o autocarro onde viajava foi abalroado por um eléctrico. Frida foi trespassada por um varão metálico, sofrendo danos irreversíveis na coluna vertebral. Em inúmeros dos seus quadros se podem ver os rígidos aparelhos ortopédicos que usou para sustentar a coluna partida, que eram autênticos instrumentos de tortura. 

 

 

Adendas:

1. Chavela Vargas, cantando La Llorona, com imagens da vida e obra de Frida Khalo.

 

 

2. Lila Downs (cuja semelhança física com Frida é impressionante), canta o picante tango que ajudou a tornar famoso o filme Frida (com Salma Hayek no papel de FK).

 

 

Pandemia ou genocídio?


Ana Vidal,

 

Pessoalmente, prefiro mil vezes o outro Horowitz, até porque dos seus dedos saíam sublimes voos em forma de música, em vez das irritantes "aspas" deste primo tardio. Além disso, não sei se este será tão fiável como cientista como o outro foi como pianista. Seja como for, aqui deixo um video polémico sobre um tema actualíssimo. Se tem um fundo de verdade ou não, desconheço. Quero acreditar que não tem, ou a monstruosidade humana regrediu aos tempos de Auschwitz. Fica o documento.

Abismos caseiros


Ana Vidal,

 

Que estranha perversão sociológica levará uma grávida de seis meses a passar uma noite  inteira num chão de mosaico duro e gelado, num total desconforto, só para ser uma dos cem eleitos a receber um papelucho com direito a desconto num novo centro comercial? E a confessar que foi "muito doloroso", mas que "até se esteve bem" (?), com um sorriso de orelha a orelha? E a olhar embevecida para um marido abstruso, que a acompanhou neste suplício nocturno e diz, satisfeito e convicto, para o microfone espetado por uma das meninas da extensa galeria de cromos do João: "eu cá, vim para conhecer novas pessoas, pelo convívio". Em que mundo vivemos, Santa Mãe?????

Jus ao nome


Ana Vidal,

 

SIC Notícias, há pouco. Em causa, a nova lei de financiamento dos partidos.

 

António José Seguro defende uma tese que tem a força da razão. Inatacável. Por isso esteve sereno e até ligeiramente irónico. Enfim… seguro.

 

Paulo Rangel defende uma tese indefensável, cheia de buracos e intenções pouco claras. Por isso esteve nervoso, inquieto e titubeante. Enfim… rangeu.

 

Mário Crespo, esse, nem precisou de se encrespar. Tudo está bem quando acaba bem.

 

Amália Ontem


Ana Vidal,

 

Acabei de ouvir uma coisa que dá pelo nome pomposo de "Amália Hoje", e fiquei siderada. Não consigo chamar-lhe outra coisa que não seja uma "coisa". É tão mau que dói. Os melhores temas de Amália (a de ontem, a de sempre) são barbaramente assassinados por um trio modernaço, que ainda por cima tem o topete de dizer, no comunicado de apresentação do cd, entre outras solenes enormidades: "(…) atrás das letras, do tom triste e melancólico, havia melodias, que queriam mais espaço que umas tristes duas guitarras". O resto é no mesmo tom altivo e pateta, além de profundamente desconhecedor do que significa Amália, o Fado e a guitarra portuguesa. Para esta gente, só a música pop tem valor.

 

Em "Foi Deus", agora travestido de pop, até a letra está adulterada, ou a vocalista enganou-se e achou que não valia a pena emendar. Canta: "E deus-me esta voz a mim"… Se por acaso é um trocadilho propositado, então, nem classifico.

 

Não me tomem por velho do Restelo: sou pelas fusões e experimentalismos na música, incluindo o Fado. E até penso que a Amália, que tanto inovou e provocou no seu tempo, acharia a maior graça a essas fusões.  Mas o mínimo que se exige é qualidade, palavra que não se aplica a esta "coisa". Ou se inova com qualidade ou é melhor estar quieto, e estes três não tiveram talento para ficar quietos. Só tiveram pretensiosismo e mau gosto. É pena. Resta-me esperar que o ruído deste gift envenenado não chegue ao Panteão.

 

Nota: Parece que não estou sozinha nesta tristeza. Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, pelo menos, também não gostaram.

 

De O’Neill a Régio


Ana Vidal,

 

Segui com atenção a entrevista que Durão Barroso acabou de dar na SIC Notícias, curiosa por saber o que pensa sobre as questões da actualidade o nosso mais proeminente europeu.  Mas fiquei na mesma. Mário Crespo bem se esforçou em malabarismos e truques jornalísticos, tentando apanhá-lo desprevenido, mas tudo o que conseguiu foi uma descrição de um almoço em tête-a-tête com Sarkozy, no Eliseu, na maior intimidade fraterna. Fora isso, e fazendo jus ao nome que lhe ficou colado à pele, Durão esquivou-se a todas as perguntas com exímia e escorregadia arte sub-aquática e a nenhuma respondeu. "Mas este é o seu país!", queixava-se Crespo, já desesperado. Nada feito. A frase que mais lhe ouvimos foi um lapidar e descomprometido "não vou entrar por aí". E não entrou, de facto. Ficámos sem saber por onde vai, ou para onde vai. Sabemos só que não vai por aí.

 

Nós, pigmeus


Ana Vidal,

 

Todos os dias passo por ele. Todos os dias o apanho de frente, segurando um euro entre dois dedos, ao estilo do Luís de Matos, como se fosse  fazer um truque de magia. "Respeitável público, nada na manga!". E não há nada mesmo, nós sabemos. Nós, europeus. Ou melhor: nós, pigmeus, reduzida como está a fortuna nacional a pouco mais do que aquela preciosa moedinha que serviu de modelo à fotografia. Olha para mim com aquele ar satisfeito de quem já quase aprendeu a "fazer as contas", mas, no sorrisinho malandro e bonacheirão, leio-lhe o alívio de quem há muito se safou de perguntas embaraçosas sobre dinheiros e as trocou por refugiados do mundo inteiro, menos ingratos e, seguramente, menos exigentes. Num segundo olhar – todos os dias o olho mais do que uma vez, quer queira quer não – adivinho-lhe a surpresa de ter sido convidado a posar para esta campanha, como se tivesse consciência do erro de casting que representa a associação da sua imagem a questões financeiras. Afinal, ele sabe melhor do que ninguém que fugiu do pântano para terrenos mais seguros, desistente e derrotado. Perco-o finalmente de vista, mas não antes de reparar na expressão entre divertida e benevolente de Manuela Ferreira Leite que, abancada do outro lado da rotunda com a sua linha telefónica, parece dizer-lhe: "Mi liga, vai… de contas percebo eu, aproveita a borla."

 

Convite


Ana Vidal,

A todos os leitores e amigos do Delito de Opinião:

 

 

A cerimónia de apresentação do Projecto MARES – OLHARES DA LÍNGUA PORTUGUESA terá lugar na

 

Sala do Arquivo da

Câmara Municipal de Lisboa (Paços do Concelho)

às 18h30 do dia 5 de Maio

 

e contará com a presença de várias individualidades ligadas à cultura e à língua portuguesa.

 

Depois das intervenções haverá uma actuação de Rão Kyao e dos seus músicos, seguida de um cocktail. A entrada é livre.

 

Nota: Para além das chancelas institucionais já anunciadas, o Projecto Mares – Olhares da Língua Portuguesa acaba de receber o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa.

 

Desnorte (2)*


Ana Vidal,

 

As galinhas de Fafe numa manifestação espontânea, após a visita do inspector à Escola Secundária. Noutro cartaz podia ler-se: "Isto não é Aveiro, aqui os ovos não são moles". E num outro, ainda: "Fora com os trouxas de ovos".

 

(* Título roubado à Leonor)