Obviamente, demite-se


Ana Vidal,

Ofereço a Dias Loureiro este texto do escritor mexicano Juan José Arreola, por me parecer um bom epitáfio para uma saga lamentável, que durou uma eternidade. O gesto da demissão poderia até ter sido bonito, se tivesse ocorrido há mais tempo. Agora, até a frase que acabei de ouvir-lhe – "A minha protecção é a minha consciência" – parece uma anedota.

 

 

Acabo de proclamar a independência dos meus actos. À cerimónia compareceram apenas alguns desejos insatisfeitos, duas ou três atitudes condenáveis. Um propósito nobilitante, que prometera aparecer, enviou à última hora a sua escusa humilde. A cena transcorreu num silêncio pavoroso.

Creio que o erro esteve na proclamação ruidosa: trombetas e sinos, foguetes e tambores. E, para culminar, uma engenhosa queima de moral pirotécnica, que não chegou a arder de todo.

No final das contas, achei-me sozinho comigo mesmo. Despojado de todos os atributos de caudilho, os confins da noite me encontraram empenhado na simples tarefa de escritório. Com os últimos restos de heroísmo, atirei-me à penosa incumbência de redigir os artigos de uma extensa Constituição, que amanhã submeterei à assembleia-geral. O trabalho divertiu-me um pouco, apagando do meu espírito a triste impressão do fracasso.

Leves e insidiosos pensamentos de rebeldia voam como mariposas nocturnas em volta da lâmpada, enquanto sobre os escombros da minha prosa jurídica passa, de quando em vez, um ténue sopro da Marselhesa.

 

(JJA

– Liberdade)

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