
Não sei o que aconteceu para que Belgais se afundasse, não conheço exactamente as causas. Sejam elas quais forem, lamento profundamente que acabe. Belgais era um projecto pioneiro e quase utópico (digo "quase" porque chegou a realizar-se e a funcionar plenamente, e digo "utópico" porque estava condenado desde o início, tal era a sua ousadia), de um alcance social e cultural invulgar, sobretudo aqui em Portugal. Eu tive a sorte de ter estado lá, de ter conhecido aquele mundo encantado por dentro, em todo o seu esplendor. Passei lá um dia inteiro em 2001 e assisti, deliciada, à rotina de uma verdadeira maravilha.
Para quem eventualmente não saiba, Belgais era uma escola de música para crianças desfavorecidas, vindas da paupérrima região serrana que rodeia a cidade de Castelo Branco. E era, também, ponto de encontro e abrigo temporário de músicos nacionais e estrangeiros de altíssimo nível (alguns tornavam-se residentes, como professores). Esses músicos, convidados por Maria João Pires, "batiam" a região em busca de aptidões musicais em estado puro, entre as crianças em idade pré-escolar da zona, que não teriam, de outro modo, acesso às mínimas condições que lhes permitissem instruir-se, descobrir e explorar os seus talentos. A escola comprometia-se a alimentá-las durante o dia, a dar-lhes a escolaridade normal, e ainda a proporcionar-lhes uma educação musical de primeira água. Eu assisti a uma dessas aulas, absolutamente fascinante: cerca de 30 crianças de idades várias cantavam em coro afinadíssimo e experimentavam instrumentos, luxuosamente acompanhadas por uma das pianistas mais aclamadas do mundo. Maria João Pires transfigurava-se, literalmente, e via-se que adorava aquela experiência. Semanalmente, havia um concerto (gratuito, claro) para a população da região, em que se incluiam as famílias daquelas crianças privilegiadas. Enfim, um sonho musical sofisticado e gratificante, impensável naquela região extremamente carenciada que aspirava, quando muito, à satisfação das necessidades mais básicas.
Esse dia inesquecível incluiu ainda um memorável almoço com os residentes de Belgais e alguns amigos, vindos de fora como eu. Todos nós ficámos encantados com a forma apaixonada como Maria João falava do seu projecto. Foi uma pena a longa agonia de Belgais, a sua morte anunciada e, finalmente, o fechar de portas. Um projecto financeiramente inviável? Sim, com toda a certeza. Mas muito pobre, culturalmente falando, é o país que não cuida, protege e alimenta estes sonhos.
Adenda: Leio, entretanto, esta extraordinária confissão do primeiro ministro. Como quem atira um rebuçado ao povo, a provar a nova humildade acabadinha de aprender com a derrota eleitoral, Sócrates admite finalmente ter errado em alguma coisa. Pena ter sido logo na cultura.