A birra do dia


Ana Vidal,

 

A Assembleia da República foi hoje palco de esclarecimentos preciosos. Registei este diálogo, por exemplo, entre Jaime Gama e Paulo Rangel, ambos num momento de rara clarividência:

 

– Senhor deputado, não está a fazer uma interpelação…

– Estou!

– Não está!

– Estou!

– Não está!

– Estou!

– Não está!

 

(fiquei à espera de que um deles desatasse a espernear, ou choramingasse: "Ó mãe, olhe ele!")

 

Passado presente (especial)


Ana Vidal,

 

Kodachrome (1935 – 2009)

 

Quase 75 anos depois da sua criação, a primeira película fotográfica colorida – e considerada a melhor de sempre – é retirada do mercado pela Kodak, vítima da supremacia da era digital. Foi usada, desde sempre, pela famosíssima revista National Geographic. E foi consagrada por Paul Simon, que lhe dedicou uma canção:

 

Kodachrome

You give us those nice bright colors

You give us the greens of summers

Make we think all the world’s a sunny day, oh yeah!

 

A partir de agora, já não adianta pedir: Mamma don’t take my kodachrome away…

 

ADN problemático


Ana Vidal,

 

Já é suficientemente injusto que a morte de Farrah Fawcett, também ela um ícone da minha juventude – o romance com Ryan O’Neill, na vida real, derretia corações – tenha sido quase completamente condenada ao ostracismo pelo maior mediatismo de outra morte no mesmo dia, a de Michael Jackson. Pior do que isto, só a notícia que a Globo publica, que nos dá conta de que a actriz era "filha de uma dona de casa e de um petroleiro". (!!!) Seria cómico, se o assunto não fosse triste. Dando de barato que a palavra "petroleiro" seja aplicável a pessoas, no Brasil, registo mentalmente mais um argumento para a minha longa lista contra o famigerado acordo ortográfico.

 

E aproveito para deixar aqui a minha homenagem a Farrah Fawcett, um anjo (de Charlie) que muito provavelmente assumiu o estatuto, ao fim de tantos anos.

 

A star is dead


Ana Vidal,

Michael Jackson não era só aquela aberração estética que todos conhecemos. Não era só o eterno protagonista de atitudes polémicas, chocantes até, que o transformaram numa espécie de freak show ambulante. Não era só uma patética encarnação de Peter Pan. Era também um dançarino único e um músico cheio de talento.

 

Era também isto:

 

A segunda vista


Ana Vidal,

 

Estive durante muitos anos ligada à publicidade (ainda estou, pontualmente) e a comunicação, em termos mais genéricos, mantém-se o meu métier. Por gosto e hábito instalado, sigo a publicidade que se vai fazendo, entusiasmo-me ainda com uma campanha "bem esgalhada" e fico perplexa, ou até indignada, com as aberrações criativas que às vezes vejo por aí.

 

A última campanha do Millennium BCP é um desses casos. Não chegando a deixar-me indignada, deixa-me de boca aberta pela total falta de senso e de sentido de oportunidade. Como é possível que um banco, perante um quadro de total – e justificada! – perda de confiança por parte dos cidadãos seus clientes, escolhe como mensagem um slogan que não remeta de forma inapelável para uma completa transparência de intenções, que não se destine a recuperar a imagem perdida de solidez e fiabilidade? Em pleno vórtice de notícias negras sobre banqueiros presos, arguidos ou investigados, depósitos e poupanças desaparecidos para parte incerta, malabarismos através de off-shores e uma crise de valores que varre todas as competências e reverências que os portugueses tinham por intocáveis, a frase "À primeira vista, é só um banco" é, no mínimo, desastrada. Apetece logo perguntar: "E à segunda vista, o que é? Uma corja de malfeitores? Uma confraria secreta, que usa e abusa das nossas poupanças? Quais as surpresas que nos esperam numa análise mais detalhada, para além da fachada bonitinha e simpática?

 

A sugestão de que existe, sequer, uma "segunda vista", é fatal, porque tudo devia ser e parecer claríssimo à primeira. Pergunto-me como pode o BCP ter aprovado uma campanha que é um verdadeiro tiro no próprio pé.

 

Sexy crisis


Ana Vidal,

 

Portugueses, muita atenção! No Prós e Prós (a designação tem direitos de autor, mas acho que o Pedro não se importa que eu a adopte), acabou de ser descoberta a solução mágica para todos os males nacionais: se o país for sexy, tudo se resolverá.

 

Toca a pintar de cor-de-rosa os monumentos, a despir hospedeiras e empregadas de mesa, a abrir todas as praias ao nudismo, a transformar os hoteis de 5 estrelas em moteis de fantasias e fétiches, a distribuir algemas e chicotes à porta dos museus, a servir só pratos picantes e afrodisíacos nos restaurantes, a encher de almofadas as estações do Metro e a dar novos usos aos varões das carruagens … enfim, é só puxar pela imaginação e seremos ricos em breve. Afinal era tão simples!

 

Adenda: Aqui ficam duas ideias, o meu humilde contributo para um país sexy

 

 

 

 

Uma morte anunciada


Ana Vidal,

 

Não sei o que aconteceu para que Belgais se afundasse, não conheço exactamente as causas. Sejam elas quais forem, lamento profundamente que acabe. Belgais era um projecto pioneiro e quase utópico (digo "quase" porque chegou a realizar-se e a funcionar plenamente, e digo "utópico" porque estava condenado desde o início, tal era a sua ousadia), de um alcance social e cultural invulgar, sobretudo aqui em Portugal.  Eu tive a sorte de ter estado lá, de ter conhecido aquele mundo encantado por dentro, em todo o seu esplendor. Passei lá um dia inteiro  em 2001 e assisti, deliciada, à rotina de uma verdadeira maravilha.

 

Para quem eventualmente não saiba, Belgais era uma escola de música para crianças desfavorecidas, vindas da paupérrima região serrana que rodeia a cidade de Castelo Branco. E era, também, ponto de encontro e abrigo temporário de músicos nacionais e estrangeiros de altíssimo nível (alguns tornavam-se residentes, como professores). Esses músicos, convidados por Maria João Pires, "batiam" a região em busca de aptidões musicais em estado puro, entre as crianças em idade pré-escolar da zona, que não teriam, de outro modo, acesso às mínimas condições que lhes permitissem instruir-se, descobrir e explorar os seus talentos. A escola comprometia-se a alimentá-las durante o dia, a dar-lhes a escolaridade normal, e ainda a proporcionar-lhes uma educação musical de primeira água. Eu assisti a uma dessas aulas, absolutamente fascinante: cerca de 30 crianças de idades várias cantavam em coro afinadíssimo e experimentavam instrumentos, luxuosamente acompanhadas por uma das pianistas mais aclamadas do mundo. Maria João Pires transfigurava-se, literalmente, e via-se que adorava aquela experiência. Semanalmente, havia um concerto (gratuito, claro) para a população da região, em que se incluiam as famílias daquelas crianças privilegiadas. Enfim, um sonho musical sofisticado e gratificante, impensável naquela região extremamente carenciada que aspirava, quando muito, à satisfação das necessidades mais básicas.

 

Esse dia inesquecível incluiu ainda um memorável almoço com os residentes de Belgais e alguns amigos, vindos de fora como eu. Todos nós  ficámos encantados com a forma apaixonada como Maria João falava do seu projecto. Foi uma pena a longa agonia de Belgais, a sua morte anunciada e, finalmente, o fechar de portas. Um projecto financeiramente inviável? Sim, com toda a certeza. Mas muito pobre, culturalmente falando, é o país que não cuida, protege e alimenta estes sonhos.

 

Adenda: Leio, entretanto, esta extraordinária confissão do primeiro ministro. Como quem atira um rebuçado ao povo, a provar a nova humildade acabadinha de aprender com a derrota eleitoral, Sócrates admite finalmente ter errado em alguma coisa. Pena ter sido logo na cultura. 

 

Crise? Qual crise?


Ana Vidal,

 

Acabo de ouvir na televisão que um rapazinho de vinte e poucos anos foi vendido por 94 milhões de euros. Não vou falar de como acho imoral esta notícia em tempos de crise, descansem. Não, a minha reflexão é bem mais prosaica e umbiguista: pergunto-me qual será a sensação de sabermos exactamente quanto valemos. O mais perto que estive disso foi em Marrocos, mais ou menos com a idade dele: uma quantidade considerável de camelos, segundo me garantiu um façanhudo árabe que parecia apreciar os meus dotes. Nada que se compare, portanto, até porque o negócio não foi avante. Enfim, resta-me a fraca e ilusória consolação de me agarrar à ideia de que, ao contrário do rapazinho, eu não tenho preço.

 

Blogue da semana


Ana Vidal,

Podia dizer que as fotogafias são esplêndidas, e não mentiria.

Podia dizer que os textos são reveladores de uma personalidade sensível, elegante e inteligente, com um sentido de observação e uma lucidez admiráveis, e ficaria aquém do que penso.

Podia dizer que a música que nos recebe é sempre de um bom gosto irrepreensível, e não exageraria nem um bocadinho.

Podia dizer, enfim, que a Luísa conjuga todos estes vectores com uma mestria rara, fazendo com que pareçam ter nascido uns para os outros e nunca mais possam ser vistos, lidos ou ouvidos em separado, a partir do momento em que ela decide casá-los.

 

O Nocturno é o blogue desta semana, por tudo isto e muito mais.

Maus hábitos


Ana Vidal,

 

Dos políticos, já há muito tempo que não esperamos outra coisa que não seja traições, facadas nas costas e carecas descobertas, por crimes mais ou menos graves de que, prontamente, se acusam entre si com prazer visível e total ausência de vergonha. Habituámo-nos, porque nos habituamos a tudo.

 

Agora, vieram os homens das leis oferecer-nos o triste espectáculo televisivo da sua mesquinha guerra intestina, provando-nos, sem necessidade de grande argumentação, que a toga não faz o monge e que não são melhores, com todos os seus canudos e palavras caras, do que as peixeiras do Cais da Ribeira em hora de contagem de canastras. Habituamo-nos, porque nos habituamos a tudo.

 

Talvez venham um dia destes os médicos, quem sabe, acusar-se uns aos outros de assassinatos e maus tratos aos doentes, de receitas vendidas a peso de ouro ou de outras torpezas avulsas, sei lá. Habituar-nos-emos, porque nos habituamos a tudo.

 

Já não reagimos aos maus hábitos que vamos acumulando, neste torpor doentio em que caímos, todos os dias um pouco mais. E o pior de todos eles é a indiferença.

 

O crepúsculo da deusa


Ana Vidal,

 

A violenta pressão da voragem mediática que, literalmente, engoliu o último fenómeno musical televisivo que dá pelo nome de Susan Boyle, teve este trágico desfecho.

 

Não me espanta: de anónima desempregada, a mulher de 48 anos – que viu fugir o sonho dos palcos na idade em que ele ainda seria viável – vê-se de repente projectada para a ribalta do mundo inteiro, através de um concurso de talentos onde tem de competir com jovens que lhe lembrarão, certamente, esses tempos de glórias sonhadas. E a comparação nunca pode ser justa para ela: para além de uma voz poderosa (que eles também têm, com a vantagem de estarem ainda na curva ascendente das suas potencialidades), a concorrente balzaquiana só tem para oferecer ao público uma história comovente de frustrações e insucessos, uma luta inglória por um lugar ao sol. É o palhaço pobre de um circo inclemente. Não é pelo talento que a aplaudem – que o terá, sim, mas não mais do que tantos outros – é pela curiosidade mórbida que a sua história desperta no voyeurismo instituído pelos Big Brothers da moda. É pela sua coragem serôdia e pela  figura patética, que inspira ternura. É muito também pela personificação que ela representa de uma possível, ainda que ilusória, vingança dos fracos contra os que tudo têm para vencer. Against all odds. A crueldade de alguns dos títulos que alimentaram os media durante todo este tempo é bem significativa: "Afinal Susan Boyle já beijou"; "Velha feia chega à final"; "Susan Boyle já não é virgem"; Susan Boyle dá um pontapé em Hollie Steel"; "Susan Boyle satirizada na net"; "Susan Boyle explica-se à polícia"; "Afinal, a escocesa rude não ganhou o concurso"; "Bonecas de Boyle à venda por 16€"; "Um milhão para Boyle fazer um porno"; "Boyle já tinha sido gozada há 14 anos"; etc., etc., etc., num interminável rol de mexericos mortíferos.

 

Não há promessas de Hollywood, álbuns gravados ou dinheiro fácil que compensem esta exposição violenta e quase pornográfica de um ser frágil e ingénuo que ousou sonhar, sem pensar que o sonho que cantou (I dreamed a dream) se transformaria facilmente num pesadelo. Como acabou por acontecer.