
Acabo de ouvir na televisão que um rapazinho de vinte e poucos anos foi vendido por 94 milhões de euros. Não vou falar de como acho imoral esta notícia em tempos de crise, descansem. Não, a minha reflexão é bem mais prosaica e umbiguista: pergunto-me qual será a sensação de sabermos exactamente quanto valemos. O mais perto que estive disso foi em Marrocos, mais ou menos com a idade dele: uma quantidade considerável de camelos, segundo me garantiu um façanhudo árabe que parecia apreciar os meus dotes. Nada que se compare, portanto, até porque o negócio não foi avante. Enfim, resta-me a fraca e ilusória consolação de me agarrar à ideia de que, ao contrário do rapazinho, eu não tenho preço.

Obrigada a quem pôs o link no meu texto. 🙂
Loira Ana? Os arabes ficam passados:) Comigo foi um Sírio. Vi-me grega para me livrar do dito, ainda por cima a cena decorreu durante um congresso, e não convinha que eu fosse indelicada…:)
ariel : nem imagina como a entendo. Situações embaraçosas, essas.
Moreníssima, Ariel. Nos países árabes passo por egípcia, nos outros por italiana ou espanhola. Por portuguesa é que nunca, mas só porque não sabem que este país existe… 🙂
Sim, portuguesas é que nunca ninguém se lembra de dizer que somos, loiras ou morenas:)
Ana, tenho uam históri aa propósito, que me ia tirando do sério. Descobri parte da minha costela patriótica, quando há uns bons anos, sendo eu também morena e com uma altura medianíssima de 1,62 e exactamente porque Portugal não está no mapa, me atribuíram todas as nacionalidades e mais alguma e, no exercício de adivinhação, já iam pelos países nórdicos… Ia-me passando!
: )))
É, também já aconteceu comigo e irrita.me imenso. É nessas alturas que me sobe o patriotismo ao nariz, e eu nem sou muito dessas coisas. 🙂
A piada está aí. Nem eu sabia como era “patriota” até me acontecer essa cena.
:))
Ana
Uma toleira ‘ ! Se é um facto que o jogo gera muitas receitas, e os artistas são os jogadores, acho que estes devem ser os primeiros a beneficiar dessas receitas. Só que as coisas tomaram uma proporção tal que tudo começa a roçar a obscenidade.
Um aparte. Só soube desta notícia há pouco, pelo meu filho. O meu comentário foi que, de um certo modo, o CR acabou. Nunca mais vai ser melhor do Mundo, nem essas coisas. E se não “descambar” será bom. Não estou, obviamente, segura de que esta minha especulação se venha a verificar e, naturalmente também, não desejo que se verifique. Mas, tenho cá um palpite que a vitória financeira não vai ter uma correspondência a outros níveis.
[Desculpe o testamento]
Concordo consigo. É impossível que esta soma astronómica não tenha efeitos negativos na cabeça de um miúdo, por muito equilibrado que seja. E sim, também acho obscenos estes números do futebol, com o mundo mergulhado numa crise profunda.
Nem falei da questão principal do post e que acho uma questão muito importante: o preço de cada um. Penso nesse assunto e concluo sem dúvida alguma, que não sei qual é o meu. Mas, concluo, na mesma hora, que não saber o meu preço me tem saído muito caro.
:)))
“que não saber o meu preço me tem saído muito caro”. É isso mesmo mdsol, como a compreendo também:)))
Bem visto, Maria, passa-se o mesmo comigo.
E sei que hei-de de ter um preço, como toda a gente, dependendo das circunstâncias. Tenho é a sorte de nunca ter precisado de saber qual é.
E não vai ser só, Mdsol e Ana, o dinheiro que lhe vai subir à cabeça. Esse até já terá subido, se tinha de subir. Pior vai ser a «movida» madrilena (ou a falta da disciplina britânica a que estava habituado).
Luísa, mas é sobretudo o que refere que eu tenho em conta, para dizer que me parece que o suesso financeiro não vai ter correspondência noutras dimensões. Madrid não e Manchester e o M.United não é o Real Madrid. O R. Madrid, tem, quanto a mim que vejo isto tudo de longe, uma cultura de clube que em nada se compara ao MU. Acresce que, com este presidente, a cultura do ‘showbizz’ e da ‘pop star’ é completamente assumida, tornando-se o futebol quase (sei que é um pouco exagerado) secundário.
Mas basta lembrar que os compromissos comerciais de exibição da equipa pelas bandas do oriente e não só e que comprometem a preparação da época desportiva, de acodo com o que se sabe relativamente à preparação e, porém, não obstante, contudo, todavia, ainda assim, a equipa vai em digressão.
:))
Também me parece, Luísa.
É indecente, na verdade e por acaso, eu ouvi falar em 96 milhões, mas mais 2 milhões para trás ou para a frente, que importância é que isso tem, afinal? São uns “troquitos”, não é?
Agora, Ana, não conclua que «lhe resta só a fraca e ilusória consolação de se agarrar à ideia de que, ao contrário do rapazinho, V. não tem preço.»
Isso é exactamente tudo o que destrinça aquilo que o dinheiro pode e não pode comprar.
E como toda a gente sabe, futebolistas há-os todos os dias à venda, para todos os gostos, feitios e bolsas. É só escolher…
Obrigada pelo consolo, Luís. Gosto da ideia de não ter preço, mas olhe que há momentos em que tenho pena de não ser futebolista, acredite… 🙂
Já agora comento o post :). tudo isto me parece uma aberração. Num momento de crise mundial fazer um negócio destes é simplesmente obsceno.
O cenário de crise deixa mais clara a obscenidade. Mas, para mim, o maias grave não é o que resulta da conjuntura mais próxima e sim a profunda alienação que isto representa.
:))
É verdade, sim, antes da crise já era escandaloso. Agora só ficou mais.
A avaliar pelas recentes prestações na selecção nacional do prof. Queiroz, o CR não merece nem 10% disso.
Parece-me que esta afirmação se insere naquilo que sustenta as minhas divagações quanto do futuro do CR.
Porque é que a Ana acha imoral que o Real tenha pagado ao Manchester tanto dinheiro pelo passe de Ronaldo, em tempo de crise?
Supondo que o dinheiro do Real foi honestamente ganho através da sua equipa de futebol, o que tem de imoral que ele o utilize a reforçar essa mesma equipa?
O Real Madrid é uma empresa. Tem um negócio que é, admitamos nós, rentável. Mesmo em tempo de crise, pelos vistos. Que tem de imoral que essa empresa re-invista o dinheiro que adquiriu no exercício desse negócio?
Preferiria a Ana que o Real Madrid utilizasse o seu dinheiro doando-o aos pobres e desempregados? Isso seria, sem dúvida, mais consentâneo com a lei cristâ e muçulmana. Mas o Real seria, sem dúvida, punido pelo mercado por fazer tão má utilização do dinheiro que os adeptos lhe fizeram chegar.
Pois é Luis, não há imoralidade nenhuma.
Ter PAGO este escandaloso montante é uma coisa normalíssima.
Lá e cá.
Onde o poder do futebol está “aligeiradamente” associado a outros poderes bem mais escandalosos.
Os clubes, cá, acho, são instituições de carácter público ( ou qualquer coisa assim do género).
Se isso os obriga a ajudar os “desgraçadinhos e necessitados”, não sei, (nem a milionária, mas cada vez mais decadente, igreja católica ajuda),
mas sei que o MEU dinheiro não vai para esses devaneios.
Pelo menos directa e voluntariamente.
É vergonhoso que haja disto.
Mesmo que fosse a camelos, quanto mais por 94 milhões de euros.
Com o verbo “ter” utiliza-se o particípio perfeito regular, como o verbo “ser” ou “estar” utiliza-se o particípio perfeito irregular.
Portanto: “ter pagado” mas “estar pago”.
Isto era gramática portuguesa que se ensinava no tempo do meu pai. Hoje em dia, como já ninguém sabe língua portuguesa como deve ser, já está esquecido.
O meu dinheiro também não vai, direta e voluntariamente, para estes devaneios. No entanto, não considero isto imoral.
No tempo do seu pai, escrevia-se “directa” e não “direta”. E agora também, pelo menos enquanto o malfadado acordo ortográfico não entrar em vigor.
Pois, mas, infelizmente para si, o bem fadado acordo ortográfico já está mesmo em vigor, uma vez que já foi ratificado por três países (Portugal, Brasil e Cabo Verde).
E já no tempo do meu pai os brasileiros escreviam “direta”. E escreviam muito bem. (Por sinal, a maior parte da minha família paterna é hoje brasileira.)
A maior parte da sua família paterna é “hoje” brasileira? Não sei exactamente (e não exatamente, note) o que isso quer dizer, mas é em Portugal que estamos e não no Brasil. E não tem razão: apesar das ratificações e da fatalidade iminente, o acordo ainda não está oficialmente em vigor em Portugal.
O meu bisavô era um garanhão. Aos 63 anos casou com uma miúda de 18. Morreu 20 anos depois, tendo feito nela dez filhos nesse vinte anos.
Naquela aldeia miserável não havia sustento para tanto filho. Seis ou sete desses dez filhos emigraram para o Brasil. Uns, como o meu avô por exemplo, voltaram (muito) mais tarde (o meu avô viveu 22 anos no Brasil). Mas a maior parte deles nunca voltou e perdeu-se-lhes o rasto. Por isso digo que a maior parte da minha família paterna deve ser hoje brasileira – porque uma data de tios-avós meus por lá ficou.
Decididamente, Luís Lavoura, você é do contra. Parecem-lhe normalíssimos estes negócios milionários no futebol (com dinheiros nem sempre bem explicados, mas já nem falo disso) e que se esfreguem na cara do cidadão comum, que está desempregado e luta pela sobrevivência? Parece-lhe normalíssimo que um miúdo de 25 anos ganhe 25 mil euros por dia?
Olhe: a mim, não. E não tenho muito mais a dizer, porque me parece óbvio que é escandaloso.
Não é ser do contra, Ana. Eu sou a favor do normal e honesto funcionamento do mercado livre. Se as pessoas aos magotes decidem livremente ver futebol (nos estádios ou na televisão) e comprar produtos do marketing das equipas, é normal que as equipas enriqueçam e paguem esse dinheiro às suas vedetas. Se as pessoas aos milhares compram bilhetes para ver o Ronaldo a jogar e comprem camisolas com o nome Ronaldo escrito, é normal que o Ronaldo tenha esse salário elevado.
Eu também não acho imoral que o árabe pagasse 94 camelos pela Ana ao seu pai, embora o seu pai não seja certamente um génio por ter feito uma filha tão bonita.
O meu pai era um génio por outras razões, Luís. E, apesar da flagrante desproporção entre mim e o Cristiano Ronaldo – apesar de tudo, 94 camelos é um bocadinho menos do que 94 milhões de euros – essa sua súbita e inesperada tirada de charme já conseguiu baralhar-me. Olhe, se calhar é este o meu preço… 🙂
94 camelos é um preço demasiado elevado para mim. Não compro.
Há certamente uma desproporção brutal. A Ana tem uns míseros 162 cm. O Ronaldo tem 25 cm mais.
Pronto, estragou tudo. Mas quem lhe disse que eu tenho 162 cm? Tenho alguns mais, por acaso. Pelos vistos não fui só eu quem ficou baralhado. Seja como for, não estou à venda ao centímetro. E tenho a uma palavra a dizer no negócio, pelo que que também não o queria como comprador.
Estou a gostar desta saudável troca de palavras.
E farto de rir, embora não tenha “pagado” bilhete.
Luís, acho que o termo em Português de Portugal, não é correCto.
Acho, mas como de qualquer modo me soa… mal, continuarei a dizer PAGO, tal como o correCto, ou o cÁgado, ou baPtizado, ou aCtor, ou conviCção (esta não faz parte do aKordo, pois não), entre muitas outras.
Keiram ou não keiram……..
Eu também continuarei a escrever assim, até que as teclas me doam.
Ó Luís, se as coisas se comprassem ao centímetro, havia por aí muita mulher a pedir o divórcio no dia a seguir ao casamento….
É o que faz não haver período de “experimentação”.
Qualquer mulher, por mais pequena que seja, vale mais que qualquer milhão ao metro de qualquer rapazinho afortunado.
(ele que até já passou provações e necessidades, antes de ser o que é. Só desejo que lhe sirva para ser feliz)
Ana, isto é que vai aqui uma açorda…
Vai mesmo… uma açorda portuguesa, acompanhada de vatapá e couscous. 🙂