Uma morte anunciada


Ana Vidal,

 

Não sei o que aconteceu para que Belgais se afundasse, não conheço exactamente as causas. Sejam elas quais forem, lamento profundamente que acabe. Belgais era um projecto pioneiro e quase utópico (digo "quase" porque chegou a realizar-se e a funcionar plenamente, e digo "utópico" porque estava condenado desde o início, tal era a sua ousadia), de um alcance social e cultural invulgar, sobretudo aqui em Portugal.  Eu tive a sorte de ter estado lá, de ter conhecido aquele mundo encantado por dentro, em todo o seu esplendor. Passei lá um dia inteiro  em 2001 e assisti, deliciada, à rotina de uma verdadeira maravilha.

 

Para quem eventualmente não saiba, Belgais era uma escola de música para crianças desfavorecidas, vindas da paupérrima região serrana que rodeia a cidade de Castelo Branco. E era, também, ponto de encontro e abrigo temporário de músicos nacionais e estrangeiros de altíssimo nível (alguns tornavam-se residentes, como professores). Esses músicos, convidados por Maria João Pires, "batiam" a região em busca de aptidões musicais em estado puro, entre as crianças em idade pré-escolar da zona, que não teriam, de outro modo, acesso às mínimas condições que lhes permitissem instruir-se, descobrir e explorar os seus talentos. A escola comprometia-se a alimentá-las durante o dia, a dar-lhes a escolaridade normal, e ainda a proporcionar-lhes uma educação musical de primeira água. Eu assisti a uma dessas aulas, absolutamente fascinante: cerca de 30 crianças de idades várias cantavam em coro afinadíssimo e experimentavam instrumentos, luxuosamente acompanhadas por uma das pianistas mais aclamadas do mundo. Maria João Pires transfigurava-se, literalmente, e via-se que adorava aquela experiência. Semanalmente, havia um concerto (gratuito, claro) para a população da região, em que se incluiam as famílias daquelas crianças privilegiadas. Enfim, um sonho musical sofisticado e gratificante, impensável naquela região extremamente carenciada que aspirava, quando muito, à satisfação das necessidades mais básicas.

 

Esse dia inesquecível incluiu ainda um memorável almoço com os residentes de Belgais e alguns amigos, vindos de fora como eu. Todos nós  ficámos encantados com a forma apaixonada como Maria João falava do seu projecto. Foi uma pena a longa agonia de Belgais, a sua morte anunciada e, finalmente, o fechar de portas. Um projecto financeiramente inviável? Sim, com toda a certeza. Mas muito pobre, culturalmente falando, é o país que não cuida, protege e alimenta estes sonhos.

 

Adenda: Leio, entretanto, esta extraordinária confissão do primeiro ministro. Como quem atira um rebuçado ao povo, a provar a nova humildade acabadinha de aprender com a derrota eleitoral, Sócrates admite finalmente ter errado em alguma coisa. Pena ter sido logo na cultura. 

 

43 comentários em “Uma morte anunciada”

  1. Ana:

    Fico com vontade de chorar. Apetece-me praguejar. É o tipo de coisa que me enfurece, entristece, confunde, baralha.
    Mas, para haver capacidade para encaixar um privilégio destes, era mesmo necessário mudar de paradigma.

    :))

  2. Ana, podes guardar uma coisa boa do que aqui muito bem contas: estiveste lá e viste que existia, que era possível. És uma das testemunhas vivas disso. Conserva essa memória. Nunca se sabe quando esses testemunhos poderão ser úteis, um dia. Porque algo vai ter de mudar, um dia.

    1. Espero sinceramente que sim, João. Tem de mudar um dia, como dizes. O pior é que, infelizmente, muito se terá perdido entretanto.

      Sim, sou uma testemunha privilegiada do sonho da Maria João e sei que era possível. FOI possível. E só gostava que muita gente tivesse ouvido, como eu, a opinião de músicos de renome mundial sobre Belgais.

      1. Nunca lá estive, com muita pena minha, mas conhecia o projecto. É uma vergonha para quem tem responsabilidades na área da cultura deixar que Belgais, a que Maria João Pires se entregou de corpo e alma, acabe assim. Boas razões tem ela para estar tão descontente com o seu país.

        1. Pois tem, Teresa. Este país tem a arte especial de tratar os seus maiores valores a pontapé… e de endeusar os estrangeiros, mesmo que não sejam grandes valores. Saloices…

  3. De facto, Ana, este governo investiu escandalosamente pouco na cultura. Mas o PM usa a cultura só como pretexto para parecer humilde, nesta 25ª hora. Comprovando assim que a cultura, para ele, é meramente instrumental, servindo de instrumento político. Mais nada.

        1. Não está, Maria. Acho que começaram mesmo quando começou Belgais… por isso digo que este país trata mal os seus valores, e não só este governo.

          1. Claro Ana. Eu entendo assim também. Daí o meu primeiro comentário ser tão visceral. Um país que não percebe e não aconchega uma EXCELÊNCIA, por mais sonhadora que seja relativamente aos parâmetros corriqueiros do deve e do haver é um país que dá vontade de chorar.

      1. Acha que os governos capitalistas de Londres e Paris, por exemplo, não investem em cultura? Sócrates, como ele próprio ontem admitiu, investiu pouco. E mal. Por isso o nosso património histórico está tão maltratado – veja-se o Convento de Cristo em Tomar, por exemplo. Ou a Batalha. Ou o castelo de Juromenha. Aí o estado não só pode como deve investir. E a preservação desses monumentos gera emprego também. Bom emprego público.

  4. Que dinheiro é que pagava isso tudo que a Ana descreve (e que eu não conhecia)? Isto é, quem pagava o internato das crianças e a estadia dos músicos célebres, e as viagens pelas aldeias a descobrir talentos, e isso tudo?

    E por que motivo acabou tudo? Por falta de dinheiro? Por falta de vontade de fazer?

    Não sei de nada, e peço à Ana que explique.

    1. Não sei que dinheiro pagava isto nem me interessa muito, Luís. Sei que havia (ou era suposto haver) subsídios estatais, que a certa altura parecem ter sido negados. Vejo dinheiros públicos tão mal gastos neste país que não entendo por que razão se há-de questionar o financiamento de um projecto desta natureza. Sei que acabou e é isso que me faz pena, sejam quais forem os motivos. Belgais não foi imaginado como um projecto para render dinheiro, mas para render cultura.

      A uma coisa sei responder-lhe: não havia internato de crianças, havia quartos para albergar músicos temporariamente (de forma mais prolongada quando ficavam como professores). Sobre o resto terá de se informar com quem saiba do assunto mais do que eu.

  5. Ana, só agora conheci Belgais.
    Pelo texto que a Ana escreveu e que me deu a conhecer o verdadeiro trabalho desta escola, lamento que uma obra de tanto mérito acabe tão tristemente.
    Maria João Pires, essa grande pianista, sonhou que era possível criar uma obra numa zona sedenta de cultura… não foi apoiada… se fosse em Lisboa… choviam subsídios.
    Portugal fica mais pobre!

  6. Ana, há um problema de fundo grave que não pode ser escamoteado. Um projecto desta natureza, precisa de uma gestão corrente profissional para poder receber fundos públicos Esse é um problema que nunca foi resolvido. Não sei de quem é a responsabilidade. Há pessoas que não têm nenhuma vocação para fazer este tipo de gestão que é o caso da Maria João Pires, que se preocupa com a parte artística e muito bem, mas não terá tido quem a suportasse do ponto de vista da gestão financeira.
    É uma situação que me dói e custa muito.
    O seu a seu dono. Esta é uma situação que se arrasta há vários anos, com vários executivos, e que normalmente se torna mais “premente ” em alturas em que os governos estão mais na corda bamba… é fácil de perceber porquê.

    1. Não pretendo escamotear o problema do finaciamento, Ariel. O que me parece é que não se pode exigir a uma artista que seja também competente como gestora. A Maria João Pires teve a ideia, pô-la em prática e chamou a Belgais nomes grandes da música, que ensinavam crianças portuguesas que nunca teriam essa sorte de outra maneira. Fazia a parte que lhe competia, e fazia-a muito bem. Se o estado queria controlar as finanças e a gestão de Belgais, que tivesse nomeado um gestor – já agora, com alguma sensibilidade para a Arte – para que aquilo não tivesse acabado num buraco financeiro como parece ter acabado. O drama é que há sempre interesses da política partidária a interferir com estes projectos, que deveriam estar acima disso.

      1. Não me passa pela cabeça exigir uma coisa dessa a Maria João Pires, Ana, como penso que fica claro do meu comentário. Quanto ao resto estamos estamos no país que estamos com as circunstâncias que temos. As vezes nem tudo o que parece é…há muita coisa que não sabemos ou não queremos saber, e quando falo em nós, refiro-me ao colectivo dos interessados.

        1. Eu percebo-a, Ariel. E também sei que as coisas não são tão simples como parecem, não sou assim tão ingénua. Mas eu gostaria que fossem isso mesmo: simples. É pedir muito, eu sei…

  7. Cara Ana, começo por clarificar que trabalhei em Belgais de 2001 até Agosto de 2006. Gostava de a corrigir em alguns detalhes: em 2007 aquilo que viu do projecto foi uma pálida amostra do que aconteceu de 2000 até 2005. Belgais nunca foi uma escola de música. A música tinha a sua importância e o seu destaque mas não sei como ficou com essa ideia. Não se tratava de crianças desfavorecidas mas sim de uma saudável mistura de crianças. Algumas vindas das aldeias, outras da cidade, filhos de uma cabeleireira ou de um juíz.
    O “bater” a região em busca de aptidões (em estado puro???) foi feito em 2001, quando se preparava o início do projecto do Coro Infantil. A escola de que fala deve ser a da Mata, escola do 1º Ciclo que tinha um conjunto de ofertas artísticas complementares e que estava talhada para garantir a presença da arte no dia-a-dia escolar. Teve o seu início em 2002, em outras instalações e, posteriormente, após obras no edifício que concerteza conheceu, passou a funcionar na antiga escola primária.
    Desconheço em absoluto que se realizasse um concerto semanal gratuito para a população, em 2007 (ou em qualquer dos anos anteriores).
    Mas sabe o que eu acho extraordinário no seu texto? É quando refere que a Maria João falava apaixonadamente do seu projecto, em 2007. Vai-me desculpar, pois não quero ser ofensivo, mas simplesmente não acredito. Talvez a Ana tenha visto videos ou lido entrevistas anteriores e, aí sim, era esse o tom e conteúdo. Mas em 2007, não me parece possível.
    Estou de acordo consigo quando refere que temos de acarinhar os nossos sonhos e este até tinha viabilidade, dado algumas condições excepcionais, começando pela própria Maria João Pires que, sózinha, abria muitas portas.
    Tal como a Ana, eu também guardo na minha memória muito do que de bom ali se passou (e foi realmente muito), mas uma boa parte da agonia de que fala teve sementes na gestão do projecto e nesse ponto, não vale a pena acusar os do costume, o Estado.

    1. Caro CS, começo por dar-lhe inteira razão e pedir-lhe desculpa. A data que está no post é uma gralha, em que só reparo por causa do seu comentário e que vou já emendar de seguida: estive em Belgais em Julho de 2001 e não em 2007, como é evidente (neste ano já nem sequer a Maria João Pires estava em Portugal). Tudo o resto que aqui conto me foi relatado lá ou presenciado por mim nesse dia, como por exemplo as aulas de música com crianças da região. Quanto aos concertos semanais, eu própria assisti aos ensaios para o dessa semana e vi o estrado (era Verão) em que se ia realizar. Suponho que a escola que ministrava o ensino curricular normal seria a tal Escola da Mata, com participação de Belgais no ensino artístico.
      Foi como “escola de música e ponto de encontro de músicos” que Belgais me foi apresentado nesse dia, isso mantenho.

      1. Cara Ana Vidal,

        Li o seu «post» e os comentários todos, até chegar a este, desta antiga trabalhadora de Besgais, que me parece bem mais próximo da realidade que se encontra descrita, por exemplo, aqui:
        http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=18579

        Desta notícia permita-me que destaque este excerto:
        «O arresto de bens ao Centro de Estudo das Artes de Belgais, vem na sequência de uma acção movida por cinco ex-funcionários, junto do Tribunal do Trabalho, que exigem agora uma indemnização na ordem dos 75 mil euros. Conforme explicou a filha da pianista, Joana Pires, à agência Lusa, «Despedimos funcionários para não termos que declarar insolvência a meio do ano. Perdemos patrocinadores e donativos e só lhes podíamos pagar o que o Ministério da Educação nos dava. Ficámos sem o resto do dinheiro que recebíamos». »

        Despediram os funcionários para não terem de declarar insolvência?! E eram estas pessoas que recebiam anualmente 170 mil euros de dinheiros públicos? Será que além de darem guarida aos grandes artistas que existem por essa Europa fora [alguns deles certamente necessitados de umas férias pagas, para retemperarem os ânimos das agruras de um público que nem sempre os entende] será que também pagavam as contribuições para a segurança social dos funcionários, que, a fazer fé no que diz a notícia, foram despedidos muito sumariamente?

        Depois, com 170 mil euros por ano, bem geridos, de forma responsável, quantas escolas de música que existem poderiam ser financiadas? Estou a pensar, por ex, nas escolas das bandas filarmónicas, que sobrevivem, exclusivamente, à custa da boa vontade dos seus músicos, todos eles amadores. Ou até os Conservatórios, onde os talentos de uma pianista como a Maria João certamente seriam muito melhor aproveitados.

        1. Se quer saber a minha opinião, acho que uma boa parte do nosso problema é esse tipo de pensamento miserabilista, que domina este país: trocar o apoio de projectos ousados e inovadores como Belgais pelo apoio às escolas das bandas filarmónicas – sem desprimor para estas, naturalmente, porque o seu trabalho é meritório – é garantir que não iremos nunca muito longe em termos culturais. Contentamo-nos sempre com a mediania.
          Volto a referir que não conheço as causas exactas do naufrágio de Belgais, nem é sobre elas que me debruço no meu texto: apenas lamento que um projecto deste alcance não tenha hipóteses em Portugal, e por razões quase sempre mesquinhas. Como me parece mesquinho, desculpar-me-á, achar que “os músicos convidados vinham passar férias pagas a Belgais”. Esse é o nosso eterno complexo de inferioridade: tudo o que é diferente nos faz desconfiar de má-fé. É triste. E é por causa dessa desconfiança que os nossos melhores talentos (artísticos e não só) acabam por sair do país em busca de reconhecimento.

          1. Julgo que o meu raciocínio não é miserabilista, mas precisamente o contrário disso. Um projecto destes provavelmente teria sido viável se estivesse mais perto das zonas urbanas, onde teria condições para ser auto-sustentável, ou seja, menos subsidiodependente ». Se este aspecto tivesse sido considerado, provavelmente nesta altura o projecto ainda existiria.
            O que me parece é que ao ir para Belgais , a Maria João Pires quis juntar o útil ao agradável, mas considerando, exclusivamente, a perspectiva dela. O resultado está à vista. A Senhora fartou-se das dificuldades, fartou-se de não ter subsídios para pagar as contas, e um dia foi-se embora e deixou 75 mil euros de dívidas a trabalhadores, o que a meu ver revela não ter noção do que é ter responsabilidade social, sobretudo da parte de alguém a quem haviam sido confiados dinheiros públicos.
            É nesta perspectiva que me parece que as bandas filarmónicas acabam por ser um meio preferível para dinamizar culturalmente zonas mais desertificadas, porque ajudam, efectivamente, a aumentar o nível cultural de quem lá vive, de quem é de lá, e há casos conhecidos de grandes músicos que começaram por aí.
            Julgo que se a Maria João Pires estivesse, verdadeiramente, interessada em aumentar o nível cultural do seu país, muito provavelmente teria sido bem mais útil se tivesse aceite formar músicos nos Conservatórios que ainda existem, para o país ter uma boa rede de professores de música, que começassem a ensinar por esse país fora, desde a escola primária. A meu ver é assim que se eleva o nível geral da população e se chega a situações como a da Hungria, em que o solfejo é (ou pelo menos era até há uns anos atrás) ensinado às crianças desde o jardim infantil.
            Quanto aos músicos que eventualmente gozaram de férias pagas (obviamente, não estou a afirmar que era o caso, apenas me parece que há situações em que não basta ser sério, é preciso parecê-lo, e a situação em causa é susceptível de gerar equívocos), não tenho nada contra, desde que não seja à custa de dinheiros públicos e a isso chamo rigor, e não miserabilismo, sobretudo quando ficaram em dívida créditos laborais e quando penso que estes trabalhadores, muito provavelmente, estão a receber subsídios pagos com rendimentos de outros trabalhadores.
            Em suma, eu sou o mais possível a favor da arte, desde que valores como a responsabilidade social e o interesse comum sejam respeitados, e muito francamente, não vejo que tenha sido o caso.

          2. Estou em total desacordo consigo, como já se percebeu.
            Até porque acredito que poucos projectos mereceriam tanto ser sustentados por dinheiros públicos como este. Embora eu pense que os dinheiros públicos devem ser bem geridos por quem sabe fazê-lo, como é evidente. Quanto ao local, estou de acordo com o CS: só quem passou por lá sabe que era um local especial, cheio de potencialidades e apoiado na lógica imbatível de que uma região carenciada merece tanto (ou mais!) a excelência artística do que a capital. Essa era, na minha opinião, uma das genialidades deste projecto.

          3. Que está em desacordo, é uma evidência que não faria sentido rebater. Quanto a isso concedo 🙂

            O que eu gostaria que me explicasse é a razão que a leva a concluir que o projecto tinha extraordinárias potencialidades, porque não me parece que a questão se resolva numa perspectiva da região merecer ou deixar de merecer o projecto. Se formos por aí, o país, por inteiro, merece projectos geniais, uns sítios por umas razões, outros por outras.

            O potencial daquele particular local é que eu não descortino. No que é que assentava esse potencial? No facto das crianças de lá serem particularmente dotadas, em termos musicais? Na circunstância do sítio ser bonito, e de haver a perspectiva de desenvolver turismo cultural? Concretamente, qual era o potencial?

            Depois de escrever a última mensagem reli o excerto da notícia que mais acima transcrevo. Repare que aí se diz que o que fez abortar o projecto foi a circunstância de terem perdido «patrocinadores e donativos», pelo que só podiam dispor do que o Ministério da Educação lhes dava. Pergunto: se o projecto tinha tanto potencial, o que é que desmobilizou os «patrocinadores» e afastou os «donativos» ou seja, o capital privado? Pelos vistos, o Estado terá cumprido até ao fim a sua parte, e o que se pretendia era que passasse a sustentar o projecto na totalidade. Ora, se os privados «desmobilizaram», parece-lhe razoável aumentar a dependência dos dinheiros públicos? Em nome de que interesse?

            Espero que não leve a mal a insistência, mas eu gostava mesmo que conseguisse convencer-me, porque ao contrário do que possa parecer, eu adoro música, gosto muito da pianista em causa [sobretudo quando toca Mozart} e em tempo longínquos até fui «aspirante» a pianista (sem o talento mínimo para justificar o menor investimento, como é evidente). Depois, por princípio sou contra as «insanáveis divergências» 🙂

          4. Dois ou três pontos: esta região (onde vivo) teve a sorte e foi só isso, de a Maria João Pires ter investido naquele espaço. Podia ter sido em outro lado, mas ela escolheu (e bem) esta maravilhosa região. Isto significa que a quinta podia ser em algum outro sítio. Só tenho a certeza que seria um sítio especial, mas isso é uma intuição minha…
            Sim, totalmente de acordo, a “desmobilização” de privados é um sinal poderoso de que alguma coisa estava mal.
            E, definitivamente, não foi por falta de apoios do Estado que Belgais cai.

          5. Mas eu não pretendo “convencê-la”, até porque partimos de premissas diferentes. Mas o CS está bem mais habilitado a responder-lhe sobre subsídios e gestões financeiras, e já o fez aqui bem melhor do que eu o faria.

            A nossa divergência é outra: a Nicolina defende que só as grandes cidades têm potencial e condições para receber projectos artísticos excepcionaise e eu sei que este projecto foi concebido (e bem) para uma quinta, um espaço rural, e esse era um dos seus encantos. A arte deve ser descentralizada, como aliás tudo o resto, se possível. “Se formos por aí, o país inteiro merece projectos geniais”, diz a Nicolina. Claro que merece, não vejo por que não! Assim eles apareçam – o que não é muito frequente, convenhamos – e não sejam inviabilizados por questões financeiras, políticas ou outras, que nada têm que ver com arte.

            Já agora, também sou contra divergências insanáveis e também gosto muito de música. E considero a Maria João Pires uma intérprete genial, pouco acarinhada no seu próprio país (mas isso é o costume, infelizmente).

      2. Não tem que pedir desculpa por coisa alguma. Apenas tentei trazer alguma luz, aproveitando a minha proximidade relativamente aos factos.
        Os concertos de que fala, eram mensais e não eram gratuitos. Quanto ao projecto, a Maria João sempre o assumiu como experimental, não convencional e era operacionalizado através de concertos, workshops, o coro infantil, residencias e, posteriormente, a Escola da Mata.
        O período que a Ana refere foi um momento de grande impulso e ilusão (no bom sentido). Sentia-se o potencial, o enorme potencial desta ideia, do local e tornava-se óbvio que se vivia algo de muito especial. São esses momentos que guardo com muito cuidado no meu coração e memória.
        Só que nem tudo foi como deveria ter sido. E sobrou em potencial e energia gasta o que faltou em termos de gestão.
        Para terminar, gostava de deixar a minha opinião sobre o final do projecto. Na realidade, este projecto acabou algures em 2005/2006. Tudo o que se passou ao longo desse ano e até agora foi um declínio acentuado pelo facto de a própria pianista se ter afastado irremediavelmente do mesmo.

        1. «Sentia-se o potencial, o enorme potencial desta ideia, do local (…)»

          Que a ideia tinha potencial, não tenho dúvida, mas o local? Será que podia explicar-me melhor? O que é que a leva a dizer que o local tinha potencial para que Belgais se tornasse auto-suficiente? Ou a auto-suficiência do projecto nunca foi considerada, e desde o início se partiu do princípio que Belgais dependeria sempre dos dinheiros públicos?

          1. A auto-suficiência não tem uma relação directa com um só factor. A quinta foi um investimento pessoal da pianista (ao contrário do que muita gente diz e escreve, os quartos, a piscina, a decoração e outras partes da quinta foram pagos por dinheiros próprios), que colocou à disposição do projecto que ela criou. É um sítio muito bonito, inserido numa geografia e uma geologia de encontros, perto de um afluente do Tejo, o rio Ponsul(que passa aliás, na propriedade). Está a duas horas e meia de Lisboa, a 3 horas e um quarto do Porto e a 4 horas de Madrid. Tinha quase todas as condições para desenvolver o tipo de actividades a que se propunha (excepto a escola do 1º ciclo). Bastava ir a caminho para perceber que estavamos numa zona especial, com algo que presdispunha à criação e/ou à fruição.
            O projecto tinha potencial para ser sustentável, porque recolhia apoios, patrocínios e tinha apoio do Estado (que me parecia adequado relativamente às contrapartidas que Belgais oferecia). Num determinado momento, Belgais faz uma parceria com uma Fundação espanhola e com a Câmara Municipal de Castelo Branco, para aceder a fundos comunitários no quadro do Interreg. Assinou um protocolo (admirável) com um banco espanhol, que permitia que os dinheiros relacionados com o fundo comunitário (primeiro paga-se, depois recebe-se), fossem adiantados em excelentes condições (juro 0). A questão de ser auto-sustentável não pode ser, na minha opinião, colocada de forma radical, pensando ser possível gerar receitas próprias, numa empresa deste género. Mas em determinado momento, pela atractibilidade do mesmo, percebeu-se que esse potencial se manifestava também em termos dos apoios e patrocínios.
            O local fazia parte desta mistura de factores que tornava o projecto singular.
            Não sei se consegui responder no essencial às suas questões mas, pelo menos, tentei.

          2. Os seus esclarecimentos foram, a meu ver, muito úteis para se ter uma ideia do que se passou, sobretudo porque afastou o equívoco sobre o qual me parece que assentam a generalidade das opiniões emitidas, designadamente nos comentários a este post , a saber, que foi por falta de apoios do Estado que Belgais caiu. Não foi, e foi precisamente essa a ideia com que fiquei quando li as infelizes declarações da filha da Maria João Pires.

            A ideia que eu tenho – porventura errada – no que respeita aos projectos desta natureza, é que eles só sobrevivem quando, no ambiente onde estão inseridos, existe, à partida, um interesse da generalidade das pessoas por este tipo de oferta. Ou seja, estes projectos são óptimos para elevar o nível do que já existe, mas não são os indicados para lançar as bases, para suscitar o interesse generalizado e, sobretudo, a participação das comunidades, porque é este último factor que mantém os projectos vivos. E tanto assim é que o projecto só funcionou enquanto a Maria João Pires lá esteve. No fundo, não era tanto na música que as pessoas estavam interessadas, mas mais na «estrela internacional» que vivia em Belgais . Quando a Maria João partiu, o interesse morreu, o que certamente é óptimo para o ego dos artistas, mas indica que o tipo de projecto poderá não ser o mais adequado, quando o objectivo é construir algo que se enraíze. Mas, naturalmente, a minha opinião não passa disso mesmo, uma opinião de alguém que reflecte a partir do que vê, e não propriamente por ter qualquer formação ou actividade nesta área.

            Obrigada à CS e à Ana Vidal pela paciência, com votos de bom fim de semana.

  8. ao longo dos próximos meses, vai ser o choradinho do arrependimento, dos pedidos de desculpas, das promessas ” da próxima é que vai ser bom, porque desta vez só estávamos a treinar”.
    A postura de humildade não vai durar muito, porque o homem não aguenta…

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