A Ana Lourenço está na SIC-Notícias com um entrevistado. Ele tem a camisa branca como o primeiro-ministro, tem a gravatucha monocromática como o primeiro-ministro, tem o cabelo cinzento à escovinha como o primeiro-ministro. Ele tem a colocação de mãos estudada do secretário-geral do PS, tem os olhares estudados do secretário-geral do PS, tem as inflexões vocais estudadas do secretário-geral do PS. Tem tudo igual. Menos a voz: fala quase em surdina.
Não interrompe a entrevistadora, não se sobrepõe ao que ela está a dizer, não se irrita por achar que não consegue concluir tudo o que quer quando quer, não lança mímicas de reprovação, não eleva o tom da voz, não quebra o verniz, não sai da postura cordata, não descola de uma aparente humildade. A imitação é boa, mas está longe de ser perfeita: fala quase em surdina.
Não é fácil imitar uma pose arrogante.

Tenho estado aqui entre divertida e irritada a reparar nisso mesmo, João: a suavidade da voz deste gémeo idêntico. Mas, no fim, um assomo de rebeldia e a pele do velho Sócrates: “Estou muito satisfeito comigo”. Tiques…
Sim, os tiques estavam lá, bem no fundo. Mas a nova faceta, a nova roupagem, não me convenceu: prefiro as pessoas assumidas, com ou sem mau feitio. Mesmo que se apercebam disso a dada altura e que, reconhecendo-o, tentem conter-se e moderar-se, é bom que não deixem de ser o que são. O resto é falsidade. Não gosto de quem se transforma em clone de si mesmo.
Não convence ninguém, João: a mudança foi radical, instantânea e por causas óbvias. O que só prova que nada mudou, no fundo: ele continua a considerar as pessoas estúpidas…
A voz serena da Ana Lourenço desperta a suavidade que há em si!
ehehe
Em mim?
eheheheh
Pode ser em si, assim não meterá dó ehehehehe
:))))
Aaaaaaaaaaahhhhhh!!!…
Mero marketing político que não convence ninguém. Sócrates não é nada credível neste papel de político sussurrante em que surgiu agora. Não vai conseguir manter-se assim durante muito tempo.
Político sussurrante? Gostei disso. Quanto tempo aguentará?
Muito pouco, aposto. O animal feroz asfixia na pele de cordeiro. Há-de sair, mais dia menos dia.
eu cá gostei muito da entrevistadora…
Tem uma coisa boa: é sóbria. E ainda tem outras coisas boas.
Sócrates não foi diferente. A diferença esteve, isso sim, na competência da entrevistadora Ana Lourenço, que deu uma lição de como fazer uma entrevista, como fazer bom jornalismo, a outros jornalistas como Judite de Sousa ou Ricardo Costa, para só citar alguns.
Eu percebo o seu caso, Clara: também vi os comentadores televisivos de ontem. Não era preciso esperar tantos dias para vir aqui repetir a apreciação do António Costa ontem à noite.
A voz sempre tranquila da Ana Lourenço não invalida que tenha cortado e retirado a palavra várias vezes a Sócrates, quando ele começava a trivergir. A diferença esteve mesmo nele, por muitas voltas que se dêem.
Olhe, por acaso não vi A Quadratura, vou ver agora às 13 h. Continuo a achar que Sócrates se limitou a ser educado com quem foi educado com ele (o que não se passa na AR). Mas, se houve alguma mudança, isso só evela que Sòcrates é inteligente.
Inteligentíssimo. Não desfazendo.