A mulher de César


Ana Vidal,

Esqueçamos, por um momento, a legalidade ou ilegalidade dos meios que levam à investigação do primeiro ministro. Esqueçamos o inacreditável número de escândalos em que o seu nome está envolvido desde o primeiro dia, com razão ou sem ela. Esqueçamos a possível manipulação do aparelho judicial. Esqueçamos o papel da comunicação social. Esqueçamos a pressão política da oposição, sintomaticamente unida como há muito tempo não se via. Esqueçamos a crise económica. Esqueçamos todos estes sound bytes que nos deixam aturdidos e confusos, no meio de uma situação caótica e inédita na história recente deste país. A minha questão vai muito mais atrás, muito mais fundo: onde anda a velha honra portuguesa, a verticalidade e o carácter que fizeram com que – por infinitamente menos do que as suspeitas que pairam sobre Sócrates –  vários políticos tivessem posto o superior interesse do país acima do seu e se tivessem afastado pelo seu próprio pé, até que tudo estivesse esclarecido e o seu nome estivesse limpo? 

 

É a velha história da mulher de César, que em política não é uma questão menor.  Não está em causa apenas a credibilidade de um primeiro ministro, mas também a das instituições e a de um país inteiro, perante si próprio, a Europa e o Mundo. Até a tradicional apatia dos portugueses já foi sacudida, acicatada por uma situação de carência generalizada e pelo cansaço da impotência. Já não resta ao primeiro ministro muito tempo para sair dignamente desta situação aberrante. E fico abismada com aquilo a que assisto: será que Sócrates prefere ser "empurrado" por uma enxurrada de lama que há-de um dia destes soterrá-lo de vez, julgado e linchado em praça pública muito antes de que a justiça o condene ou ilibe? Será que o vício do poder e a arrogância de não dar o braço a torcer valem, para ele, este enxovalho sem precedentes? Qual o limite do preço a pagar pela ambição?

 

23 comentários em “A mulher de César”

  1. Isso depende do PS acima de tudo, Ana. Aguardemos pelas próximas declarações de personalidades como Jaime Gama, António Vitorino, António Costa, Carlos César e António José Seguro, entre algumas outras.

      1. Não haverá por aí uma contradição nos termos,minha cara…

        E o que resulta disto tudo é o sentimento de impunidade, a sobranceria e arrogância destas personagens e a ideia que parece subjacente, de alguma cumplicidade e protecção de uma zona do poder judicial, atenta veneradora e obrigada…

      1. Eu acho que o fim da bengalada como método de resolver as nossas divergências foi um claro retrocesso civilizacional.

        Veja-se a vitalidade dos parlamentos asiáticos: quando o debate político ferve, ferve mesmo. Não é mais degradante que a nossa “vida política”, e sempre proporciona grandes momentos televisivos.

  2. Parece-me que tocou no ponto e que Sócrates prefere na verdade, ser empurrado, arrastando-se pelo chão, sujo e sem dignidade, a sair pelo seu próprio pé, com a verticalidade e o aprumo que deveria estar inerente ao cargo que ocupa, isto, note-se, independentemente de terem ou não razão de ser as inúmeras peripécias de que tem vindo a ser acusado desde há meses. Outras figuras da nossa cena política, com muito menos relevância do que JS, fizeram-no em defesa do seu bom nome e da sua honra, até que tudo fosse devidamente esclarecido e, em alguns casos até, provou-se terem sido injustamente acusados.
    Agindo desta maneira, Sócrates está a ter o mesmo tipo de comportamento de alguns autarcas e ditadores que todos conhecemos, que não admitem largar o poleiro de forma alguma a não ser que alguém os empurre e já não haja ninguém que os ajude a levantarem-se.

  3. 1- porque é que o sócrates quer controlar a comunicação social se nem a rtp e rdp, sob a sua tutela, consegue controlar?

    2- continuem a refugiar-se nestes casos de asfixia&censura e daqui a 4 anos surpreendam-se novamente com os resultados eleitorais. as pessoas não são burras e vêem perfeitamente que quem disser mal do lucifer tem tempo de antena garantida. por isso continuem…..

    1. Não sei exactamente a quem se destina o seu comentário (no plural), eu limito-me aqui a fazer perguntas básicas sobre coisas que me incomodam ou intigam.

  4. Porque será que o individuo em causa tem “que sair dignamente desta situação aberrante”, quando é o responsável de um governo e de um partido que nas ultimas sondagens (três dias atrás) está com mais de dez pontos à frente do maior partido da oposição.
    será que o povo é burro?

    1. Não é burro, é só avesso à mudança e está atordoado com a situação calamitosa do país. Sócrates é um líder (valha isso o que valer, no caso dele), e os portugueses preferem sempre quem mande neles a quem os faça responsáveis. É o que temos…

  5. Eu receio, Ana, que o PM não largue o poder, não já por amor ao poder, mas por amor à pele. É sabido que a nossa Justiça não enfrenta as pessoas enquanto são poderosas. Mas não se inibe de o fazer quando deixam de o ser. O Sócrates fora do Governo e da liderança partidária ficaria em situação muito vulnerável e não me surpreenderia que fosse isso o que ele mais teme.

  6. Se os ataques à honra dos políticos, sem prova, os obrigassem a demitir-se, isso passaria a ser uma maneira fácil de derrubar um adversário político. É sempre possível inventar coisas sobre os outros, sobretudo intensões.
    O Governo tem a intensão de sufocar a comunicação social. É tão fácil dizer isto! E as provas?

    1. É sempre possível inventar, sim. Mas no caso de Sócrates nem é preciso, tantas são as “coisas” que ele próprio fornece… e não falo só de intenções.

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