Esqueçamos, por um momento, a legalidade ou ilegalidade dos meios que levam à investigação do primeiro ministro. Esqueçamos o inacreditável número de escândalos em que o seu nome está envolvido desde o primeiro dia, com razão ou sem ela. Esqueçamos a possível manipulação do aparelho judicial. Esqueçamos o papel da comunicação social. Esqueçamos a pressão política da oposição, sintomaticamente unida como há muito tempo não se via. Esqueçamos a crise económica. Esqueçamos todos estes sound bytes que nos deixam aturdidos e confusos, no meio de uma situação caótica e inédita na história recente deste país. A minha questão vai muito mais atrás, muito mais fundo: onde anda a velha honra portuguesa, a verticalidade e o carácter que fizeram com que – por infinitamente menos do que as suspeitas que pairam sobre Sócrates – vários políticos tivessem posto o superior interesse do país acima do seu e se tivessem afastado pelo seu próprio pé, até que tudo estivesse esclarecido e o seu nome estivesse limpo?
É a velha história da mulher de César, que em política não é uma questão menor. Não está em causa apenas a credibilidade de um primeiro ministro, mas também a das instituições e a de um país inteiro, perante si próprio, a Europa e o Mundo. Até a tradicional apatia dos portugueses já foi sacudida, acicatada por uma situação de carência generalizada e pelo cansaço da impotência. Já não resta ao primeiro ministro muito tempo para sair dignamente desta situação aberrante. E fico abismada com aquilo a que assisto: será que Sócrates prefere ser "empurrado" por uma enxurrada de lama que há-de um dia destes soterrá-lo de vez, julgado e linchado em praça pública muito antes de que a justiça o condene ou ilibe? Será que o vício do poder e a arrogância de não dar o braço a torcer valem, para ele, este enxovalho sem precedentes? Qual o limite do preço a pagar pela ambição?

Isso depende do PS acima de tudo, Ana. Aguardemos pelas próximas declarações de personalidades como Jaime Gama, António Vitorino, António Costa, Carlos César e António José Seguro, entre algumas outras.
Mas também do próprio, Pedro. Por uma questão de carácter e de amor-próprio.
Não haverá por aí uma contradição nos termos,minha cara…
E o que resulta disto tudo é o sentimento de impunidade, a sobranceria e arrogância destas personagens e a ideia que parece subjacente, de alguma cumplicidade e protecção de uma zona do poder judicial, atenta veneradora e obrigada…
A “velha honra portuguesa”, com a Ana diz e bem, é precisamente isso: velha. Caiu em desuso, como as bengalas.
Então, se calhar quem não a tem devia ser tratato à moda do Eça: à bengalada.
Eu acho que o fim da bengalada como método de resolver as nossas divergências foi um claro retrocesso civilizacional.
Veja-se a vitalidade dos parlamentos asiáticos: quando o debate político ferve, ferve mesmo. Não é mais degradante que a nossa “vida política”, e sempre proporciona grandes momentos televisivos.
Também acho. E não é, com certeza, mais degradante do que o que temos à vista.
Parece-me que tocou no ponto e que Sócrates prefere na verdade, ser empurrado, arrastando-se pelo chão, sujo e sem dignidade, a sair pelo seu próprio pé, com a verticalidade e o aprumo que deveria estar inerente ao cargo que ocupa, isto, note-se, independentemente de terem ou não razão de ser as inúmeras peripécias de que tem vindo a ser acusado desde há meses. Outras figuras da nossa cena política, com muito menos relevância do que JS, fizeram-no em defesa do seu bom nome e da sua honra, até que tudo fosse devidamente esclarecido e, em alguns casos até, provou-se terem sido injustamente acusados.
Agindo desta maneira, Sócrates está a ter o mesmo tipo de comportamento de alguns autarcas e ditadores que todos conhecemos, que não admitem largar o poleiro de forma alguma a não ser que alguém os empurre e já não haja ninguém que os ajude a levantarem-se.
É isso mesmo que penso, Luís. Não entendo que a ambição valha mais do que a honra para alguém.
1- porque é que o sócrates quer controlar a comunicação social se nem a rtp e rdp, sob a sua tutela, consegue controlar?
2- continuem a refugiar-se nestes casos de asfixia&censura e daqui a 4 anos surpreendam-se novamente com os resultados eleitorais. as pessoas não são burras e vêem perfeitamente que quem disser mal do lucifer tem tempo de antena garantida. por isso continuem…..
Não sei exactamente a quem se destina o seu comentário (no plural), eu limito-me aqui a fazer perguntas básicas sobre coisas que me incomodam ou intigam.
Porque será que o individuo em causa tem “que sair dignamente desta situação aberrante”, quando é o responsável de um governo e de um partido que nas ultimas sondagens (três dias atrás) está com mais de dez pontos à frente do maior partido da oposição.
será que o povo é burro?
Não é burro, é só avesso à mudança e está atordoado com a situação calamitosa do país. Sócrates é um líder (valha isso o que valer, no caso dele), e os portugueses preferem sempre quem mande neles a quem os faça responsáveis. É o que temos…
Infelismente é assim, nós é que somos os detentores da verdade e da inteligencia, os outros só servem para encher.
??
Eu receio, Ana, que o PM não largue o poder, não já por amor ao poder, mas por amor à pele. É sabido que a nossa Justiça não enfrenta as pessoas enquanto são poderosas. Mas não se inibe de o fazer quando deixam de o ser. O Sócrates fora do Governo e da liderança partidária ficaria em situação muito vulnerável e não me surpreenderia que fosse isso o que ele mais teme.
Bem visto, Luísa. Talvez seja isso mesmo: uma vez perdida toda a vergonha, o que resta é salvar a pele.
Se os ataques à honra dos políticos, sem prova, os obrigassem a demitir-se, isso passaria a ser uma maneira fácil de derrubar um adversário político. É sempre possível inventar coisas sobre os outros, sobretudo intensões.
O Governo tem a intensão de sufocar a comunicação social. É tão fácil dizer isto! E as provas?
Ó Velho, como vai a sua vista cansada?
Boa pergunta.
É sempre possível inventar, sim. Mas no caso de Sócrates nem é preciso, tantas são as “coisas” que ele próprio fornece… e não falo só de intenções.
Ana, em política o que parece, é. Disse o António Oliveira (de quem nunca gostei).
Por isso mesmo, Mike…