
“As mulheres carregam nos olhos os fogos dos sete infernos. Pode-se pegar na carne delas, qualquer trecho do corpo: é quente. Não será do sol do mundo. É das antiquíssimas labaredas, que elas atravessam sem se queimar. Mas o fogo aquece-as para sempre e a cintilância das labaredas perdura, anzol ou garra de ar.
As mulheres quando morrem vão, mas voltam vestidas de outras peles e de outros cabelos para continuar os serviços lá delas. O diabo autoriza quando estão no ponto: “Voltem”. O diabo sabe o que faz. Aí elas se misturam de novo no meio dos povos e o aroma delas é de raízes silvestres. As curvas feitas nas ancas são cavadas pessoalmente pelo diabo que recheia muito bem recheada a parede das ancas. Ele mira e remira as ancas e satisfeito sorri, o hábil oleiro. O diabo ensina as artes de falar; de sorrir; de prometer; de chorar; de aliciar; de imantar, de fingir, até elas alcançarem a sabedoria: para ir deixando um rastro de estragos.
Dizem que há exceções. Quanto a essa parte não sei.”
Veio parar-me às mãos este texto, altamente provocatório, do escritor brasileiro Haroldo Maranhão. Classificá-lo não é fácil: para além da óbvia ironia, é apenas misógino ou também sábio? Sei que, lido há alguns anos, ele teria despertado em mim uma fúria imediata e temível, capaz de pôr-me a esgrimir toda a espécie de armas afiadas em defesa da(s) minha(s) dama(s). Lido hoje, provoca-me, sobretudo, um sorriso divertido. E alguma (magnânima?) concordância, devo admitir.
Há qualquer coisa, realmente, na natureza feminina – a influência em nós dos ciclos lunares que o diga – que está profundamente ligada aos primórdios. E os homens sempre diabolizaram o que não entendem e os assusta, exactamente porque não o entendem. Muitas "bruxas" acabaram na fogueira por causa disso, literalmente ou em sentido figurado. Eles não sabem, claro, que tudo o que queremos é amá-los. Mas sentem, ou intuem (a intuição é mais do nosso foro, pelo que será talvez instinto de sobrevivência), que esse amor pode, por vezes, ser-lhes fatal.
O tão aclamado "sagrado feminino" encerra em si um enorme poder que tem alguma coisa de perverso, há que reconhecê-lo. A infinita complexidade das mulheres (e também a pura necessidade, num mundo predominantemente patriarcal), muniu-as de várias e sofisticadas armas, que tantas vezes usam de maneira pouco limpa. E os homens, com toda a sua pirotecnia de superioridade, são afinal muito mais vulneráveis. Mais expostos. Até porque lhes é exigido que exibam os atributos de uma força que lhes deve ser natural. As mulheres podem recolher as garras e simular fragilidade, se isso lhes convier, mas aos homens tal não é permitido: presos na sua própria teia, cumprem o arquétipo que lhes foi atribuído, pagando bem caro o preço da previsibilidade. Resta-lhes esmagá-las com essa mesma força primária de que são, eles próprios, cativos. Tudo isso antes que o façam elas, de formas bem mais subtis e quase sempre mais devastadoras.
Seja como for, uns e outros navegam, desde sempre, num único e irremediável equívoco: presumir que a outra metade fala a mesma língua. Interpretamo-nos uns aos outros à luz de códigos duplos, julgando-os idênticos. E todos os conflitos derivam daí.
Imagem: (Daphne, aguarela de Teresa Cálem)