Então é assado, digo eu


Ana Vidal,

 

Este é o resumo de um filme animado de produção dinamarquesa/canadiana "Como se fazem os bebés – Educação sexual para crianças". Foi dobrado em português e é transmitido, na íntegra, pela RTP2. Não desejo mal aos leitores do DO, por isso poupo-vos à versão integral.

 

Perguntas:

 

1. Como será a geração de adultos que tenha tido por educação sexual esta preciosidade?

2. Quando deixaremos de ser saloios e de abrir os braços alegremente a estas patacoadas, só porque vêm de países que consideramos mais civilizados do que o nosso?

3. Terão filhos os responsáveis por esta escolha de conteúdos infantis?

4. Porque não pouparam, ao menos, as crianças surdas a este vírus mental?

 

Aceitam-se respostas, justificações ou pedidos de desculpa às crianças portuguesas.

Auschwitz style


Ana Vidal,

 

Já ouvi mais do que um estilista português afirmar – com ar  ofendido, ainda por cima – que não existe anorexia na moda portuguesa. A afirmação que sustentam, obviamente falsa, é ainda mais grave porque vem de pessoas que são co-responsáveis por uma realidade dramática que só elas parecem não ver.

Revolta-me a indiferença, ou, o que é pior, a lúcida cumplicidade no crime. Os distúrbios alimentares são um dos grandes flagelos com que se debatem as sociedades ocidentais, hoje em dia. A nossa também, como é evidente. Talvez menos do que outras, comparativamente, mas não é por isso menos preocupante. Não existe anorexia??? Por favor! E, mesmo que não existisse "no interior" do mundo da moda (o que é falso), o que dizer do mundo "cá fora", a quem a moda se destina? Ou será que a influência daquelas figurinhas cadavéricas (que dão pelo nome de manequins) nos adolescentes, também é inexistente? É só ter a coragem de ir até ao Hospital de Santa Maria, por exemplo, e ver… com olhos de quem quer ver. Mais: não é apenas um problema feminino. Cada vez mais está a afectar os rapazes também.

 

Se pensarmos que é exactamente do mundo da moda que pode vir a solução para resolver uma boa parte deste terrível problema, não me parece exagerado falar em atitude criminosa. A Organização Mundial de Saúde anda, há anos, a apelar repetidamente aos grandes costureiros e opinion leaders da moda internacional – que ditam como devemos ser por fora – que promovam uma imagem feminina mais saudável, o que passa naturalmente por um peso equilibrado. Mas nada muda. Só Espanha, inteligentemente, lhe deu ouvidos (A Moda Madrid, com a exigência de um peso mínimo para as manequins, conseguiu a atenção do mundo inteiro e muita publicidade de borla para os desfiles, além da simpatia geral). É incompreensível que todos os países não lhe tenham seguido o exemplo. Seria tão fácil! Os gurus da moda têm um poder tal, que bastaria a sugestão de uma mulher mais "cheia" como ideal de beleza, para que todas as mulheres do ocidente quisessem parecer-se com ela.

Isto para não falar de outra aberração: utilizar esquálidas rapariguinhas de 13 e 14 anos (autênticas Lolitas autorizadas), produzidas como se fossem adultas, desfilando roupas que se destinam a gente muito mais madura, que é a que tem poder de compra. Esse é outro escândalo, que deveria também ser visto com atenção. Até porque ambos estão intimamente ligados: numa idade em que os corpos não estão ainda completamente formados, as carências alimentares – e também as drogas e o álcool que elas usam para iludir a fome – impedem o normal desenvolvimento e causam outras doenças graves. É irónico, sobretudo se pensarmos na irrisória duração destas carreiras, mesmo as (poucas) bem sucedidas. É inadmissível que se continue a tapar o sol com a peneira, fingindo que está tudo bem. Em Portugal ou em qualquer lado.

 

Nota: A propósito deste post da Ana Margarida, a quem roubei o título.

Rasgos (4)


Ana Vidal,

 

Todos os dragões da nossa vida são, talvez, princesas que esperam ver-nos um dia belos e corajosos. Todas as coisas aterradoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos.

(Rilke)

 

Nota: A propósito deste belo texto do Luís Naves, no Albergue Espanhol, que me lembrou tudo o que absorvi recentemente no Oriente, sobretudo no Camboja.

 

Blogue da semana


Ana Vidal,

 

Entre com tempo para uma visita que ultrapasse a mera cortesia. Instale-se confortavelmente e vá passando os olhos pelo requinte dos textos de opinião e de divulgação, os ouvidos pelo bom gosto das escolhas musicais. Nesta casa impera a discrição – privilégio dos que sabem bem o que valem – mas não se iluda: essa discrição não consegue esconder o espírito aberto, curioso e infatigável de quem nela vive. Infatigável, sim, apesar de se auto-definir como preguiçoso. Tudo ali tem a assinatura personalizada da sólida erudição do Ricardo António Alves, um blogger sofisticado e profícuo (assina sete blogues, nada menos) que leva a sério a paixão de comunicar e partilhar conhecimentos. É um homem indelevelmente ligado à cultura, não só por força da profissão como por natureza. Cinéfilo, melómano, literato, poeta, não é por tudo isso que deixa de ser uma simpatia. Tratamo-nos carinhosamente por "vizinhos", porque o somos geograficamente e também em questões de sensibilidade, mesmo quando as opiniões não coincidem.

 

Razões de sobra para que a minha escolha do blogue da semana seja o Abencerragem, que já está (não sei como escapou até agora) na nossa barra lateral.

Aromas de urze e de lama


Ana Vidal,

 

 

“As mulheres carregam nos olhos os fogos dos sete infernos. Pode-se pegar na carne delas, qualquer trecho do corpo: é quente. Não será do sol do mundo. É das antiquíssimas labaredas, que elas atravessam sem se queimar. Mas o fogo aquece-as para sempre e a cintilância das labaredas perdura, anzol ou garra de ar.

As mulheres quando morrem vão, mas voltam vestidas de outras peles e de outros cabelos para continuar os serviços lá delas. O diabo autoriza quando estão no ponto: “Voltem”. O diabo sabe o que faz. Aí elas se misturam de novo no meio dos povos e o aroma delas é de raízes silvestres. As curvas feitas nas ancas são cavadas pessoalmente pelo diabo que recheia muito bem recheada a parede das ancas. Ele mira e remira as ancas e satisfeito sorri, o hábil oleiro. O diabo ensina as artes de falar; de sorrir; de prometer; de chorar; de aliciar; de imantar, de fingir, até elas alcançarem a sabedoria: para ir deixando um rastro de estragos.

Dizem que há exceções. Quanto a essa parte não sei.”

Veio parar-me às mãos este texto, altamente provocatório, do escritor brasileiro Haroldo Maranhão. Classificá-lo não é fácil: para além da óbvia ironia, é apenas misógino ou também sábio? Sei que, lido há alguns anos, ele teria despertado em mim uma fúria imediata e temível, capaz de pôr-me a esgrimir toda a espécie de armas afiadas em defesa da(s) minha(s) dama(s). Lido hoje, provoca-me, sobretudo, um sorriso divertido. E alguma (magnânima?) concordância, devo admitir.

 

Há qualquer coisa, realmente, na natureza feminina – a influência em nós dos ciclos lunares que o diga – que está profundamente ligada aos primórdios. E os homens sempre diabolizaram o que não entendem e os assusta, exactamente porque não o entendem. Muitas "bruxas" acabaram na fogueira por causa disso, literalmente ou em sentido figurado. Eles não sabem, claro, que tudo o que queremos é amá-los. Mas sentem, ou intuem (a intuição é mais do nosso foro, pelo que será talvez instinto de sobrevivência), que esse amor pode, por vezes, ser-lhes fatal.

 

O tão aclamado "sagrado feminino" encerra em si um enorme poder que tem alguma coisa de perverso, há que reconhecê-lo. A infinita complexidade das mulheres (e também a pura necessidade, num mundo predominantemente patriarcal), muniu-as de várias e sofisticadas armas, que tantas vezes usam de maneira pouco limpa. E os homens, com toda a sua pirotecnia de superioridade, são afinal muito mais vulneráveis. Mais expostos. Até porque lhes é exigido que exibam os atributos de uma força que lhes deve ser natural. As mulheres podem recolher as garras e simular fragilidade, se isso lhes convier, mas aos homens tal não é permitido: presos na sua própria teia, cumprem o arquétipo que lhes foi atribuído, pagando bem caro o preço da previsibilidade. Resta-lhes esmagá-las com essa mesma força primária de que são, eles próprios, cativos. Tudo isso antes que o façam elas, de formas bem mais subtis e quase sempre mais devastadoras.

 

Seja como for, uns e outros navegam, desde sempre, num único e irremediável equívoco: presumir que a outra metade fala a mesma língua. Interpretamo-nos uns aos outros à luz de códigos duplos, julgando-os idênticos. E todos os conflitos derivam daí.

 

Imagem: (Daphne, aguarela de Teresa Cálem)

  

Justiça Lucky Luke


Ana Vidal,

 

Finalmente, parece que foi encontrada a solução para uma justiça mais rápida em Portugal. Na verdade, com esta nova ajuda poderá até vir a ser "mais rápida que a própria sombra": para pedófilos, violadores e afins, por exemplo, por que não termos um juíz que profira a sentença e a execute logo ali no tribunal, com um máximo de eficácia, de economia de meios e, last but not the least, sem  o menor risco de reincidência? Uma limpeza, não?

Frescuras


Ana Vidal,

"É preciso olhar para os números do desemprego com um olhar refrescado."

(Ministra do Trabalho, hoje, na Assembleia da República)

 

Temos tentado, senhora ministra. Acredite que temos tentado todos, com afinco, refrescar o olhar. Mas, apesar de até a chuva e o frio colaborarem há meses com esse seu belo desejo… fresca e leve, só mesmo a nossa carteira.

 

E se se deixasse de frescuras, senhora ministra?

 

Rasgos (2)


Ana Vidal,

Quando o milionário americano Howard Hughes morreu, um jornalista perguntou ao seu advogado:

— Quanto é que ele deixou?

— Tudo. – respondeu o advogado.

Traço largo


Ana Vidal,

 

Era uma mulher difícil de descrever. Todos os que a conheciam gostavam dela, mas como se gosta de alguém que nunca nos incomoda nem provoca em nós qualquer sentimento de desconforto, e talvez  por isso mesmo não nos prende a atenção. Nunca levantava a voz, não fazia movimentos bruscos, não tinha quase peso específico que fizesse deslocar o ar à sua passagem. Diluía-se na decoração, nas conversas, no ruído de fundo, a ponto de tornar-se transparente. Ninguém saberia dizer como estava vestida numa festa, se mudara de penteado, se emagrecera ou engordara, porque a sua imutabilidade estava estabelecida há muito por todos e era inquestionável, ainda que não fosse real. Dizia sempre o que era esperado e parecia esperar sempre o que lhe diziam com uma serenidade feita de bom senso ou de apatia, mas de qualquer modo inalterável. O seu universo era a família numerosa que criara e para a qual vivia em exclusivo, como exemplar provedora que era: a satisfação dos menores caprichos do marido, barulhento e boémio, que a ignorava olimpicamente, os inúmeros problemas de uma prole que ia dos três aos dezoito anos, a casa, as escolas, as lancheiras, a roupa que passava de uns para os outros com esmero e dignidade. O seu campo de acção estendia-se aos amigos em apuros, que encontravam nela um ombro e um par de ouvidos sempre que a vida lhes era madrasta. Não opinava, apenas ouvia e sorria, ouvia e abraçava, ouvia e calava.

 

Sempre achei que aquele olhar tímido e aquele sorriso eternamente  solícito escondiam uma quase imperceptível tensão interior, como se vivesse nela um pássaro assustado, acossado, em permanente estado de alerta. Tudo nela tinha ficado por desatar, por descobrir, por viver. Vivia as muitas vidas à sua volta e não ousava ter uma que fosse só sua. Não chegou a tê-la. Morreu um dia destes, com a mesma discrição com que atravessou as vidas alheias: apagou-se enquanto dormia, sem incomodar ninguém nem causar agitação no descanso nocturno da família. Só de manhã, quando tudo começou a falhar na rotina diária, perceberam que não contariam mais com ela. Aneurisma, garantiram-me. Mas eu acho que ela implodiu.

Da natureza humana


Ana Vidal,

 

A propósito da situação desesperada no Haiti, constato, uma vez mais, uma curiosa faceta da natureza humana: mostra o seu lado mais nobre sempre que há uma catástrofe, sobretudo quando ela se manifesta a esta escala. As pessoas mobilizam-se, dão-se, ajudam com brio, coragem e altruísmo… e depois esquecem esse rasgo de generosidade que as galvanizou por algum tempo e voltam a fechar-se na sua rotina de anestesia, mal o drama abranda e a vida volta ao normal.

 

Pergunto-me: será que precisamos de ter bem presentes a nossa própria vulnerabilidade, a nossa impotência, para acordarmos da sonolenta indiferença que nos domina o dia a dia? Será que deveria haver sempre uma tragédia por perto, para sermos melhores pessoas?

Rasgos (1)


Ana Vidal,

 

Rien n’est plus beau qu’un corps nu.  

Le plus beau vêtement qui puisse habiller une femme

ce sont les bras de l’homme qu’elle aime. 

Mais, pour celles qui n’ont pas eu la chance de trouver ce bonheur… 

je suis là.  

 

Yves Saint Laurent

 

Leituras


Ana Vidal,

"Un homme qui préfère la voix de sa conscience à celle de son amour, peut être un héros aux yeux des hommes. Mais il est certain qu’il n’est pas mon homme, dis-je tranquilement."

"Pénélope", in Paix à Ithaque, Sándor Márai.

 

Sacofilia?


Ana Vidal,

 

Não percebi bem se a paixão proibida terá sido por uma rechonchuda mala de porão (passageira no iate do milionário Bernard Arnault, em Pequim) ou por um elegante saco de fim-de-semana (convidado francês da sua casa de campo, em Inglaterra). Em qualquer dos casos, a avaliar pelas suspeitas do Daily Telegraph, parece que o endiabrado Tony Blair anda a cometer "um horrível incesto". Será com um necessaire Louis Vuitton, fruto de um desses estranhos amores?

 

E andamos nós por cá preocupados com o casamento gay…

Crise sonora


Ana Vidal,

 

A RTP 2 tinha hoje à tarde, a apresentar as notícias, uma pivot quase completamente afónica. Dificilmente se percebia o que dizia, e tive mesmo de subir o som para conseguir ouvir alguma coisa. Nunca tal tinha visto, e a situação chegaria a ser cómica se não fosse tão confrangedor o visível esforço que a pobre jornalista fazia para falar. Sinais da crise? Se era essa a razão, aposto que não foi grande a poupança: o tratamento e repouso daquelas cordas vocais esticadas ao limite vão sair mais caros do que uma ou duas horas de uma substituta, pagas a recibo verde.

Ajudar


Ana Vidal,

A propósito deste meu post, a nossa comentadora Sahba deixou o seguinte apelo:


 

Estou a envidar esforços no sentido de lançar algo semelhante a isto em Portugal: http://www.contact-the-elderly.org.uk/

Quem quiser contribuir, contacte-me através do mail: sahba.sanai+ctelderly@gmail.com

 


Fico contente por pensar que o Delito possa ter contribuído de alguma forma, ínfima que seja, para uma ajuda real a um problema premente da sociedade portuguesa.