
Já ouvi mais do que um estilista português afirmar – com ar ofendido, ainda por cima – que não existe anorexia na moda portuguesa. A afirmação que sustentam, obviamente falsa, é ainda mais grave porque vem de pessoas que são co-responsáveis por uma realidade dramática que só elas parecem não ver.
Revolta-me a indiferença, ou, o que é pior, a lúcida cumplicidade no crime. Os distúrbios alimentares são um dos grandes flagelos com que se debatem as sociedades ocidentais, hoje em dia. A nossa também, como é evidente. Talvez menos do que outras, comparativamente, mas não é por isso menos preocupante. Não existe anorexia??? Por favor! E, mesmo que não existisse "no interior" do mundo da moda (o que é falso), o que dizer do mundo "cá fora", a quem a moda se destina? Ou será que a influência daquelas figurinhas cadavéricas (que dão pelo nome de manequins) nos adolescentes, também é inexistente? É só ter a coragem de ir até ao Hospital de Santa Maria, por exemplo, e ver… com olhos de quem quer ver. Mais: não é apenas um problema feminino. Cada vez mais está a afectar os rapazes também.

Isto para não falar de outra aberração: utilizar esquálidas rapariguinhas de 13 e 14 anos (autênticas Lolitas autorizadas), produzidas como se fossem adultas, desfilando roupas que se destinam a gente muito mais madura, que é a que tem poder de compra. Esse é outro escândalo, que deveria também ser visto com atenção. Até porque ambos estão intimamente ligados: numa idade em que os corpos não estão ainda completamente formados, as carências alimentares – e também as drogas e o álcool que elas usam para iludir a fome – impedem o normal desenvolvimento e causam outras doenças graves. É irónico, sobretudo se pensarmos na irrisória duração destas carreiras, mesmo as (poucas) bem sucedidas. É inadmissível que se continue a tapar o sol com a peneira, fingindo que está tudo bem. Em Portugal ou em qualquer lado.
Nota: A propósito deste post da Ana Margarida, a quem roubei o título.

Ana: Enquanto o prato e os talheres me abrem o apetite, a menina só me dá fastio. Francamente, haverá alguém que possa achar alguma graça a um ser esquelético e cadavérico como a que aqui se apresenta? É isto um modelo? Diante deste exemplar, não é difícil a qualquer comum mortal fazer figura de Afrodite ou de Apolo. 🙂
O mistério é esse, Luís: se ninguém gosta deste modelo feminino, porque é que continua a ser uma referência? É uma coisa que me ultrapassa e que gostava, sinceramente, que alguém me explicasse.
Por um lado, temos os ditadores da moda, que independentemente do sexo e preferência sexual, parecem detestar tudo o que belo. Isso nota-se nos corpos moribundos das modelos, nota-se na maquilhagem e penteados dos modelos, nota-se na roupa. Por vezes, parecem verdadeiras personagens tiradas de um filme de terror.
Por outro lado, lado temos os pais irresponsáveis que deixam os filhos (n são só as meninas) seguirem essa vida em idade tão tenra, e não há inspecção do trabalho que faça algo. Supostamente, só poderiam trabalhar a partir dos 16. Volta e meia vêem-se reportagens sobre meninos que pastam cabras, ou meninos que andam nas obras, mas não se vêem reportagens sobre as meninas que não podem comer e têm de andar como cavalos.
Por último, a ausência de figuras paternais fortes que representem um modelo a seguir, leva os adolescentes a procurarem esses exemplos em reality shows” e capas de revistas. Afinal de contas, para ser como eles, basta saber andar a direito e não comer. Isso não requer grande esforço e nem são obrigados a estudar.
Não me recordo de no meu tempo haver este tipo de idolatria e também não me recordo de passar em escolas e ver tantos corpos deformados.
No meu tempo éramos todas cheiinhas , boas, rechonchudas. Até me recordo de ter uma amiga que, devido a um problema de saúde, era demasiado magra. Na altura, isso não era atraente, agora os diabetes proporcionam-lhe um corpo de modelito .
Nesse tempo também não havia obesos, que eu me lembre. Estávamos todos naquele intermédio saudável, meio chubby ” e que agora não se vê nos jovens.
O que se perdeu pelo caminho? Afinal de quem é a culpa?
Parece-me que a culpa tem de ser partilhada, Helena. E as soluções também, se quisermos que a situação mude mesmo. A questão que levanta – a responsabilidade dos pais – é muito importante e aplica-se também a outros “pecados”. Ainda há pouco tempo falámos disso aqui, a propósito das crianças/estrelas na televisão. E de facto vejo toda a gente indignar-se com o trabalho adolescente noutras circunstâncias, mas poucos parecem achar que isto é exactamente o mesmo, ou pior.
Ana
Também´tenho seguido esta situação com muita preocupação, mas a moda tem de facto muito poder, sobretudo no grupo das adolescentes, que é muito influenciável. Se a imagem “in” é um esqueleto, é nisso que elas tentarão transformar-se.
Nunca consegui perceber o que é que os gurus da moda têm na cabeça realmente, ao desfilar miúdas só pele e osso. Ainda é um fenómeno que me ultrapassa.
A mim também, Ana. Ultrapassa-me por completo.
Criadores, estilistas e outros gurus da moda deviam ser postos a pão e água até a balança os dar iguais às suas modelos. E mais nada.
Uma óptima ideia, João. A pão e água.
É o que me pareceu. Passava-lhes logo a sabedoria toda.
Aí tens uma excelente proposta, João. Provar do próprio veneno? Por mim, era já!
Boa noite Ana,
é recorremte falar-se da anprexia quando há desfiles de moda.
É redutor.
A anorexia existe com ou sem moda e nem me parece que seja a principal causa.
Isto independentemente de estar de acordo com o que diz quanto à exploração / utilização de jovens de 13 e 14 anos.
Mas a anorexia é uma doença do foro psiquiátrcio e deve ser falada não só quando há moda.
Cumprimentos
Bem sei, António. A anorexia ultrapassa largamente estas questões, mas a moda é uma face muito visível da doença e não estou nada certa de que não seja uma causa importante. Pelo menos é uma causa que pode ser combatida facilmente, talvez mais facilmente do que qualquer outra. E é isso que me indigna, entende?
Obrigada pela sua contribuição, que ajudou a enquadrar melhor este tema tão complexo.
Nota rápida: a foto é falsa, foi “photoshopada” para parecer aquele esqueleto ambulante. Isso não implica, todavia, que o problema não exista.
É possível e não me espanta que assim seja, João André. Mas a prova de que não está longe da realidade é que a fotografia postada pela Ana Margarida é real e sem retoques, tirada nos bastidores de um desfile.
Ana estou completamente de acordo com o post mas, não leve a mal, o título a mim parece-me absolutamente desadequado. Auschwitz foi uma coisa demasiado séria, demasiado trágica, foi o horror, o desespero a morte de 6 milhões de pessoas. O mundo da moda é outra coisa. mesmo que umas miúdas tontas dêem cabo da vida e da saúde por causa dela.
Claro que não levo a mal, Ariel, até porque o título não é meu. Mas eu, ao contrário, acho-o muito adequado (refere-se somente à imagem, ao look) e, sem querer fazer paralelos entre duas coisas evidentemente incomparáveis, penso que este problema é muito sério e que vai muito para além de caprichos de umas miúdas tontas, infelizmente. E agora sou eu que lhe peço que não me leve a mal o reparo.
Aí não estamos de acordo Ana. Eu não falei em capricho, embora grave para a saúde, física e mental, e com influência em mentes mais vulneráveis da juventude , este é um problema limitado e das sociedades da abundância. Há imensos manequins que nunca foram anoréxicos , aliás as mais glamorosas e de top não eram nem são anoréxicas . Hoje em dia estamos confrontados com um problema muito mais grave de saúde publica que é a obesidade, não é a anorexia.
Concordo, Ariel, embora a obesidade e a anorexia sejam duas faces da mesma moeda: os distúrbios alimentares, verdadeiro flagelo das sociedades ocidentais (ditas) civilizadas (as da abundância, como muito bem diz). Ambas estão em crescendo, por isso acho o assunto tão sério e tão importante que seja discutido.
Precisamente a obesidade de que bem falas e a fome no mundo é que me fizeram registar o anúncio de péssimo gosto da Eno, num ‘post’ perto de ti. Acho revoltante.
Tens razão. O slogan devia ser “Que luxo é comer!”, já que há tanta gente com fome…
O Criador foi hábil na concepção da natureza, mas falhou na sua execução, Ana. E um dos sinais desse falhanço é, de facto, a dificuldade que quase todos sentimos em encontrar um ponto de equilíbrio físico ao longo de toda a vida: ora nos sentimos gordos, ora magros, ora fortes, ora fracos, ora saudáveis, ora doentes, ora bem, ora mal, e nunca as situações de conforto, de satisfação e de autoconfiança são realmente duradouras. Outro sinal é que o espírito não seja capaz de comandar o corpo, mas, pelo contrário, seja comandado. 🙂
Grandes verdades, Luísa. Demasiados defeitos para o que se pretendia: uma criatura à imagem e semelhança do seu criador…