Imaginem, por momentos, que Aníbal Cavaco Silva, apoiado nos deputados do putativo ‘bloco central’ e com a suave aquiescência do primeiro-ministro, fazia aprovar na Assembleia da República uma lei destinada a impor aos canais de televisão, em sinal aberto e por cabo, as transmissões integrais dos discursos presidenciais sob pena de perderem o direito à existência. Imaginem, por momentos, que essa mesma lei – além de forçar a aparição de Cavaco na pantalha – determinava os conteúdos concretos desses canais, incluindo a interdição de mais de duas horas consecutivas de telenovelas, a proibição de mais de um intervalo para publicidade por programa e a difusão obrigatória do hino nacional duas vezes por dia.
Imaginem se uma coisa destas sucedesse em Portugal. Inacreditável, não? Mas o inacreditável por vezes acontece. O cenário acima descrito acaba de concretizar-se na Venezuela de Hugo Chávez: cinco canais televisivos – Radio Televisión Internanacional, Ritmo Son, Momentum, América TV, American Network e TV Chile – deixaram de transmitir, por decisão governamental. Como represália pela "violação da lei", segundo as autoridades de Caracas. Está consumado assim mais um passo no sentido da supressão da liberdade de expressão e da liberdade de informação na Venezuela.
Imaginem por momentos se uma coisa destas tivesse sucedido em Portugal.


Não achava nada mal um limite para telenovelas nem para a publicidade.
Acho que as TV’s têm acima de tudo de informar. E devem existir leis que garantam que essa função é cumprida.
Pelo que vi na imprensa houve uma TV venezuelana em que o conselho de administração proibiu os jornalistas de passarem os discursos do presidente, além de outras interferências nos critérios de publicação jornalista. Não pode ser assim.
Então aplaudirias, Daniel, uma lei que obrigasse todas as televisões portuguesas a passar na íntegra os discursos do Presidente? E de um Presidente que, como o Chávez, discursa todas as semanas durante várias horas?
Se estas normas legais vigorassem em Portugal, incluindo as dos intervalos publicitários e da duração das telenovelas, SIC e TVI já teriam sido encerradas há muito tempo. Ficávamos com a boa velha RTP estatizada que nos fez companhia ‘a solo’ durante várias décadas. Que bom.
Atenção: a fonte é tendenciosa e isso não nos deve impedir de termos a nossa própria versão crítica. Não se trata dos discursos “do Chavez”, mas dos do Presidente daquele país. Não é “o Chavez que mandou”, são emissões declaradas como de interesse nacional pela Lei daquele país que deve ser cumprida. Ou o estado de direito só serve a direita quando se trata de esmagar revoltas quando acontece com os sindicalistas da vizinha colômbia?
Mas não é só a fonte da notícia que é tendenciosa. Este blogue, que visito de vez em quando, também se me afigura tendencioso. Porque sei que nunca vou ver um posto com o título:
Venezuela perdoa dívida externa ao Haiti
http://www.aporrea.org/internacionales/n 149541.html
Cumprimentos
Caro Daniel, respondo apenas por mim: sou sempre muito tendencioso – muito mesmo – quando está em causa a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Seja onde for. Sobretudo em países onde vivem largos milhares de compatriotas nossos, como é a Venezuela.
Isso cheira-me a anedota, Daniel. Li e não acreditei que li. E não é segura e comprovadamente em mim que as nossas televisões têm um defensor incondicional.
Outra fonte aqui. Mas cheira-me que não será notício em nenhum dos jornais de circulação nacional – com excepção do avante e do esquerda.net, talvez. Porque será que acerto tantas vezes nas notícias que NÃO saem? Se calhar sou paranóico.
http://www.rnv.gov.ve/noticias/index.php?a ct=ST&f=37&t=118269
Cumprimentos.
Meu caro, não se trata aqui da solideriedade que se espera de um líder. Não. Trata-se dos abusos de poder contra a liberdade. E é só.
Um abraço.
ERRATA:
solidariedade
Daniel, entretanto não respondeu ao desafio que aqui lancei. Veria com bons olhos algo semelhante acontecer em Portugal? Não se mace, pois eu sei a resposta por antecipação: não veria, certamente.
… que atravessa o Atlântico, silenciando os seus indefectíveis apoiantes lusitanos, os tais da esquerda plural e humanista. Por que será?
A cepa retorcida,
com tantas calinadas,
tem sido esvanecida
por mentes iluminadas.
Com o verbo maltratado
no discurso político
este saber amarrotado
ganha valor monolítico.
ai aos meses que ando a fazer este exercício de imaginação.
ó Pedro, você sabe que eu às vezes sinto vergonha por saber que o meu país tem relações privilegiadas com o senhor que está aí na fotografia?
e sabia também que homens a que a nossa democracia tanto deve teimam em afirmar que se deve ter em conta este senhor porque é um grande democrata, aliás muito maior que o Bush ?
esta última você sabia.
abraço, meu caro.
Às vezes espanto-me como é que alguns portugueses aplaudem em certos países legislação que jamais aceitariam ver aplicada em Portugal. É o caso, tanto quanto me parece.
Talvez este seja o sonho que o amigo dele português tem, mas que não consegue concretizar.
Nenhum dos amigos dele em Portugal, ao que julgo saber, levaria tão longe o desprezo pela liberdade de informação. Espero não estar enganado.
Pedro, desculpe lá, mas só vejo vantagens nisso.
Veja bem, o discurso normal dessa personagem é, “não devo pronunciar-me sobre esse assunto”, logo o tempo de antena seria reduzido. Com um bocado de sorte, até nos ensinava algumas coisas de informática. A mim por exemplo, que não sou grande espingarda nestas coisas de computadores, já poderia aprender a evitar abusos aos meus “emailxes”.
A juntar a isso a redução dos tempos de intervalo dos filmes e das novelas. É que gramar com 4 intervalos de 15 minutos num filme de hora e meia, é dose. E em vez de 3 novelas, 4, pois por muito que não se goste, vão dando emprego a umbom numero de actores. Bons e menos bons, logo redução do numero de desempregados, ou pelo menos um aumento dos mesmos, menos acelerado.
Já quanto ao hino…. talvez uma musiquinha dos Xutos.
Até sei de uma que tem um titulo sugestivo.
Não está mal, a sugestão. Também poderia ser aquela cantiguinha do Jorge Palma, “Deixa-me Rir”.
O que é que Mário Soares tem a dizer acerca das decisões do seu compagnon de route?
Rien de rien.