A pressão do estrelato


Ana Vidal,

 

Deixo esta perturbante notícia à atenção das famílias portuguesas que, seguindo o rastilho que alastrou no mundo inteiro com a moda dos concursos de talentos, acreditam firmemente ter em casa o artista do século e empurram os seus rebentos para uma pressão brutal que eles não têm ainda capacidade para aguentar. Salvaguardadas as devidas diferenças culturais, uma criança é uma criança, em qualquer parte do mundo. Atirá-la de repente para uma competição desenfreada (em que as expectativas, da própria e da família, são desmesuradas e quase sempre infundadas), juntar a este explosivo cocktail  o ingrediente fatal da exposição mediática, pode resultar numa tragédia como esta. Ou pode, pelo menos, criar inseguranças e frustrações difíceis de gerir no futuro. Até as crianças que tiveram de facto êxito e começaram cedo uma carreira artística – os exemplos são inúmeros –  confessam ter dificuldades em lidar mais tarde com a perda da ribalta, que acontece quase sempre nesses casos. Era bom que pensassem um bocadinho nisto todos os entusiastas desta histeria colectiva dos geniosinhos do palco travestidos de adultos.

Imperdoável


Ana Vidal,

 

A notícia mais arrepiante que tenho ouvido nos últimos tempos – e todos sabemos como eles têm sido férteis neste género de notícias – foi-me repetida hoje, até à exaustão, em todos os noticiários do dia: "No espaço de tempo de apenas doze horas, nove idosos foram encontrados mortos nas suas casas, na área de Lisboa". Nove. O número é tão insólito que a polícia estranhou e, a mim, deu a imediata sensação de tratar-se de crime. Um qualquer sádico exterminador de velhinhos, marcando riscos na coronha logo nos primeiros dias do ano. Mas não. O serial killer é um velho conhecido nosso e chama-se, simplesmente, Abandono. O apelido? Solidão. Nada de tão plástico como um enredo policial, nada de tão enigmático como a mente perturbada de um psicopata urbano entregue aos seus delírios. Apenas um triste apontamento caseiro, num dia de chuva sem grandes dramas internacionais. E no entanto, mais do que os mais sangrentos massacres humanos ou os mais terríveis desastres ecológicos, esta "pequena" notícia nacional deixou-me de rastos. Todos temos, ou tivemos, pelo menos um velhinho que nos é querido. Imaginemo-lo a morrer assim, completamente sozinho: de frio (porque o dinheiro não chega para o aquecimento); de fome (porque a pensão mal chega para os medicamentos); ou tão somente de solidão e desistência. Sem poder despedir-se de quem gosta, tocar numa mão alheia, deixar um sorriso ou uma lágrima a outra testemunha que não as paredes e o tecto esburacado. Se fosse o "nosso" velhinho, como nos sentiríamos? Criminosos. Não há outro nome para quem abandona assim os seus velhos, só porque já não são úteis ou representam um espelho incómodo do seu próprio futuro. É o que somos, então. Um país que deixa morrer ao abandono os seus cidadãos mais frágeis, negando-lhes a última dignidade a que têm direito, é um serial killer. E o pequeno apontamento caseiro dos noticiários de hoje era, afinal, sobre um crime.

Gone too soon


Ana Vidal,

 

 Diz-se que é sempre cedo de mais para se morrer. Mas, por vezes, acontece que a frase não é apenas uma frase feita. Aconteceu hoje, com Lhasa, uma cantora de 37 anos  com uma carreira promissora (e uma vida, certamente) pela frente. Um talento natural para a música, felizmente gravado em 3 álbuns que poderemos ouvir sempre. Muitos outros se lhes seguiriam, tenho a certeza.

 

Happy New Year


Ana Vidal,

 

Mira, no pido mucho,

 

solamente tu mano, tenerla

 

como un sapito que duerme así contento.

 

Necesito esa puerta que me dabas

 

para entrar a tu mundo, ese trocito

 

de azúcar verde, de redondo alegre.

 

¿No me prestás tu mano en esta noche

 

de fìn de año de lechuzas roncas?

 

No puedes, por razones técnicas.

 

Entonces la tramo en el aire, urdiendo cada dedo,

 

el durazno sedoso de la palma

 

y el dorso, ese país de azules árboles.

 

Así la tomo y la sostengo,

 

como si de ello dependiera

 

muchísimo del mundo,

 

la sucesión de las cuatro estaciones,

 

el canto de los gallos, el amor de los hombres.

 

 

(Julio Cortázar – Happy New Year)

 

Olha o Magalhães fresquinho!


Ana Vidal,

 

Premissa 1: Como toda a gente sabe, trocar é um prazer igual ao de fazer compras, com a enorme vantagem de não se gastar dinheiro. E em tempos de crise…

 

Premissa 2: A avaliar pelo inferno em que se transformaram os centros comerciais nestes dias pós-Natal, nunca a época de trocas foi tão delirante.

 

Sendo assim, porque haveriam as crianças dos Açores de ser diferentes de toda a gente?

 

Receita de Natal


Ana Vidal,

 

Free Clipart

 

Pegue num punhado de lembranças de conserva e leve a lume brando em água de memórias, deixando ferver lentamente até que todas venham ao de cima. Aromatize com humor e ternura em partes iguais, junte imaginação qb. para dar colorido e deixe que ganhem volume. Reserve por algum tempo, mas não demasiado.

Deve ficar uma massa delicada mas consistente, branda e sensível ao tacto. Não deixe esfriar, e vá moldando pequenos instantes (ou grandes, conforme a preferência e o apetite) de formas variadas, recheando-os a gosto com surpresas e inspirações de momento.

Tudo fica bem como recheio: picante, doce e agri-doce, dependendo do gosto dos comensais. Sirva quente, polvilhado de fantasia para decorar (os enfeites são essenciais para o êxito da receita).

 

Nota: Esta receita não é para cozinheiros preguiçosos. Exige muita dedicação e conhecimentos profundos de arte culinária. Mas compensa tudo. Experimente. Faça uma surpresa a alguém, este Natal.

 

 

 

(já publicado aqui)

 

Que cavalos são aqueles que fazem sombra ao Caim?


Ana Vidal,

 

– Menina, como é que se chama o livro do António Saramago?

– Caim. E é José. José Saramago.

– Tanto faz. Mas não é esse livro, é qualquer coisa com cavalos.

– Ah, esse é do António Lobo Antunes.

– Qual deles é que se tem vendido mais?

– Temos vendido muito dos dois…

– Olhe, afinal não quero nenhum deles. Levo este, que tem um título mesmo a calhar. E a Margarida Rebelo Pinto sempre é mais conhecida.

 

 

Leituras


Ana Vidal,

«Could we, by training and practice, emancipate ourselves from Middle World, tear off our black burka, and achieve some sort of intuitive – as well as just mathematical – undestanding of the very small, the very large, and the very fast? I genuinely don’t know the answer, but I am thrilled to be alive at a time when humanity is pushing against the limits of understanding. Even better, we may eventually discover that there are no limits.»

 

Este é o inspirado final de um livro notável: "The God Delusion", de Richard Dawkins. Uma leitura que recomendo. Nestes tempos negros que atravessamos, uma visão apaixonada e positiva (embora totalmente lúcida) da humanidade, só pode fazer-nos bem.

Feliz Natal


Ana Vidal,

Aqui fica um postal de Natal feito por alunos do curso de design da Universidade de Aveiro, que adopto e tenho muito prazer em divulgar. Este ano, mais do que nunca, pensem nisto. E tenham um Feliz Natal.

 

Miserere


Ana Vidal,

 

Mais do que o défice, a recessão económica, as derrapagens financeiras, os malabarismos dos políticos, as quebras do segredo de justiça, a promiscuidade entre o poder e os media, a instabilidade geral, o descrédito nas instituições, os crimes de luva branca dos banqueiros, os desvios orçamentais, a corrupção instalada, as peixeiradas na assembleia da república, o oportunismo, o nepotismo, o desgoverno galopante… são notícias como esta e esta que nos levam ao tapete, como país. Às vezes, tenho vergonha de ser portuguesa.

 

Genéricos, mas de marca!


Ana Vidal,

 

A Pfizer acaba de lançar uma campanha publicitária que nos diz que os genéricos da marca Parke Davis – a sua, claro – são de qualidade superior e de total fiabilidade, pelo que devemos preferi-los a todos os outros. Ou seja, diz-nos que os outros não são de fiar. Vi ontem o anúncio  televisivo e fiquei boquiaberta. Serei eu a única a ver o absurdo de uma guerra de marcas de genéricos? É que eu pensava, pelos vistos ingenuamente, que o conceito "genérico" se traduz num medicamento sem marca, criado exactamente para evitar que o peso do marketing (criatividade, embalagem, promoção, etc.) se reflicta no preço final. Mas estava enganada. Afinal, tal como os animais do Orwell, também os genéricos são todos iguais… mas uns são mais iguais do que outros.

Da condição feminina


Ana Vidal,

 

«E ainda há idiotas que pretendem que a nossa época é falha de poesia, como se não tivesse os seus surrealistas, os seus profetas, as suas estrelas de cinema e os seus ditadores. Pode crer, Philip, que aquilo de que somos falhos é de realidades. A seda é artificial, os alimentos, detestavelmente sintéticos, assemelham-se àqueles sucedâneos de comida com que empanturram as múmias, e as mulheres, esterilizadas contra a infelicidade e a velhice, deixaram de existir. Só nas lendas dos países semibárbaros encontramos ainda dessas criaturas ricas em leite e em lágrimas das quais nos orgulharíamos de ser filhos… Onde foi que me falaram de um poeta que não conseguia amar mulher alguma porque tinha encontrado Antígona numa outra vida? Era um tipo do meu género… Umas tantas dúzias de mães e de amorosas, de Andrómaca a Griselda, tornaram-me exigente em relação a essas bonecas inquebráveis que passam pela realidade.»

  "A salvação de Wang-Fô e outros contos orientais"

 

Este magnífico trecho de um dos magníficos contos da magnífica Marguerite Yourcenar (perdoem-me a insistência, mas nunca resisto à hipérbole quando me refiro a ela) bem pode fazer-nos reflectir sobre o artificialismo em que nos fomos deixando cair, nós, "criaturas ricas em leite e lágrimas" encurraladas na armadilha da eterna juventude e da felicidade permanente, como se só esses estados fossem admissíveis. Na recusa patética do envelhecimento e na incapacidade de aceitarmos o sofrimento que nos cabe, como coisas naturais, será que nos transformámos em "bonecas inquebráveis"  que passam pela realidade sem se deixar marcar nem deixar marca?  Como nos vêem os homens exigentes, após o prazer imediato e  óbvio de uma aparência agradável? Como nos vemos nós, quando o espelho não nos mente? Ou será que é melhor não pensarmos muito no que pode trazer-nos cabelos brancos e rugas?

 

 

PS: A propósito (mas sem ter sido planeado), esta notícia que acabei de ouvir e me arrepiou. E mais esta, que alarga o universo aos homens também.

Errar nem sempre é humano


Ana Vidal,

 

Por estes dias, o assunto número um em Espanha é o terrível erro que condenou injustamente um homem inocente a uma vida manchada pela nódoa indelével dos piores crimes que alguém possa imaginar: violação, tortura e assassinato de uma criança. Sem margem para dúvidas, médicos e juízes recuaram nas conclusões precipitadas e deram o dito por não dito. Mas o mal estava feito. Diego, de 24 anos, foi linchado em praça pública por um crime que não cometeu, e nunca mais se livrará deste estigma. Por mais que se repitam os pedidos de desculpa, por maior que seja a indemnização que o seu advogado lhe consiga, subsistirá para sempre a dúvida nos olhos de um qualquer vizinho que tenha crianças em casa e saiba da história. É irreparável o mal que lhe fizeram, porque os seus direitos fundamentais foram liminarmente arrasados em nome do "sagrado" direito à informação. O jornal ABC chegou a fazer uma primeira página inteiramente ocupada com a fotografia do "monstro", cuja legenda era «O olhar do assassino de uma criança de três anos». No mínimo, deveria agora repetir a capa com a legenda «O olhar de um inocente injustiçado", mas não o faz porque isso não vende jornais. Nem sequer o El País, habitualmente mais discreto e prudente, resistiu à condenação prévia. E o que dizer das televisões, expondo à exaustão as imagens da detenção e alimentando a fúria e o ódio do público? Que ao menos este triste exemplo sirva para se repensar o poder irresponsável e voraz da comunicação social. Se errar é humano, há que limitar a dimensão e os efeitos do erro. Esta é uma das razões (não a única, nem sequer a mais importante) pelas quais eu não admito – em nenhuma circunstância, para nenhum caso – a existência da pena de morte.

 

Praias de uma vida


Ana Vidal,

 

Tive a sorte de apanhar ontem a última sessão de um documentário auto-biográfico notável: Les Plages d’Agnès, da autoria da fotógrafa e cineasta francesa Agnès Varda.

 

A história de vida desta mulher extraordinária confunde-se com a própria história do cinema europeu do séc.XX e neste filme sobressaem os seus encontros com praticamente todos os grandes nomes do cinema contemporâneo, incluindo alguns do universo mágico de Hollywood. Com o pretexto de apresentar-nos as praias da sua vida, Agnès Varda partilha connosco, neste documentário intimista e sensível, um percurso que vale a pena conhecer. A todos os cinéfilos (e não só) recomendo que estejam atentos à versão DVD, que deve estar a aparecer em breve.

 

Expresso do Oriente (3)


Ana Vidal,

Para além da noite de Patpong, o bas fond onde um incauto transeunte pode aceitar ingenuamente o convite para um “ping-pong show” convencido de que vai assistir a um jogo de ténis de mesa, há a moderna movida de Bangkok. Estive numa das discotecas de moda, o clube Spasso (na crista da onda há mais de 20 anos), e foi surpreendente encontrar jovens tailandeses celebrando alegremente o Halloween como se fosse uma tradição local. É o império da globalização, a contaminação ocidental que se traduz em muitos outros aspectos, por exemplo na proliferação de restaurantes de pizzas e hamburgers. No Spasso é comum ver homens de negócios ocidentais com belas ninfas tailandesas, muito mais novas do que eles. Mas, afinal, tudo isto é tão velho como o mundo e não existe pecado a sul do equador, como diria o Chico Buarque…

 

 

De manhã cedo, após a visita ao esmagador Grand Palace e ao Templo do Buda Esmeralda, lava-me a alma um belo passeio pelos canais do Chao Phraya num barco típico, vagamente parecido com uma gôndola veneziana. A cidade vista do rio tem outro encanto e outro mistério, com o imponente Wat Arun (ou “temple of the Dawn”) a dominar a margem, lembrando-nos o esplendor do antigo reino khmer de Ayutthaya, a mítica capital do Sião no século XIV. Depois disto, não se resiste: há que rumar à própria Ayutthaya, ou ao que dela resta após a guerra com a Birmânia, com os consequentes destruição, declínio e abandono da cidade. Fica a menos de 100 km a norte de Bangkok e as ruínas, hoje Património Mundial da UNESCO, valem bem uma visita.

 

 

Depois, já que estamos na zona, é da praxe visitar o Palácio de Verão, uma complexa rede de construções numa mescla de estilos arquitectónicos – thai, chinês e europeu – que coabitam num belo parque em redor de um lago artificial que prolonga o Chao Phraya.  Há musica ambiente por todo o parque, desde a tradicional tailandesa ao jazz e à música clássica, consoante as zonas. Este paradisíaco lugar é o cenário real da história de amor do rei Mongkut do Sião e de Anna Leonowens, a perceptora inglesa dos seus filhos. A história verídica, baseada nos diários da inglesa, deu três filmes célebres: Anna and the King of Siam, de 1946, O rei e eu, de 1956, e Anna e o Rei, de 1999. Mas enquanto nós, ocidentais, fantasiávamos com o romantismo da situação, os tailandeses consideraram-na desde sempre uma ofensa e um desrespeito pela sua monarquia. Como resultado disto, os filmes foram banidos e nenhum deles passou nas salas de cinema do país. Mas a verdade é que ainda agora, à distância de mais de um século, se respira ali um irresistível clima romântico. De qualquer maneira, é curioso testemunhar a atracção que a estética e a cultura ocidentais exerceram sobre aquele longínquo e exótico monarca siamês (a decoração do palácio é totalmente europeia), a ponto de dar aos seus filhos uma educação mista que os preparasse para futuras alianças com o Ocidente. Uma nota: nunca entenderei a razão por que tive que descalçar-me e vestir uma saia comprida por cima da roupa (como todas as mulheres que ali cheguem de calças, calções ou saia curta) para visitar os aposentos reais, como se estes fossem um lugar sagrado ou místico que os turistas ousam profanar. Em vez de divindades, o que lá encontramos não pode ser mais terreno: porcelanas de Sèvres, mobiliário vitoriano, gobelins, lustres e espelhos venezianos, cristais da Boémia… Enfim, influenciado ou não por Anna, a verdade é que o rei Mongkut deu a liberdade a um grande número de concubinas e melhorou substancialmente os direitos das mulheres no reino do Sião: com as suas reformas, acabaram os casamentos forçados e a entrega de mulheres pelos próprios maridos como pagamento de dívidas, por exemplo. Mais tarde, estas reformas foram ampliadas pelo seu filho e herdeiro do trono (pupilo de Anna), modernizando e humanizando a estrutura da sociedade tailandesa.

 

E chego ao meu último dia em Bangkok, já com pena de ter de deixar a cidade. Troco as últimas compras por um programa prometido a um amigo e também muito apetecido: uma visita à embaixada portuguesa, autêntica pérola do nosso património diplomático. Atravesso as ruas num tuk-tuk veloz, que me deposita no portão verde decorado com o escudo português e se afasta, deixando-me sozinha e sem a menor garantia de um “abre-te Sésamo” que me faça ser recebida, já que não avisei previamente da minha visita. Mas tenho sorte (não a tenho sempre, afinal?): é o próprio embaixador quem me recebe, sorridente e solícito. E, nas duas horas que me separam do aeroporto, guia-me numa visita detalhada e exclusiva pela residência e pelos jardins, numa cavaqueira deliciosa e recheada de histórias sobre aquele importante baluarte da história portuguesa no Oriente, só por si digno de uma obra literária.

 

É pelo embaixador António Faria e Maya que fico a saber que Portugal parece andar distraído (como sempre, acrescento eu…) quanto às comemorações da importantíssima efeméride que se aproxima: a passagem dos 500 anos sobre a chegada dos primeiros portugueses ao Sião, em 1511. Ao contrário da Tailândia, diga-se, que está a preparar os festejos com antecedência e orgulho e até já começou por oferecer a Portugal uma “Sala” (pavilhão tailandês cujo nome deriva da palavra portuguesa homónima), presente esse para o qual demorámos mais de um ano a encontrar local adequado, acabando por negar-lhe, ainda por cima, a localização lógica e nobre: os arredores dos Jerónimos e da Torre de Belém. Enfim…

 

 

Despeço-me de Bangkok com a certeza de que voltarei um dia. Num dos terminais do moderníssimo e descomunal Aeroporto Internacional de Don Mueang (o maior free shop que alguma vez vi) espera-me um pequeno aviãozinho da Bangkok Airways, todo pintado com figuras coloridas e hélices exteriores enormes, de pás também pintadas. Não há duvida, estamos no reino do arco-íris. É este brinquedo que me levará ao meu próximo destino: Siem Reap, Camboja. 

 

 

Curiosidade: Bangkok (ou Banguecoque, na tradução portuguesa), é apenas uma abreviatura do nome completo da cidade, que consta no livro dos recordes (o Guinness) como o maior nome de cidade do mundo: Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit (กรุงเทพมหานคร อมรรัตนโกสินทร์ มหินทรายุธยามหาดิลกภพ นพรัตน์ราชธานี บุรีรมย์อุดมราชนิเวศน์มหาสถาน อมรพิมานอวตารสถิต สักกะทัตติยะวิษณุกรรมประสิทธิ์). Ou seja, "A cidade dos anjos, a grande cidade, a cidade que é jóia eterna, a cidade inabalável do deus Indra, a grande capital do mundo ornada com nove preciosas gemas, a cidade feliz, Palácio Real enorme em abundância que se assemelha à morada celestial onde reina o deus reencarnado, uma cidade dada por Indra e construída por Vishnukam".

 

(cont.)

Expresso do Oriente (2)


Ana Vidal,

O primeiro impacto do Oriente sobre um europeu razoavelmente calejado pode ser descrito como uma verdadeira invasão dos sentidos. De repente, sem pré-aviso, tomam-nos de assalto as cores, os cheiros, os sons e o afago húmido de um calor desconhecido. Tudo é novo e deliciosamente estranho, excitante como um arrepio em noite de Verão. E não falo de praias paradisíacas, com coqueiros e tépidos mares transparentes. Neste caso, quem me abre as portas do Oriente é uma enorme metrópole, com 14 milhões de habitantes e uma arquitectura urbana arrojada. Mesmo assim, o exotismo impõe-se através de uma natureza indómita, que irrompe por todo o lado sempre que pode. Há zonas de vegetação selvagem em plena cidade e muita, muita água: braços de rio e canais artificiais que substituem ruas, pequenos lagos no centro de condomínios de prédios altíssimos.

 

À primeira vista, e observada da janela do 17º andar do hotel Le Meridien, dir-se-ia que Bangkok se assemelha a New York. Mas esta perspectiva “aérea” exclui o chão e isso faz toda a diferença, porque é a esse nível que o Oriente se manifesta com toda a sua exuberância: bancas que vendem tudo o que possa imaginar-se, da comida ao artesanato passando por animais vivos; tuk-tuks que rivalizam com táxis (estes, por sua vez, ostentando todas as cores do arco-íris), num um trânsito caótico que só terá paralelo, talvez, em Nápoles; pressurosos alfaiates que fazem provas de fatos Armani em sedas e caxemiras; massagistas que oferecem serviços vários, das terapias com peixes para doenças de pele até à “hot candle massage”, a delícia mais ousada do catálogo. Enfim, uma multidão transbordante e sorridente que nos recebe de braços abertos, com uma surpreendente hospitalidade quase naif ainda, depois de anos e anos de invasão turística ocidental. Há que esclarecer: o meu hotel, de uma estética imbatível, ultra-moderno e requintado em extremo – não é por acaso que existe a expressão “luxo asiático” – situa-se, para o bem e para o mal, mesmo em frente da famosa Patpong (quem não se lembra desta rua no filme Emmanuelle?), onde bate mais quente e mais forte o coração de Bangkok. Há um mercado nocturno que todos os dias, religiosamente, aparece às seis da tarde para desaparecer de novo à uma da manhã, num ritual complicado de montagem e desmontagem de tubos e lonas, executado por um enxame de vendedores em tempo recorde. Quando acaba o bric-a-brac, começa outro mercado: uma oferta variada de espectáculos e serviços eróticos, que começam em plena rua e acabam em primeiros andares pouco recomendáveis, passando pelos bares “de varão” onde mil rapariguinhas – que parecem ter sido clonadas  de um único modelo – exibem os seus (des)encantos. Sobre isto, uma curiosidade: diz-se que há quatro sexos em Bangkok: as mulheres e os homens ditos “normais”, os Lady boys (homens que se apresentam e agem como mulheres, mesmo durante o dia) e as Tom girls (o inverso: mulheres transformadas em homens, no aspecto e nas atitudes). Para além das fachadas, também uma cirurgia de mudança de sexo custa uns míseros dois mil euros, pelo que a moda está em franco crescimento.

 

 

Depois há a cozinha Thai, deliciosa e saudável. Apaixonei-me sem remédio pelos legumes, os camarões, as limonadas, as mil variedades de arroz, e só das nossas sobremesas tive saudades. E há também o grande mercado de fim-de-semana, tão gigantesco que é essencial andarmos de mapa na mão (distribuído pelos muitos polícias de serviço) para não nos perdermos. Eu perdi-me, mas por algumas antiguidades de cuja idade duvido muito, dada a insignificância do preço.

E há ainda o mercado das flores ao longo do rio, uma experiência sensorial única: lindíssimas coroas e colares de orquídias de todas as cores, para além de uma imensidade de outras flores de nomes desconhecidos. Por sorte, estava em Bangkok na véspera do Grande Festival da Lua Cheia. No dia seguinte, todas aquelas magníficas arquitecturas florais seriam lançadas ao rio numa manifestação de alegria, como tributo às divindades aquáticas.

 

E perdi-me também, mas propositadamente, nas ruas menos centrais de Bangkok. Se há coisa que gosto de fazer é vaguear sozinha pelas ruas de uma cidade desconhecida, sentindo-lhes o pulso e a alma. Foi assim que fui parar a um templo frequentado só por locais (não havia uma única palavra traduzida em inglês, como acontece por toda a cidade). Sentei-me no chão sobre os joelhos e fiquei a observar os presentes, imitando-lhes os gestos – como queimar paus de insenso, por exemplo – na esperança de me diluir no cenário e não perturbar. De repente, todos saíram dali ao mesmo tempo e  eu fiquei sozinha, sem saber muito bem o que fazer a seguir. Preparava-me para ir-me embora quando alguém me tocou no ombro e me convidou, com um gesto, a seguir o grupo. Lá percebi que era um casamento e que me convidavam a fazer uma saúde aos noivos. Acabei por almoçar com eles, “conversando” com gestos e sorrisos porque muito poucos percebiam outra língua que não a sua. Foi uma experiência que não esquecerei.

 

(cont.)