A importância de se chamar Ernesto


Ana Vidal,

 

Acabo de ler que um dos arguidos (é melhor semear por aqui um "alegadamente", não vá o diabo tecê-las…) do caso Face Oculta se chama… não, não inventei… o nome é mesmo Chocolate Contradanças. Desde já me solidarizo com o pobre administrador-poeta-deputado, que tem a minha inteira compreensão. Ninguém é de ferro, caramba. Se me tivessem dado um nome assim à nascença, garanto-vos sem qualquer hesitação que também eu ocultaria a face, logo que pudesse.

Expresso do Oriente (1)


Ana Vidal,

 

Faço a mala com a expectativa e a excitação que em mim sempre antecedem as grandes viagens, despindo do espírito todos os pesos e amarras para que fique a condizer com a roupa que levo: só algodões e linhos, tudo muito leve, fresco e cómodo. Vou para o longínquo Oriente – Tailândia e Camboja –  onde o calor não dá tréguas, apesar da estação seca que começa agora. Levo uma mala grande mas meio vazia, sabendo de antemão que voltará bem cheia, dessas paragens onde as tentações consumistas são tão fortes como quase inconsequentes no orçamento. Um perigo, portanto. Junto-lhe, depois de uma última verificação, o imprescindível repelente de insectos (sou uma vítima habitual), o meu Ipod (para além de companhia no avião, tenho a secreta vontade de entrar em Angkor Wat a ouvir Beethoven), alguns medicamentos SOS e um livro que me faça esquecer as longas horas das viagens aéreas, já que não vou ter tempo para grandes leituras quando lá chegar. A escolha não é difícil e parece-me adequada: os Contos Orientais de Marguerite Yourcenar, pérolas clássicas que constituirão uma perfeita e suave antecâmara ao desafio que me aguarda do outro lado do mundo. Resolvo alguns assuntos de última hora e almoço com um querido amigo, embaixador em Bangkok por muitos anos e agora reformado, que me dá preciosas dicas e me enche de recomendações importantes. Tudo a postos, respiro fundo e estou pronta a começar a aventura. Primeira escala: Paris. A morrinha cinzenta do costume, a lembrar-me de que o charme também pode ser um suspiro e um arrepio de frio. Mas adiante. É tudo isso que deixo para trás, em troca de uma luz dourada e de um calor abrasador. Mas, sobretudo, em troca do desafio da eterna pergunta: o que será que me espera por lá? Pergunta que, aliás, engloba sempre o seu reverso: o que espero eu do que me espera? Se é verdade que todas as viagens são interiores, em busca de nós próprios (Pessoa dixit), desconfio de que esta me vai dar algumas respostas importantes. É com tudo isto fervilhando na cabeça que entro no enorme airbus da Air France, com a sensação de entrar numa espécie de máquina do tempo: começo a viagem em 2009, mas, quando chegar ao meu destino, o calendário dir-me-á que estou no ano de 2552.

 

(cont.)

Ensaio sobre o debate


Ana Vidal,

 

No debate entre Saramago e Carreira das Neves surpreendi-me a concordar mais do que uma vez com o primeiro. E gosto sempre de surpreender-me a mim própria (passe o pleonasmo).

 

Excluindo a costumeira arrogância natural – que sempre me encanita mas que hoje estava, estranhamente, quase ausente – os argumentos que Saramago apresentou em sua "defesa" foram de uma lógica arrasadora. Continuo a detestar a forma com que criticou a Bíblia (até o próprio concordou em que se excedeu no léxico, e que foi gratuitamente ofensivo para os crentes), mas percebi e respeito o conteúdo. Reconheço-lhe – a ele ou a qualquer pessoa – o direito a  ler  a Bíblia literalmente, mesmo que essa interpretação (ou a ausência dela, no caso) me pareça errada ou pobre. E fiquei a pensar: por um lado, Saramago, que é um mestre na alegoria, não deveria ter dificuldade em reconhecê-la nos textos bíblicos; por outro, a palavra de um texto sagrado e formador de carácter deve ser suficientemente clara para ser entendida de forma literal pelos menos letrados, sob pena de ter um efeito errado (e até contrário ao pretendido) nas suas mentes. Já a arrevezada tese da "preguiça" divina,  achei-a descabida, abusiva e até pateta. Quanto ao padre Carreira das Neves, esteve muito aquém do seu nível habitual. Excessivamente reverencial, na minha opinião.

 

Um Olé! nos genes


Ana Vidal,

 

 

Eu já suspeitava. Não queria dar muita confiança a esse pensamento recorrente, mas a verdade é que já suspeitava: há um Olé! no meio dos meus genes, colado aos outros como uma lapa, e não posso fazer nada para pô-lo a andar. Comprovei-o um dia destes, sem enganos possíveis, e ainda estou em choque. Foram precisos vários dias para digerir a descoberta e ser capaz de verbalizar esta confissão. Como aconteceu? Eu conto. No domingo passado fui "aos toiros". E gostei. Muito. E também fiquei a conhecer-me melhor.

Pronto, está dito e assumido. Vá lá, blogueiros civilizados e sofisticados, politicamente correctos, defensores dos animais, intelectuais, zen, vegetarianos e macrobióticos e outros mais que agora não me lembro, aproveitem bem esta borla que vos dou: trucidem-me, que eu já confessei tudo. Se quiserem açoitar-me e lançar-me à fogueira, estejam à vontade. Mas não sem primeiro me darem o direito a meia dúzia de últimas palavras.

Há muitos anos que não punha os pés numa corrida de toiros e fui acumulando, com o tempo, um misto de saudade, desinteresse e expectativa, sem saber que sensações me esperariam de novo, se um dia voltasse a assistir a uma. Será que ainda vibraria com aquilo? Ou será que a minha condição de cabeça pensante, razoavelmente esclarecida e há muitos anos urbana, me teria afastado irremediavelmente da barbárie?

Foi nesse estado de espírito, inquieto e curioso, que resolvi aceitar o simpático convite de uns amigos. O desafio era total, porque nos acompanhavam duas ferozes opositoras daquele espectáculo: uma já veterana, com experiência no assunto e opinião bem calcificada, e a outra em absoluta estreia, mas firmemente decidida a odiar tudo aquilo.Mas, dizia eu, o que mais me atraiu lá foi saber o que se passaria comigo. Pois bem, agora já sei. Mal pus um pé na praça – não na arena, que ainda não enlouqueci de todo – deu-se uma estranha transfiguração em mim: o coração começou a bater mais depressa, um rubor de antecipado prazer devolveu-me as cores saudáveis da infância e uma espécie de beatífica reverência deixou-me em estado de graça, tomando-me de assalto todas as emoções. Ali estava eu, cinco sentidos alerta e prontos a vibrar ao mínimo estímulo. Neurónios? Nem um só de sentinela. Todos de férias, a banhos. Código moral? O que é isso, nome de sobremesa? Logo ao primeiro impacto me deixei embriagar pelas cores, pelos cheiros, pelo sons. Foi como se uma maléfica Mrs. Hyde, acordada de repente, tivesse dobrado em quatro e guardado no bolso, com um sorriso de triunfo, a respeitável Dra. Jekyll que costuma estar de serviço em mim. Ali, Mrs. Hyde estava em casa. E eu em transe.

Para dizer a verdade, a corrida nem sequer foi nada de especial. Pouco bravos os toiros, pouco elegantes os artistas. Pena. Mas enfim, reparei que nada mudou muito desde a longínqua última vez que tinha assistido a uma corrida de toiros. Talvez só o público tenha refinado um pouco: que não se pense que é só constituido por marialvas acéfalos. Nada disso. Lá estavam, felizes e entusiasmados como qualquer outro aficionado, respeitáveis políticos de esquerda e de direita, alguns intelectuais bem conhecidos da nossa praça, artistas e até homens da ciência, para além, claro, dos omnipresentes colunáveis da praxe.

Nada disso me interessou muito: eu estava concentrada no meu próprio sótão interior, descobrindo velhas chaves de gavetas secretas que julgava perdidas para sempre. Mas não, ali estavam elas. Enferrujadas, poeirentas, mas ainda a funcionar. Experimentava-me, punha-me à prova no meu mais íntimo laboratório, testando fórmulas antigas em pipetas fumegantes e aguardando ansiosamente os resultados. Nesse estado letárgico de semi-lucidez dei comigo a corrigir, com uma certa arrogância snobe, os comentários leigos dos urbanos que me acompanhavam: não se diz "tourada", diz-se "corrida de toiros". E aquilo não é uma capa, é um capote. Aqueles que entraram agora não são toiros, são cabrestos. Não, nenhum toiro vai para dentro sem ser pegado pelos forcados. Se a pega não puder ser de caras, será de cernelha. Se ganham muito? Não, nem um tostão. São amadores, arriscam a vida por um jantar e uma boa dose de adrenalina. O forcado não está a fazer ski, está a rabejar! Raspar no chão e berrar não são sinais de bravura num toiro, mas sim de mansidão. E entredentes, resmungava: Ignorantes!…

Não vou defender – não caio nessa! – o espectáculo a que assisti com um prazer confesso. Não é possível justificá-lo racionalmente, porque é indefensável. É uma coisa de paixão, de emoção pura. Que apela ao que há de mais primitivo e pantanoso em nós, as entranhas onde escondemos todos os nossos instintos inconfessados. Os que caem na armadilha de justificar o fenómeno, com teses mais ou menos elaboradas, acabam desarmados e enredados na sua própria teia de argumentos condenados à nascença. Ouço-os dizer que é uma tradição e que as tradições constituem a identidade de um povo, e pergunto-me porque cuidamos tão mal de outros patrimónios bem mais edificantes, como o arquitectónico e o artístico, por exemplo. Ouço-os dizer que os toiros atraem turistas e os turistas aumentam as receitas do país, e pergunto-me se será para afugentá-los depois com o caos urbanístico das nossas costas. Ouço-os dizer, com um certo orgulho, que o toiro bravo seria já uma espécie extinta se não fosse a tauromaquia (porque só serve para esse efeito) e pergunto-me se vale a pena prolongar a vida de uma espécie apenas para esse fim perverso. Ouço-os dizer, genuinamente convictos, que a dignidade do toiro é respeitada ao ser-lhe dada a oportunidade de bater-se numa arena com o toureiro, e pergunto-me quem terá ensinado ao animal o conceito humano de dignidade, com a certeza de que este trocaria, de bom grado, o presente envenenado da dignidade por um punhado de erva fresca e uma manada de vacas para se entreter. Ouço-os dizer, ainda, que os toiros bravos não sentem a dor por causa da descarga de adrenalina, e pergunto-me muito seriamente que raio de desculpa é essa, e como se pode afirmar que um ferro aguçado a entrar num corpo vivo não causa dor. Ouço-os dizer, finalmente, que os espanhóis é que são cruéis porque matam o toiro na arena e nós não, e pergunto-me em que é que isso nos iliba da crueldade e que diferença fará ao bicho o sítio da matança, se é morto na mesma.

Diz-me o cérebro (sempre que está a funcionar), que de nada nos serviu a evolução da espécie humana se ainda nos deleitamos com espectáculos que evocam e recriam os mais bárbaros rituais dos nossos antepassados. Que uma coisa é matar para sobreviver – todos os animais o fazem, afinal – e outra, bem diferente, é torturar e matar por puro gáudio. Nesse capítulo, é sabido, somos mais irracionais do que todos os outros irracionais juntos. E o que nos diz esse facto incontestável? Uma coisa muito simples, que não nos agrada nada constatar: apesar de milénios de formatação civilizacional, existe em nós um primitivismo atávico e inultrapassável, ainda que amordaçado e obrigado a hibernar à força. E que convém não ignorá-lo, porque é perigoso e está apenas latente, não morto. Mal de quem não entende isso, e não está atento aos sinais. Os desprevenidos e os que recusam aceitar a sua condição de perigo potencial, acabam muitas vezes por transformar-se num perigo real, numa bomba relógio que explode sem pré-aviso. São aqueles casos que nos entram todos os dias pela casa dentro, nos jornais televisivos, e nos deixam a colher da sopa suspensa, a meio caminho da boca: estudantes enraivecidos que abatem os colegas estupefactos a rajadas de metralhadora, só porque a namorada os traíu; mangas-de-alpaca exemplares que viram assassinos de colegas de escritório, porque não foram promovidos; mães extremosas que atiram filhos pela janela, fartas da prisão que eles significam; inofensivos velhinhos de asilo que pegam fogo ao estaminé e assistem à cena a rir à socapa, deixando cair as dentaduras; caçadores de domingo que abatem um parceiro ao fim do dia, porque não chegaram a acordo na contagem das rolas. Karl Marx insurgiu-se contra a religião, por esta ser o ópio do povo. Mas sabia bem que o povo precisa de um qualquer ópio para manter-se estável e razoavelmente dócil, suportando as rotinas e as muitas humilhações que lhe cabem sem mostrar os dentes da besta que tem lá dentro. O futebol cumpre essa mesma função cada vez mais, um pouco por todo o lado. Ali se descarregam muitos ódios e frustrações, que de outro modo poderiam ser fatalmente disparados em imprevisíveis direções. É só ver, nas multidões de adeptos, pacatos chefes de família prontos a matar pelo seu clube, em qualquer discussão sem sentido.

Somos todos voyeurs (ninguém está imune), e nada nos satisfaz tanto como a desgraça ou o ridículo dos outros. Por alguma razão nos rimos, instintivamente, quando alguém cai e se magoa. Já pensaram nisso? E nas corridas de automóveis e motos, não estamos sempre à espera de um acidentezinho para "apimentar" a coisa? Que graça teriam os campeonatos de desportos aquáticos sem meia dúzia de quedas aparatosas? Como ignorar, honestamente, essa faceta sádica e perversa que há em todos nós? É assim que somos, queiramos ou não. Exterior sofisticado, interior mais do que duvidoso. E enquanto houver emoções em nós, enquanto houver zonas de penumbra, enquanto não formos todos robots, assim continuará a ser.

Em tudo isto pensei nestes dias, tentando encontrar uma explicação para o insustentável. Porque fui a uma corrida de toiros e fiquei a conhecer-me melhor, rendo-me à evidência: tenho um Olé! nos genes que vai morrer comigo. Preciso é de tomar conta dele, para que não se reproduza.

Nota: Numa ingénua tentativa de não chocar mais ainda os espíritos impressionáveis, escolhi Arte para ilustrar este post (um desenho de Pablo Picasso). Não foi de propósito, mas parece que foi escolhido a dedo: Picasso era um pintor talentoso e sensível, mas também um ser humano execrável, que torturava as mulheres e os amigos e ignorava os filhos. Grande amante de toiros, sim. Era, ele próprio, um bom exemplo dessa dualidade de que somos feitos, afinal.

Como disse?


Ana Vidal,

 

Anda meio país indignado com este video que surgiu no omnipresente YouTube e foi exibido num programa de televisão brasileiro (Saia Justa), em que uma cara bonita – e burra, pelos vistos – das novelas brasileiras exibe à exaustão a sua boçalidade e confrangedora ignorãncia. Eu, que já conhecia o video há uns dias – pela mão de um amigo que, tal como eu, tem amigos no Brasil que muito preza – fiquei espantada ao ver que o fenómeno atingiu proporções tão disparatadas como as patetices que Maitê Proença diz para a câmara, a ponto de ter honras de telejornal em horário nobre. Pergunto-me para quê tanta agitação e tanta importância dada a tão pouco: qualquer pessoa pode fazer um video caseiro e pô-lo a circular no YouTube, por mais irrelevante, patético e ignorante que seja. Vale o que vale.

 

Não altera em nada as relações entre Portugal e Brasil que uma figurinha mediática desconheça o estilo manuelino, que não saiba distinguir o rio do mar, que ignore que o pátio de um mosteiro se chama claustro ou até que subtraia trinta anos à ditadura de Salazar. Não faz ruir pontes culturais entre os dois países que a mesma criaturinha se divirta com os túmulos de Camões e Pessoa depois de uma indigestão de pasteis de Belém. Não belisca nem a superfície da dignidade da mais ínfima pedra dos Jerónimos que ela acabe a sua exibição a cuspir numa fonte histórica. Enfim, não nos devia aquecer nem arrefecer que Maitê Proença pense que todos os portugueses se chamam Manuel e Maria, são padeiros e ainda usam fartas bigodaças ou lenços pretos sobre carrapitos. A ignorância é dela, o preconceito é dela, a figura triste é dela, a pobreza de espírito também. Não somemos a todos estes atributos uma importância que ela não tem, indignando-nos como se a sua opinião fosse decisiva nas nossas vidas.

 

Sejamos magnânimos, dando a Maitê o benefício da dúvida de uma outra explicação, apesar de tudo menos penosa para os seus pobres neurónios: talvez o romance com um famoso romancista português lhe tenha corrido mal e ela queira apenas vingar-se, atingindo pelo caminho (por falta de pontaria, provavelmente) o resto dos portugueses.

 

Nota – Já não acho tão irrelevante que um programa de televisão dê cobertura a esta brilhante "peça jornalística", mas o jornalismo – lá como cá – parece andar pelas ruas da amargura.

 

Adenda: A saga continua. Maitê Proença pede desculpas e diz que não queria ofender ninguém (??). E depois acrescenta, sem perceber que volta a ofender toda a gente, que o Saia Justa  é um programa de "humor inteligente". Pronto, está tudo explicado: somos nós que não percebemos o humor inteligente dela. Seja como for, cá para mim esta saia ficou bem mais justa com a saída de Rita Lee e de Marisa Orth.

 

Egoísmos


Ana Vidal,

"Os oeirenses decidiram hoje que o futuro continua em Oeiras"

(Isaltino Morais, agora mesmo em directo)

 

Que diabo… dava-nos jeito que os oeirenses fossem menos egoístas e deixassem sair o futuro de vez em quando para outros sítios do país.

Imbatível…


Ana Vidal,

… o sentido de oportunidade do MPT – Movimento Partido da Terra, que, ao Somos Felgueiras (slogan forte e feliz, do ponto de vista publicitário) da campanha da autarca com o mesmo nome da terra, responde com um brilhante Somos Sérios!

 

 

Estado de graça


Ana Vidal,

Detenho-me numa frase do livro Jesusalém – belíssima prosa poética de Mia Couto – que fica a tilintar-me nos ouvidos como um eco de sinos tibetanos:

 

Todo o silêncio é música em estado de gravidez

 

O livro está cheio de frases felizes, mas acho esta de uma clarividência própria de uma alma em estado de graça. Como o silêncio, afinal.

Auto-golo


Ana Vidal,

 

Quem se portou impecavelmente? Foram os portistas, que disseram que uma coisa é futebol, outra é política e até o elegeram.

 

Há argumentos que são perigosos: ou se sabe usá-los bem ou podem virar-se contra quem os esgrime. É o caso deste, nesta entrevista de Elisa Ferreira, com que a candidata à Câmara do Porto pretende atingir o seu adversário político. Querendo captar o voto clubista – que no Porto tem  um peso muito especial – não percebe que ao fazer este elogio ao critério dos eleitores, está  a sugerir ao mesmo tempo que, se não votarem em Rui Rio desta vez, deixam de saber separar as coisas. Logo, deixam de ser "impecáveis".

 

Homo Sapiens


Ana Vidal,

 

Nos países industrializados, quase um terço das crianças sofre de abusos sexuais.

Uma criança em cada dez é vítima de negligência ou de maus-tratos psicológicos.

 

Em todo o mundo, duas em cada três crianças são alvo de castigos corporais.

Mais de 250 mil crianças são recrutadas por grupos armados.

Nos números oficiais de trabalho infantil constam mais de 150 milhões de crianças com idades entre os 5 e os 14 anos.

 

 

Civilizados, nós??????

 

 

 

Filmes que marcam


Ana Vidal,

 

Passo de raspão pela TVI e não resisto: fico, uma vez mais, "agarrada" ao filme A raiz do medo, que já vi e revi mais do que uma vez. Há filmes que nos marcam indelevelmente, este é um dos meus: fez-me descobrir uma paixão irredutível por Edward Norton, um dos mais geniais actores de sempre, na minha modesta opinião. E até me fez reconciliar, de certa forma, com Richard Gere, actor com quem sempre embirrei e que nunca tinha respeitado como tal. Dizer que o argumento é excelente e que nos traz ensinamentos preciosos, ou que o momento em que o Barco Negro (na voz da Dulce Pontes) nos afaga os tímpanos portugueses, é apenas acrescentar cerejas ao topo de um bolo já de si irresistível.

 

E agora, com vossa licença, volto ao filme.

 

Blogue da semana


Ana Vidal,

 

É uma verdadeira mulher dos sete ofícios, com uma contagiante alegria de viver e um optimismo invejável. Já ouvi chamarem-lhe "Mátria", por graça, e a razão é óbvia: deu ao país dois filhos, ambos destacadíssimas figuras da nossa vida política. Em barricadas opostas da ideologia, curiosamente. Vida de mãe raramente é fácil, mas, neste caso, há que reconhecer que é duplamente difícil: a vitória de um será necessariamente a derrota do outro, e nenhum deles lhe merece menos carinho ou atenção. Mas esta mulher de fibra que não deixa ninguém indiferente – mesmo os seus críticos lhe reconhecem a ousadia e a coragem com que sempre deu o peito às balas – tem sabido, apesar da frontalidade que a caracteriza, manter uma inteligente e saudável equidistância na gestão pública desta delicada situação familiar. Com total êxito, como o atestam a amizade e admiração evidentes que Paulo e Miguel Portas demonstram um pelo outro. E esta mãe, contrariando toda a lógica e certamente porque o merece, teve recentemente a alegria de poder festejar com ambos os filhos uma vitória simultânea nas últimas eleições legislativas. A política tem destas coisas. Parabéns, Helena.

 

Esta semana cabe-me eleger o "blogue da semana" aqui no Delito.

Escolho o Fio de Prumo, da Helena Sacadura Cabral.

 

Das nacionais fraquezas


Ana Vidal,

 

"No fundo, o povo português é apenas mais um fraco. E entre os fracos não há, verdadeiramente, nenhuma solidariedade, nem mesmo quando se atiçam neles os ardores revolucionários. Entre os fracos há só o desejo de ter um padrinho, um encosto ou um Dom Sebastião, que os honre com um punhado de migalhas e os liberte do abraço ignóbil, repugnante dos outros fracos."

 

Excerto de um excelente texto que vos recomendo, escrito com a habitual mestria da sua autora. Mas é muito mais do que um bom texto: é um espelho, nu e cru, em que dolorosamente nos revemos. Para ler e reflectir.

Paranóia eleitoral


Ana Vidal,

 

Na secção de voto onde exerci hoje o meu dever/direito, reparei numa cena inédita e curiosa: várias pessoas usavam as suas próprias canetas e evitavam tocar no balcão de voto, outras tiravam de carteiras e bolsos umas "toalhitas" húmidas (presumo que desinfectantes) e limpavam freneticamente as mãos, saindo com ar desconfiado e incómodo daquele antro de contaminação, sabe-se lá de quê. Chamem-me inconsciente, mas eu usei a caneta atada ao cordel e dei beijos e apertos de mão a alguns conhecidos que por lá encontrei. Até ver, estou viva e de boa saúde. Mas sei que ainda está para chegar a noite, com notícias eventualmente mais letais do que uma mísera gripe. Comparado com os políticos que temos, o vírus A é um menino de coro.

 

A estrada da Beira e a beira da estrada… ou Discursos (2)


Ana Vidal,

 

Concordo contigo na embirração, Pedro: "asfixia democrática" é uma expressão irritante, mas, mais do que isso, é estúpida e incorrecta. Há nela uma incongruência gritante: por definição, uma asfixia é um gesto impositivo e violento. Logo, não é democrático, só pode ser ditatorial. Já uma democracia, pode ser asfixiada. Ou, em casos excepcionais (de má interpretação ou excesso de zelo), asfixiante. Nem sempre nos saem bem os mabalarismos linguísticos.