Como disse?


Ana Vidal,

 

Anda meio país indignado com este video que surgiu no omnipresente YouTube e foi exibido num programa de televisão brasileiro (Saia Justa), em que uma cara bonita – e burra, pelos vistos – das novelas brasileiras exibe à exaustão a sua boçalidade e confrangedora ignorãncia. Eu, que já conhecia o video há uns dias – pela mão de um amigo que, tal como eu, tem amigos no Brasil que muito preza – fiquei espantada ao ver que o fenómeno atingiu proporções tão disparatadas como as patetices que Maitê Proença diz para a câmara, a ponto de ter honras de telejornal em horário nobre. Pergunto-me para quê tanta agitação e tanta importância dada a tão pouco: qualquer pessoa pode fazer um video caseiro e pô-lo a circular no YouTube, por mais irrelevante, patético e ignorante que seja. Vale o que vale.

 

Não altera em nada as relações entre Portugal e Brasil que uma figurinha mediática desconheça o estilo manuelino, que não saiba distinguir o rio do mar, que ignore que o pátio de um mosteiro se chama claustro ou até que subtraia trinta anos à ditadura de Salazar. Não faz ruir pontes culturais entre os dois países que a mesma criaturinha se divirta com os túmulos de Camões e Pessoa depois de uma indigestão de pasteis de Belém. Não belisca nem a superfície da dignidade da mais ínfima pedra dos Jerónimos que ela acabe a sua exibição a cuspir numa fonte histórica. Enfim, não nos devia aquecer nem arrefecer que Maitê Proença pense que todos os portugueses se chamam Manuel e Maria, são padeiros e ainda usam fartas bigodaças ou lenços pretos sobre carrapitos. A ignorância é dela, o preconceito é dela, a figura triste é dela, a pobreza de espírito também. Não somemos a todos estes atributos uma importância que ela não tem, indignando-nos como se a sua opinião fosse decisiva nas nossas vidas.

 

Sejamos magnânimos, dando a Maitê o benefício da dúvida de uma outra explicação, apesar de tudo menos penosa para os seus pobres neurónios: talvez o romance com um famoso romancista português lhe tenha corrido mal e ela queira apenas vingar-se, atingindo pelo caminho (por falta de pontaria, provavelmente) o resto dos portugueses.

 

Nota – Já não acho tão irrelevante que um programa de televisão dê cobertura a esta brilhante "peça jornalística", mas o jornalismo – lá como cá – parece andar pelas ruas da amargura.

 

Adenda: A saga continua. Maitê Proença pede desculpas e diz que não queria ofender ninguém (??). E depois acrescenta, sem perceber que volta a ofender toda a gente, que o Saia Justa  é um programa de "humor inteligente". Pronto, está tudo explicado: somos nós que não percebemos o humor inteligente dela. Seja como for, cá para mim esta saia ficou bem mais justa com a saída de Rita Lee e de Marisa Orth.

 

43 comentários em “Como disse?”

  1. Sabe o que lhe digo?

    É que por cá o que mais há é um patrioteirismo musculado e alarve. As brutalidades e boçalidades que em reacção ao filme da Maitê vi estes dias na blogosfera e nas caixas de comentário quase que me assustaram!

    Acho que a Maitê, numa liberdade que eu nunca me lembraria de lhe negar – para mais só pelo facto de ele não ser uma das nossas, ou seja, uma compatriota -, disse o que bem entendeu dizer e se acaso no meio de muitas verdades tenha dito algo mais “ofensivo” (o que não julgo), está no seu pleníssimo direito.

    Ninguém tem de se ofender. Aliás, teremos todos de não nos levarmos tão a sério, somos tão bons ou maus como quaisquer outros.

    Rir de nós próprios e relevar o humor dos outros relativamente a nós é tão só um sinal de maturidade e inteligência.

    E sabe o que é que esta reacção musculada me faz lembrar? Aquela das caricaturas do Maomé, do sacrilégio que se não poderia sequer brincar com aquilo.

    Credo! Infelizmente está a ser a própria reacção portuguesa a este filme da Maitê que lhe está afinal a dar razão no que respeita ao tom com que em geral falou de nós no seu filme…

    1. Sabe o que lhe digo? Não se apresse a dobrar a espinha. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

      Concordo inteiramente consigo, em princípio. Rirmos de nós próprios, não nos levarmos tão a sério e reconhecermos as próprias fragilidades é um excelente e saudável exercício. O que não vejo é como aplicá-lo neste caso de Maitê Proença, porque não vejo onde estão essas verdades que você encontra neste video. Para isso eu teria de levá-la a sério a ela, o que também não acho que valha a pena.

      Mas se partirmos do princípio que cada um tem o direito de ofender quem quiser, também teremos de admitir que as reacções que provoca sejam proporcionais. Eu só acho que tanta asneira junta não chega a ofender-nos, e não reconheço a Maitê autoridade ou importância para fazê-lo.

  2. Ana
    Completamente de acordo com o que diz. Sensato e essencial. No fim de contas, quem fica mal na fotografia (neste caso vídeo) é a senhora em questão. Quero lá saber…
    :)))

  3. A cuspidela, confesso, irritou-me. Mas tens razão. O melhor é fazer mentalmente o mesmo em relação a essa tonta, que deve estar a descontar em nós todos alguma dor de corno.

  4. Tem razão Ana, tudo o que ela diz são inanidades que não merecem um segundo sequer de atenção. Agora a cuspidela, lamento imenso, é de um mau gosto tão alarve, que não consigo deixar passar em claro.

  5. A relação desproporcional entre a inteligência e…

    A sabedoria aloirada
    com sotaque brasileiro,
    numa conversa marada
    de conteúdo foleiro.

    Tanta estupidez natural
    roçando a anormalidade,
    de um saber miniatural
    fedendo a imbecilidade.

  6. Não posso estar mais de acordo. Nós por cá passámos a vida a contar anedotas básicas sobre brasileiros, não é verdade?

    As nossas televisões é que estão a deixar-nos mal. Onde é que já se viu este episódio ter honras de telejornais?

    1. Oh João, é verdade que contamos anedotas de brasileiros, como contamos anedotas de alentejanos etc e tal. Os braseiros contam anedotas dos portugueses e algumas com imensa graça já as ouvi até da boca do Jô Soares. É óbvio que sendo ele uma figura publica e um profissional, não se lembraria de fazer afirmações de tal boçalidade a armar o engraçado num programa da televisão, rematando em beleza com uma cuspidela merdosa , que isto e só isto, buliu comigo. Serei provinciana? Seja. Agora estou de acordo que não merece honras de telejornais, mas estamos em época defeso e à parte os gatos fedorentos , há pouco mais com que nos entreter.

      1. Claro que sim. Mas a última coisa que o defeso devia consagrar seria dar honras de espaço informativo à falta de senso da matéria merdosa em apreço. A coisa corre o risco de ficar ela por ela em matéria de senso, se tratada deste modo.

  7. Quando recebi o primeiro e-mail, alertando para o vídeo, pensei “mais uma, cuja beleza lhe deu a volta aos neurónios”. Agora com as proporções que a história começa a alcançar, também acho que estamos a ciar na histeria colectiva. A senhora só deu uma prova de enorme burrice e é ela quem fica mal na fotografia, mas se nós embarcamos na onda, acabamos molhados e não vale nem um bocadinho a pena. Eu cá por mim só gosto de mergulhar nas ondas que eu própria escolho 🙂

  8. Registo e agradeço o seu comentário àquele que deixei relativamente ao seu post.

    Porém, da minha parte lhe digo que não sou de dobrar a espinha.

    Simplesmente, visto o video, registei o seguinte:

    – antes de mais, não me parece que devamos ficar sinceramente ofendidos com o tom jocoso e ligeiro que consta do pequeno filme;

    – por muito graves que fossem as “desconsiderações” (e não me parece que o sejam), nada me faz concluir que seja algo mais que uma reportagem meramente lúdica e feita num tom sem qualquer animus offendendi, desde logo se se conhecer o programa “Saia justa” em que esse tom é costumeiro em relação a todo e qualquer tema e não, pois, especificamente ou mais marcadamente, relativamente ao nosso país;

    – por outro lado, muito do que ali é dito é, e infelizmente o penso e digo, verdade: não “elegemos” “nós” Salazar como a personagem maior dos nove (!) séculos portugueses?; aquele enfoque no número “3” que foi invertidamente afixado num contexto em que se denota que houve toda a concentração e atenção à caixilharia e, designadamente, aos parafusos tão rigorosamente centrados não ilustra ou não parece ilustrar muito do que nós em geral somos, atentos tantas vezes e até perfeccionistas com o acessório e o incidental e negligentes e descuidados com o que seria o principal?; ou, na mesma linha, aquele episódio com o empregado do hotel – de 5 estrelas, realce-se – que, chamado a ultrapassar um qualquer problema informático e que, não o conseguindo fazer, chama o porteiro (que se limita a franquear o acesso e em geral apenas dá o primeiro acolhimento aos hóspedes) a fim de este por sua vez “tentar a sua sorte” não será igualmente ilustrativo da nossa vocação irresistível para o desenrrascanço e para o improviso, para mais em situações em que se exigiria que não houvesse qualquer amadorismo (relembro, é um hotel de 5 estrelas)?;

    – por outro lado ainda, são destacados no programa, embora simetricamente de uma forma meramente alusiva, dados que julgo não seriam em caso algum salientados no que fosse um programa “hostil” a Portugal;

    – com efeito, alude-se ao monumento aos Descobrimentos (e não ao achamento…), filma-se nos Jerónimos, alude-se a Pessoa, a Camões e a Vasco da Gama, mencionam-se os pastéis e incorpora-se na filmagem uma explicação (factual, interessante e provavelmente desconhecida de muitos brasileiros… e de muitos portugueses!) quanto à razão da utilização das gemas e das claras dos ovos nos Conventos;

    – por fim, não julgo que a última cena represente a Maitê Proença a cuspir no solo que a recebeu; tão somente e muito sinceramente creio – e penso que isso resulta claramente da sequência das imagens – que ela tenta apenas, num tom obviamente ligeiro e lúdico, imitar o que a estátua representa e nada mais que isso.

    Independentemente de tudo isto que aqui escrevo – e, pois, mesmo que tivesse acaso havido uma intenção de desconsideração por parte da referida actriz -, penso que isso valeria o que vale. Ou seja, a uma brincadeira, se porventura pesada e “sem graça” (o que não me parece aqui o caso), dever-se-ia somente reciprocar por igual e não esperar uma qualquer retaliação de qualquer outra natureza.

    1. Caro João Manuel Vicente, continuo a achar que a sua benevolência vai muito para além da minha…
      Sem querer ofendê-lo (arrisco uma brincadeira, já que tem tal poder de encaixe em matérias “ligeiras e lúdicas”), dir-lhe-ia que essa diferença se deve provavelmente ao facto de eu não ser sensível aos atributos físicos da pequena, ao contrário de si. Será isso?

      Quanto ao intelecto da sua musa, sugiro que repare no final do video: já no Brasil, são as próprias companheiras de programa que se encarregam de gozá-la pela sua “distracção natural”…

      Volte sempre, é muito bem-vindo. 🙂

      1. Cara Ana,

        Registo com agrado e muito gosto a sua “provocação” e a sua gentileza final.

        Mas tendo rido e sorrido quando li essa provocação, pensei num primeiro momento que obviamente não seria o facto (inegável, de resto) da beleza do que seria nas suas palavras bem humoradas a “minha musa” que me faria entender esta questão da forma que expus… E de facto não é.

        Porém, pensando melhor, e sendo muito sincero, talvez me tenha sido mais “fácil” sustentar o que continuo a sustentar em face de uma “mulher bem resolvida” de 51 (!) anos do que, porventura, de alguém sem esses atributos…

        Mas isso não significa que o não fizesse identicamente…

        Mais a sério,o que na realidade me chocou e choca nesta história toda não são as legítimas (legitíssimas até) reacções de quem não gostou – mas só isso – do video; antes, a quase totalidade dos comentários nos media, na blogosfera e na “rua” de um puro e bárbaro aiatolismo, chamando à Maitê (e a todas as brasileiras) aquilo que se imagina, defendendo que deveria ser impedida de cá voltar, decretando enfim como que uma “morte civil” à actriz como se ela tivesse matado alguém.

        Isto ainda vai precisar de mais algumas gerações, não há dúvida.

        Com muito apreço e agradecendo mais uma vez a sua gentileza,

        JMV

        1. E eu agradeço uma vez mais a sua sinceridade e as suas palavras. E sabe que mais? Começo a dar-lhe razão, mesmo sem me deixar toldar pela beleza da Maitê (que é inegável, sem dúvida): eu não fazia ideia do grau de primarismo das reacções que este video pateta despertou nos portugueses. Mas tenho andado a receber mails sobre o assunto com cartas, petições, insultos baixíssimos, enfim… toda a razão que pudessem ter essas pessoas se perdeu pelo caminho. Continuo a dizer o mesmo: transformar este episódio numa espécie de afronta nacional é do mais ridículo e saloio que tenho visto. Não pela nossa falta de sentido de humor – porque não acho que a tenhamos nem que o video tenha qualquer qualidade nesse capítulo – mas pela desproporção da resposta.

          Tenho de concordar com a sua conclusão: isto ainda vai precisar de mais algumas gerações…

          Uma vez mais, volte sempre.

  9. Para mim, Ana, o problema é essencialmente comercial. A pequena veio até nós promover de não sei que trabalhos seus. Mas ao fazer este vídeo, ao dizer o que diz e ao revelar a ignorância, a saliência e o mau gosto que revela, não pode estar à espera de que o «consumidor-alvo» da sua campanha promocional acorra afoitamente a comprar-lhe o produto, inquinado – logo se deduz – das mesmas ignorância, saliência e mau-gosto. As relações entre o Brasil e Portugal não são – seria profundamente ridículo que fossem – minimamente beliscadas. Mas conto que a relação da Maitê com o público português – e se calhar não só português – seja definitivamente cortada, porque ainda quero acreditar que somos capazes de saber seleccionar e distinguir, nalguns domínios «sócio-culturais», a qualidade da porcaria. ;-D

    1. Também espero que lhe saibamos dar essa resposta, Luísa. Mas tenho a certeza de que quando for caso disso, ela voltará à conversa recorrente dos actores brasileiros: que Portugal é má-rá-vi-lho-so, um país irrrrmão qui méréci todo o cárinho da gentxi…
      E ficará muito admirada se não vender muitos livros.

  10. Na verdade, o video deixou-me indiferente, Ana. Por várias razões, mas a principal é que conheci a Maitê em 1992, no Rio de Janeiro, e fiquei logo elucidado sobre a sua inteligência. Lá como cá, uma carinha laroca pode vir para a televisão dizer e fazer o que lhe apetece, desde que caia em graça.
    Sabeos o que me impressionou mais? As gargalhadas das galinholas do suposto programa de TV. De meter medo ao susto! depois, foi ter sabido que isto eve honras de noticiário televisivo. Se nos pomos a jeito, não podemos protestar, né?
    PS: Acabo de saber que o video já foi feito em 2007. Porquê tanto destaque agora? Ah! Pois, se calhar e mesmo pelo que estou a pensar…

    1. Sempre ouvi dizer dela que era bonita e burra. Está provado.
      Sim, o video deve ter sido feito na altura do programa “Grandes Portugueses”. Porquê agora? Va savoir…

  11. Ô, Dona Ana, não sei se a “senhoura” sabe, mas eu sou leitor assíduo do Pastéis de Nada e eu que devo agradecer todo cárinho que você me deu, viu?! Nossa, que bacana!

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