Ensaio sobre o debate


Ana Vidal,

 

No debate entre Saramago e Carreira das Neves surpreendi-me a concordar mais do que uma vez com o primeiro. E gosto sempre de surpreender-me a mim própria (passe o pleonasmo).

 

Excluindo a costumeira arrogância natural – que sempre me encanita mas que hoje estava, estranhamente, quase ausente – os argumentos que Saramago apresentou em sua "defesa" foram de uma lógica arrasadora. Continuo a detestar a forma com que criticou a Bíblia (até o próprio concordou em que se excedeu no léxico, e que foi gratuitamente ofensivo para os crentes), mas percebi e respeito o conteúdo. Reconheço-lhe – a ele ou a qualquer pessoa – o direito a  ler  a Bíblia literalmente, mesmo que essa interpretação (ou a ausência dela, no caso) me pareça errada ou pobre. E fiquei a pensar: por um lado, Saramago, que é um mestre na alegoria, não deveria ter dificuldade em reconhecê-la nos textos bíblicos; por outro, a palavra de um texto sagrado e formador de carácter deve ser suficientemente clara para ser entendida de forma literal pelos menos letrados, sob pena de ter um efeito errado (e até contrário ao pretendido) nas suas mentes. Já a arrevezada tese da "preguiça" divina,  achei-a descabida, abusiva e até pateta. Quanto ao padre Carreira das Neves, esteve muito aquém do seu nível habitual. Excessivamente reverencial, na minha opinião.

 

37 comentários em “Ensaio sobre o debate”

  1. Também vi, Ana. E a minha opinião é semelhante à tua. Fraquíssimo, o padre Carreira das Neves. Saramago esteve igual a si próprio. O ponto mais surpreendente do debate aconteceu logo no início, quando o escritor admitiu ter-se “excedido” por chamar “filho da puta” a Deus no livro.

      1. O Padre Carreira das Neves, evidentemente doente ao olhar de qualquer espectador, disse em determinada altura que estava ainda a iniciar a recuperação de uma doença muito grave …
        Daí, talvez, alguma falta de brilho, que é seu apanágio. Mas esteve bem.
        Saramago, igual a si próprio, falar dele é dar-lhe a importância que não tem.

  2. Confesso que para mim esta história já está muito próximo do ponto de saturação, mas este seu post espicaçou-me a curiosidade sobre o debate. Vou ver se o encontro em arquivo.

    Já passei os olhos pelo livro e não me apeteceu incluí-lo na longa lista dos livros que quero ler antes de ser forçada a devolver a alma ao Criador. Hoje encontrei aqui http://daliteratura.blogspot.com/2009/10/jose-saramago.html um artigo que me tirou os problemas de consciência. Agora, depois de ler o que a Ana escreveu, interrogo-me se não estarei a ser precipitada. Talvez seja o meu preconceito relativamente a quem tem preconceitos. Está visto que vou ter de descobrir o arquivo desse debate… 🙂

    Saudações cordiais para todos.

    1. Para mim até já tinha ultrapassado esse ponto, Nicolina, mas acontece que passei pelo debate e fiquei presa. Gostei, sobretudo porque me provocou e me fez pensar. Quanto ao livro, não tenho o menor remorso se não o ler. E o que penso de Saramago/homem não mudou nada, mas isso não obsta a que lhe dê razão quando acho que a tem. Repito: nesta matéria, no conteúdo e não na forma.
      Depois diga-me o que lhe pareceu o debate, ok?

      1. Concordo consigo, o José Saramago esteve francamente melhor. Pareceu-me que o padre Carreira das Neves não conseguiu superar a circunstância de estar ali a representar a Igreja Católica e a falar em nome dela, enquanto o Saramago só teve de se preocupar com ele. Neste aspecto, pelo menos, a luta era desigual.

        Quando, há dias, passei os olhos pelo texto do Saramago, numa leitura em diagonal, pareceu-me que o «Caim» é uma abordagem divertida de um episódio bíblico. Divertida mas estéril, porque nada acrescenta à nossa forma de olhar o mundo e a vida. Por isso concluí que há outros livros que quero ler antes. Se sobrar tempo para esse (que não vai sobrar, tendo em consideração o tamanho da minha ignorância), então logo verei. Curiosamente este debate reforçou a minha convicção. A imagem que me ficou do que vi foi a de dois anciãos acantonados nos respectivos territórios, um receoso de colocar o pé em falso e comprometer a obra de uma vida, o outro redimindo-se de eventuais excessos que possam comprometer a sua imortalidade. Porque para um ateu, como Saramago, a imortalidade é isto: vender muitos livros. Em suma: que espectáculo mais triste!

        Só uma nota final: adorei aquela nota final do Saramago sobre os direitos que, na sua perspectiva, devem ser aditados à Declaração dos Direitos do Homem: o direito à dissidência e o direito à heresia. É sempre bom ver um estalinista entrar em contradição. [ A propósito, fantástica a crónica do Vasco Pulido Valente sobre este assunto, ontem, no Público. Cá para mim, tem carradas de razão].

        Saudações cordiais para todos.

        1. A Declaração dos Direitos do Homem consagra o “direito à liberdade”, que inclui esses dois que Saramago referiu. E tem razão: vindo de um comunista convicto e militante, a defesa do direito à dissidência dá vontade de rir…

  3. a tese da ‘preguiça divina’ agrada-me. Assim entendo este deus judaico/cristão/ muçulmano que fecha os olhos a tanta injustiça/sofrimento… acredito que não é por maldade é só a preguiça que o impede de exercer a sua divindade.

  4. Também vi o debate (embora em pulgas, para não perder o último dos ‘gatos’) e achei-os ambos muito amolecidos, condescendentes e compreensivos um com o outro. Esperava algo de mais vivo e esclarecedor mas, afinal, limitaram-se a dizer o óbvio e a não trazer nada de novo sobre a polémica. Apreciei, no entanto, o ‘mea culpa’ do Saramago ao admitir que se tinha excedido em algumas partes do texto, o que só lhe fica bem.

  5. Não vi o debate, Ana, porque imaginei que me ia irritar e ando a tentar evitá-lo a todo o custo. Mas não me surpreende a sua análise. Embora a personalidade do Saramago me desagrade genericamente, tenho de reconhecer que, no universo dos nossos «intelectuais», é dos que fala num estilo mais pragmático e «terra-a-terra», sem preocupações de «transcendência» no conteúdo e na forma do discurso. E quando se fala em assuntos religiosos, a abordagem «terra-a-terra» é, neste mundo da «razão» e da «ciência», a mais convincente, porque está em causa O que ninguém consegue provar que existe, e, existindo, como é – embora também ninguém consiga provar que não existe e como não é. São debates que dou logo, antecipadamente, por «furados», com poucas probabilidades de darem a vitória ao «meu lado». ;-D

    1. Não se teria irritado, Luísa, penso eu. Nenhum deles esteve brilhante nem particularmente belicoso e não se discutiu a existência ou não de Deus, só as possibilidades de interpretação dos textos bíblicos. E Saramago reconheceu que se tinha excedido, o que foi inédito nele…
      Quanto a mim, procurei ver o debate sem me sentir de um dos lados, e acho que consegui. 🙂

  6. Achei decepcionante!
    Os dois “em bicos dos pés”…
    Até parecia que não havia divergências.
    Esperava mais…nem sei bem o que esperava, mas soube-me a pouco.

  7. Antes de mais, devo dizer que toda esta polémica me parece completamente vazia em si mesma. Todavia, permite-nos falar de coisas que normalmente não são faladas nos media, embora seja difícil fazê-lo com qualidade nesses meios. Adiante….
    Só vi a parte do debate que passou na SIC generalista. Considerando que apenas me baseio nessa pequena amostra, deixo a minha opinião. Achei enfadonho e demasiado reverencial, principalmente por parte de Carreira das Neves (possivelmente devido à sua doença), pois poderia, com alguma facilidade, ter desmontado os argumentos de Saramago, em especial o que respeita à defesa da literalidade do texto. A única forma de ler a Bíblia literalmente seria fazê-lo acedendo às línguas em que originalmente foram escritas as suas partes constituintes. Ainda assim, seria necessário conhecermos o contexto em que cada um dos textos foi escrito e, para além disso e dada a polissemia das palavras, seria necessário conhecer as intenções do autor no momento em que as escreveu, numa espécie de transparência de consciências. Ora, como tal não é possível – pelo menos que eu saiba -, toda a leitura é acompanhada de interpretação, mesmo que seja uma interpretação que se reclama de uma suposta literalidade do texto para a utilizar, numa posição apenas aparentemente oposta, como argumento de autoridade que serve de fundamento ao seu valor. De facto, repare-se como a defesa da literalidade do texto serve a Saramago de argumento de validação da sua leitura: ele (Saramago) não se desvia da letra; todas as críticas à sua leitura literal são acompanhadas de interesses ocultos, da tentativa de colocar um teólogo ao lado de cada leitor, de deturpações do sentido original com o intuito de acomodar a letra à ocasião, etc.. Ou seja, há um argumento de autoridade escondido na defesa da literalidade apresentada por Saramago. Contra isto, defendo que a comunidade de sentido de um texto não nasce da sua literalidade , mas do encontro de diversas perspectivas que se aglutinam em torno da obra e a constituem enquanto fundamento dessa mesma comunidade. Não foi o objecto Bíblia que permaneceu ao longo dos séculos, mas a comunidade para o qual ele se constituiu como pólo aglutinador devido à sua capacidade presentativa de aspectos sempre presentes da condição humana e da compreensão que o ser humano de si mesmo tem. Apenas por isso foi preservado e continua a fazer sentido. E dessa comunidade fazem parte crentes, não-crentes e até José Saramago, nas suas diferentes leituras. É isso que faz da Bíblia, tal como de muitas outras obras, clássicos da nossa cultura. Vir agora defender uma leitura literal do livro é desejar ser, ele mesmo, um deus, ou seja, querer estar no princípio das coisas, e não apenas. humildemente e enquanto humano, finito, desejar começar uma nova leitura das coisas. Quando falo do princípio das coisas, não se tome tal afirmação na sua literalidade como uma defesa do Criacionismo , até porque sou agnóstico. A questão não é teológica, é hermenêutica: não se trata de dizer que Deus escreveu a Bíblia, mas antes de afirmar que não nos é possível entrar na cabeça do autor, seja ele qual for, e retirar da literalidade da pena a verdade da coisa, pois o significado genuíno das palavras não se encontra apenas nelas, mas em todo um conjunto de factores que lhes serve de elemento. Isto serve para a Bíblia e para qualquer outra obra do espírito humano.
    Será legítimo abordar a Bíblia ou qualquer outra obra na sua literalidade , no sentido de uma proximidade à letra e à palavra do texto? Com certeza que sim. O que não é legítimo é confundir esse sentido de literalidade com o sentido total de literalidade e, mais grave ainda, confundi-lo com uma ausência de interpretação. Se este comportamento é aceitável no comum dos mortais, por falta de conhecimento ou por negligência do pensar, não me parece aceitável num prémio Nobel que faz carreira da polissemia e que, no mesmo debate em que defendeu a literalidade , em sentido estrito, da Bíblia, não conseguiu dizer para quem escrevia. Pois é, talvez seja difícil fazê-lo, porque isso seria reduzir as leituras possíveis – e outros tantos leitores – à uniformidade de uma leitura do autor – autoritária, por assim dizer -, diminuindo irremediavelmente a própria vitalidade da sua obra.

    1. Obrigada pelo seu importante e interessante contributo, Miguel Pereira. De facto, uma literalidade (ou literalismo? a propósito, gostava de saber qual a expressão mais correcta porque ainda não cheguei a uma conclusão) total e sem erros, só pode considerar uma obra na sua língua original, o que seria logo o primeiro bico de obra em relação à Bíblia. Quanto ao contexto histórico, nem se fala. E Saramago, que, repito, é um mestre na alegoria, deveria sabê-lo melhor do que ninguém. Se aplicarmos o exercício da literalidade, por exemplo, ao Ensaio sobre a Cegueira (um dos livros de Saramago de que mais gostei, dos que já li), veremos que o texto perde todo o sentido e fica completamente absurdo.

      Além disso, toda a leitura é uma interpretação. Mas penso que percebi o ponto de Saramago, que não era exactamente esse.

      1. Muito obrigado pelas suas simpáticas palavras. Quanto à sua observação a respeito da intenção de Saramago, resta-me dizer que é bem possível que não a tenha captado, dado ter assistido apenas a pequena parte do debate. Só queria acrescentar que sou admirador da prosa de Saramago, pois o meu comentário poderia ter deixado a ideia de um antagonismo a respeito da sua obra que não é real.

        Cumprimentos e os meus parabéns a todos por um blogue onde, confesso, nem sempre encontro reflectida a minha opinião, mas onde posso expressá-la sem receber como resposta a hostilidade que é típica, infelizmente, da blogosfera.

        1. Fico contente por testemunhar aquilo de que mais nos orgulhamos: aqui no DO a opinião é livre e a sua discussão também, desde que com educação e respeito pelas outras. Mesmo entre nós há opiniões bastante divergentes, o que é muito saudável.
          Volte sempre, será muito bem-vindo.

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