
Apesar de sermos um país de marretas, temo muito que uma pré-campanha que começa à marretada não vá acabar bem. Se António Costa não se acautela, ainda corre o risco de ser confundido com um membro do gang das picaretas…

Apesar de sermos um país de marretas, temo muito que uma pré-campanha que começa à marretada não vá acabar bem. Se António Costa não se acautela, ainda corre o risco de ser confundido com um membro do gang das picaretas…
"Consta-se que o Palácio de Cristal tem quatro mil cadeiras".
Jerónimo de Sousa, discursando-se no Porto, em campanha eleitoral.
(Errata: quatro mil e não quarenta mil, como por lapso escrevi primeiro)
É bom que a Europa tenha a inteligência necessária para resolver os problemas de integração dos seus imigrantes: a avaliar por este e por muitos outros estudos sobre demografia europeia, não há incentivos à natalidade que os substituam na importante tarefa de repovoar o velho continente, que cada vez mais merece esse nome. A Europa está em vias de transformar-se num gigantesco lar de idosos, a quem latino-americanos e africanos mudarão fraldas compradas em lojas de chineses.
Estive hoje numa reunião curiosa: seis mulheres (de diversas idades) em volta de uma mesa, a discutir assuntos relativos a uma grande empresa do país. Metade delas pertencia à cúpula executiva dessa empresa. Homens? Só um, e por breves momentos: entrou silenciosamente, serviu cafés e águas e saiu da mesma forma discreta.
Ligo a televisão para ouvir notícias e passo de raspão pela RTP1, onde, em menos de dois minutos, ouço esta pérola de entrevista de rua, conduzida por um tal Hélder (?) no portão de uma escola primária, no primeiro dia de aulas:
(Para a câmara): "Vou ver se apanho algumas opiniões de pais que queiram falar ou não".
(Para a única criança que conseguiu "apanhar", sobre os cuidados a ter por causa da gripe A): "Então a tua mãe ensinou-te a lavar as mãos e a tossir? Ora diz lá, como é que se tosse?". Resposta pronta da criança: "Por a boca!"
(Para a câmara de novo, muito satisfeito com sua prestação e usando os clichés que conhece das entrevistas "a sério"): "E foi a entrevista possível, aqui à boca do início das aulas".
Nota: O cartoon é do impagável Millôr Fernandes.
O tema "quente" do momento, em Espanha, é apelidado pela oposição a Zapatero de "cortina de fumo" destinada a escamotear responsabilidades pessoais no descalabro económico do país. Não admira: em época de pura sobrevivência nacional, parece de facto uma hábil pirotecnia política a discussão de um problema real, mas apesar de tudo secundário. Falo da legalização da prostituição, um assunto que, pela sua natureza (a escolha do timing não é inocente), galvaniza os ânimos e incendeia debates televisivos. Assisto a um deles sem conseguir resistir, também eu, ao painel de convidados de um dos canais nacionais: dois jornalistas, um advogado, dois anónimos (na verdade, um homem e uma mulher que representam os cidadãos médios, seja lá isso o que for), um médico, um sociólogo e uma prostituta "encartada". Não é ironia: a convidada é uma profissional segura de si, que dá a cara sem medos nem inibições, além de vir bem equipada com estatísticas e argumentos sólidos para defender o seu lado da barricada. O do "sim", claro. Contra ventos e marés vejo-a, ao longo de uma boa meia hora, mover-se com o à-vontade de quem já galgou quase todas as barreiras de um sobrevivente. Fala com fluência e consegue fazer parecer – como por artes de magia – puro moralismo hipócrita todos os argumentos contrários. E alguns não são fáceis de rebater, apesar das pinças com que têm de ser tratados. A mulher ganha terreno e remata, inflamada, com uma frase lapidar: "Eu não estou aqui a defender os direitos das prostitutas, mas sim os direitos de todas as mulheres, incluindo o de usar o seu corpo como bem entenderem!".
Mas o jornalismo tem razões que a razão desconhece e, sem pré-aviso, o moderador lança no ar uma peça inesperada: uma reportagem sobre um novíssimo e perturbador "desporto" nacional – encontros marcados (na net) entre desconhecidos, para sexo rápido e descomprometido em locais tradicionalmente ocupados pela prostituição. A grande diferença é que não há pagamentos envolvidos, as únicas motivações são a adrenalina e o risco. São entrevistados (de cara tapada, é claro) vários adeptos da modalidade, que enaltecem as maravilhas produzidas pelo exotismo nos seus hábitos sexuais. E é nesse ponto que a mostarda sobe ao nariz da prostituta em estúdio: furiosa e transtornada, reclama da concorrência desleal com todo o colorido do seu léxico, e – para gáudio de alguns dos presentes, antes humilhados por ela – invoca em seu abono as leis do mercado e da ocupação de território, já completamente esquecida dos argumentos soprados por algum florido saudosista do Maio de 68. A vida é dura.
As ruas da Galiza inteira estão em obras, como se tivesse havido uma catástrofe da natureza e tudo tivesse de voltar a ser reconstruído. Demorei a perceber o porquê de tanta e tão simultânea actividade, até reparar num cartaz que se repetia, afinal, por todos os cenários onde reinavam a picareta, os capacetes amarelos e as retroescavadoras. Sob a sigla PlanE, a explicação simples: Plan Español para el Estímulo de la Economia y el Empleo (Fondo de inversión local para el empleo). Ou seja: numa medida que me parece eficaz e inteligente, o governo de Zapatero atribuíu uma verba aos poderes locais – a cumprir num prazo de seis meses – para ser aplicada em melhoramentos locais e destinada a combater o desemprego por todo o país: pavimentos, saneamento básico, recuperação de fachadas, etc. O evidente incómodo temporário do trânsito alterado, do pó, do barulho ensurdecedor e de todas as dificuldades que resultam de uma cidade em estado de sítio pelos enormes roços abertos em muitas vias principais, será mais tarde recompensado pelos melhoramentos estruturais, a bem dos seus habitantes. Por outro lado, são criados postos de trabalho localmente (a prazo, é certo, mas é melhor do que nada), e não na concentração geográfica de uma ou duas grandes obras nacionais. Há ideias que vale a pena copiar.
Estou na Galiza, com um acesso limitado à net (só raramente consigo entrar, como é o caso de agora). Nos dias que aqui tenho passado – os últimos das minhas férias – tenho aproveitado para matar saudades desta região que adoro e já não visitava há alguns anos, rever velhos amigos, passear, ler alguma coisa do que tenho em atraso e, last but not the least, deliciar-me com uma gastronomia que é um dos grandes trunfos desta magnífica zona. Ontem, em Vigo, diante de um insuperável "pulpo a gallega" no Eligio (uma tasquinha antiga, sem identificação exterior e com pergaminhos de boémia artística, que só é conhecida de quem vive aqui ou tem a sorte de ser introduzido por um cliente da casa), comentava-se a crise económica nacional/internacional, agudíssima e ainda sem qualquer luz ao fundo do túnel: o desemprego crescente, a insatisfação generalizada, o aumento das tensões e desequilíbrios sociais (que, em Espanha, facilmente encontram eco em movimentos terroristas organizados, potenciando a insegurança e o medo), a falência de pequenas e médias empresas e a retirada estratégica de multinacionais, a corrupção política, o descrédito progressivo das instituições, sobretudo as ligadas à justiça. Um quadro em tudo semelhante ao nosso, mas com os contornos especiais de um país que passou da abundância confortável ao descalabro em muito pouco tempo. Pergunto como nos vêm a nós, portugueses, em idêntica situação e neste momento pré-eleitoral. A resposta é intrigante: "Excessivamente parados, sabes?". Quero saber porquê. "Porque, perante a adversidade e o desânimo, vocês paralisam". "E vocês?", pergunto eu. "Nós esbracejamos."
Este diálogo lembra-me, inevitavelmente, aquela fábula (japonesa, creio) dos dois ratinhos que caem inadvertidamente num jarro de leite. O primeiro, percebendo que nada pode fazer para sair dali, dá aos pés durante algum tempo e depois pára, rendendo-se à sua sorte e afogando-se no leite. O segundo, pelo contrário, não desiste de bater os pés. Já muito cansado e pensando estar a aproximar-se do fim, nota de repente que o "chão" debaixo dos seus pés começa a ficar sólido, permitindo-lhe salvar-se: o leite, com a agitação prolongada, transformara-se em manteiga.
Desengane-se quem pensou que o discurso político em Portugal está esgotado. Bem sei que quase tudo já nos foi prometido e depois negado, bem sei que os programas e declarações de intenção não nos arrancam já mais do que um encolher de ombros enfastiado e descrente, bem sei que um irreprimível bocejo é a nossa resposta mais frequente à previsibilidade dos debates eleitorais.
Mas… atenção, muita atenção: a zona onde vivo acordou um dia destes com uma ideia nova, fresca, inesperada, brilhante. Há uma sorridente senhora do PS que promete ensinar-nos a… AMAR! Isso mesmo, leram bem. A nova Florbela não explicou ainda como pretende fazê-lo, é certo. Ficamos sem saber se vai fundar uma nova seita religiosa, abrir um bar de alterne, uma sex shop ou um motel de estrada (já há alguns por aqui, e por sinal o outdoor que apregoa as maravilhas de um deles está a poucos metros de um dos cartazes da criativa candidata do PS) ou se irá ministrar cursos práticos de kamasutra aplicado, mas alguma ideia estará por detrás daquele sorriso confiante. O penteado, a idade, a pose, a roupa, apontam para uma solução respeitável. Mas o sorriso é maroto e há ali um dentinho desalinhado que me deixa inquieta. O que será que vai na cabeça de Leonor Coutinho? Como será que ela nos quer pôr a amar melhor do que até aqui? E porque achará a senhora que em Cascais se ama pouco, ou mal? Tenho pena de já não votar em Cascais. Juro que lhe daria o meu voto, só para ver este enigma resolvido.
(Agora a sério: será possível que ninguém se tenha apercebido de que este slogan perde completamente o efeito de trocadilho quando passa da expressão oral à escrita? Se a ideia era sugerir que o concelho de Cascais, pela mão do PS, vai "saber a mar" por mais cuidados com o ambiente, menor poluição, melhor qualidade de vida, sei lá… a verdade é que, da mensagem, fica só o ridículo de uma promessa que mais parece saída de um pastor da IURD, para não dizer pior. Entretanto, Capucho agradece e dorme mais descansado.)
Surrealista, no mínimo, o primeiro debate televisivo para as legislativas: quase se falou mais das regras do próprio debate do que dos temas a debater. Retive, na confusão geral, estes dois estranhos pedidos da moderadora Constança Cunha e Sá (cito de memória) que revelam bem o absurdo a que assistimos:
1 – "Meus senhores, agradeço que respeitem os tempos de intervenção e réplica pré-estabelecidos, para evitarmos entrar em debate". (logo no princípio, quando os convidados se interromperam mutuamente).
2 – "Bem, as regras também não podem ser completamente rígidas, para poder haver um mínimo de debate" (mais à frente, quando um dos convidados invocava o cumprimento das ditas regras).
Eu, que pensava que o que se pretendia era um máximo de debate, fiquei baralhada.

Tentei ontem explicar a uma incrédula australiana por que razão vivo, amo e ainda acredito num país onde a miséria vai ao ponto de idosos e deficientes profundos serem sequestrados e maltratados pela própria família para lhes sacar as paupérrimas pensões de alimentos, e apesar disso se consideram prioritários projectos megalómanos como o TGV. Tentei explicar-lhe que esse país pertence à Europa, e não ao terceiro mundo. E que é mesmo um país, e não o bairro de lata de Roma que serviu de cenário a Ettore Scola há mais de trinta anos.
Tentei, mas não tenho a certeza de tê-la convencido.