Silly Season (4)


Ana Vidal,

 

(Nota: Tive hoje de manhã o desgosto de saber que José Sócrates não comenta "disparates de Verão", o que me fez perder a legítima esperança que tinha de vê-lo aqui, no Delito, a comentar esta minha esforçada série dos ditos. Ainda estou profundamente abalada com a notícia.)

 

Holy Cow!


Ana Vidal,

 

Com a crise generalizada, o desemprego, a insegurança, a gripe A e outros mimos com que todos os dias são presenteados os humanos, bom mesmo é ser-se vaca. Sobretudo se se tiver a sorte de nascer nesta exploração de Portalegre, onde o extremoso proprietário não poupa esforços para oferecer às suas "meninas" todo o conforto e felicidade que possa proporcionar-lhes: cama, mesa e roupa lavada, e agora também ar condicionado e música ambiente, para combater o stress. Tudo isto em troca de uns litros de leite diários? Peanuts! Mesmo assim, há logo vizinhos que vêm pôr defeitos na escolha musical: Beethoven não é suficientemente relaxante, talvez Haydn ou Mozart. Teresa Leite (um nome curiosamente apropriado), especialista em musicoterapia, confirma a utilidade da ideia. Seja como for, se a música não resultar ainda resta ao senhor Ventura Nunes o recurso ao Prozac, misturado na ração. Digo eu, que de repente passei também a achar importantíssimo que as vaquinhas se sintam nas nuvens.

 

 

VPV em auto-retrato


Ana Vidal,

 

«É fundamental para o meu equilíbrio ter sempre próximo alguma coisa que me mostre que sou uma pessoa média, porque senão podia estar convencido de que era uma grande pessoa e não há desastre maior do que esse.»

 

Mesmo com este pequeno senão que me deixou um bocadinho maldisposta, gostei de ler esta entrevista de Laurinda Alves a Vasco Pulido Valente. Estão lá a graça cáustica, a irreverência e a lucidez do costume, em boas respostas mesmo quando as perguntas são fraquinhas. Como a maior parte das pessoas, detesto ouvi-lo mas gosto muito de lê-lo. E aqui temos uma versão – pouco vulgar – de VPV by himself.

 

Um filme (quase) banal


Ana Vidal,

 

O que pode fazer de uma história absolutamente banal, povoada de clichés e  até de algumas incongruências, um bom filme? A resposta é simples: uma interpretação superior. É o caso de Duplo Amor, o filme que ontem vi. O argumento é, como já disse, batido:  vive de  choques de personalidade, de pressões familiares, de inadaptações sociais e do desequilíbrio – latente ou explícito – que há sempre em quem se sente asfixiado pelo mundo que o rodeia. Até aqui, nada de novo. Junte-se-lhe o eterno boy loves girl who loves another boy, a cidade de New York como cenário, as tradições e rituais de que a comunidade judaica não abdica nunca, viva onde viver. Nada de novo, ainda. Ah, mas agora atente-se no casting, que tudo ilumina e altera: Joaquin Phoenix, um dos actores mais convincentes da actualidade (dizem que este será o seu último filme, apesar da juventude) personifica na perfeição Leonard, um homem perturbado, desconfortável na sua pele, que descobre inesperadamente o amor e se entrega a esse abismo pela segunda vez com uma generosidade adolescente, depois de uma  primeira experiência traumática. Gwyneth Paltrow é uma novaiorquina sofisticada mas mergulhada em dúvidas e culpas, infeliz e desorientada, egoísta como todos os obsessivos. Isabella Rossellini é a mãe angustiada e super-protectora de Leonard, agarrada às tradições mas temendo sempre pelo filho, que adora (Moni Moshonov é o pai, com um papel mais curto mas também intenso). Finalmente, Vinessa Shaw, a namorada judia que tem a benção familiar mas não o amor incondicional de Leonard, uma actriz que eu não conhecia e me impressionou. Todos eles fazem deste filme um momento que vale a pena. À laia de rebuçado para nós, portugueses, uma surpresa boa: numa das cenas centrais do filme, a voz de Amália invade a sala, cantando Estranha forma de vida. E sabe bem ouvi-la assim inesperadamente (integrada numa banda sonora de luxo, quase toda composta por árias de óperas clássicas), como escolha de uma sensibilidade apurada e saída do mainstream de Hollywood. 

 

Ainda sobre o dia de hoje


Ana Vidal,

 

Tudo se inventa, hoje em dia. Qualquer teoria é defensável desde que não tenha de ser provada. E no que toca a teorias de auto-ajuda, a oferta é quase infinita. Há até um maduro que defende qualquer coisa de tão extraordinário como o "parto orgásmico". Isso mesmo, leram bem. Um orgasmo durante o parto… querem coisa mais aliciante, tão "a calhar" naquele momento? Uma amiga grávida mandou-me a notícia por mail, e eu não queria acreditar no que lia…

 

Vale a pena ouvir o que diz o iluminado Ricardo Herbert Jones (deixo aqui estes dois excertos para quem não tiver paciência para ler todo o artigo, o que eu, aliás, entendo perfeitamente):

 

"O orgasmo durante o nascimento só pode ocorrer quando todas as variáveis de segurança, afeto, tranqüilidade e equilíbrio emocional estiverem garantidas. Desta forma, o orgasmo será a conseqüência deste ambiente de positividade, e não sua busca objectiva."  

 

"Parto orgásmico é um mergulho profundo no ser feminino. É a descoberta do prazer de parir; o segredo mais bem guardado, no dizer da parteira americana Ina May Gaskin. É uma possibilidade para qualquer mulher desde que possa despir-se das capas de medo criadas pela cultura patriarcal que tenta dominar a força criativa da mulher, culpabilizando-lhe o prazer e domesticando o feminino."

 

O blá blá blá continua aqui, para quem ainda não estiver devidamente esclarecido.

 

Tenho só a dizer-lhe, caro Ricardo Herbert Jones, que só um homem se lembraria de uma destas. Porquê? Porque só um homem pode dizer todas as asneiras que lhe vierem à cabeça sobre um assunto que desconhece em absoluto, sabendo que jamais terá de vivenciá-lo para provar a sua teoria… 

 

Tenha primeiro um filho, meu amigo – e de parto natural! – e depois venha falar-me de orgasmos durante essa experiência light…

 

(Nota: repescado do Porta do Vento, a propósito do post do Carlos com bolinha vermelha)