Ainda sobre o dia de hoje


Ana Vidal,

 

Tudo se inventa, hoje em dia. Qualquer teoria é defensável desde que não tenha de ser provada. E no que toca a teorias de auto-ajuda, a oferta é quase infinita. Há até um maduro que defende qualquer coisa de tão extraordinário como o "parto orgásmico". Isso mesmo, leram bem. Um orgasmo durante o parto… querem coisa mais aliciante, tão "a calhar" naquele momento? Uma amiga grávida mandou-me a notícia por mail, e eu não queria acreditar no que lia…

 

Vale a pena ouvir o que diz o iluminado Ricardo Herbert Jones (deixo aqui estes dois excertos para quem não tiver paciência para ler todo o artigo, o que eu, aliás, entendo perfeitamente):

 

"O orgasmo durante o nascimento só pode ocorrer quando todas as variáveis de segurança, afeto, tranqüilidade e equilíbrio emocional estiverem garantidas. Desta forma, o orgasmo será a conseqüência deste ambiente de positividade, e não sua busca objectiva."  

 

"Parto orgásmico é um mergulho profundo no ser feminino. É a descoberta do prazer de parir; o segredo mais bem guardado, no dizer da parteira americana Ina May Gaskin. É uma possibilidade para qualquer mulher desde que possa despir-se das capas de medo criadas pela cultura patriarcal que tenta dominar a força criativa da mulher, culpabilizando-lhe o prazer e domesticando o feminino."

 

O blá blá blá continua aqui, para quem ainda não estiver devidamente esclarecido.

 

Tenho só a dizer-lhe, caro Ricardo Herbert Jones, que só um homem se lembraria de uma destas. Porquê? Porque só um homem pode dizer todas as asneiras que lhe vierem à cabeça sobre um assunto que desconhece em absoluto, sabendo que jamais terá de vivenciá-lo para provar a sua teoria… 

 

Tenha primeiro um filho, meu amigo – e de parto natural! – e depois venha falar-me de orgasmos durante essa experiência light…

 

(Nota: repescado do Porta do Vento, a propósito do post do Carlos com bolinha vermelha)

 

 

14 comentários em “Ainda sobre o dia de hoje”

  1. Ana, um forte abraço, mandado com toda a convicção por quem teve um filho de parto normal e até se aguentou muito bem!

    Há cada abantesma! Há cada doido…

  2. Ana:
    Gostei muito do seu post mas, ao contrário do que V. diz, já não é uma verdade absoluta que “só um homem se lembraria de uma destas… ….porque sabe que jamais terá de vivenciá-lo para provar a sua teoria…” Lembremo-nos apenas do único (para já, pelo menos) caso do pai-mãe, made in USA. E parece que já outros estão na calha. Qualquer dia estamos todos transformados em cavalos-marinhos…
    E cá para nós, esta do “parto orgásmico” – a ser exequível – até teria, por certo, um impacto muito maior no aumento dos índices de natalidade que os míseros e ridículos 200€ a 18 anos prometidos por Sócrates. Isto, sim, é a ‘silly season’ no seu máximo esplendor, e creio que ambas as medidas darão, por certo, umas óptimas dicas para os ‘Contemporâneos’ e afins.
    Um abraço. ;-))

    1. O Sócrates é que ainda não se lembrou disso, Luís, e até lhe saía mais barato…

      Essa de haver homens interessados em engravidar e ter filhos é que eu não percebo, mas uma coisa lhe garanto: só vão ter um filho cada um (por não saberem o que é)… o segundo parto já nenhum vai querer!

  3. Ana, uma vizinha dos meus pais dizia que ter os filhos, de parto natural, lhe dava mais prazer do que fazê-los.
    É realmente, que eu conheça, caso único mas… os mistérios da vida e principalmente da sexualidade são deveras incompreensíveis!

      1. Muito estranho… Eu até sugiro mais, sugiro um dois em um, como me aconteceu (um parto natural, ferros, ventosa, que depois evoluiu para cesariana) e quero ver se se lembra de algum orgasmo… Dá-lhe um badagaio e nunca mais recupera..

  4. Estava a procurar um texto que eu mesmo havia escrito e postado na Internet quando encontrei este blog que comentava, de forma jocosa e até um pouco desrespeitosa, uma entrevista minha em Portugal. Mas, acalmem-se: não vou “criticar a crítica” e nem reclamar do debate; apenas queria aclarar algumas idéias. Fiz os comentários sobre parto orgásmico apenas porque sou participante como “expert” do filme “Orgasmic Birth” de Debra Pascali-Bonaro, cineasta americana. Portanto, as idéias sobre um parto pleno de prazer não são minhas, e nem provém da “cabeça estúpida de um homem”. O debate sobre as possibilidades de um parto com prazer se iniciam com as descobertas de Niles Newton sobre a ação da ocitocina no cérebro feminino e passam pelas atuais pesquisas de Uvnas Moberg sobre o psiquismo e a fisiologia alterados por este hormonio prodigioso. Incluem também as novas descobertas sobre as endorfinas e a adrenalina, e os paralelos endocrinológicos entre parto e orgasmo. Inquietante, não? Infelizmente as pessoas que criticaram meu texto certamente não viram o filme, mas o preconceito arraigado de algumas mulheres que postaram aqui demonstra a enorme distância entre a vivência de um parto digno com a realidade que elas atravessaram nos seus próprios partos. É disso que falamos: a simples negação absoluta que vemos desta possibilidade nos informa (e nos entristece) das condições em que se processam os partos na sociedade ocidental contemporânea. Certo que minha condição masculina me impede de fazer um comentário engrandecido com a passagem pelo parto, mas infelizmente percebo que minha (in)experiência é tao grave quanto a de muitas mulheres que aqui escreveram, que tiveram partos tão violentos, dolorosos e insípidos quanto seria possível imaginar. Triste a sociedade que debocha da possibilidade de parir seus filhos com dignidade, harmonia, paz e (porque não, afinal?) … prazer !!
    Boa sorte a todas…
    Um beijo
    Ric (copiado do outro blog…)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *