A notícia mais arrepiante que tenho ouvido nos últimos tempos – e todos sabemos como eles têm sido férteis neste género de notícias – foi-me repetida hoje, até à exaustão, em todos os noticiários do dia: "No espaço de tempo de apenas doze horas, nove idosos foram encontrados mortos nas suas casas, na área de Lisboa". Nove. O número é tão insólito que a polícia estranhou e, a mim, deu a imediata sensação de tratar-se de crime. Um qualquer sádico exterminador de velhinhos, marcando riscos na coronha logo nos primeiros dias do ano. Mas não. O serial killer é um velho conhecido nosso e chama-se, simplesmente, Abandono. O apelido? Solidão. Nada de tão plástico como um enredo policial, nada de tão enigmático como a mente perturbada de um psicopata urbano entregue aos seus delírios. Apenas um triste apontamento caseiro, num dia de chuva sem grandes dramas internacionais. E no entanto, mais do que os mais sangrentos massacres humanos ou os mais terríveis desastres ecológicos, esta "pequena" notícia nacional deixou-me de rastos. Todos temos, ou tivemos, pelo menos um velhinho que nos é querido. Imaginemo-lo a morrer assim, completamente sozinho: de frio (porque o dinheiro não chega para o aquecimento); de fome (porque a pensão mal chega para os medicamentos); ou tão somente de solidão e desistência. Sem poder despedir-se de quem gosta, tocar numa mão alheia, deixar um sorriso ou uma lágrima a outra testemunha que não as paredes e o tecto esburacado. Se fosse o "nosso" velhinho, como nos sentiríamos? Criminosos. Não há outro nome para quem abandona assim os seus velhos, só porque já não são úteis ou representam um espelho incómodo do seu próprio futuro. É o que somos, então. Um país que deixa morrer ao abandono os seus cidadãos mais frágeis, negando-lhes a última dignidade a que têm direito, é um serial killer. E o pequeno apontamento caseiro dos noticiários de hoje era, afinal, sobre um crime.


Excelente texto, Ana. Sobre um drama silencioso das ‘modernas’ e ‘evoluídas’ sociedades contemporâneas. Revejo-me por inteiro nas tuas palavras.
Obrigada, Pedro. As sociedades “modernas e evoluídas”, como dizes, estão feitas para gente nova, saudável e energética. A ironia maior é que, por conta dessa mesma evolução, vive-se cada vez mais e nasce-se cada vez menos. Há aqui um desequilíbrio que ninguém parece querer ver, e o resultado é que cada vez há mais gente que não corresponde ao padrão ideal. É bom que comecemos a pensar que, não tarda nada, é a nossa vez de sermos dispensados.
Muito bom o seu texto, Ana, cheio de sensibilidades. É mesmo muito triste, desumana, a situação em que se encontra alguns dos “nossos” velhos – pegando na sua chamada de atenção (pertinente e oportuna) para o “desequilíbrio “ – fico ainda mais perplexa – imagino que, não se agindo urgentemente, esses casos irão, infelizmente, continuar a acontecer. E eu, para velha já me faltou mais, vou ter tanta dificuldade, no caso de vir a depender de outrem. Está na hora de pensar a sério no assunto, para não ser uma velha “difícil”… Que, também, as há;))
Estive muito tentada a chamar a este post “Este país não é para velhos”, Maria. Mas depois não me apeteceu ironizar nem brincar com um tema tão desolador como este.
Há velhos difíceis, sim (eu que o diga, tenho uma em casa). Espero não vir a ser assim, mas não garanto nada…
🙂
Subscrevo este teu excelente texto, Ana. Vivo diariamente na angústia de que isso possa acontecer à minha mãe que, com 95 anos, vive a 300 kms de distância e nunca consegui trazer para Lisboa, porque alegava (compreensivelmente) que não queria perder a companhia das amigas. O problema é que todas foram desaparecendo, já não lhe resta ninguém, mas continua a recusar-se abandonar a casa onde viu nascer ( e morrer ) três dos cinco filhos.
Sei que um dia vou receber ” aquele telefonema”, mas sinto-me impotente para o contrariar.
Este país realmente não é para velhos ( mas há que reconhecer que este governo tomou algumas medidas na tentativa de evitar situações como as que decreves), nem para crianças, nem para jovens à procura do primeiro emprego, nem para adultos que não tiveram oportunidade de estudar e hoje auferem salários miseráveis, nem para doentes, nem para ninguém. Este país, com excepção das belezas naturais, do mar e do sol, não se recomenda a ninguém. Poderá ser uma excelente estância balnear, um paraíso para golfistas, uma atracção para turistas. Para quem cá vive é que não é nada saudável. Excepto, claro, para o sr. “ingenheiro” que pensa estar no País das Maravilhas
Eu não seria tão radical, Carlos. Apesar dos pesares, ainda gosto muito de viver em Portugal. Mas tens razão, cada vez é mais difícil e começa a faltar-nos até o que é básico. Resta o sol e o mar, a gastronomia e os brandos costumes (que são cada vez mais um defeito em vez de uma qualidade, eu sei). Mas que este país não é para velhos, isso não é.
Excelente, mesmo.
Gostei muito, Ana. Triste, mas muito bem escrito.
Parabéns.
Tristíssimo, Teresinha. Mas é uma realidade que temos de encarar, e já vamos tarde. Obrigada pela simpatia.
Como diria a Mafalda (do Quino) dão-lhes um ano novo e começam logo a estragá-lo!
Há quem diga, encolhendo os ombros, que é a máquina infernal do mundo moderno. Mas, ainda bem que há pessoas como tu, que se importam.
Há tanta coisa para mudar nesta nossa sociedade…
Beijos
Pitucha, eu importo-me e tu também, e tenho a certeza de que muitos mais se importam. Mas porque é que tenho a sensação de que isso serve de muito pouco? Esse encolher de ombros é que me arrepia…
Ana, parabéns. Um optimo texto que retrata uma triste realidade.
O tema dos nossos idosos toca-me muito.
Peço desculpa por me atrever a contar uma história verídica.
Em 2002 saí de minha casa e do meu trabalho para cuidar dos meus pais; a minha mãe teve um AVC.
Têm sido anos difíceis, entretanto o meu pai morreu em 2008.
A minha mãe e eu moramos numa confortável casa com 30 anos, com cerca de 300 m2, com isolamento acústico e térmico, implantada num terreno com 3.000 m2.
O maior desejo e projecto da minha mãe é ir viver para um anexo existente no fundo do campo onde guardamos as máquinas agrícolas.
“Aqui é que era bom… punha ali uma caminha… ali um fogãozinho… tenho os tachinhos antigos de alumínio…”.
A minha mãe tem 83 anos, bem conservada; ela foi sempre muito bonita e quando fala com as pessoas amigas é muito jovial e tem uma memória fantástica. Sem me querer alongar mais, muitas vezes pergunto-me: “Será que todos esses idosos são abandonados ou são eles mesmos que se abandonam?”.
Virgínia, infelizmente o abandono de idosos é uma realidade e não parte dos próprios, ainda que o auto-abandono acabe por acontecer também. E quem pode culpá-los por isso? A abulia acaba por ser uma defesa, talvez a última. Nem todos têm a sorte de viver nas condições em que a sua mãe felizmente vive (ou a minha, que teve uma vida plena e morreu em casa, com todos os filhos e netos à volta). E a verdade é que nem todos os filhos podem fazer o que fez a Virgínia, embora muitos pudessem fazê-lo e não o façam.
Curiosamente, também a minha mãe suspirou toda a vida por um apartamento pequeno, por contraponto ao casarão antigo, desconfortável e dispendioso em que viveu toda a vida.
Um abraço.
Ana, mais uma vez peço desculpa, mas estou a viver uma situação que me ultrapassa.
A seis quilómetros desta casa, temos um optimo T3, pronto a ser utilizado, num condomínio fechado, junto à praia. A minha mãe não aceita mudarmos para lá; não quer sair daqui. É desesperante.
Um abraço
Ah, Virgínia, agora percebi! A sua mãe está, provavelmente, a mostrar quem manda ainda… pelo menos na vida dela. Calculo como deve ser desesperante, nesse caso. Experimente dizer-lhe que dá o T3 a outra pessoa que o aprecie mais, ou que o ar do mar prolonga a saúde… talvez resulte!
🙂
Parabéns Ana Vidal!
E a todos os que viram a cara a esta realidade relembrar-lhes que os dias passam céleres até ao crime final em que serão as próximas vítimas!
Nem mais. Mas acho que é isso mesmo que nos perturba e nos faz voltar a cara… é duro de mais.
“Sem poder despedir-se de quem gosta, tocar numa mão alheia, deixar um sorriso ou uma lágrima a outra testemunha”
Ana, não seja piegas. Você anda a ver demasiados filmes. A maior parte das pessoas não morre assim, mesmo que morra acompanhada.
O meu avô morreu na mesa de cirurgia: o coração não aguentou a anestesia. A minha avó morreu durante o sono, foi encontrada morta de manhã. A minha mãe morreu no hospital, só com um enfermeiro por perto. O meu pai morreu com uma pessoa ao lado, mas de falhanço do coração e não se despediu.
Lamento pelos que lhe morreram, Luís. Dos seus, não seria de esperar que morressem sós e abandonados. E é destes que se trata, destes que descontaram uma vida para um Estado que não soube garantir-lhes uma justa redistribuição da riqueza, destes a quem a Constituição confere uma vida condigna que acabou por lhes ser negada nos momentos piores.
Entendeu, Luís? É que a maior parte das pessoas não morre assim, mas morre assim um aqui e outro ali. E viver com dignidade até ao fim é um direito que não comporta excepções.
Tem razão, Luís Lavoura, estou a ser piegas. Vivemos num país em que as reformas são excelentes, os idosos vivem em lares de luxo ou em casas particulares em que nada lhes falta, depois de uma vida de trabalho que lhes é inteiramente reconhecida pelo Estado. Ninguém morre sozinho (a notícia é mera invenção, para os piegas como eu poderem ter orgasmos lacrimejantes), doente e abandonado pelo Estado e pelos seus. E os raríssimos casos em que isso acontece, é por mau feitio dos moribundos. Vivemos num país ideal. E eu sou um piano de cauda.
Ainda não entendi porque insite em tresler uma grande dos posts que aqui deixamos e descontextualizar algumas passagens. Há uma diferença substancial entre morrer sem familiares por perto e morrer de abandono. É muito fácil de ver.
Fácil de ver mas difícil de engolir, Leonor.
Se a Leonor e a Ana tivessem lido o meu comentário com cuidado, teriam visto que eu em nada me referi ao drama de morrer só, apenas me referi à pieguice de escrever que, quando as pessoas morrem, tocam em mãos alheias, sorriem ou vertem lágrimas. A maior parte das pessoas não morre assim: morre porque lhes dá um chlique, e prontos, sem terem consciência de que vão morrer e sem terem ensejo de verter lágrimas, de sorrir docemente ou de pegar nas mãos de quem lhes faz companhia.
Como disse, o meu pai morreu acompanhado, mas não fez nada disso. De repente soltou um suspirinho e apagou-se, pura e simplesmente. O coração, cansado, deu a última batidela.
Oh, Luís, você afinal de contas é um ingénuo e um optimista incorrigível… e eu que não tinha percebido ainda!
“A maior parte das pessoas morre porque lhes dá um chlique, e prontos, sem terem consciência de que vão morrer e sem terem ensejo de verter lágrimas, de sorrir docemente ou de pegar nas mãos de quem lhes faz companhia.”
E a maioria das pessoas passa directamente de uma vida feliz, farta e saudável para essa morte santa, presumo. Assim, um suspirinho que os leva em beleza. Que ternura!
Bem, detesto seu eu a fazer-lhe essa maldade, mas… ponha os pés no chão. Visite um lar de idosos ou um hospital, por exemplo. E verá o número de doenças prolongadas que vai encontrar, mortes lentas e, muitas vezes, completamente solitárias. Pieguices, eu sei.
Desculpe lá, Luís, mas não há pachorra. Este ‘post’ não trata de pessoas que morrem sem noção de que vão apagar-se num sopro: trata dos que vão morrendo aos poucos, sentindo-se sós e abandonados. Há alturas em que V. precisa de deixar de olhar para a Gioconda e vê-la com olhos azuis e chapéu de mosqueteiro ou Chanel.
Oh Luis perdoe a sinceridade mas você é mesmo seco.
Você odiou mesmo foi ” …o tocar na mão “…?
Oh Homem não seja assim tão revoltado, eu que pensava que era uma ” bruta “mas você tem mesmo o mestrado.
Na morte não se escutam violinos (infelizmente),mas existe sim muitas vezes um tocar numa mão, um sorriso e uma lágrima.
Passe por uma unidade de Oncologia e vai reparar, os que estão acompanhados e os que estão sós nesses momentos tão complicados, está a ver nem precisa de ir a um Lar?
Oh homem, o que se lhe pede é que repare nos velhos, porque um dia eles tiveram a sua idade, 30 anos?
Imperdoável surdez e cegueira da nossa sociedade. Há também quem lhe chame egoísmo.
Excelente, Ana. Excelente.
E há também quem lhe chame “danos colaterais” do progresso. Mas só quem não vê que os danos são irreparáveis e não têm nada de colateral. Se não a curto, pelo menos a médio prazo.
Perturbante, Ana. E o texto muito bom. Ao lado deste também há o abandono ‘sazonal’. Ao que parece os nossos velhos tornaram-se demasaido incómodos e nada como deixá-los nos hospitais em épocas festivas e de férias. Uma miséria.
Esse também é aflitivo, Leonor. Conto-te um caso verídico que aconteceu no Verão passado: uma mulher de 89 anos morreu de pura sub-nutrição num primeiro andar de uma casa isolada, de onde não podia sair porque estava paralisada. Ninguém sabia que ela estava sozinha, a ninguém tinha sido pedido que fosse levar-lhe comida e apoio. “Por vergonha”, confessou uma das filhas (que estavam num parque de campismo com as famílias enquanto isto acontecia). A miséria moral é a pior de todas as misérias.
Também me arrepiou a notícia, Ana. A vida discrimina também na velhice, e assim como há os que a vivem com saúde, dinheiro, companhia e, sobretudo, «auto-suficiência espiritual», há os outros, que não têm nada. Tendencialmente, as velhices serão cada vez mais longas e pobres, mas espero que, com o alargamento das escolaridades, as nets, e outros estímulos intelectuais, possam tornar-se menos vazias, menos tristes ou menos emocionalmente dependentes, porque duvido que o futuro traga, para as famílias, qualquer mudança de atitude em relação aos seus velhos, ou qualquer espécie de retorno ao modelo patriarcal (ou matriarcal») da família alargada, que protegia um indivíduo desde o nascimento até à morte.
As suas achegas são sempre inovadoras, Luísa! Nunca tinha pensado na coisa por esse prisma… de facto, embora a maior literacia e domínio das tecnologias não substitua emocionalmente o convívio físico, é verdade que é uma nova luz de companhia (ou de ilusão dela, mas é muito melhor do que nada). Pensando bem, acho que seria bem mais útil começar a distribuir Magalhães aos velhos, no futuro (com a devida formação, claro) e não às crianças, que têm muitos mais estímulos!
Bem visto, de facto, a achega das novas tecnologias.
Estive a ler os comentários acima, e registei um outro aspecto: por um lado, as gerações mais novas estão cada vez mais desligadas das suas raízes rurais (se é que as têm) e por outro, é muito difícil conseguir afastar os mais velhos «do campo». Falo por experiência própria. Tenho uma velhota que está «no campo» (como se costuma dizer) e que se recusa a sair do seu sítio para vir até à «cidade», onde toda a família vive, nem que seja para estarmos juntos no Natal. A opção de «mudar» a família para ir passar o Natal com ela também não é viável, por falta de instalações. A situação é problemática e à medida que os anos passam, mais problemática vai ficando. O filho liga-lhe todas as noites, antes dela dormir. No outro dia tomou mais cedo o comprimido para dormir e adormeceu a falar com ele. Nem lhe conto o susto que foi… Dentro em breve (se é que não será já assim) temos o país a viver no litoral, e os velhos que ainda restam no interior estão cada vez mais sós. Bem sei que não é o caso destes, referidos no seu post. Para estes não há justificação, ou melhor, justificação até pode haver, o que não há, de certeza absoluta, é sombra de desculpa…
Mais outro excelente post, Ana. Aproveito para lhe desejar ( se é que ainda não o fiz) um BOM ANO!
PS. Espero que essa gripe já esteja curada. Em qualquer caso, votos de rápida recuperação.
Obrigada, Nicolina, já estou quase boa. Só estou em casa por razões de quarentena, mais pelos outros do que por mim.
É bem verdade o que diz: essa divisão de idades entre o litoral e o interior vai-se acentuando cada vez mais. Por outro lado, as pessoas são bem mais solidárias na província do que nas cidades, onde a vida se desumanizou imenso.
Um óptimo ano também para si!
A propósito do potencial das novas tecnologias para a melhoria da qualidade de vida dos idosos, por coincidência descobri agora uma notícia engraçada, no Público, aqui:
http://www.publico.pt/Tecnologia/na-int ernet-ha-vida-depois-da-morte_1416496
Já conhecia este caso, Nicolina, mas não tinha lido a notícia do Público. É bem ilustrativo do que pode mudar na vida dos mais isolados. 🙂
O problema da solidão é muito complicado.
Eu tenho 64 anos de vida financeiramente razoavel mas encontro me terrivelmente só.
Qualquer dia descubro que ando aki a mais.
E suponho que este problema não é só meu, é de milhares.,
Há por aí uma senhora, ou menina, que queira conversar um pouco? Eu até tenho uma cultura razoável.
meu mail julio.reis@j-reis.com
Caro Júlio Reis,
Sem querer de forma nenhuma ofendê-lo, o seu comentário já me fez sorrir. É que nunca me passou pela cabeça que este post pudesse servir de ponto de encontro para solitários! Ia sugerir-lhe que aparecesse sempre que lhe apetecer nas nossas caixas de comentários para conversar e deixar a sua opinião, mas já vi que prefere um tête-a-tête. E porque não, afinal? Esteja à vontade…
Afinal, este é o lugar certo.
DELITO DE OPINIÃO: Política – Cultura – Quotidiano – Agência Matrimonial…
Eu estava a conter-me, João. Tinhas de fazer-me dar uma gargalhada, tinhas?
É um bom sinal, Ana, é o que faz “O poder da palavra escrita” …Também não resisti, Ana, desculpe-me.;))
Desculpá-la, Maria? Aposto que a minha gargalhada se ouviu na rua… 😉
Meu Caro:
Donde lhe surgiu a ideia de que um solitário, pelo facto de ser solitário, se quer casar? Agência matrimonial? Tenha um bocado de mais respeito. Há muita gente pesarosa com o problema da solidão. Mas quando vos aparece um caso concreto, voltam as costas com um sorriso de desdém.
A solidão é um drama social. Todos de acordo. Mas já vos passou pela cabeça organizar um debate sobre a forma de o atenuar? E chamar os solitários a pronunciarem-se?
Saudações
Pelas razões que acabei de apontar-lhe, está a ser extremamente injusto: a brincadeira do João Carvalho deriva directamente do seu modo de apelar ao convívio de meninas e senhoras, e não ao convívio tout court. Aqui ninguém vira costas a ninguém, e muito menos falta ao respeito a quem o merece.
Ana:
“Apelar ao convívio” parece-me que extravasa os limites da minha proposta (que era uma troca de ideias). Quando a Ana leu o meu comentário inicial leu-o de uma forma preconceituosa, daí que tivesse pensado outras coisas. “Meninas e senhoras” não pretende discriminar ninguém. Só que me dá mais interesse, sinto-me melhor. Deve ter sido um jeito que me ficou da infância.
E eu não me zango com ninguém. Tenho ainda um grande sentido de humor. Para lhe dar uma ideia em minha casa, no hall de entrada tenho um azulejo, que diz: “Família Reis”. A minha familia sou eu só. Como vê, à falta de melhor, até brinco com a minha própria solidão.
E está me a saber muito bem esta conversa que estamos a ter. A propósito eu sou de Alcobaça; se um dia passar por aki, poderíamos tomar um café?
“Meninas e senhoras” não pretende discriminar ninguém? Essa é boa, a mim parece-me discriminar metade da humanidade! Mas talvez seja preconceito meu.
(O seu último parágrafo é bastante esclarecedor, meu caro. Mas não conte muito com isso: deve ser um jeito que me ficou da infância, não tomar café com desconhecidos. Lamento.)
Eu sabia, Ana, que o meu comentário poderia ser mal interpretado. Foi um risco calculado.
Queria chamar a atenção de que toda a gente se mostra sensibilizado com o problema da solidão.
Mas quanto a passar aos actos (a tentar resolvêr o problema), então não aparece ninguém.
Claro que sei que existem locais na net onde, supostamente, se atenua a solidão. Já andei por lá.
Acredite que se trata de oportunistas a facturar com a solidão alheia.
Desculpo o seu sorriso, que foi de alguém que não entendeu a mensagem. Mas se a minha solidão plantar um sorriso bonito na face de alguém, fico contente.
Teria naturalmente muito mais para dizer.
Temo ser maçador.
Até um dia destes.
Meu caro Júlio Reis, não vale a pena ficar zangado! Brincar e sorrir são das melhores coisas que existem e aconselho-lhe ambas. Longe de mim gozar ou menosprezar a sua situação. O problema está na forma como formulou o tipo de convívio que queria encontrar no Delito, ao perguntar se havia por aqui “uma senhora, ou menina” que quisesse conversar consigo. Como lhe disse, e repito, sugiro que apareça sempre que quiser para trocar opiniões connosco. Mas sem distinção de sexo como interlocutor, já agora. De outro modo, caímos fatalmente no conceito de “date” e para isso o Delito não serve, pelo menos publicamente. Para tudo o resto, volte sempre.
realmente é triste, e sim todos temos esse “nosso velhinho”, e acredite ou não vieram-me as lágrimas aos olhos… pois muitas vezes este drama acontece bem perto de nós e nada fazemos para o impedir…
É verdade, João.
Essa notícias também me chocou, Ana. Belo texto.
Obrigada, Teresa.
(quero notícias da festa, pá… como diria o Chico)
Foi bonita a festa, pá :))))
Postei há pouco sobre o grande jantar delituoso. Vai lá espreitar, Ana.
Ana sem palavras…
Ontem á noite estava em casa e estava a pensar no seu ” post ” e decidi fazer uma coisa, todas as semanas vou ligar para duas pessoas que fazem parte da minha lista telefónica, que vivem sós e não têm muita companhia.
Normalmente são amigas da minha mãe e eu mantenho o telefone delas porque gosto de falar com ” velhos ” divirto-me imenso a falar do passado…um dia deste descobri, que no ano que nasci, as enfermeiras não podiam casar. Aprendo sempre imenso. Não estranhe a palavra velhos, mas não me sai bem o idoso, e o sentido que lhe quero dar é tão só o da ” mais idade “…
Esse seu texto é um bom trabalho. Se é sentimentalão? pois seja, mal das palavras que não nos tragam sentimentos, já nos bastam alguns ” estaladões ” que por vezes levamos, não é?
Que seria da vida sem sentimentos?
Que bom, CR. Fico contente de ter ajudado a provocar essa decisão, de algum modo. Quanto a sentimentos, sei que estes temas facilmente descambam para a lamechice, mas… não quero uma vida sem eles, obrigada!
🙂
Post avassalador.
Estou a envidar esforços no sentido de lançar algo semelhante a isto em Portugal: http://www.contact-the-elderly.org.uk/
Quem quiser contribuir, contacte-me através do sahba.sanai+ctelderly@gmail.com
Dou-lhe os parabéns pela iniciativa, Sahba. E vou fazer mais do que isso: dar-lhe visibilidade aqui, para que possa encontrar muitos aderentes a essa ideia tão meritória.
Obrigada pela contribuição e volte sempre.
Só vi agora – muito obrigado 🙂
P.S: *o* comentador Sahba 😉
Ups, desculpe a troca de género.
Ora essa!! 🙂