Para além da noite de Patpong, o bas fond onde um incauto transeunte pode aceitar ingenuamente o convite para um “ping-pong show” convencido de que vai assistir a um jogo de ténis de mesa, há a moderna movida de Bangkok. Estive numa das discotecas de moda, o clube Spasso (na crista da onda há mais de 20 anos), e foi surpreendente encontrar jovens tailandeses celebrando alegremente o Halloween como se fosse uma tradição local. É o império da globalização, a contaminação ocidental que se traduz em muitos outros aspectos, por exemplo na proliferação de restaurantes de pizzas e hamburgers. No Spasso é comum ver homens de negócios ocidentais com belas ninfas tailandesas, muito mais novas do que eles. Mas, afinal, tudo isto é tão velho como o mundo e não existe pecado a sul do equador, como diria o Chico Buarque…
De manhã cedo, após a visita ao esmagador Grand Palace e ao Templo do Buda Esmeralda, lava-me a alma um belo passeio pelos canais do Chao Phraya num barco típico, vagamente parecido com uma gôndola veneziana. A cidade vista do rio tem outro encanto e outro mistério, com o imponente Wat Arun (ou “temple of the Dawn”) a dominar a margem, lembrando-nos o esplendor do antigo reino khmer de Ayutthaya, a mítica capital do Sião no século XIV. Depois disto, não se resiste: há que rumar à própria Ayutthaya, ou ao que dela resta após a guerra com a Birmânia, com os consequentes destruição, declínio e abandono da cidade. Fica a menos de
E chego ao meu último dia em Bangkok, já com pena de ter de deixar a cidade. Troco as últimas compras por um programa prometido a um amigo e também muito apetecido: uma visita à embaixada portuguesa, autêntica pérola do nosso património diplomático. Atravesso as ruas num tuk-tuk veloz, que me deposita no portão verde decorado com o escudo português e se afasta, deixando-me sozinha e sem a menor garantia de um “abre-te Sésamo” que me faça ser recebida, já que não avisei previamente da minha visita. Mas tenho sorte (não a tenho sempre, afinal?): é o próprio embaixador quem me recebe, sorridente e solícito. E, nas duas horas que me separam do aeroporto, guia-me numa visita detalhada e exclusiva pela residência e pelos jardins, numa cavaqueira deliciosa e recheada de histórias sobre aquele importante baluarte da história portuguesa no Oriente, só por si digno de uma obra literária.
É pelo embaixador António Faria e Maya que fico a saber que Portugal parece andar distraído (como sempre, acrescento eu…) quanto às comemorações da importantíssima efeméride que se aproxima: a passagem dos 500 anos sobre a chegada dos primeiros portugueses ao Sião, em 1511. Ao contrário da Tailândia, diga-se, que está a preparar os festejos com antecedência e orgulho e até já começou por oferecer a Portugal uma “Sala” (pavilhão tailandês cujo nome deriva da palavra portuguesa homónima), presente esse para o qual demorámos mais de um ano a encontrar local adequado, acabando por negar-lhe, ainda por cima, a localização lógica e nobre: os arredores dos Jerónimos e da Torre de Belém. Enfim…
Despeço-me de Bangkok com a certeza de que voltarei um dia. Num dos terminais do moderníssimo e descomunal Aeroporto Internacional de Don Mueang (o maior free shop que alguma vez vi) espera-me um pequeno aviãozinho da Bangkok Airways, todo pintado com figuras coloridas e hélices exteriores enormes, de pás também pintadas. Não há duvida, estamos no reino do arco-íris. É este brinquedo que me levará ao meu próximo destino: Siem Reap, Camboja.
Curiosidade: Bangkok (ou Banguecoque, na tradução portuguesa), é apenas uma abreviatura do nome completo da cidade, que consta no livro dos recordes (o Guinness) como o maior nome de cidade do mundo: Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit (กรุงเทพมหานคร อมรรัตนโกสินทร์ มหินทรายุธยามหาดิลกภพ นพรัตน์ราชธานี บุรีรมย์อุดมราชนิเวศน์มหาสถาน อมรพิมานอวตารสถิต สักกะทัตติยะวิษณุกรรมประสิทธิ์). Ou seja, "A cidade dos anjos, a grande cidade, a cidade que é jóia eterna, a cidade inabalável do deus Indra, a grande capital do mundo ornada com nove preciosas gemas, a cidade feliz, Palácio Real enorme em abundância que se assemelha à morada celestial onde reina o deus reencarnado, uma cidade dada por Indra e construída por Vishnukam".
(cont.)









Mal posso esperar para continuar a viagem com a Ana. Se não se importa!
:))))
Venha daí, Maria do Sol. Mas não prometo muitas palavras daqui para a frente: já o disse aqui, Angkor emudeceu-me…
Entendo. Nem sempre as palavras dizem. Mas, estou segura de que o que escrever vai dizer isso tudo.
🙂
Obrigada pela confiança. Vou tentar, prometo.
🙂
Continua excelente esta tua série de reportagens orientais, Ana. Ainda hás-de falar-nos da gastronomia tailandesa, espero: Banguecoque é uma das cidades do mundo onde melhor se come. Os hamburgers e as ‘pizzas’ maradas são para os turistas de terceira, americanos e europeus, que não fazem a mínima ideia do que é o requinte gastronómico asiático e tailandês em particular.
Ainda bem que foste à nossa embaixada – provavelmente a mais bela representação diplomática portuguesa em todo o planeta. A deferência dos reis do Sião em relação a Portugal foi a tal ponto que nos confiaram um dos melhores terrenos da sua capital. E, em termos formais, a embaixada nem sequer é embaixada. É mais que isso: é uma feitoria. Só não tenho a certeza de merecermos tanta distinção, dado o nosso manifesto desinteresse actual pelo Oriente.
É uma tristeza, Pedro. Foi essa a sensação com que fiquei depois de uma longa conversa com um homem que tem de fazer omoletes sem ovos, embora represente Portugal em sete países do Oriente! Só com muito amor à camisola se pode mostrar ainda tanta vontade de fazer coisas, e mesmo assim é um desalento para qualquer um.
Tal como os Japoneses, os Tailandeses têm uma enorme consideração por Portugal. Muito maior, infelizmente, do que a que demonstramos por eles…
Quanto à gastronomia tailandesa, merece de facto um post separado. É de uma riqueza e requinte fabulosos, e além disso muito saudável. Comer outra coisa na Tailândia é um crime.
Já deste um cheirinho sobre a cozinha tailandesa. Entendi – e muito bem – que te encantou. Como o Pedro disse atrás, é uma gastronomia excelente e, no geral, parece feita para agradar a todos, sejam de que origem forem.
Tens razão. É preciso ser-se muito esquisito para não gostar da gastronomia thai.
Como manter ligações que hoje em dia são, sobretudo, «afectivas» num mundo cada vez mais orientado pelo interesse económico? Ou por outras palavras, não estou a ver os Tailandeses interessados em comprar o «Magalhães»… 🙂
Parabéns. Lê-se com gosto.
Obrigada, Nicolina. Aí está um dilema interessante, de facto. Mas uma coisa lhe garanto: há ainda um misterioso laço (nada cuidado por nós, o que é ainda mais espantoso) entre Portugal e a Tailândia. E não assenta no interesse pelo Magalhães, mas num passado comum e pacífico de transações comerciais e boas relações
Acredito, Ana, e de facto é pena que laços que existem há tanto tempo se vão perdendo porque, como muito bem refere, o que nos levou até lá foi o comércio.
Quando referi o «Magalhães» estava a pensar naquela famosa intervenção do nosso primeiro ministro na cimeira Ibero-Americana. Não estou a ver uma iniciativa semelhante num país como a Tailândia, se pensarmos que, muito provavelmente, uma parte dos componentes usados nesse computador vem de lá.
E que produzimos nós, hoje em dia, com interesse para um país como a Tailândia, ou em condições de competir com a concorrência? Há uns anos estive em Maputo e fiquei impressionada com a profundidade dos laços que ainda nos unem a Moçambique e no entanto, num mundo de economia global, no qual contamos cada vez menos, parece-me que vai ser muito difícil manter essa ligação, não obstante a língua comum. E relativamente a este ainda temos a língua…
Se o que visitaste no Camboja te emudeceu, presumo que recomendas que a viagem seja feita por esta ordem: primeiro Tailândia, depois Camboja…
Sem dúvida, Teresa. Seja qual for o roteiro da viagem, guarda Angkor para o fim.
Estes teus posts sobre o Oriente, têm-me “rejuvenescido” , Ana( e como eu ando a precisar disso…)
Sei bem o que é ficar mudo e incapaz de reproduzir o que sentimos em determinados locais deste planeta. Há que deixar passar algum tempo até podermos verbalizar.
Antes e passares ao Camboja, sugiro-te um retorno à embaixada portuguesa em Bangkok. A seguir ao consulado de Portugal em Sevilha, deve ser dos edifícios mais belos e com mais história das nossas representações portuguesas lá fora. Há muitos portugueses com histórias sobre essa embaixada. A mais recente foi contada pela Carminho ( a fadista que mais admiro actualmente) e achei-a muito interessante, porque é bem reveladora da forma como o Oriente se transforma no “tal” espelho onde nos descobrimos.
É o que eu digo, Carlos: a História e as histórias da embaixada portuguesa em Bangkok davam um livro. Interessantíssimo, por sinal. Não queres tu escrever sobre isso, ou o Pedro? Eu só a conheci agora, embora tenha tido o privilégio de uma visita guiada exaustiva e de um guia de luxo.
Mas ainda bem que tens gostado destas minhas impressões de viagem. Escrevo-as para guardar o registo de uma viagem que adorei e não quero esquecer.
E fazes muito bem, Ana. Além do prazer que nos dás na leitura, daqui a uns tempos serão para ti um precioso auxiliar de memória.
Não tenho assim tantas histórias para contar da embaixada, mas talvez um dia destes escreva sobre a Tailândia…