Ali viveu-se um tocante, irrepetível e perpétuo amor


Pedro Correia,

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Uma das mais belas crónicas de um escritor português que li desde sempre foi publicada há vários anos num jornal espanhol. O escritor era António Lobo Antunes e o jornal era o suplemento literário do El País. Adorava reler essa crónica, que tanto me deslumbrou. Lobo Antunes falava da primeira mulher e dos tempos felizes que partilhou com ela num apartamento da Rua D. Filipa de Vilhena, em Lisboa, quando a vida era sinónimo de eternidade e todos os sonhos pareciam possíveis. O casamento desfez-se, a mulher e musa morreu. Lobo Antunes confessa, num daqueles parágrafos que só podem ser escritos com o coração, que nunca mais foi capaz de voltar a passar naquela rua.

Reflecti nesta fabulosa crónica que tanto gostaria de reler em livro quando há dias caminhava pelo pacato bairro do Arco do Cego, no coração da Lisboa burguesa e ‘remediada’, como dantes se dizia. Nesse bairro morou outro grande escritor português: Aquilino Ribeiro. Por coincidência ou talvez não, é também aqui que vive hoje José Saramago quando se demora por Lisboa.

 

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Já houve um tempo em que Saramago vivia noutra zona da capital – a Madragoa popular, numa rua com um nome muito bonito: Rua da Esperança. Fui lá uma vez. Era um terceiro andar modesto, sem qualquer luxo, mas cheio de luz natural e com uma decoração elegante e sóbria. As casas dizem-nos muito sobre quem lá mora: havia um fundo de harmonia naqueles aposentos inundados da música de Bach e Mozart.

Outro escritor que visitei foi Dinis Machado. Morava na Rua Sacadura Cabral, ao Campo Pequeno. Num apartamento escuro e acanhado, repleto de livros e papéis onde parecia mover-se como um rei no seu palácio. Acendia incontáveis cigarrilhas enquanto discorria com um conhecimento enciclopédico sobre cinema e literatura policial.

Nas minhas deambulações diárias por Lisboa associo sempre ruas a diversos escritores – vários dos quais conheci pessoalmente. Fernando Namora e Vergílio Ferreira, parceiros de geração literária, moravam em avenidas largas e bem rasgadas: o primeiro na Infante Santo, o segundo na dos Estados Unidos da América. José Gomes Ferreira escolhera a zona de Alvalade: morava na Avenida Rio de Janeiro. Ali perto, junto à Igreja de São João de Brito, vivia José Cardoso Pires. Outras ruas e avenidas da Lisboa burguesa acolhiam escritores que fui conhecendo: Couto Viana na Marquês de Tomar, Alice Vieira na Luís Bívar, Natália Correia na Rodrigues Sampaio. Sophia vivia na Graça: nada mais certo. Jorge de Sena tinha morada no Restelo – zona adequada para este incansável andarilho. Já Alexandre O’Neill, um sedentário, tinha poiso na Rua da Escola Politécnica: aquele cedro do Príncipe Real, ali a dois passos, inspira qualquer poeta. Vários outros escritores viviam nesta zona. Muitas vezes vi Augusto Abelaira, mergulhado nos seus papéis, de cachimbo na boca, à mesa da Alsaciana – também na Escola Politécnica. Quase ao Príncipe Real, vivia Agostinho da Silva. Já a caminho de São Bento, morava Alçada Baptista. E por aí vi ainda o poeta Ruy Cinatti, distribuindo versos seus, policopiados, como quem oferece flores a quem passa.

 

Desconheço onde mora agora Lobo Antunes, autor daquela crónica que li em espanhol mas que não hesito em considerar uma das mais belas de sempre da língua portuguesa. Penso nesse texto sempre que passo na Rua D. Filipa de Vilhena. Tento imaginar qual seria o prédio, qual seria o andar. Ignoro. Mas só pode ser um local trespassado de magia. Por ali se ter vivido um tocante, irrepetível e perpétuo amor.

 

 

Imagem: Quarto em Nova Iorque (1932), de Edward Hopper

 

 

 

ADENDA: Por gentileza da Luísa, tive acesso à crónica de Lobo Antunes a que faço referência neste texto, citando-a de memória. Aqui fica, aos leitores interessados. Tenho a certeza de que gostarão tanto dela como eu.

44 comentários em “Ali viveu-se um tocante, irrepetível e perpétuo amor”

  1. Gostei muito deste post, caro Pedro Correia.
    Fui amigo, vizinho e visita de alguns dos nomes que refere.
    A leitura do seu texto trouxe-me lembranças e saudades que só desaparecerão comigo.
    Um forte abraço de grata admiração.

  2. Enternecedor este teu post, Pedro. E muito interessante: de facto, o lugar em que vivemos diz muito acerca de nós (pelo menos quando é escolhido). Trouxeste-me à memória o grande Agostinho da Silva no Jardim do Príncipe Real, rodeado de gatos e vestido como um sem-abrigo… era um homem muito especial.
    Mas gostava de rever essa crónica do ALA, que julgo já ter lido em tempos. Nao podes pô-la aqui?

    1. Não posso, Ana. Digo isso mesmo no texto: gostaria muito de reler essa crónica do ALA, que li no ‘El País’, há poucos anos. Mas não faço ideia como poderei relê-la. Suponho que não está num dos livros de crónicas dele.

  3. Gostei muito de ler isto, compadre. Por um momento, lembrei-me de Fernando Namora e os seus, era eu muito novo, se instalarem em nossa casa quando iam ao Porto passar dois ou três dias.

    Namora nunca fez as minhas delícias e estava longe de ser uma pessoa de que gostasse, mas deixou uma obra vasta e deixou completamente de ser falado, o que me parece estranho.

    Curiosamente, lembro-me também de ser rapaz e estar a passar uns dias em Monsanto (Beira Baixa) quando por lá se filmava “Retalhos da Vida de Um Médico”. De repente, estou a ver a Irene Cruz montada a cavalo para algumas cenas do filme.

    1. É extraordinário o esquecimento a que Portugal vota tantos dos seus escritores, que já estiveram na moda. Namora, mal ou bem, foi um dos autores que mais venderam no seu tempo. Hoje não se escuta uma palavra a seu respeito – nem este ano, em que se assinalam os 20 anos da sua morte. E no entanto tem alguns livros muito bons, designadamente os ‘Retalhos da Vida de um Médico’, precioso testemunho de uma época.

  4. Bonito post, caro Pedro Correia.
    Eduardo Guerra Carneiro, jornalista, poeta, cronista brilhante. Por um começo de ano, cansou-se de por aqui andar. Um salto da janela para a rua à procura sabe-se lá de quê…
    Escreveu um poema sobre o gato de Agostinho da Silva. Moravam no mesmo prédio, ali ao Príncipe Real, na Travessa do Abarracamento de Peniche. O põem colocou-o “Contra a Corrente”,1988.
    Serve para lembrar Eduardo Guerra Carneiro de quem já quase ninguém fala:
    “Chama-se Luís o gato do Terceiro
    e é companheiro de um mestre filósofo.
    Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,
    Quando o bichano acorda mal disposto.
    O professor, sábio também
    em jogos de paciência, acalma
    o animal e já o mima. Trata-se,
    vendo bem, de outra ciência,
    tão difícil de conseguir como
    um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho
    da Silva, o do terceiro, e tem um gato
    com quem, à vontade, discreteia.
    Luís, discípulo, ronrona baixinho.
    Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.”

    1. Muito obrigado por esta sua achega, Gin-Tonic. Ainda conheci pessoalmente o Eduardo Guerra Carneiro, na Transmontana das Escadinhas do Duque. Era um escritor talentoso, que não merece também o esquecimento a que tem sido votado neste país com tão fraca memória.

  5. Pedro, gostei muito, mesmo muito, deste post. Sem me querer comparar, nem de longe, a qualquer dos escritores, não consegui deixar de lembrar-me da carta que um livreiro me manda logo no início de um romance que escrevi:

    «Caríssimo escritor A. M. Venda

    Escreve-lhe J. D. Sapinho Júnior para convidá-lo a deslocar-se à sua humilde livraria, em Évora, no endereço que poderá ver no cartão em anexo. Não é um convite para uma palestra sobre o seu último romance, nem tão-pouco para uma sessão de autógrafos. É, antes, para uma conversa comigo, que seria bom que tivesse lugar no espaço da livraria, e sobre a qual (a conversa, não a livraria) desde já lhe peço o mais absoluto sigilo. Agradeço que me confirme a sua vinda através do número de telefone que aparece no cartão.
    Não tenho o seu endereço, nem sei onde reside (talvez em Lisboa, como boa parte dos nossos escritores), pelo que resolvi contactá-lo através da prestigiada casa que o edita.

    Cumprimenta-o,

    J. D. Sapinho Júnior

    Acrescento – poderia ajudar-me desde já se, na volta do correio, me enviasse (caso tenha nos seus apontamentos) uma descrição o mais detalhada possível de uma personagem do seu último romance, o mágico velhinho, personagem da qual, em todo o texto (que li por diversas vezes), não abunda a caracterização.»

    1. Eheh. Essa carta é um documento, António. Hoje em dia convém voltarmos à correspondência epistolar. Falar ao telefone está definitivamente fora de moda. Por causa das escutas. Que las hay, las hay.

    1. A carta do ALA? É uma crónica, Margarida. E não faço ideia onde poderei relê-la. Li-a há uns anos no ‘El País’ e bem gostaria de voltar a lê-la, mas não sei como…

      1. (Tá visto, tenho de treinar o beicinho)

        Tenho o livro, o tal que as filhas fizeram com as cartas de amor do António Lobo Antunes para a mãe delas… mas acho que não é a mesma coisa (lá está, há coisas que só se escrevem com o coração e esse muda sempre, em cada batimento).

        Tá bem, de qualquer maneira gostei do texto.

        Vá, bom domingo 🙂

  6. Gostei muito deste seu post. Aliás já o tinha lido noutra visita ao Delito. No entanto hoje reparei num comentário seu sobre o esquecimento do país relativamente a muitos dos seus escritores. Somos um país com um problema de memória. Não gostamos de recordar. Nem de olhar o passado com a serenidade de que o resolveu. Infelizmente.

    1. Somos, de facto, e cada vez mais, um país com graves problemas de memória, Cristina. Basta vermos, aliás, o estado calamitoso em que se encontra o nosso património monumental.
      (Votos de sucesso para o seu livro.)

  7. Ando aqui às voltas deste seu post desde ontem, sem o conseguir comentar. E se eu queria comentá-lo bem.
    Fico-me pelo directo: gostei tanto deste seu post, Pedro Correia.
    E folgo com a inclusão do quadro do Hopper…
    :))))

  8. O ALA, Pedro, vive há alguns anos num bairro muito castiço. Com tabernas, mercearias e mini-mercados, retrosarias; o pequeno comércio.

    Ali, para os lados do Conde Redondo.

    1. Pois, já me constou, Patti. Por sinal bem perto do meu local de trabalho, embora nunca me tenha cruzado com ele. O que não consigo é reencontrar a crónica em que ele fala do primeiro apartamento onde viveu com a primeira mulher e que tanto o marcou.

      1. Posso tentar saber dela ….

        Mas no livro das Cartas de Guerra “D’este viver aqui neste papel descripto” encontra muitas referências feitas à primeira casa deles e tudo escrito de uma forma que toca muita: com alguma inocência, medo e muito amor.
        Já dá para o Pedro matar saudades dessa crónica que tanto gostou.

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