Aromas de urze e de lama


Ana Vidal,

 

 

“As mulheres carregam nos olhos os fogos dos sete infernos. Pode-se pegar na carne delas, qualquer trecho do corpo: é quente. Não será do sol do mundo. É das antiquíssimas labaredas, que elas atravessam sem se queimar. Mas o fogo aquece-as para sempre e a cintilância das labaredas perdura, anzol ou garra de ar.

As mulheres quando morrem vão, mas voltam vestidas de outras peles e de outros cabelos para continuar os serviços lá delas. O diabo autoriza quando estão no ponto: “Voltem”. O diabo sabe o que faz. Aí elas se misturam de novo no meio dos povos e o aroma delas é de raízes silvestres. As curvas feitas nas ancas são cavadas pessoalmente pelo diabo que recheia muito bem recheada a parede das ancas. Ele mira e remira as ancas e satisfeito sorri, o hábil oleiro. O diabo ensina as artes de falar; de sorrir; de prometer; de chorar; de aliciar; de imantar, de fingir, até elas alcançarem a sabedoria: para ir deixando um rastro de estragos.

Dizem que há exceções. Quanto a essa parte não sei.”

Veio parar-me às mãos este texto, altamente provocatório, do escritor brasileiro Haroldo Maranhão. Classificá-lo não é fácil: para além da óbvia ironia, é apenas misógino ou também sábio? Sei que, lido há alguns anos, ele teria despertado em mim uma fúria imediata e temível, capaz de pôr-me a esgrimir toda a espécie de armas afiadas em defesa da(s) minha(s) dama(s). Lido hoje, provoca-me, sobretudo, um sorriso divertido. E alguma (magnânima?) concordância, devo admitir.

 

Há qualquer coisa, realmente, na natureza feminina – a influência em nós dos ciclos lunares que o diga – que está profundamente ligada aos primórdios. E os homens sempre diabolizaram o que não entendem e os assusta, exactamente porque não o entendem. Muitas "bruxas" acabaram na fogueira por causa disso, literalmente ou em sentido figurado. Eles não sabem, claro, que tudo o que queremos é amá-los. Mas sentem, ou intuem (a intuição é mais do nosso foro, pelo que será talvez instinto de sobrevivência), que esse amor pode, por vezes, ser-lhes fatal.

 

O tão aclamado "sagrado feminino" encerra em si um enorme poder que tem alguma coisa de perverso, há que reconhecê-lo. A infinita complexidade das mulheres (e também a pura necessidade, num mundo predominantemente patriarcal), muniu-as de várias e sofisticadas armas, que tantas vezes usam de maneira pouco limpa. E os homens, com toda a sua pirotecnia de superioridade, são afinal muito mais vulneráveis. Mais expostos. Até porque lhes é exigido que exibam os atributos de uma força que lhes deve ser natural. As mulheres podem recolher as garras e simular fragilidade, se isso lhes convier, mas aos homens tal não é permitido: presos na sua própria teia, cumprem o arquétipo que lhes foi atribuído, pagando bem caro o preço da previsibilidade. Resta-lhes esmagá-las com essa mesma força primária de que são, eles próprios, cativos. Tudo isso antes que o façam elas, de formas bem mais subtis e quase sempre mais devastadoras.

 

Seja como for, uns e outros navegam, desde sempre, num único e irremediável equívoco: presumir que a outra metade fala a mesma língua. Interpretamo-nos uns aos outros à luz de códigos duplos, julgando-os idênticos. E todos os conflitos derivam daí.

 

Imagem: (Daphne, aguarela de Teresa Cálem)

  

18 comentários em “Aromas de urze e de lama”

  1. Ana, esse texto deixou-me a ferver! Soprou-me as brasas e espertou-me as labaredas infernais. ;-D
    Estou totalmente de acordo consigo. Mas estava capaz de introduzir ainda na equação um outro factor, que é o factor competitivo. A vida familiar sempre impôs (histórica e legalmente) a existência de uma «cabeça» que dominasse e decidisse os destinos do núcleo. Mas em relações de grande proximidade – em que as forças e fraquezas de cada parte são demasiado conhecidas de ambas – o equilíbrio dominador-dominado é muito difícil e particularmente instável. À parte dominada, parecerá quase sempre injusto. É desta íntima (hoje mais assumida) insubmissão da parte dominada que emerge a chamada «guerra dos sexos», julgo eu, uma coisa que cá temos arreigada e que nos impede de procurar a verdadeira compreensão do outro e o verdadeiro equilíbrio. Mas que não deixa de ser divertida, mesmo assim. 🙂

    1. Pois é, Luísa… e não é esse eterno (des)equilíbrio que mantém cada lado da barricada interessado no outro?
      Mas este texto foi também post aqui para provocar reacções. Lá está, é a parte lúdica da coisa, que nos diverte a ambas… certo? ;-D

    1. Há muito tempo que estou convencida disso, Cristina. Somos dois “povos” diferentes. E se por um lado isso é um desespero, por outro é a garantia de que se manterá o interesse. Valha-nos o optimismo! 🙂

  2. Ana

    Mais um texto fascinante e poético! Começou mesmo o ano com o pé direito… Já eu, ando a trocar tudo…
    Como ainda não adquiri a sua “magnanimidade”, não gosto do tom do texto do escritor brasileiro, nada mesmo.

    De certo modo, Marguerite Duras já o disse também, da ligação da mulher aos primórdios, ao lado selvagem, ao essencial. Talvez venha do seu lado instintivo, o que transporta a vida, digamos assim.

    Mas este Diabo é muito ao gosto da literatura masculina sul-americana, muito “machista”, ou sexista, a meu ver, muito-homem-autocentrado.
    O Diabo esculpe a mulher ao gosto do homem, para o atrair, como se o destino da mulher fosse apenas esse e não também e sobretudo de ser autónoma e uma igual a si, no mesmo plano.

    É aí que eu torço o nariz. É que esse homem autocentrado não compreende a mulher, aí a Ana acerta no alvo, e não a compreendendo em todas as suas dimensões, a sua complexidade, o seu mistério, reduz tudo ao seu próprio prazer, a si próprio: a mulher é esculpida para o atrair. Esta atracção é muito redutora, ama-a por partes, não na sua natureza individual.

    Também não acho que as mulheres sejam tão desapegadas assim. Há também uma linguagem do poder nas mulheres: querem domesticá-los a maior parte das vezes. Mas também, se não for assim, como é que se constroem relações estáveis? Mesmo que encerrem o inferno tantas vezes?

    Mas é bem verdade tudo o que diz, Ana… e bem poético também… sim, “um poder às vezes perverso”… “a infinita complexidade das mulheres”… a maior vulnerabilidade masculina.
    Mas o mais incrível é que é na aceitação da sua própria vulnerabilidade que está a força dos homens. Eles é que ainda não o descobriram. E as mulheres, em vez de lhes mostrarem isso, reforçam o falso poder, fascinadas com a ideia de terem conquistado o seu troféu.

    A meu ver, Ana, somos muito mais semelhantes do que pensamos… Acredito mesmo no que me disse um dia um professor (que era gozado discretamente nas aulas) que há mais diferenças entre mulheres e entre homens do que entre as mulheres e os homens. Será?

    1. Concordo com tudo o que diz menos com o último parágrafo, Ana. Acho que somos mesmo muito diferentes e que todos os equívocos se devem a essa diferença de prismas. Mas gosto muito da reflexão séria que faz sobre este tema eterno. É bem verdade que os homens se habituaram a reduzir-nos, por hábito ancestral, a brinquedos feitos por e para eles (a costela de Adão, sabe?), mas muitas de nós também se põem a jeito para o papel, ainda hoje. O trabalhão que dá tirar-lhes isso da cabeça, não é? 🙂

  3. Cara Ana, confesso aqui publicamente que não conheço este escritor Haroldo Maranhão. E pela amostra de texto, também confesso que não está nas minhas prioridades vir a conhecer. Não tenho nenhuma pachorra para frases como esta “as curvas feitas nas ancas são cavadas pessoalmente pelo diabo que recheia muito bem recheada a parede das ancas. ” Ele que vá dar banho ao cão, e chorar no ombro da mãezinha.

    1. LOOOL. Ah, leoa!
      Querida Ariel, acho que ele já foi dar banho ao cão definitivamente!! Confesso que conheço muito pouco da obra dele também. Mas era um escritor muito premiado no Brasil, e também jornalista, advogado e crítico literário. Mas dê-lhe o desconto da ironia, quanto às ancas recheadas, que parece que ele era mestre nessa arte… 😉

    1. Mas não te podes queixar, Mike! Eu até digo que somos perversas e que vocês são quase uns santinhos… não me provoques tu, que mudo já de discurso!
      🙂

  4. Pois é a Ana escreve bem, “lê” bem atingiu a maturidade necessária para não se deixar perturbar por qualquer pensamento por mais “Haroldo” ( o homem escreve bem, cheio de subtexto o que torna, ainda, o desafio maior) que seja…E sobretudo é generosa – deixou a chave do enigma – “Eles não sabem, claro, que tudo o que queremos é amá-los. Mas sentem, ou intuem (a intuição é mais do nosso foro, pelo que será talvez instinto de sobrevivência), que esse amor pode, por vezes, ser-lhes fatal” – modéstia à parte, eu já suspeitava…;))
    Bravo, Ana. Gostei muito – senti empatia – não deixei de ficar curiosa por saber mais sobre esse autor.

    (

    1. Tudo o que queremos é amá-los, Maria. Mas nesse amor está incluído um controle absoluto sobre o que vestem, o que comem, o que dizem, onde vão e com quem… não é assim? Não descansamos enquanto não tomamos conta da vida deles, e tudo isso porque os amamos… 😉

  5. Grande Ana! “A infinita complexidade das mulheres” não é senão obra deles e só deles. Farto-me de pregar isto mas claro, sem a elegância e fina ironia que revelas aqui.

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