Teoria dos jogos


Luís Naves,

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O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, tem boa imprensa na América e convenceu muitos repórteres de que negoceia na zona euro usando a teoria dos jogos. O conflito tem alto risco e os credores temem o seu estilo de ameaçador radicalismo, o que lhe permite obter vantagens numa negociação que está muito próxima do êxito.

A aplicação de uma teoria económica não testada a um caso que envolve 450 milhões de pessoas seria inaceitável em qualquer circunstância, mas jornais respeitáveis levaram a sério a hipótese. Varoufakis convenceu-os de que é sua a vantagem, embora com o pressuposto provavelmente errado de que os credores encaram com horror a eventual saída da Grécia da zona euro. No início da negociação, Atenas ameaçou arrastar Espanha e Portugal para o fundo, mas o tiro falhou. Para piorar a questão, a população grega continua a retirar imensas quantidades de dinheiro dos bancos, guardando as notas literalmente debaixo dos colchões, o que desmente qualquer confiança nas tácticas do seu ministro.

Embora esteja isolado, Varoufakis tenta extrair concessões totais, mas os seus interlocutores não estão dispostos a ir além de um mínimo de cedências. Como é que nestas circunstâncias seria possível começar a negociar um terceiro resgate à Grécia? Ou seja, não há aqui nenhuma teoria de jogos, mas apenas o jogo da culpa nos minutos finais. Os dois lados esperam o colapso das negociações, com várias hipóteses de resultado, da saída à suspensão temporária. Neste caso, a diferença é que a um país rico como a Grécia, a opinião pública americana está disposta a tolerar o que jamais aceitaria a um devedor como Paraguai ou Bolívia. Na Europa, o terceiro resgate teria dificuldade em passar em todos os parlamentos. Há países que perderam a paciência.

Naquele tempo


Luís Naves,

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Naquele tempo, o mundo era diferente. As pessoas vestiam-se de outra maneira, não existia internet e ninguém usava telefones portáteis, só havia linhas fixas e as ligações tornavam-se difíceis quando muitas pessoas telefonavam ao mesmo tempo. Era criança, mas lembro-me. As cidades tinham crescido demasiado depressa e, por vezes, nos novos subúrbios não havia água ou faltava a electricidade. O metropolitano possuía uma linha única e era um luxo, vinham pessoas de fora só para ver aquela maravilha. A auto-estrada acabava logo, prolongava-se por 30 quilómetros apenas; e, tirando pequenas ilhas de modernidade, o país continuava tão atrasado como sempre fora; os comboios pareciam velhas carcaças que se arrastavam por ferrovias antiquadas, entre estações onde a História parecia ter parado.

Construíram-se fábricas e grande bairros de apartamentos, mas a vida manteve-se lenta e pausada. As rádios eram todas idênticas (nem sei se havia muitas estações) e só passavam a música permitida. Éramos católicos, líamos jornais censurados e recebíamos informação rigorosamente controlada. Os discos, esses objectos valorizados, riscavam-se com um gesto mais brusco e faziam um ruído estranho quando a agulha do gira-discos deslizava sobre eles, num suave movimento de ondulação. Nos escritórios, ouvia-se o infernal batuque das máquinas de escrever e era difícil dactilografar sem erros: tudo tinha de ser escrito várias vezes. Ninguém tinha impressoras, nem música digital, nem sequer livros electrónicos, mas havia vendedores de enciclopédias que iam de casa em casa.

Naquele tempo, o País tinha o coração cinzento, das fardas dos polícias e dos carros oficiais, do excesso de sotainas, da literatura provinciana e dos estudos retóricos, das televisões a preto e branco. Muita gente emigrava e esses emigrantes regressavam no Verão, com um falar esquisito e guiando carros caros, trazendo mulheres loiras que se bronzeavam em biquíni e dizendo que lá fora é que era bom. Por aqui, havia futebol e ouvia-se fado, respirava-se a tristeza de um mundo, que resistindo ainda, adivinhava os seus dias contados. Da guerra em África, falava-se pouco, como se falava pouco de sexo ou política. Este era um país de cidades ainda meio feitas e habitadas pela nostalgia das aldeias dispersas em vales pobres, todas muito parecidas umas com as outras, com as suas casas caiadas de branco, o largo da igreja, a torre sineira, o chafariz público, o cheiro dos estábulos, as moscas, o posto de correio e a taberna escura.

A estranha tese do suicídio colectivo


Luís Naves,

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Mais abaixo, Sérgio de Almeida Correia transcreve um texto de opinião de Nuno Saraiva (que pode ser lido aqui), onde surgem três dos argumentos que vamos ouvir nestas eleições e que, pelo menos na aparência, desmentem a tese governamental da ‘missão cumprida’. Nuno Saraiva faz um excelente resumo: a dívida cresceu, ‘não é líquido‘ que o défice seja reduzido para 3%, o mérito das taxas de juro baixas pertence inteiramente ao BCE. Mas há aqui um problema: a ideia não explica o passado.

Quando o governo tomou posse, em 2011, Portugal não conseguia financiar-se nos mercados e estava submetido a um programa de resgate negociado pelos socialistas e que envolveu 78 mil milhões de euros. Embora o dinheiro não tenha sido todo gasto nos três anos seguintes, tratava-se de empréstimos que contavam para dívida pública, num valor equivalente a quase 50% do PIB. Não admira que a dívida tenha subido de 93% para 128%, pois foi preciso pagar passivos de empresas públicas e o défice de 2010, além dos seguintes, todos a acumularem nos tais 128%. Tendo agora excedente primário, Portugal já está a pagar a dívida e antecipou o desembolso de uma parte do próprio resgate. Havendo crescimento económico, este ano a proporção em termos de produto começará a diminuir.

Nuno Saraiva está correcto em relação ao défice de 2015. O ano ainda não acabou, as instituições europeias apontam para um valor acima de 3%, mas convinha acrescentar que a diferença entre as previsões de Bruxelas e de Lisboa é de meio ponto percentual. Se houver derrapagem em relação ao orçamento, estamos a falar de cinco décimas, não de 5 pontos de PIB, como aconteceu com o governo socialista. No terceiro argumento, sobre taxas de juro, se o mérito fosse apenas do BCE, a Grécia tinha taxas historicamente baixas, o que não sucede. Há, portanto, mérito da estratégia de credibilidade do governo, que terminou o programa de ajustamento e já conseguia financiar-se nos mercados antes do banco central lançar o programa de estímulo monetário.

A tese ensaiada pela esquerda é de que tudo isto não passou de um aprazível suicídio colectivo*, a ideia da loucura irracional dos governantes, mas a argumentação não bate certo em relação aos motivos de cinco anos de sacrifícios. Portugal foi salvo por um resgate, por estar em situação de pré-falência, após erros repetidos de política. Em 2011, não havia dinheiro para pagar salários e pensões. Durante três anos de programa de ajustamento, desmentindo o medo da espiral recessiva e evitando o segundo resgate ou a tentação da renegociação da dívida, este governo cumpriu as condições impostas pelo memorando (e nunca foi além da troika, pelo contrário) tendo a partir de 2014 conseguido financiar-se sozinho nos mercados. Era isto ou a Grécia.

 

*Roubei a expressão ao título de um romance do genial Arto Paasilinna, editado pela Relógio d’Agua. a imagem é de um filme finlandês baseado no livro.

Vislumbre do mundo novo


Luís Naves,

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O mundo do futuro pertencerá às máquinas e estaremos agora a assistir aos primeiros vislumbres de uma tendência que ameaça mudar não apenas a civilização, mas a própria humanidade. Recentemente, impressionou-me um artigo sobre uma máquina que imitava os gestos de um chef de cozinha (só não conseguia lavar sozinho as mãos), mas também se encontram na imprensa de divulgação artigos sobre carros e comboios automáticos, aviões de guerra não tripulados que atingem os inimigos limitando baixas colaterais, algoritmos que permitem escrever notícias, traduzir textos ou fazer complexas transacções financeiras.

Segundo explicam alguns autores, nenhuma actividade que envolva ecrãs de computador poderá escapar à ascensão das máquinas, que parece inevitável nos próximos 30 anos. As tarefas rotineiras serão executadas por robôs incansáveis e baratos, mas não é difícil imaginar que nos hospitais ou escolas de província possa haver modelos mecânicos um pouco mais caros baseados em cirurgiões e professores de competência mundial, capazes de diagnósticos precisos e ensino sofisticado. Os transportes, a limpeza, a vigilância, as finanças e a indústria podem ser mecanizados, talvez também a hotelaria, a administração, a educação e a saúde. As implicações para o emprego serão devastadoras e teremos proporções quase inimagináveis de gente sem trabalho.

Aparentemente, restam-nos as artes e a política, mas até nesses campos a supremacia biológica será duvidosa. Dizem que, por causa da tecnologia, a capacidade de atenção das pessoas continua a diminuir. Em breve, poderemos retirar do trabalho e da economia todo o erro humano, enfim, o nosso lado irracional e contraditório, a nossa incompetência e fadiga, a falha da memória e a distracção, a intuição errada e as imprecisões do movimento. No final, será impossível evitar a tentação de colocar um bocado de máquina no nosso próprio corpo, permitindo melhorar certas características naturais, a começar pela longevidade, sempre insuficiente.

Surpresa no Reino Unido


Luís Naves,

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No momento em que escrevo, os conservadores britânicos já têm garantida a maioria na Câmara dos Comuns, com um mínimo de 323 eleitos, quando ainda faltam 12 lugares. A maioria é de 326, mas os republicanos irlandeses não tomam posse, por isso o número anterior será suficiente. Na realidade, David Cameron poderia governar com os votos unionistas ou fazendo acordos pontuais com deputados independentes. Ontem, quando foram conhecidas as sondagens à boca das urnas, a vitória do primeiro-ministro britânico era quase certa, mas continha um grau de incerteza. No final, há maioria estável e o governo não dependerá de terceiros.

As sondagens até não falharam muito (as percentagens estão dentro das margens de erro), mas o desvio em número de eleitos é surpreendente. Os trabalhistas foram sobreavaliados e perderam votos para os nacionalistas escoceses e para os eurocépticos do UKIP (este segundo efeito não era de todo esperado, mas provocou várias derrotas em feudos tradicionais do Labour). Luís Moreira, aqui, faz uma interpretação correcta, bem mais lúcida do que a narrativa que já ouvi e que atribui a vitória conservadora à ‘radicalização’ de Cameron. O centro-esquerda europeu tem crescente dificuldade em apresentar alternativas que o eleitorado considere viáveis, mas a esquerda portuguesa embarca no disparate palavroso e recusa-se teimosamente a ver o óbvio.

Cameron terá vencido estas eleições devido à sua personalidade (Ed Miliband não foi convincente), por causa dos nacionalistas escoceses, mas sobretudo por causa da economia, pois o eleitorado reconheceu que há trabalho disponível e, sobretudo, não quis correr riscos nesta fase de recuperação ainda frágil. Os efeitos da crise foram profundos e muitos britânicos não sentem ainda os benefícios da retoma, mas mudar de políticas continha uma incógnita difícil de aceitar, sobretudo após grandes sacrifícios. Os ingleses não se deixaram convencer pela retórica da desgraça. Em Portugal, onde tudo parece empatado (como parecia em Inglaterra), a discussão eleitoral será provavelmente também centrada na economia e num dilema semelhante ao britânico: vale a pena arriscar uma mudança ou é preferível manter um rumo que, tendo sido doloroso, parece resultar?

Estas histórias esquecidas


Luís Naves,

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Somos maus a prever o futuro e esquecemos facilmente as ansiedades do passado. Os europeus de hoje discutem a contabilidade dos programas de ajustamento, queixam-se da crise e dos impostos elevados, mas dificilmente podem dizer que enfrentam uma ameaça existencial. Nos anos 80, quando o império soviético mostrava crescentes sinais de fissuras internas, discutiu-se a possibilidade da Terceira Guerra Mundial. Os exércitos convencionais eram gigantescos e haveria no centro da Europa um choque militar de dimensões titânicas.

Soube-se mais tarde que os soviéticos tiveram, no final dos anos 70, um plano para invadir a Alemanha Ocidental que os colocava em sete dias nas margens do Reno. Por sua vez, os ocidentais fizeram planos detalhados para esmagar o bloco socialista, com ou sem uso de armas nucleares em larga escala. As estimativas dos devastadores bombardeamentos estratégicos davam geralmente a vitória aos ocidentais, com apenas cem milhões de vítimas, contra o total extermínio dos comunistas, mas os optimistas da época esperavam que decorresse uma guerra quase exclusivamente convencional, com poucas bombas nucleares e baixas civis limitadas, apenas na ordem das dezenas de milhões. Todos estes casos erravam em relação à disposição do outro lado de usar os arsenais atómicos, que somavam 60 mil ogivas. Elas teriam sido lançadas, mesmo em operações de objectivos limitados. A doutrina estratégica da época, destruição mútua assegurada, tinha um acrónimo inglês, MAD, apropriado à loucura de todos estes planos militares. Os poucos sobreviventes dos bombardeamentos teriam morrido mais tarde das alterações climáticas, do colapso civilizacional e do envenenamento radioactivo.

O facto é que houve vários incidentes que quase provocaram uma guerra geral, incluindo problemas de computadores e líderes a entrarem em paranóia. A civilização podia ter acabado em 1953, em 1962, em 1983, mas a queda no abismo foi sendo evitada à última hora pela intervenção de felizes acasos ou palpites de heróis anónimos. Em 1914, não houve tanta sorte. Quando ouço previsões pessimistas em relação às crises de hoje, lembro-me das história esquecidas em que quase morremos todos. Somos maus a prever o futuro e somos péssimos a lembrar o passado, embora não pareça existir alguma crise actual que se compare à perspectiva, bem concreta durante 40 anos, de um suicídio quase instantâneo da própria espécie humana.

Extinções e mudança: uma polémica


Luís Naves,

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André Abrantes Amaral considera aqui que interpretei incorrectamente o que escreveu. O autor afirma que “os objectivos do 25 de Abril se esgotaram em 1986”, pois o “regime saído de 74 não foi capaz de evoluir”. Mas este é o ponto que tentei criticar, sublinhando que vivemos em contexto europeu e num país industrializado com democracia normal. Após a resposta continuo sem compreender a razão para o autor separar o antes e o depois de 86. Julgo que se refere à adesão europeia, que foi um dos maiores triunfos do 25 de Abril.

Um regime que não evolua tem falta de flexibilidade e resiste à mudança. Não parece ser o caso português, pois nos últimos 40 anos, a sociedade sofreu uma transformação acelerada e sem precedentes. Por outro lado, André Abrantes Amaral acusa-me de escrever um texto politicamente correcto, embora sem definir o que é isso. Será politicamente correcto pensar que esta mudança resultou da adesão europeia, por sua vez proporcionada pela liberdade do 25 de Abril?*

“O regime não dá respostas”, considera o autor, centrando a análise na questão da dívida pública: o desenvolvimento foi conseguido à custa de uma dívida que se transformou numa ameaça ao desenvolvimento, diz. Esta ideia também é difícil de sustentar, já que em 2006 a dívida pública portuguesa rondava 63% do PIB, o que então dificilmente se podia considerar um nível insustentável. Claro que os erros de política já lá estavam, também se pode afirmar que essa dívida era superior ao nível permitido pelos compromissos europeus, fora a parte escondida, mas o facto é que havia países mais desenvolvidos com proporções bem superiores.

Enfim, sendo recente, a dívida que nos levou ao resgate e agravou de maneira dramática a nossa passagem pela crise não parece resultar do carácter do regime. Os erros políticos que a causaram têm proprietários. As responsabilidades não são difusas e não podem ser atribuídas a um sistema que, englobando toda a gente, desculpa toda a gente.

 

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Insisto: o regime político que resulta do 25 de Abril é normal no quadro europeu e esse é o maior elogio que se lhe pode fazer. Os objectivos de 74 foram cumpridos: banalidade democrática e problemas suportáveis. As clivagens parecem irrelevantes (nem a crise causou insurreições), o que explica a falta de debate político: lembro que na campanha eleitoral britânica também não há discussões por aí além e os candidatos se entregam a uma estranha obsessão com as selfies; há ainda exemplo de países menos felizes onde o debate político é sintoma de profundas divisões sociais, religiosas ou étnicas, mas não é esse o modelo que queremos.

O ponto que mais me incomoda nos posts que tentei criticar foi a tentativa implícita de atribuir a crise que atravessámos aos defeitos do 25 de Abril. Além disso, a ideia que paira nestes textos conduz à necessidade de se pensar num novo regime. Precisamos de políticos mais competentes e círculos uninominais? Provavelmente, apesar de alguns distritos serem quase círculos uninominais e isso não mudar muito as práticas habituais em relação aos candidatos partidários ou a actuação dos eleitos no parlamento. Precisamos de contas equilibradas e menos pobreza? Claro, mas pergunto se isto não se pode fazer sem alterar o sistema político. O que impede o aparecimento de novos partidos, de movimentos cívicos, de reformas económicas? O que impede o aparecimento de novas ideias? O regime saído do 25 de Abril não se adaptou à mudança? Pelo contrário, ele permitiu grandes alterações na sociedade portuguesa. Os dinossauros é que nunca se adaptaram ao seu século e acabaram extintos (o Estado Novo, a Primeira República, a Monarquia Constitucional). Não quererá Abrantes Amaral explicar melhor o que o leva a dizer que estamos perante outro dinossauro?

 

* para mim, o politicamente correcto é uma perversão da linguagem que altera o sentido das palavras e nos impede de ver o óbvio. Julgo estar inocente.

A república popular


Luís Naves,

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André Abrantes Amaral considera aqui que o actual regime se esgotou em 1986, numa curiosa tese de fim da História (talvez não tenha acontecido mais nada entretanto). O autor pergunta para que serviu o 25 de Abril e descreve a democracia como uma espécie de calamidade, o progresso económico como uma quimera.

Estas ideias parecem confusas e leves. O 25 de Abril serviu para acabar com uma guerra colonial que Portugal não podia vencer, também serviu para proporcionar a existência de opiniões livres (só a liberdade de expressão teria bastado para justificar o movimento), permitiu ainda a adesão às comunidades europeias. Sem liberdade e democracia, não estaríamos na UE e a evolução do país teria sido diferente, para pior, pois recebemos anualmente subsídios europeus equivalentes a uma média de 3% do PIB, isto durante 30 anos. Em apenas quatro décadas, Portugal conseguiu aquilo que outros países europeus fizeram num século. Em 1974, a proporção de analfabetos era de uma em cada quatro pessoas, agora é de 5%; o número de alunos no ensino secundário passou de pouco mais de 60 mil para quase meio milhão. Em 1974, metade das residências tinha água canalizada, agora é quase a totalidade. A esperança de vida à nascença aumentou dez anos e a mortalidade infantil foi reduzida para um valor que é um dos melhores do mundo. Em 1974, um terço da população activa trabalhava na agricultura; agora, a proporção é inferior a 10%. No mesmo período, o PIB per capita duplicou em termos reais.

É escusado prosseguir a lista de transformações, mas o Portugal de hoje (mesmo a sair de uma crise) não tem nenhuma semelhança com o país tristonho e pobre de 1974. A sociedade sofreu uma alteração radical, o império é uma memória, as pessoas gozam de amplas liberdades e a democracia é indiscutível. O autor escreve que não há debate político e que Portugal se desenvolveu à custa da dívida, quando é evidente que as razões do desenvolvimento são outras, que a dívida é recente e que não há dissidentes ou presos por delito de opinião. Aliás, se não há debate, é também porque André Abrantes Amaral vai ignorar este texto.

No fundo, a direita e a esquerda têm discursos parecidos em relação à Revolução de 1974: ambos consideram que se tratou de um fracasso. A esquerda acha que as ideias iniciais foram atraiçoadas, que a utopia nunca se cumpriu. A direita, de que é exemplo a análise citada, pensa que as promessas não estão concretizadas, que o novo regime é uma espécie de república popular e que devia ser mais liberal, embora os portugueses tenham escolhido assim.

Da sensatez


Luís Naves,

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Este texto de Paulo Gorjão toca no nervo. Não basta dizer que há ideias diferentes: as alternativas políticas têm de ser exequíveis e sensatas. Para demonstrar esta lógica, basta observar a agonia da Grécia, onde um partido da esquerda radical atingiu o poder prometendo um programa que se revela impossível de cumprir. Existe tensão entre democracia e interesse colectivo europeu? De facto, esse tem sido o caso ao longo da Grande Crise, mas será democrática uma promessa que não pode ser cumprida? Quando um governo sobe ao poder sabendo que são impraticáveis as medidas que propõe, estamos perante uma fraude, sendo hipócrita a afirmação de que as pressões externas atraiçoam a democracia. Enquanto a zona euro não estiver estabilizada, não haverá transferências directas sem união política ou ajudas a países sem planos de reformas estruturais (como se evita que o devedor volte a pedir emprestado se não acabar com as suas debilidades?). Os países credores não abdicam do princípio do controlo democrático sobre os impostos que usam para financiar outros membros da moeda única. Nesta Europa, não há países ou governos com mais legitimidade democrática do que os outros e não é possível à Grécia ou a Portugal forçar a alteração das regras colectivas (quem o disser está a enganar a opinião pública). Assim, se uma proposta política sobre o futuro do país não cumprir o Tratado Orçamental, estaremos perante um desafio à ordem europeia existente ou perante uma mistificação. A alternativa, só por si, não chega, tem de ser uma alternativa possível.

Panfleto contra as lágrimas de crocodilo


Luís Naves,

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Estando actualmente desempregado, sou potencial beneficiário de uma eventual redução da taxa social única (TSU). Não são conhecidos pormenores sobre a medida ou se esta tem pernas para andar, mas estranho as manifestações de indignação antes de haver uma proposta concreta. Não sei se a baixa na TSU resultaria na minha contratação, mas sei que ela podia resultar na redução dos custos de trabalho em Portugal e na contratação de alguns desempregados com quem me cruzei hoje no centro de emprego.

Há muitos mitos sobre a crise social e por isso este texto exige explicações que vão dificultar a leitura. Existe igualmente um estigma sobre os desempregados. Reparem que as notícias de crime colocam sempre em título que quem matou estava desempregado, se for facto, mas se a vítima estava desempregada ou se o assassino tinha emprego, essas referências já são consideradas desnecessárias. (Tenham paciência, leiam apenas o que estiver escrito neste panfleto e não aquilo que pensam que está aqui escrito).

 

Quem entre num centro de emprego verá sobretudo pessoas entre 40 e 50 anos, com baixas qualificações, dispostas a aceitar qualquer trabalho e qualquer remuneração. Quem ler jornais, dirá que o desemprego afecta jovens licenciados. Há injustiças no mercado de trabalho: desemprego jovem, estágios pagos (sim, é verdade) precariedade, salários em queda, escandalosos falsos estágios em que empresas desonestas fazem concorrência desleal, mas o desemprego continua a atingir sobretudo trabalhadores relativamente idosos e pouco qualificados, com escassas hipóteses de encontrar trabalho nas actuais condições desse mercado.

Dizem-nos que a baixa da TSU rebenta com a segurança social, mas sem conhecermos os detalhes da proposta isto parece ser pura hipocrisia, pois o que está a rebentar com a sociedade portuguesa é a escassez de trabalho. O Estado gasta dinheiro com o subsídio de desemprego, entre outras prestações. Alguém que passe da situação de desempregado para a de empregado deixa de receber subsídio e passa a pagar impostos e a descontar para a segurança social. Terá também uma pensão melhor, mas isso não pode ser uma calamidade. Além disso, segundo o que se conhece, a ideia era fazer uma reforma que aumentasse o défice com autorização dos credores europeus mas, como é típico entre nós, a discussão entrou no pântano da demagogia.

Os custos de trabalho impedem muitos desempregados de encontrar trabalho? Claro que sim, pois estamos a falar de baixa produtividade e de empresas que saem de uma crise e que ainda não podem investir. A decisão até pode ser politicamente arriscada, como alguns insistem (respeito o argumento), mas para isso é que serve a política, para tomar decisões arriscadas e que, parecendo impopulares, resolvam problemas. Não conheço os cálculos sobre a hipotética medida, mas não posso levar a sério a rejeição imediata que ouvi a uma pensionista de direita ou a partidos de esquerda que derramam lágrimas de crocodilo em relação ao desemprego elevado.

Lamento a irritação com que escrevi este texto e mais acrescento que concordo com o que escreve mais abaixo o José António Abreu.

Envelhecimento


Luís Naves,

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Os partidos discutem envelhecimento do País e a baixa natalidade e logo o debate produz argumentos que explicam o fenómeno com a crise financeira. A tese é de que as pessoas querem ter filhos, mas não há condições: faltam creches e empregos, habitação, educação de qualidade, transportes e prestações sociais.

A baixa fertilidade tem certamente motivos ligados à qualidade de vida, mas isso não explica que o indicador tenha caído ao longo de 40 anos. As mudanças sociais em Portugal foram talvez demasiado rápidas, pelo que o seu impacto é mais visível do que em outros países: as famílias são exigentes em relação à educação dos filhos, as pessoas casam tarde e os casamentos duram menos tempo (apesar desta crise ter aumentado o tempo médio de duração dos casamentos). Em resumo, há factores sociais poderosos que não se resolvem com medidas fiscais, subsídios ou novas infra-estruturas. Não digo que isso não seja feito, mas não há leis que convençam as mulheres a casar mais cedo ou que convençam as famílias a ter outro filho.

Os portugueses de hoje têm mais instrução do que em 1970, mas a natalidade continua a cair. Eles são muito mais ricos do que os pais e avós, têm qualidade de vida superior, mas a natalidade continua a baixar. O desemprego dos jovens só aumentará o problema, mas mesmo que a falta de perspectivas da nova geração se resolva, haverá mesmo assim uma crise de fertilidade, pois muitas mulheres quererão optar pelas carreiras e os casais continuarão a achar que a família ideal é pequena. Enfim, assistimos a discussões sobre medidas que podem aumentar em algumas décimas a taxa de fertilidade, mas nenhum político confessa que é necessário discutir outra abordagem, tratando o envelhecimento das sociedades como um fenómeno natural. Por isso, precisamos de aceitar a emigração, mesmo que mude substancialmente a nossa cultura. Portugal teve a vantagem da coesão linguística, étnica e religiosa, mas esse pensamento tornou-se uma desvantagem.

As sociedades adaptam-se às mudanças naturais. No futuro, o País terá menos estudantes e mais idosos, as despesas de saúde serão diferentes e, com o actual sistema de pensões, as pessoas vão trabalhar durante mais tempo, o que por sua vez exige das empresas uma mentalidade que valorize a experiência. Quando era rara, a velhice foi associada à sabedoria. Agora, que se tornou comum, é vista como um problema. No entanto, os países envelhecidos deviam ser vistos como potencialmente mais sábios, pacíficos e prósperos.

A agonia da Grécia


Luís Naves,

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Quanto mais a Grécia se afunda, mais parece inverosímil o argumento de que estamos perante um colossal erro alemão. Em boa verdade, o governo grego, liderado por um partido radical, não consegue (ou não quer) apresentar aos seus parceiros um plano credível de reformas. A margem de manobra já era estreita e está a esgotar-se a cada dia. Atenas não tem dinheiro para pagar salários e pensões e, apesar dos desmentidos, dificilmente cumprirá os compromissos internacionais previstos para as próximas semanas. Terminado o prazo limite no dia 24, estaremos em território desconhecido, provavelmente num ‘Grexident’, ou saída acidental da zona euro.

Por aqui, circularam várias narrativas para explicar esta crise. Primeiro, a vitória do Syriza foi apresentada como um triunfo do bom senso: a estratégia da chanceler Merkel sofrera uma derrota e a ‘austeridade‘ ia acabar. Quando isto não se concretizou, o governo português foi acusado de falta de patriotismo pelos comentadores, por não ter apoiado as pretensões gregas, o que na prática acabou com o consenso partidário nacional em torno das nossas políticas europeias. Na realidade, o Syriza conseguiu hostilizar os parceiros e nunca foi credível. Talvez obtenha um acordo de última hora, talvez acabe por sair do euro, a única forma de aplicar o seu programa radical. A segunda hipótese, cada vez mais provável, será uma calamidade para os gregos e levará décadas a superar.

 

O euro tem um problema estrutural: a ausência de união política impede transferências directas entre ricos e pobres. Assim, o que cada país fizer de errado afecta os vizinhos. Com esta deficiência, cresce a tensão entre a democracia e o interesse colectivo, pois pode não ser possível a um governo eleito cumprir o seu programa eleitoral, sobretudo no caso da aplicação desse programa resultar em consequências graves para os outros.

Isto explica que não haja dinheiro para a Grécia sem a chamada austeridade, nem sequer os 7,2 mil milhões necessários para manter a flutuação até ao final de Maio. Dinheiro sem contrapartidas significaria colapso do euro, pois os países que fizeram sacrifícios seriam ridicularizados e a punição dos mercados era imediata. Na ausência de união política, as futuras transferências entre credores e devedores estarão ligadas a mudanças internas (solidariedade nos dois sentidos). Se a Grécia sair do euro, a ameaça de expulsão para quem não cumpra o Tratado Orçamental passa a ser um risco insuportável, o que terá exactamente o mesmo efeito de uma utópica união política.

Em Portugal, toda a gente quer evitar esta discussão. Sabendo que não chegam ao poder, os partidos mais à esquerda defendem a renegociação da dívida, o que daria um cenário grego; os socialistas dizem que vão acabar com a austeridade, mas não explicam como é que isso é compatível com o cumprimento do Tratado Orçamental; e a coligação também não pode esperar vencer eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo. Depois, quando estiver esgotada a fanfarronice eleitoral, haverá muitas queixas de que a Europa não respeita o veredicto da democracia portuguesa, mas ninguém se lembrará que os eleitores foram enganados.

Como se viesse aí uma grande trovoada


Luís Naves,

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Acumula-se na atmosfera uma excitação eléctrica em torno do ano eleitoral. Os comentários sobre os candidatos mencionam os eventuais apoios partidários, como se essa contagem de espingardas fosse linear, ou seja, como se os partidos fossem donos dos votos e o apoio das direcções resultasse no automático entusiasmo popular.

Quando as pessoas votam num candidato fazem duas perguntas: a primeira é simples e tem a ver com interesse, o que fará este candidato por mim? A segunda está relacionada com a confiança (posso confiar nele?) e, a partir daqui, a pergunta pode tornar-se mais complexa e variada: posso confiar nele para mudar o País? Para defender os meus interesses? Para acabar com a austeridade? Para nos tirar do buraco?

Os Estados-maiores dos partidos ou os jornalistas de política têm dificuldade em perceber que os eleitores possuem motivações de interesse e confiança. Torna-se penoso assistir à preferência do pequeno mundo partidário e mediático pelas manobras de intriga, a retórica balofa e o curto prazo. Quem votar nas legislativas de Outubro vai perguntar-se o que é que estes potenciais eleitos farão pelos seus interesses e se é possível confiar naquilo que eles dizem. O mesmo se aplica às presidenciais de Dezembro: o que este tipo diz é só conversa, ou posso confiar nele?

As pessoas já não suportam ouvir falar de crise e já não toleram a fulanização da política e as notícias enviesadas; estão fartas de corruptos e das elites que se apoderaram do Estado e que nos levaram à pré-bancarrota e ao resgate. Muitos portugueses estão desempregados ou temem pelos seus empregos; ninguém pode ignorar o tsunami da emergência social; e não há pachorra para a conversa marciana e para aqueles que tentam sacudir a água do capote. Quem fizer contas de cabeça percebe que nem em cinco ou seis anos terá o nível de salários anterior à crise, com a respectiva reposição de cortes ou redução de impostos. Sobretudo, os portugueses não entendem para que serviram tantos sacrifícios, não encontram quem lute pelos seus interesses e já perderam a confiança.

Contraste


Luís Naves,

Existe aquele lugar comum meio irritante segundo o qual as sondagens valem o que valem, que é a maneira da política fugir às perguntas. Também há más interpretações de sondagens: os preguiçosos não se dão ao trabalho de olhar para o mais importante, que são as tendências, e os tendenciosos gostam de confundir a árvore com a floresta. Tendo isto em conta, são curiosas as sondagens em Espanha, embora duvide que em Portugal alguém retire delas lições úteis.

Em Espanha, neste momento, há quatro partidos bem colocados para vencer as eleições autonómicas e legislativas. O bipartidarismo está condenado e os cenários de governo estável parecem complicados, o que levará a coligações. Um partido centrista, Cidadãos, irrompe na política espanhola de maneira espectacular e, em apenas dois meses, passou de menos de 13% das intenções de voto para mais de 19%. Este partido sem  militância nacional teve um resultado notável na Andaluzia e está a absorver uma formação centrista que nunca se afirmou. Entretanto, o Podemos entrou em queda acentuada, talvez vítima do seu apoio demasiado efusivo ao novo governo grego.

Na nossa Imprensa, há escassas hipóteses de ser referido um aspecto importante do cenário espanhol: o centro-direita recuperou 5 pontos percentuais em apenas dois meses e a esquerda tem caído de forma regular, apesar da subida do PSOE. A economia espanhola está a dar a volta, com perspectivas de crescimento que podem rondar 3% em 2015, e essa é a grande mudança.

Portugal e Espanha tendem a imitar-se, mas desta vez é diferente: as movimentações políticas espanholas contrastam fortemente com o cenário de imobilidade em Portugal. As nossas sondagens são eloquentes e nada muda nas perspectivas de voto, excepto em escassas décimas, com os partidos do costume a discutirem os candidatos do costume e a merecerem a falta de entusiasmo do costume. Estamos num impasse, numa modorra.

Muito me surpreendia a mudança


Luís Naves,

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Se tivesse nascido em 1861, seria agora 1915 e o mundo era muito diferente daquele em que eu nascera. Era talvez agricultor não muito alfabetizado, com uma vida típica das pequenas comunidades. Acho que antes dos 30 anos teria emigrado para o Brasil, ou tentado, mas o mais certo era já ter morrido, das febres tropicais na tal aventura brasileira, ou algures no início do século, de apoplexia. Se por sorte ainda vivesse, era mais baixo do que sou e muito mais pobre. Antes dos meus 30 anos, Portugal endividara-se, entrando numa longa crise financeira que tornou mais difícil a vida dos miseráveis: o desemprego era terrível e havia forte mortalidade; em 1910, quando fiz 49 anos, a monarquia foi derrubada e vivíamos desde então numa convulsão política que abalava muitos costumes. Felizmente, essa agitação era mais ruidosa nas cidades. Segundo relatavam os jornais de Lisboa, na Europa alastrava uma guerra de grandes dimensões, na realidade uma carnificina, e soavam as vozes dos que se queriam juntar ao morticínio, pois os portugueses, ainda neutros, já tinham combatido em África contra soldados alemães.

Aos 53 anos, eu sabia bem que o mundo era inteiramente dominado por potências imperiais cristãs e provavelmente concordava com os sermões sobre a superioridade da minha maneira de viver. De resto, sentia que estava tudo em transformação à minha volta: até já vira um avião a passar ao longe, com muito espanto meu; os carros já não surpreendiam ninguém, mas ainda era incrível todo aquele ruído que faziam; e a electricidade, essa, era uma maravilha; o cinema, nem me digam, tudo mexia à nossa frente, um verdadeiro susto. As melhores ideias do meu tempo demoravam a chegar ao nosso país, quanto mais à província, e sendo improvável que um ignorante como eu se interessasse pelo romance ou pela pintura, dificilmente poderia conhecer as novidades, os modernistas e os impressionistas, que faziam coisas horrivelmente distorcidas. Aliás, o mundo que aí vinha era todo ele horrível, bastava ver o que faziam as máquinas voadoras e os grandes canhões de aço. Sim, estaria quase a fazer 54 anos, estávamos em Março de 1915, ano difícil; no entardecer instável da serra diluía-se a palidez do dia e já era hora de acender o meu candeeiro de querosene.

O gene português defeituoso


Luís Naves,

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Quando falam do atraso português, alguns intelectuais tendem a analisar apenas o curto prazo. Outros autores, de forma mais ou menos velada, atribuem ao povo todos os males nacionais, como se houvesse um gene português defeituoso. Nem se apercebem da presunção com que falam. O tom de desprezo, impossível de encontrar em França em relação aos franceses, tem sido recorrente em Portugal, onde os nativos são descritos pela sua própria elite como manhosos e velhacos, incultos e pobres, mansos e cobardes. Estes retratos são falsos, mas repetem modelos comuns na nossa literatura.

Portugal nunca percebeu as razões de não ser respeitado pelas outras potências: a ideia do nosso atraso tem séculos e a figura do intelectual estrangeirado que se confronta com a choldra é uma constante em várias épocas. O poder foi invulgarmente centralizado em poucas famílias, que controlavam as diferentes instituições, corte, igreja, exército, banca e funcionalismo. As diferenças sociais permitiram que se instalasse o tráfico de influências, a necessidade de protecção, as invejas e a mediocridade.

Os privilegiados nunca precisaram de se esforçar muito, mas nos últimos 40 anos, com o fim do império e a integração europeia, a sociedade mudou de forma drástica. Em apenas uma geração, as mulheres emanciparam-se e as diferenças sociais esbateram-se. As pessoas são hoje muito mais instruídas, saudáveis e ricas do que eram há 40 anos. Hoje, é difícil dizer que o maior problema seja o fosso social ou que haja costumes invulgarmente machistas, o que torna mais impressionante a sobrevivência desta narrativa do povo defeituoso.

O atraso português deixou de ser tão evidente, mas permanece na nossa cultura e confirma a baixa auto-estima de quem olha para si próprio como incompreendido e melancólico. O que mais nos ficou do passado foi o provincianismo. O confronto com o exterior origina duas atitudes contraditórias: somos os melhores ou os piores. O que vem de fora é mal compreendido e muitas vezes mal intencionado, mas é também inimitável. Por outro lado, o que fazemos será puro génio ou não possui qualquer valor quando comparado com o que vem de fora. Este caldo de cultura inseguro e sem meio termo torna injusta a invisibilidade do país e, de forma paradoxal, cria uma mentalidade periférica. Enfim, já não somos o centro do império, mas ainda desconfiamos da Europa; estamos no meio do caminho, sem saber o que fazer.

Ninguém deseja imitar a Irlanda


Luís Naves,

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Para o governo de Atenas, há duas hipóteses: avançam as reformas que a esquerda radical sempre recusou ou a alternativa será o abandono da moeda única, calamidade que implica um recuo de 30 anos. Ministros cheios de estilo, que entraram a matar, já enfiaram a viola no saco, mas os analistas nacionais continuam a detectar vitórias esmagadoras em todas as patéticas provocações que ajudam a empurrar aquele país para a porta de saída da zona euro. Aqui, os comentadores andam obcecados com a beleza e a dignidade do exemplo grego, mas nenhum deles explica que Portugal tem apenas de imitar a Irlanda. Quem não aceite as regras do Tratado Orçamental terá financiamento mais caro, não conseguindo pagar as suas dívidas. Todas as fantasias conduzem ao cenário grego da dependência externa. Pelo contrário, quem optar pelo rigor poderá recuperar a riqueza perdida durante a crise. Irlanda, Espanha e Portugal já desmentem as previsões económicas e, com substancial ajuda externa, inverteram a tendência de queda, obtendo crescimento e criação de emprego.

No entanto, em jornais e televisões, os comentadores que diziam que isto era impossível não alteraram um milímetro do seu discurso. A Imprensa esteve três anos a evitar a discussão central, confundindo desejos com realidade e sintomas com causas. Agora, sem leitores (os jornais perderam 40% da circulação em dez anos), a comunicação social não permitirá uma discussão política exigente, pois isso tornaria irrelevantes todas as análises nunca concretizadas: o País enfrentava a insurreição, a ruptura violenta, depois a espiral recessiva, mais tarde a necessidade de reestruturar a dívida e até a conveniência de sair do euro, a impossibilidade de terminar o programa de ajustamento, o horror social e a miséria eterna. A conversa mantém-se imperturbável, insistindo que os parceiros europeus erraram em toda a linha e que o nosso problema nunca foi causado por ilusões de megalomania, mas pela intransigência da Alemanha.

Imperialismo e estado estacionário


Luís Naves,

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Destreza das Dúvidas é uma das mais estimulantes leituras da blogosfera portuguesa actual e ali encontrei este texto de José Carlos Alexandre, que a meu ver resume alguns dos mitos recorrentes no debate nacional sobre União Europeia. O autor lança a sua reflexão partindo da análise que John Stuart Mill fazia do contexto internacional em meados do século XIX. Num livro publicado em 1856, Mill temia que a Europa entrasse num “estado estacionário” semelhante ao da China. Dificilmente podemos admitir que a observação tenha sido exacta: a Europa conquistou o planeta e a China não vivia num “estado estacionário” com séculos, pelo contrário, mergulhara num acentuado declínio que o imperialismo britânico tinha exacerbado na década anterior à da publicação do livro. Em causa, nos conflitos de que a China foi vítima, estava a ideia de liberdade de comércio, nomeadamente de vender ópio, cujo consumo minou a sociedade chinesa. Os chineses tinham sido copiosamente derrotados na Primeira Guerra do Ópio e seriam de novo derrotados ainda a tinta de On Liberty estava fresca. Nos anos seguintes, o “estado estacionário” deu nisto.

É pois difícil aceitar parte da argumentação e a análise que Mill fazia sobre a China sua contemporânea, nomeadamente a ideia do esmagamento do indivíduo como a causa da suposta inferioridade chinesa em relação à Europa. Qual a razão do triunfo britânico? Essa é outra questão, havendo várias teorias sobre o tema e talvez o esmagamento da China se explique pelo casamento feliz que ocorreu na Europa entre capitalismo, império e ciência, ou seja, os europeus tinham disciplina táctica, tecnologia naval, armamento mais eficaz, ambição financeira e o respaldo ideológico do liberalismo.

Em relação ao tema do texto de José Carlos Alexandre, o suposto “estado estacionário” da Europa actual, o diagnóstico parece pouco evidente. A burocracia central de Bruxelas é menos poderosa do que sugere o autor (afinal, dispõe apenas de 1% do PIB total da UE). Na realidade, a União Europeia é uma aliança de nações soberanas, antigos impérios em declínio, e o órgão decisivo é o Conselho Europeu, onde se reúnem os líderes eleitos, cada um deles a defender o interesse do seu próprio país. O resto, no essencial, consiste basicamente na tentativa de criar um vasto mercado comum e isso só será possível com certa uniformização de leis e de práticas administrativas, daí a necessidade de uma burocracia em Bruxelas, que funciona como uma espécie de fábrica de salsichas legais. As pessoas tendem a ridicularizar as tentativas de uniformização disto e daquilo, mas como seria possível um mercado europeu sem haver regras comuns definidas através de um processo político relativamente bizantino? Apesar de tudo, julgo não ser adequado falar em “estado estacionário” na Europa ou de “esmagamento do indivíduo”. Os cidadãos europeus gozam de amplas liberdades e têm uma segurança invulgar no gozo dos seus direitos. Isso, sim, deveria surpreender John Stuart Mill.

Mudança em Espanha


Luís Naves,

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A sondagem que o El Pais publica hoje justifica três conclusões: os espanhóis queriam uma renovação dos partidos e ela aí está; com a bipolarização ameaçada, haverá talvez uma fase de governos de coligação; existe grande descontentamento à esquerda e à direita. Faltam oito meses e estas observações são óbvias, pois dentro da margem de erro há quatro partidos que podem vencer as eleições, mas olhando para as tendências verifica-se um fenómeno menos evidente: apesar das dificuldades do PP, o centro-direita está a crescer depressa, talvez um efeito da viragem económica.

Em Janeiro, segundo o mesmo instituto de pesquisa, a esquerda somava 57% dos votos e a direita apenas 29,3%. A inversão está a ser rápida. A soma de PP, Cidadãos e UpyD dá neste momento 40,6% das intenções de voto, enquanto o somatório Podemos, PSOE e IU baixou quase 10 pontos, para 48,3%. O que pesará mais, os escândalos de corrupção ou a queda do desemprego? Esta dúvida talvez explique a extrema indecisão do eleitorado, traduzida em fortes oscilações mensais de todos os partidos.

Se o cenário em Espanha é de mudança radical, em Portugal temos um descontentamento que deixa tudo na mesma. Fala-se muito em renovação dos partidos, mas esta não se vislumbra. Faltam sete meses para as eleições, contando três de férias de Verão, e os partidos estão mais ou menos nas mesmas posições, apesar do inaturável clima de pessimismo que tomou conta da sociedade portuguesa. Sobretudo continua a não surgir qualquer desafio de direita à coligação de governo, algo de estranho, tendo em conta as críticas constantes de sectores social-democratas ao longo de três anos de ajustamento. Ao contrário do que acontece em Espanha, os políticos nacionais parecem conhecer uma única via para o poder: a dos partidos instalados. A estratégia mais comum é torcer por uma derrota, para depois substituir o líder.

Quando a democracia se torna obesa


Luís Naves,

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Há crescentes sinais de problemas na democracia americana, sobretudo a paralisia que resulta da crescente intransigência das facções extremistas dos dois grandes partidos e a lenta formação de uma oligarquia que impede a renovação mais rápida do Congresso. As trincheiras ideológicas em torno do porte de armas ou da imigração estão a aprofundar-se e os políticos americanos tratam com pinças temas que na Europa seriam triviais, por exemplo, se há vantagens em vacinar as crianças, se acredita na teoria da evolução ou na tese das alterações climáticas. As campanhas tornaram-se de tal forma caras que os candidatos ficam reféns dos seus financiamentos.

Estes textos de Paul Krugman (aqui em castelhano e aqui numa versão diferente em inglês) são, no mínimo, preocupantes. O autor baseia-se neste artigo, onde são referidos os valores das contribuições políticas da indústria de pizzas. Como se pode ler, os estados mais obesos da América tendem a votar no Partido Republicano e Krugman afirma existir uma correlação entre estilo de vida e opções partidárias, algo que estará talvez ligado ao facto da indústria de junk food contribuir fortemente com dinheiro para as campanhas de candidatos republicanos.

A indústria do tabaco também interferiu na política, como fazem hoje a banca, os produtores de petróleo ou os fabricantes de armas, defendendo o livre arbítrio dos cidadãos e a liberdade dos mercados. Com esses argumentos, atrasam os avisos aos consumidores sobre os efeitos dos produtos que vendem ou hostilizam qualquer político que queira alterar comportamentos ou regular o seu sector. No caso das pizzas, a indústria quer apenas impedir a obrigação de etiquetas com informação sobre o conteúdo do alimento ou contestar decisões das autoridades no sentido de excluir este tipo de comida dos menus escolares. Quando a obesidade ou o fenómeno das alterações climáticas se tornam questões de opção partidária, todo o debate fica inquinado.