Não pretendia escrever mais sobre a crise de refugiados, mas tenho lido na imprensa algumas visões injustas e sensacionais sobre o que se está a passar. Julgo que alguns comentadores ainda não perceberam a dimensão do fluxo migratório e a maldade dos traficantes. Portugal vai receber 3 mil refugiados no âmbito de uma quota que está a ser negociada a nível europeu e que se poderá tornar permanente, quer dizer, a rondar 3% das futuras entradas. No entanto, aquilo a que estamos a assistir é apenas o início de um gigantesco movimento de gente, o que torna incompreensível a histeria de alguns activistas em relação a incidentes menores.
Quando saí da Hungria, na quinta-feira, os números oficiais eram de 178 mil entradas em 2015, mas no final desta semana podemos estar a falar de 200 mil pedidos de asilo. Ou seja, Portugal recebe um dia de entradas, esforço que rapidamente se vai revelar obsoleto. E se nos próximos dois anos chegarem 2 milhões de sírios, metade dos que estão em campos de refugiados da ONU? O número não é absurdo. O New York Times escrevia que já não há verba para alimentar os que estão em campos na Jordânia. Repito: isto é apenas o início de um movimento em larga escala; os europeus têm obrigação moral e legal de receber os refugiados que baterem à sua porta. Com uma quota de 3% e uma vaga de 2 milhões, Portugal receberia 60 mil refugiados, geralmente relutantes em permanecer no nosso país.
Estas pessoas estão em movimento, rumo à Alemanha e Suécia, mas é provável que um pequena nação como a Hungria tenha albergado, em cada dia do último mês, mais de 20 mil pessoas simultaneamente. Mesmo assim, foi possível registar, alimentar, transportar e proteger toda esta gente. Por isso, não entendo que só haja notícias negativas. O que é que se pretende, que a multidão não seja controlada? Os traficantes estão a fazer fortunas e a refinar os métodos, mas ao cumprir as regras da zona Schengen de livre circulação, a Hungria eliminou o tráfico, pelo menos no seu território, pelo que estão a surgir novas rotas, nomeadamente através da Croácia e Eslovénia.
Alguém em Portugal leu notícias sobre a detenção pela polícia húngara de dezenas de suspeitos de tráfico? E alguém pensou que teriam garantias de sobrevivência as 70 pessoas que há duas semanas morreram asfixiadas num camião conduzido por traficantes, caso fosse possível pôr o filme a andar para trás e só agora esses refugiados chegassem à Hungria?
Na sexta-feira passada, não entrei no pavilhão azul de Roszke onde a polícia foi filmada a lançar pão a um grupo de refugiados. Nesse dia, ocorreu um motim e houve uma fuga de centenas de migrantes, que invadiram a auto-estrada. Só uma exibição de força da polícia de choque (sem acção), acalmou a rebelião, mas assisti a momentos de grande tensão e nervosismo. O campo não tinha condições e foi abandonado no dia seguinte. Pelo que vi nesse dia, a polícia agiu de forma profissional, retirando mulheres e crianças da zona, mas vi muitas crianças na primeira fila da confusão.
É óbvio que esse protesto teria motivos, mas o facto é que o campo de registo mudou de local 24 horas depois. Segundo me disseram membros da protecção civil húngara, no novo campo havia melhor organização, comida e água. Visto do exterior, assim parecia. Tanto no antigo como no novo, havia médicos e era visível a presença de organizações internacionais, como a Cruz Vermelha. Muitos refugiados chegam doentes e com marcas de espancamentos. Alguns viajaram através dos Balcãs sob ameaça de armas de grupos de traficantes.
No ponto da fronteira onde os migrantes eram recebidos, ao ar livre, todos recebiam comida e água, não havendo filas de mais de dez pessoas. Todos eram transportados em autocarros. As condições de higiene eram atrozes e os refugiados recusavam o registo e tentavam escapar, ensaiando fugas em massa que em certos casos resultaram e que a polícia húngara teve sempre dificuldade em controlar, mas não assisti a nenhum incidente de agressão, apesar de alguns agentes terem dito que não eram rendidos há três dias.
Os fugitivos tentavam evitar o registo e seguiam pelas estradas, a pé, até serem interceptados. Nas zonas em redor, nomeadamente na estrada para Szeged e na auto-estrada para Budapeste, os condutores húngaros guiavam com a máxima prudência, o que não evitou atropelamentos fatais.
A vedação a que toda a gente chama muro serviu para dar alguma ordem à entrada caótica de 3 ou 4 mil pessoas diárias, mas não reduziu o fluxo. Na realidade, este está a aumentar e os críticos deviam colocar-se a seguinte questão: estaria Portugal em condições de enfrentar uma situação destas?













