A minha vez


Luís Naves,

Ao passar duas horas no centro de emprego, vi os sinais da melancolia e do conformismo que alguns pensadores julgam ser a natureza mais profunda do povo português. Naquele grupo de uma centena de pessoas havia estrangeiros, mas a preponderância era de trabalhadores pouco qualificados e pessoas com baixa instrução, as maiores vítimas de um colapso económico que a elite nacional tarda em compreender. Digo isto porque muitos intelectuais ainda não perceberam que a crise social atinge sobretudo trabalhadores que não encontram emprego num mercado de trabalho que se tornou de súbito mais curto e exigente.

A senhora que meteu conversa comigo contou-me que muitos desempregados preferiam receber de uma vez o dinheiro a que tinham direito, para abrirem um negócio, mas aquilo tinha grande risco, disse-me ela, a acrescentar que sonhava em abrir uma tasca ali numa boa avenida da cidade. Não mencionei as minhas dúvidas nem lhe disse que as tascas na minha rua fecharam todas e que os negócios são difíceis, pois é preciso investir e fazer contabilidade, enfim, todas essas coisas, e de resto não há consumo. Ela continuou a falar do seu sonho, mas não explicou o que eu já adivinhara, que não lhe restava muito dinheiro para receber, apenas mais alguns meses, a um valor diário que não dava para uma refeição normal. Mostrou-me os papéis. No ecrã da televisão, os números avançavam devagar e as pessoas mantinham-se nos seus lugares, como acontece por vezes nos aeroportos à espera dos voos atrasados, sem grandes manifestações de impaciência, excepto no caso de um homem que entrou a falar alto, headphones ao pescoço, aspecto de já andar pela quinta dimensão. Naquela inesperada invasão, a senhora que meteu conversa aproveitou para me dizer que os números andavam devagar por eles serem “psicólogos”. Quem? Os que nos atendiam, respondeu. Eram psicólogos por ouvirem as pessoas. A senha dela estava a dois números do objectivo, mas aquilo ia “engasgar”, disse, num tom apenas factual, sem alarme ou fatalismo.

Na sala, havia o ruído de conversas em voz baixa, certa serenidade, à excepção do homem dos headphones, que acabou por sair, a ralhar com o mundo. Lembrei-me de alguém ter dito que este povo é demasiado manso, mas ali não valia a pena fazer barulho. Qualquer perturbação só iria atrasar o avanço dos números no ecrã, adiando a esperança de quem aguardava a vez. No painel electrónico prosseguia o avanço lento das senhas, por vezes engasgando-se a sua boa ordem, mas ninguém se importava muito com a demora num número: cada pessoa na sala esperava isso para si, que houvesse alguém, por uma vez, a escutar os seus problemas.

Um mundo sem europeus


Luís Naves,

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Reencontrei Um Mundo Sem Europeus e reli algumas partes. Em 2010, quando foi publicado, discordei do autor, Henrique Raposo, cujas opiniões me soavam demasiado definitivas. Agora, as ideias parecem ultrapassadas. Alguns exemplos: “Tirando Rússia e China, todos os Estados-chave são democracias liberais”, ou “a Europa não tem qualquer centralidade na política mundial”; ou ainda “o drama central da segunda metade do século XX asiático não foi o choque EUA vs URSS. O drama central dos asiáticos no pós-1945 foi, isso sim, o pós-colonialismo”.

A primeira frase confundia democracia com democracia liberal. Definir Índia, África do Sul ou Turquia como democracias liberais não faz sentido. Nos próprios EUA, onde as oligarquias têm poder desproporcionado e onde existe uma obsessão com a segurança, a democracia é mais conservadora do que liberal. As democracias liberais são raras e existem sobretudo na Europa. Nada impede modelos democráticos de tipo populista, social-democrata, conservador ou islâmico. Se o Podemos ganhar as eleições em Espanha, deixa de haver ali democracia? E essa democracia não vai ser liberal, pois não?

A segunda frase traduzia uma tese em voga que menorizava os europeus e que a crise financeira também se encarregou de negar. Como os ucranianos bem sabem, a Europa continua a ser decisiva na política internacional. A luta pela supremacia na Europa Central tem sido a razão principal dos grandes antagonismos dos últimos 500 anos.

O terceiro exemplo representa outro exagero, pois os conflitos da Coreia e do Vietname estavam ligados à Guerra Fria. A ascensão da China tem de ser lida à luz do choque entre as duas superpotências e o mesmo se aplica à Revolução Islâmica no Irão ou aos choques petrolíferos. A Europa esteve no centro dos acontecimentos entre 1945 e 1989, mesmo quando havia episódios laterais, como o do Médio Oriente. A criação da Comunidade Económica Europeia resultou em grande parte da reacção à complexa crise de Outubro de 1956, que foi essencialmente uma crise europeia, embora envolvendo também Israel e Egipto, com desdobramentos locais em 1967, 1973 e por aí fora.

O que o gato Humphrey nos ensina


Luís Naves,

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Esta história pode ser lida na revista The Economist. Há mais informação no artigo original, do politólogo Robert Ford, que pode ser lido aqui. Para quem não tem paciência para navegar entre as fontes, a história conta-se em poucas linhas: na residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Downing Street, existe desde os tempos de Winston Churchill a tradição de se manter um gato de estimação, com o cargo humorístico de chief mouser. É uma espécie de funcionário público, muito apreciado pelos fotógrafos. Nos tempos da conservadora Margaret Thatcher, o cargo foi ocupado por um gato chamado Humphrey e, segundo a lenda, o nome era uma referência à personagem de uma série de televisão muito popular, Yes, Minister. Humphrey usava jornais sem os ler e manteve-se em funções até à sua morte em 2006, servindo vários chefes de governo, incluindo o trabalhista Tony Blair.

A experiência descrita por Robert Ford consistiu em medir as preferências dos eleitores, não em relação a um Humphrey politicamente neutro, mas onde a sua descrição era ‘gato de Thatcher’ ou ‘gato de Blair’. Os resultados foram surpreendentes. No conjunto do eleitorado, Humphrey era preferido como ‘gato de Thatcher’, 31%, contra 27%, quando aparecia como ‘gato de Blair’. O eleitorado dos conservadores tinha uma visão totalmente inclinada para a descrição de Humphrey como ‘gato de Thatcher’, 44% contra 27%; os trabalhistas faziam o inverso, com 37% a preferirem ‘o gato de Blair‘ e apenas 21% a apreciarem Humphrey quando este era descrito como ‘gato de Thatcher’.

“Os nossos valores e preferências políticas tendem a modificar a nossa visão de tudo o que associamos com política”, conclui o autor, que no artigo menciona experiências americanas usando o cão de Obama, Bo, onde se verificou que a mascote oficial da Casa Branca era rejeitada por eleitores com preconceitos raciais. No caso britânico, foi também testada a reacção do eleitorado aos gatos de Gordon Brown e David Cameron (ambos diferentes), o primeiro muito mais apreciado por trabalhistas e o segundo por conservadores.

Estas experiências dizem muito sobre a disponibilidade que as pessoas têm para julgarem todos os acontecimentos e personagens com uma distorção de carácter partidário. Se as diferenças são tão evidentes em relação a uma trivialidade neutra, como a mascote oficial do primeiro-ministro, ficam explicadas as reacções extremadas que a opinião pública exibe em relação a assuntos sérios. Há respostas tribais, partidárias e quase instintivas a tudo o que seja política. Certas escolhas, indignações e preferências têm menos a ver com a razão e mais com a cor da bandeira do grupo a que se pertence, seja partido, clube ou movimento.

Boa notícia ou má notícia?


Luís Naves,

Num mundo onde existe frustração constante perante as altas expectativas criadas pelo culto da juventude e do consumo, tornou-se um lugar comum o clima mediático negativo e pessimista. O grande papão em Portugal, nos últimos três anos, foi a espiral recessiva, mito que na altura foi impossível contrariar. Foram escritos artigos inflamados e a espiral recessiva nunca aconteceu, mas a memória é curta e agora vem aí a deflação.

Quando o preço do petróleo subia, aqui-d’el-rei que era o fim do mundo. No momento em que o preço do barril baixa, surge outra desgraça iminente. Impõe-se a seguinte narrativa: o petróleo está barato porque a economia ficou de rastos após a austeridade, as pessoas não consomem, os preços baixam e as lojas estoiram e despedem, criando assim uma espiral de queda de preços e baixa de consumo, que se poderia resolver apenas com estímulos estatais que, infelizmente, são impossíveis, pois aumentam a montanha da dívida.

Além da colisão frontal com alguns factos, pois há mais consumo (veja-se as vendas de automóveis e expansão económica em vários países) é visível um problema central neste raciocínio: o preço do petróleo não está a cair apenas devido ao estado da economia mundial e à queda da procura, mas por um conjunto mais complexo de factores. Existe o efeito da produção de gás de xisto, que reduz a dependência americana de importação de energia, mas acima de tudo o petróleo é uma arma estratégica em uso contra a Rússia e contra o Irão. A queda do preço do barril restringe as opções de Moscovo no conflito da Ucrânia e pressiona Teerão a colaborar com o Ocidente na questão nuclear e no ataque ao Estado Islâmico. A actuação da Arábia Saudita no cartel da OPEP, forçando a queda dos preços, será temporária e tem claras intenções políticas, pois os sauditas temem os iranianos.

Os Estados Unidos mandam no petróleo e mandam no mundo. Para mais, não faz sentido falar em espiral deflacionária numa economia que cresce a ritmo de 3% ao ano, sem vestígios de abrandamento. Alguns países europeus têm de facto preços em queda e economia estagnada ou em contracção, mas a redução da factura de importação de petróleo constitui para cada um deles uma evidente vantagem temporária. Portugal, por exemplo, a crescer pouco, tem aqui uma excelente notícia, pois o petróleo barato aumenta a taxa de crescimento e reduz o custo das importações.

Perdidos e achados


Luís Naves,

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Um historiador de arte foi ao cinema e ficou estupefacto ao ver numa das cenas do filme, pendurada sobre a lareira, uma obra desaparecida. Interessou-se pelo caso, fez perguntas aos produtores da película e descobriu que o “adereço” tinha sido comprado por tuta-e-meia num antiquário da Califórnia, parecendo perfeito para decorar a cena do filme Stuart Little. A história pode ser lida com mais detalhe aqui e também aqui, em inglês (não consegui encontrar um artigo em português e, caso exista link, as minhas desculpas antecipadas).

Afinal, a obra era uma preciosidade europeia perdida, pintada por Robert Berény (1887-1953), um dos mais importantes mestres húngaros do século XX. Os trabalhos deste pintor são relativamente raros, devido à destruição do seu atelier, no final da II Guerra Mundial, mas sobretudo por essa guerra ter incinerado parte muito relevante do riquíssimo património artístico do país. Passada uma década depois de aparecer num filme de Hollywood, o quadro “Mulher Adormecida com Vaso Negro” será vendido em Budapeste, em leilão. A obra tem uma história fantástica, que provavelmente vai criar um mito artístico: foi levada para a América em 1928 e ali mudou sucessivamente de mãos, pelos vistos sem ninguém reparar na assinatura (a parte estranha da história). Depois, num desenvolvimento ainda mais bizarro, a descoberta acidental. Na imagem, um dos quadros famosos de Berény, “Mulher com Violoncelo”, da mesma época, 1928.

Depois da crise


Luís Naves,

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Um País que durante séculos se habituou à impunidade dos poderosos assiste com espanto a uma vaga de inquéritos judiciais. Os altos escalões da administração, a banca, os partidos, tudo isto parecia intocável. E, no entanto, na comunicação social, onde antes se reclamava quase todos os dias por mais transparência e pela remoção imediata das maçãs podres, esta semana quase só se ouviram as vozes daqueles que, sem conhecerem os factos, contestam a actuação dos juízes.

É talvez cedo para se avaliar o impacto das grandes mudanças que Portugal sofreu nos últimos seis meses, sobretudo com o escândalo do BES e a queda da PT, o caso dos vistos dourados, a detenção de José Sócrates. E, no entanto, está em curso uma transformação no regime democrático, que coincide com o fim do período de ajustamento. A opinião pública sai deste longo período de sacrifícios muito mais exigente em relação à transparência do sistema político e ao uso do dinheiro dos contribuintes. Em texto anterior afirmei que Portugal está a sair da crise e a frase foi imediatamente recusada por leitores que nem sequer consideraram a hipótese.

É altura de tentar explicar. Durante três anos, os partidos e os média impuseram à sociedade portuguesa uma narrativa de extremo pessimismo sobre a situação nacional e europeia. Por vezes, Portugal era descrito em tons neo-realistas, como se estivéssemos nos anos 40, outras vezes parecia saído do expressionismo dos anos 20, onde pairavam as sombras fundas do pós-guerra. O naufrágio estava sempre na vaga seguinte.

 

Qualquer indicador favorável era imediatamente desvalorizado ou até ridicularizado. A Europa estilhaçava-se e ia para o caixote do lixo da História. Quem se atrevesse a escrever que as coisas podiam melhorar era considerado louco ou criticado por insensibilidade social. Pessoas que viviam em situação razoável ou boa consideravam que todos os portugueses estavam à beira da miséria.

E, no entanto, o colapso iminente, a espiral recessiva ou o êxodo em massa eram incompatíveis com os restaurantes repletos, o entusiasmo nos festivais de Verão ou as multidões de adeptos nos estádios de futebol. Surgiam também pequenos sinais de recuperação (taxas de juro baixas, emprego a subir, tímido crescimento económico, mais exportações, algum investimento), mas a sua menção era considerada propaganda. Os poderosos mitos em torno da natureza da crise eram difíceis de contrariar.

Por outro lado, cada nova dificuldade na União Europeia é ainda hoje interpretada como estertor final da organização ou negação da utopia. É quase impossível escrever, sem ser acusado de loucura, que na Europa está a ser criado um bloco político poderoso, liderado pela Alemanha, país pela primeira vez na sua história rodeado apenas por nações amigas. A estratégia de Berlim parece ser a de criar uma aliança com França, Itália e Polónia, núcleo duro que terá depois uma integração acelerada, não acompanhada pelos países periféricos que preferirem manter uma relação menos profunda. Entretanto, insistindo na ideia de uma Europa que nunca existiu e não existe, os nossos intelectuais criaram um clima de descontentamento em relação à UE, facilitando o afastamento progressivo do País.

 

A conversa da desgraça iminente já não faz sentido. Nenhuma crise é eterna, o problema está em definir o momento em que ela termina. O que é ‘sair da crise’? No caso português, será o momento em que o rendimento dos portugueses recomeçar a convergir com a média da zona euro, estando a economia europeia fora da recessão. Ou seja, se aceitarmos esta definição, estamos provavelmente a sair da crise no segundo semestre de 2014.

Convergir com a Europa tem de ser um objectivo nacional. Portugal não pode cair num pessimismo estéril ou na discussão monotemática sobre os erros do passado. A sociedade portuguesa ainda não resolveu os seus problemas fundamentais e um deles é sem dúvida a impunidade tradicional dos poderosos, um dos motivos na base da má distribuição de recursos. A longa campanha para as eleições de 2015 será uma altura favorável para se discutirem soluções que permitam eliminar os suspeitos do costume: a baixa produtividade, o desequilíbrio das contas públicas, a dívida, o desemprego, a pobreza, a demografia desfavorável, o deficiente sistema político e a relutância em aceitar a integração europeia. Falar durante um ano sobre os méritos ou defeitos dos casos de justiça não resolverá nenhuma questão relevante da sociedade portuguesa. Temos de começar a discutir o pós-crise, sem demagogia populista ou pessimismo tonto.

 

O elefante na loja de porcelanas


Luís Naves,

Negar os factos evidentes só é possível até certo ponto, pois a realidade tem sempre razão. Apesar disso, o País habituou-se a negar o óbvio. Foi assim durante o endividamento que nos levou à falência, foi assim durante a austeridade, é assim agora: Portugal está a sair da crise, mas em vez de discutir o futuro, corre sérios riscos de se meter numa conversa de surdos sobre o passado.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates foi detido, havendo suspeita de crimes graves, mas vejo sobretudo comentadores que questionam a saúde do estado de Direito e a própria sobrevivência do regime democrático. Alguns sectores do Partido Socialista parecem dispostos a tomar a Bastilha, para libertar o ilustre prisioneiro, livrando assim o País da perigosa conspiração de sinistros poderes justicialistas. Como mostra a recolha de citações que Pedro Correia publicou na séria ‘A Cabala’, neste blogue, muitos autores ainda não perceberam que o assunto não vai desaparecer por magia. Alguns gostariam que o caso fosse enterrado, embora não expliquem como é que o inquérito pode morrer à nascença sem que isso seja negação de justiça ou péssimo funcionamento das instituições.

O inevitável interesse do público pelas peripécias do caso não pode transformar-se num ambiente de histeria ou de pressão. Isto devia ser simples, mas as emoções estão à flor da pele e o PS, incapaz de lidar com a herança dos anos Sócrates, tem mostrado por estes dias algumas divisões insensatas. O que parecia ser um passeio para a vitória está a transformar-se num pesadelo trágico. Estamos perante um exemplo extremo de não se ver o elefante na loja de porcelanas. Só até à acusação, o assunto pode durar um ano, condicionando toda a campanha para as eleições de 2015. Mais valia perceber isso já, em vez de tentar negar a realidade. É que quanto mais politizado estiver o caso, pior será para os socialistas.

O futuro de Hollywood


Luís Naves,

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Interstellar, de Christopher Nolan, pode ser a chave da futura Hollywood, com um regresso à velha tradição de contar histórias verosímeis e originais, com cabeça, tronco e membros, sem parafernália visual que não esteja estritamente ligada à eficácia narrativa. O filme é um exemplo da melhor ficção científica que vi nos últimos anos, liberta do terror que contaminava o género e com reflexões interessantes sobre os problemas da humanidade, a exploração espacial e o tecido do cosmos. O ritmo é alucinante, como convém a uma viagem através de buracos de verme. As personagens são ricas e contrastadas, há um argumento inteligente, poucas cenas com lamechice, até algum humor.

Nolan tentou criar um clássico, o que se pode definir como um filme que transcende a sua época e resiste ao tempo, que é aliás um dos temas centrais. A marca clássica está impressa no rigor científico, por exemplo, no silêncio que acompanha as imagens sem atmosfera, ao contrário do que sucede em filmes menores, onde não se resiste a colocar som impossível de ouvir. Nos últimos vinte anos, o cinema de Hollywood insistiu em efeitos visuais e no fogo de artifício, trocando a coerência das histórias pelo espectáculo superficial e os caprichos da vedetas. Interstellar é uma excepção a esta tendência. Ali existe um fio de histórias, o que é típico das grandes narrativas.

 

Interessou-me em particular uma historinha incluída na poderosa cena das ondas gigantes: os heróis pousam num planeta sob o efeito da gravidade de um buraco negro (a gravidade dilata o tempo) e permanecem ali quase três horas, passando 23 anos no local, devido à distorção temporal associada à relatividade. Os destroços da expedição anterior, que partira anos antes, estavam ainda juntos, pois o tempo também se alongara para esta expedição e, do ponto de vista do planeta onde o relógio andava mais devagar, a catástrofe ocorrera apenas uma hora antes. É impressionante que ideias tão complexas possam surgir num produto da cultura popular.

Nolan consegue prender o espectador numa espécie de efeito relativista de contracção do tempo, pois este filme invulgarmente extenso vê-se sem cansaço. A obra tem falhas, com diálogos dispensáveis e pouca explicação sobre a maneira como a humanidade escapa ao seu mau destino. Há uma dose de misticismo para acalmar os religiosos, mostrando o poder das cautelas que no mercado americano é necessário manter com as correntes criacionistas.

Julgo que a maior falha está no pudor com que o filme ataca a questão do declínio da civilização terrestre. Pragas devastaram as colheitas e uma vaga de fome fez recuar a curiosidade científica. Surgem também uns vapores sobre os efeitos dessas pragas alimentares (menciona-se um conflito, talvez nuclear, contra os esfomeados), mas nota-se a relutância sistemática dos argumentistas em entrar nos controversos terrenos das alterações climáticas, que seriam uma explicação para a fome geral e para o recuo tecnológico. O cenário de mudança de clima nunca é evidente e perante doenças tão óbvias, torna-se incompreensível a insistência dos agricultores nas monoculturas.

No início, um curioso diálogo introduz o politicamente correcto: a civilização está em crise, mas tornou-se anti-tecnológica, como mostra a professora (aliás, encantadora) que critica a aluna por contrariar a tese de que a conquista da Lua foi uma manobra de propaganda. Ou seja, o filme é crítico do pensamento único, mas sem evitar a correcção política, na dose q.b. de misticismo e na finta ao problema das mudanças climáticas, talvez pelo facto dos interesses económicos pesarem no financiamento. Enfim, Interstellar é uma experiência emocionante, que faz um esforço decente para recuperar o passado glorioso do cinema clássico, introduzindo com coragem ideias científicas complexas que colidem com muitas certezas religiosas. É uma obra de compromisso, que brilha no meio da monocultura de Hollywood, repleta de filmes violentos para adolescentes, de histórias fraquíssimas, temas inócuos, e que infelizmente tem resistido a todas as pragas.

 

Em arte não há certezas


Luís Naves,

Em post anterior, A mediocridade literária, referi a polémica em torno de um texto sobre George Orwell; o que escrevi suscitou um comentário muito interessante do nosso leitor Luís Miguel Rosa, que podem seguir neste excelente Um Blog Fashionável.

 

Várias questões levantadas no comentário são pertinentes, mas aproveito para explicar que não sou historiador de arte nem perito em literatura. Sobre este assunto, tenho opiniões que resultam do meu trabalho, não passam de observações de um autor que tenta analisar aquilo que faz.

Quem escreve tem preferências. Costumo citar uma fase de Miquel Barceló: “Cada pintor faz a sua própria História de Arte”, que pode ser interpretado como a viabilidade de todas as opções de estilo. O mais importante não é caber num rótulo. Um escritor escreve por ter coisas para dizer e usa determinada forma, quase sempre tirada da tradição e que lhe parece a mais eficaz naquele momento.

Nesse sentido, ninguém escreve para leitores ou críticos. Cada artista usa técnicas e formas adequadas ao objectivo da obra.

Como escreve Luís Miguel Rosa, a escrita literária tem de comportar “dificuldade e complexidade, caso contrário não há motivo para ler um romance em vez de um jornal”. Há ainda a questão do gosto, que é individual (cada leitor tem o seu gosto).

Assim, não existe oposição entre estilos simples e complexos, mas oposição entre eficaz e ineficaz. Entre uma obra que toca nos nervos de uma sociedade e outra que passa ao lado do essencial.

A interpretação que fiz do texto de Will Self sobre George Orwell sugere que o crítico não está a falar de Orwell, mas do seu próprio trabalho. Acrescento que os leitores não querem “este tipo de pós-modernismo” e, neste ponto, posso ter sido menos claro. “Os leitores não querem nada”, escreve Luís Miguel Rosa, mas o facto é que querem provavelmente uma literatura que não seja elitista, artificial ou alheia ao seu mundo, vazia ou politicamente correcta, histérica e autocentrada. Claro que o mundo contemporâneo, sendo mediatizado e financeiro, relega a literatura para plano secundário, perante o triunfo da cultura popular e dos êxitos de vendas. É difícil saber o que querem as pessoas que verdadeiramente gostam de literatura, mas como já escrevi neste blog, os escritores têm cada vez menos importância (até política) e aqui estamos perante o dilema do ovo e da galinha, qual deles nasceu primeiro? Será que os escritores escrevem coisas irrelevantes ou é a sociedade que rejeita a sua relevância?

Em resposta a esta questão, defendo que a escrita deve tentar impedir a imbecilização do público e reconquistar o terreno da legibilidade. Não é escrever jornais em forma de livro, mas simplificar, regressar à sociedade, ter conteúdo. Não sou defensor de frases curtas em vez de frases compridas, sou a favor de frases com sentido e clareza.

Mas estas, repito, são meras opiniões e, no fundo, estou a falar do que faço ou tento fazer. Em arte, felizmente não há certezas.

  

 

A mediocridade literária


Luís Naves,

 

O escritor Will Self define George Orwell como “mediocridade literária”, num texto que pode ser lido aqui (em inglês, transcrição de programa de rádio). Claro que se trata de lançar uma pedrada no charco estagnado das discussões intelectuais: Will Self é um iconoclasta que gosta de chocar, também há aqui estratégias de marketing e circo mediático (é necessário que se fale dos autores que publicam um novo livro), mas o texto é curiosamente contraditório, pois a suposta “mediocridade literária” tem um “estilo que consegue explicar um número de coisas com dolorosa clareza”, o que devia ser um elogio brutal.

No fundo, a crítica a um autor clássico visa contestar uma das características mais importantes de Orwell: a simplicidade. Aliás, a argumentação está centrada no ensaio sobre “Política e a Língua Inglesa”, o que é revelador. A literatura das duas últimas décadas tentou romper com estes processos da clareza e da legibilidade, introduzindo a complexidade da linguagem, o fluxo de consciência que atropela as ideias. Ao atacar a tradição, Self está a defender a sua dama.

Julgo que este pós-modernismo bateu na parede (os leitores já não o querem) e que a literatura contemporânea tem de recuperar a simplicidade da tradição, entretanto perdida em tentativas de experimentalismo e nas histerias autocentradas e preocupadas com a destruição do que se imagina ser a velharia.

As sociedades contemporâneas estão a envelhecer, mas o antigo deixou de contar, os escritores tentam ser aquilo que não são: criam personagens públicas, transformam-se em actores e figuras vagamente divertidas, domesticadas pelos media, em vez de continuarem a ser intelectuais envolvidos no seu mundo. Existe o culto do novo, daí as visões da realidade serem sempre tão negativas, embora inócuas e cuidadosas quando abordam o multiculturalismo ou usam a linguagem do politicamente correcto (digamos, a novilíngua).  

 

George Orwell era o inverso disto, tinha ideias políticas e defendeu-as, rejeitando o conforto do mediatismo ou as hipocrisias do consenso intelectual. Gosto muito deste autor, da sua simplicidade estilística e riqueza de conteúdo. O espantoso romance 1984 teve grande impacto no meu imaginário, mas há outro livro que me impressionou e que nunca vi em português, Coming Up for Air, história de um homem convencional que, fugindo à sua existência conformista, faz uma viagem nostálgica ao passado. Também gosto dos ensaios e de Os Dias da Birmânia, mas em Coming Up for Air, de 1939, o autor antecipa a guerra que se aproxima: a sua personagem imagina a destruição provocada pelos bombardeamentos aéreos (que se tornariam reais dois anos mais tarde).

Orwell combateu em Espanha, experiência que relatou em Homenagem à Catalunha, e tinha vivências preciosas, imaginação, memória e cultura sólida. Em A Filha de um Reitor descreve uma personagem feminina poderosa, coisa rara em autores masculinos. Orwell era um enorme escritor, não haja dúvida, capaz de pensar sobre os conflitos do seu tempo, sobre a luta de classes, sobre pobreza e literatura, sobre jardinagem, colonialismo e mudança, sobre a nostalgia e o futuro.

 

Nem de propósito, tinha isto escrito e surge o post de Sérgio Almeida Correia, onde se refere o risco de ler George Orwell na Tailândia. Mediocridade literária? Só pode ser brincadeira.

 

O piquenique que mudou a Europa


Luís Naves,

No dia 19 de Agosto de 1989 uma pequena multidão de alemães-orientais juntou-se nos arredores de Sopron, na fronteira austro-húngara, num local chamado Sopronpuszta, onde dois meses antes os ministros dos negócios estrangeiros húngaro e austríaco tinham simbolicamente cortado o arame farpado da cortina de ferro.
Para dia 19, um eminente político europeu, Otto Habsburgo (descendente da família que governara o império austro-húngaro) tinha organizado um piquenique entre duas aldeias, uma húngara a outra austríaca. Tudo estava no plano simbólico, mas um rumor espalhou-se entre turistas alemães-orientais: havia a oportunidade de fugir. Na altura, a Hungria era um popular destino para turismo alemão. As famílias separadas pela cortina de ferro encontravam-se nas margens do lago Balaton, mas o bloco socialista atravessava uma crise e, sobretudo, havia a consciência crescente de que o regime tinha de fazer qualquer tipo de abertura. Muitos não acreditavam nisso e não queriam esperar.
O que sucedeu a 19 de Agosto de 1989 em Sopronpuszta estava além dos sonhos mais desvairados de qualquer crítico dos regimes comunistas. A fronteira era agora uma simples cancela e os alemães orientais que tinham acorrido ao local limitaram-se a puxar a barreira, enquanto os polícias austríacos e húngaros olhavam, espantados. Depois, foi o caos: as pessoas correram, atropelaram-se e, em minutos, tinham escapado mais de 600, que largaram tudo para trás. Há pouquíssimas fotos do acontecimento (a de cima é uma das raras), talvez por isso este momento crucial da história da Europa seja pouco conhecido.
Os leitores sabem o que sucedeu a seguir: no dia 23, foram removidas as barreiras na fronteira austro-húngara e milhares de turistas fugiram; nos dois meses seguintes, alemães-orientais de férias escaparam em vários pontos da fronteira austro-húngara ou refugiaram-se nas embaixadas da Alemanha em Praga e Varsóvia. O regime da RDA entrou em colapso rápido e o Muro de Berlim não resistiu, caindo a 9 de Novembro, poucas semanas depois do piquenique que mudou a Europa.

 

Publiquei este texto em 2009. O episódio raramente é referido, embora não tenha dúvidas de que constará dos livros de História. Em tempos de mudança, basta uma pequena faísca. Passaram 25 anos e como o mundo mudou. A fuga dos alemães aconteceu depois do piquenique pan-europeu, cuja intenção não era esta. As pessoas largaram mesmo tudo e a cena ficou cheia de carros, no lado húngaro. Muitos jornalistas já tinham abandonado o local e há poucas fotografias do acontecimento, que deve ter durado dois ou três minutos. Na imagem pode ver-se um polícia austríaco a rir e um húngaro com ar preocupado; estão prestes a ser atropelados por um grande grupo de alemães-orientais, mas isto é depois de terem passado muitos refugiados. A cancela está aberta e julgo que o fotógrafo se encontra em solo austríaco, apontando a câmara para o lado húngaro.

Pequena reflexão sobre descontentamento e pessimismo (2)


Luís Naves,

Crise nacional

A história do Kaiser e do seu chefe de Estado-maior contém lições que podem ser usadas na actualidade.

É difícil tentar remar contra uma corrente que nos empurra na direcção inversa. Nas sociedades em que se instalou o medo da mudança, isso é ainda mais difícil. Portugal vive um momento assim: perante uma transformação rápida, que exigiria uma resposta flexível, a sociedade portuguesa divide-se em conflitos inúteis, com as personagens entrincheiradas em becos sem saída. Querem melhor exemplo do que a história de hoje, em que nenhum dos lados tem razão? Um ministério convoca um exame de professores com antecedência demasiado curta, para não permitir o recurso aos tribunais (um governo com medo do estado de Direito?); os sindicatos respondem com tácticas de guerrilha que envergonham a classe dos professores. É isto a educação?  

A parte mais importante da crise nacional não é económica ou financeira, mas consiste num irresistível clima de pessimismo que se colou à sociedade portuguesa como se fosse uma doença de pele. Quando surge uma notícia, ela é repetida e dissecada apenas na sua pior vertente. Não admira que os comentadores, que erraram sistematicamente nos últimos três anos, continuem a prever o colapso na próxima semana. Talvez haja saída, talvez a situação não seja tão má, sugere alguém, mas há sempre um Von Moltke a garantir que o nosso destino trágico já foi traçado. É impossível mudar. 

 

No último ano, o desemprego baixou, o emprego está a aumentar, mas na cabeça dos portugueses a realidade é ao contrário. Terminámos um período de ajustamento imposto pelos credores que nos salvaram da bancarrota, mas perdeu-se a noção de que a alternativa ao resgate teria sido a situação da Argentina em 2001, com desemprego em massa, caos social e a democracia à beira do abismo. Nada disso, repetem os sábios, o que tivemos de fazer foi uma imensa estupidez, não foi imposto, foi insensato.

Há sectores inteiros da economia que rebentaram em Portugal (a comunicação social, por exemplo), mas a culpa é dos ‘cortes cegos’ e da ‘ausência de reformas’, sem lugar para erros de gestão, modelos falhados, mudanças tecnológicas, favores de estado, incompetência, perda de credibilidade, despesas insustentáveis ou falta de competição.

A corrente da opinião vai em sentido único: os erros vieram de fora.

Esta corrente é tão forte que, às vezes, penso estar a ver mal o filme. Quando as generalizações são desmentidas pela vida real, a opinião das pessoas devia mudar, mas a indignação inútil instalou-se no discurso; ela garante elogios, mesmo quando omite factos. Por outro lado, evitar a exaltação e a hipérbole assegura uma acusação de insensibilidade. E, no entanto, a vida de cada um devia guiar a percepção do real. Falo por mim: há quem não me atenda os telefonemas, tenho razões para sentir desgosto, mas bater com a cabeça na parede não adianta nada.

Dou outro exemplo: recorrendo às poupanças (comecei o ajustamento antes) e certo esforço, consegui recentemente ir ao casamento do meu irmão mais novo, que emigrou. Sobre o país onde ele vive, percebi que existia ali uma realidade diferente da que lia nos media nacionais e mais parecida com a reflectida nos jornais estrangeiros que consulto. Crise na Europa? Qual crise na Europa? Mas, confesso, estava mais preocupado com o reencontro familiar e dei comigo a pensar que o meu irmão é o mais rico da família; ele não saiu do país por causa desta crise, mas não tenho dúvidas de que se tivesse ficado por cá seria hoje o mais pobre da família.

Por tudo isto, não compreendo a tese de que a emigração é algo de negativo, não entendo os gritos de horror quando alguém diz que essa emigração pode ter uma vertente vantajosa, quanto mais não seja a das oportunidades que oferece aos que emigram e que aqui teriam menos perspectivas. Qual é o problema? O fenómeno apenas aproveita a mobilidade europeia, que infelizmente não existia na altura em que eu era jovem.

Portugal sempre foi um país exportador de mão-de-obra, como escape da nossa pobreza crónica. As elites nunca antes se preocuparam com isso, pois eram os menos qualificados a sair (a ralé). Nessa época, a emigração era ignorada, pois evitava que houvesse legiões de desocupados (ameaça de conflito) e, para mais, fornecia trabalhadores às empresas que exploravam o império. As elites nacionais, quando viajavam, tinham vergonha dos seus emigrantes. E os emigrantes traziam costumes diferentes. Muitas das mudanças sociais a que assisti na minha vida vieram desse choque cultural, que é ainda uma história por contar.

Escrevi pobreza crónica? Só pode ser erro meu. Os comentadores dizem que éramos ricos em 2011.

 

 

Pequena reflexão sobre descontentamento e pessimismo (1)


Luís Naves,

Uma discussão em Berlim

Nenhuma crise é eterna e os conflitos são evitáveis. Podemos resolver problemas se pensarmos com realismo e, mesmo que não seja possível resolver todos os nossos problemas, bater com a cabeça na parede é que certamente não será solução. E, no entanto, os pessimistas que dominam o espaço público usam o método habitual de olhar para a realidade imaginando apenas o pior cenário, mas numa configuração impenetrável ao bom senso.

O pessimismo leva a uma rigidez de pensamento que paralisa decisões que deviam ser evidentes. Há exemplos históricos. A teimosia de insistir num erro não produz a repetição exacta dos acontecimentos, mas cria situações recorrentes e padrões que, com a passagem do tempo, nos parecem simplesmente estúpidos.

No livro clássico The Guns of August, a historiadora americana Barbara Tuchman contou em detalhe um episódio que podia ter evitado a Primeira Guerra Mundial ou que podia ter alterado profundamente o curso dos acontecimentos, decidindo talvez o conflito a favor da Alemanha. É um grande modelo do pessimismo em acção.

 

A 1 de Agosto de 1914, a máquina militar das potências europeias estava em andamento. A complexidade da mobilização obrigava os generais a defender a urgência da declaração de guerra. A crise diplomática em torno do atentado de Sarajevo e do ultimato austríaco à Sérvia estivera a crescer de tom nas semanas anteriores, mas a guerra não era ainda inevitável; os alemães tinham planos militares detalhados, que previam aniquilar primeiro os franceses, num movimento rápido que exigia a invasão da Bélgica e, apenas numa segunda fase, permitia combater os russos. Este plano deixava a frente leste desguarnecida e implicava a entrada do Reino Unido na guerra, devido à violação da neutralidade belga.

A 1 de Agosto, no próprio dia em que Berlim declarou guerra à Rússia, o kaiser Guilherme II teve conhecimento de uma mensagem ambígua dos ingleses e propôs ao seu chefe de estado-maior, Von Moltke, uma súbita mudança de estratégia: não invadir a Bélgica, a abstenção da ofensiva no ocidente e a concentração das tropas a leste; em vez de sete exércitos contra a França e um contra a Rússia, haveria cinco exércitos alemães contra a Rússia e três em posições defensivas no ocidente. Os ingleses não teriam motivo para intervir e, mesmo que a França atacasse, era possível aniquilar a Rússia a tempo e, depois, concentrar forças contra os franceses.

Ao ouvir isto, Von Moltke teve um ataque de fúria e respondeu que a proposta era impossível de concretizar. O general disse que a mobilização se transformaria num caos, ‘não pode ser feito’, explicou. “Moltke usou esta frase rígida, a base para todos os grandes erros alemães, a frase que desencadeou a invasão da Bélgica e a guerra submarina contra os Estados Unidos, a inevitável frase que surge quando os planos militares ditam a política”, escreveu Barbara Tuchman*.

Segundo a historiadora, soube-se mais tarde que a estratégia alemã podia ter sido alterada, que havia planos para lidar primeiro com a Rússia, planos esses que colocavam os comboios na direcção oposta e que teriam instalado os exércitos em campos de batalha inteiramente diferentes. A França teria atacado, mas Londres ficava provavelmente fora do conflito; a Rússia teria sido derrotada sem conseguir grandes vitórias contra os austríacos. Depois, as potências centrais podiam desembaraçar-se facilmente dos franceses. A hesitação de Guilherme podia ter mudado o mundo, mas deparou-se com a teimosia fatalista do seu chefe de Estado-maior.

Não sendo pessoa brilhante, o kaiser compreendeu mesmo assim que os ingleses estavam divididos em relação ao seu papel no conflito iminente e que a invasão da Bélgica (sem a qual aquele plano militar alemão não funcionava) ditaria a participação inglesa. Londres tinha planos detalhados para enviar um contingente para França, mas apenas em caso de violação da neutralidade belga, pelo que no seu caso os planos não ditavam a política: a intervenção inglesa dependia da atitude alemã.

Havia outro problema: em 1914 tinha sido criado um clima de inevitabilidade da guerra e os protagonistas não se conseguiram livrar deste fatalismo, transformando-se em marionetas incapazes de pensar, oscilando entre desespero e depressão. Esta mentalidade não existia apenas nos círculos que definiam a estratégia, mas instalara-se na opinião pública, onde as vozes que remavam contra a maré foram sendo neutralizadas pela lógica imperial de que os ganhos de um eram a perda do outro.

As pessoas tinham a noção de que o mundo estava em mudança, mas não conseguiam ajustar-se a essa mudança rápida, ou assim pensavam, pois uma espécie de desalento dominava a sociedade e a única saída parecia ser a de avançar na direcção do abismo.

 

*The Guns of August, Barbara Tuchman, pág 88 

 

 

Delitos poéticos (11)


Luís Naves,

Este poema tem história e delito, que tentarei contar:

Alguns dias antes de ser assassinado, o poeta húngaro Miklos Radnoti escreveu Razglednica-4, um dos mais extraordinários poemas que conheço. Esta é uma tradução possível:

 

 

Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se,

tão esticado como a corda quando parte.

Tiro na nuca. “É assim que também vais acabar”,

murmurei para dentro. “Deixa-te ficar deitado, calmamente”.

A paciência agora floresce morte.

“Der springt noch auf”, ouviu-se por cima de mim.

Na minha orelha secava sangue enlameado.

 

Szentkiralyszabadja, 31 outubro 1944

 

Radnoti tinha 35 anos e cometera dois crimes: era judeu e escrevinhava coisas. Este momento em que antecipa a própria morte não tem sentimentalismo nem puxa à piedade do leitor. Aliás, os sobreviventes do Holocausto tiveram sempre dificuldade em explicar esta sensação de vazio e a resignação da vítima, como se as lágrimas fossem um estorvo que dificultava ainda mais a explicação do inexplicável. 

Neste caso, é impossível transmitir o abismo contido no poema. A tradução é literal, não literária, perderam-se as subtilezas do texto, o ritmo, a musicalidade da língua húngara e a sua concisão (basta ouvir no youtube para se perceber a complexidade). Há rimas internas que se perdem, sobretudo nos dois últimos versos, e seria possível alterar certas frases. Por exemplo, ‘a paciência agora floresce morte‘ pode ser ‘a flor da paciência é agora morte’. A ideia é a seguinte: o poeta está ao lado de um homem que acabou de ser abatido e pensa, ou antes sabe, que vai morrer da mesma maneira (como aconteceu). Um dos soldados diz em alemão ‘aquele ainda anda aos saltos‘ e, nesse instante, o poeta sente, misturado com lama, o sangue seco que lhe cobre a orelha. A frase em alemão é importante, pois o soldado podia dizer ‘aquele ainda mexe’, mas trata-se de algo mais complexo, havendo aqui a sugestão de saltos, pulos, alegria, Primavera, ressurreição. Isso em contraste com o verso anterior, o da resignação e aceitação da morte.

 

Esta sequência de quatro poemas, Razglednica, foi escrita durante uma marcha da morte por alguém que estava a experimentar o horror. Aqui não há teorias nem impressões. Estamos perante a verdade vivida.

A terrível marcha começou na localidade da Voivodina que dá nome aos textos e envolveu 3500 prisioneiros judeus. O número quatro é o último poema da sequência e foi escrito numa aldeia húngara, a 50 quilómetros do local onde Radnoti seria morto com outras vinte pessoas. Depois da guerra, a viúva (que morreu recentemente, com 101 anos de idade) procurou o corpo do marido e encontrou a vala comum. Junto do cadáver estava o bloco de notas com os últimos poemas, contendo instruções em várias línguas sobre a sua entrega a um eminente professor de Budapeste.

Foi assim que Miklos Radnoti, já relativamente famoso antes da guerra, se tornou um dos maiores poetas húngaros. Este é também um dos grandes poemas escritos durante o Holocausto e o derradeiro do autor. Aqui, não existe ódio ou raiva, apenas Humanidade. Só por isso, pertenceria à História da Literatura.

Outro elemento trágico é que provavelmente o poeta morreu devido ao impulso de escrever. Segundo afirmaram os sobreviventes da marcha da morte, ele foi vítima do espancamento selvagem de um guarda que o viu a escrevinhar no bloco de notas e talvez este poema esteja relacionado com o episódio da brutalidade que o condenava. Talvez estivesse a escrever este poema.

A 9 de Novembro de 1944, ferido pelo espancamento, incapaz de continuar o caminho, o poeta foi abatido com um tiro na nuca. Porventura, viveu o quarto verso, onde brilha a palavra ‘nyugodtan’ (calmamente).

  

nota: Os dois primeiros Razglednica foram traduzidos para português pelo poeta e escritor Ernesto Rodrigues, que publicou uma antologia dos maiores poetas húngaros, onde estão incluídos outros poemas de Radnoti.

Tempos difusos


Luís Naves,

Ao ler este texto de Mário Amorim Lopes, em O Insurgente, dei-me conta de uma polémica sobre a existência de intelectuais de direita em Portugal. Como a outra polémica disponível, sobre a selecção de futebol, é mais bizantina, optei pela simples.

O autor de Insurgente pergunta, cheio de razão, “que ideias verdadeiramente originais, para lá de uma ou outra histeria transitória movida a causas, tem a esquerda tido”? A pergunta devia estender-se às ideias da direita, mas o autor logo esclarece que a esquerda “sente-se ameaçada (…) pelo liberalismo, desde sempre novo e cosmopolita”. 

Algo me tem escapado. Podia concluir que os países avançados foram varridos pela novidade do liberalismo e que está em curso uma revolução no mundo. O poder americano decorre provavelmente de uma ordem liberal e serão liberais o poder financeiro e o do petróleo, o poder das oligarquias das potências não democráticas, como também é liberal o poder da FIFA ou o avanço dos fundamentalismos. 

 

O problema é que o mundo em que vivemos já não se divide em direita e esquerda, a não ser em simplificação jornalística. Aliás, nos últimos anos, todas as ideologias sofreram derrotas, tanto os socialistas como os conservadores, que se viram forçados a concordar com certas liberdades. Os próprios liberais caminham para derrotas, por não aceitarem discutir o problema das mudanças climáticas e os limites da ausência de regulação do capitalismo financeiro.

Tentei explicar neste post que vivemos num mundo pós-ideológico, ou se quiserem, pós-moderno, numa nova ordem onde não é possível dizer com certeza que algo é só bom ou apenas mau, pois desapareceu a simplicidade dualista do mundo antigo, com as suas barricadas definidas.

Até meados do século passado, as escolhas eram sempre fáceis, entre direita e esquerda, conforme a origem social da pessoa. E acrescente-se: não havia neutralidade.

Como é que a escolha se faz agora, quando viemos todos da mesma classe média? O que separa os nossos dirigentes, sejam eles definidos nos jornais como de esquerda ou de direita, mas todos envolvidos na mesma política pragmática? E se fazem todos os mesmo por quererem sobreviver num contexto de globalização acelerada, o que é essa globalização?

A minha resposta é que a globalização continua a ser o exercício do poder dos mais fortes. Sem mais. No mundo real, o campo está inclinado, há países pobres e países ricos, exploração dos recursos dos primeiros pelos segundos, nomeadamente através da eleição de elites corruptas. A única via para os pobres é aderir ao sistema e quem resistir será um Estado falhado. Os ricos, por seu turno, consomem demasiados recursos. Isto não é liberalismo, mas um caminho para o desastre.

 

Esta ordem aparentemente cosmopolita e nova não passa da reciclagem dos velhos estilos da política antiga, um pouco mais fragmentada, é certo. Além disso, é anti-intelectual, hostil às elites e às simplificações ideológicas. O mundo hiper-industrializado em que vivemos é populista na alma e estabilizado pelo controlo mediático e pelo triunfo de uma cultura popular que idealiza o consumo, usando o inglês como língua franca e as convenções estéticas de Hollywood para alimentar as massas.

 

 

A Europa sem luta de classes


Luís Naves,

Vivemos num contexto pós-ideológico, em que o essencial se joga no pragmatismo do poder e dos interesses financeiros. Nas democracias, as políticas deixaram de ser de direita ou de esquerda, reflectem consensos contendo menos conflito entre classes. Aquilo que outrora foi a esquerda é hoje uma pálida sombra do passado. O comunismo deu origem a oligarquias corruptas com traços evidentes da antiga tirania. Nos países pós-comunistas, as diferenças sociais são escandalosas e as liberdades individuais continuam limitadas.

Por outro lado, nas democracias europeias, o socialismo quase desapareceu. Quando estão no poder, os partidos social-democratas aderem à ortodoxia liberal da suavização das leis laborais, do ajustamento orçamental, da redução da despesa social e da liberdade financeira. A explicação é evidente: nas sociedades industrializadas, as classes sociais esbateram-se, os operários têm boas condições de vida e a pobreza está limitada a grupos pequenos. O Estado social garante segurança para quase todos, mas exige níveis de impostos elevados, o que levou o eleitorado a defender o controlo mais apertado da despesa do Estado.

 

 

Portugal, como de costume, chegou tarde a esta transformação. Aqui, o Estado tem longa tradição de centralização. Além disso, do antigo regime ficou o vício das corporações, ou seja, grupos de interesses defendem com unhas e dentes o que consideram ser o seu direito a uma fatia do bolo orçamental. Até rebentar esta crise, antes da falência e do resgate, o dinheiro dos impostos permitia satisfazer clientelas bem instaladas. E, no entanto, se quiser controlar as contas públicas no futuro, a sociedade portuguesa terá de discutir a forma e a dimensão do Estado, o nível de impostos e a extensão da rede social. A classe política tenta fugir a esta discussão como o diabo da cruz.   

No resto da Europa, as escolhas foram feitas nos anos 80 e 90. Os aumentos de impostos são agora altamente impopulares. No sector da esquerda, a esperança de que existia uma terceira via nunca passou de ilusão e a única verdadeira renovação recente veio dos ambientalistas, que introduziram causas sociais e ambientais entretanto aceites pelas correntes dominantes. Os verdes fazem hoje parte do sistema e falharam por não terem uma alternativa ao capitalismo.

 

Na Europa, triunfou o conservadorismo da classe média. O antigo operariado foi absorvido nesse rio imenso e a pequena classe de excluídos, que equivale no máximo a 10% da população, nem sequer vota.

O recente voto de protesto europeu escolheu forças de extrema-direita ou partidos contrários a uma integração comunitária que o eleitorado pressente ser a grande movimentação do futuro. Há também grupos de indignados ou fenómenos mais raros como o Syriza, com irrepreensível retórica da esquerda tradicional, mas sem hipótese de criar um projecto de poder em países centrais.

A austeridade francesa ou italiana, executada por partidos ditos da esquerda, pouco se distingue das reformas efectuadas pela chamada direita espanhola, holandesa ou alemã. A integração europeia está a transformar-se numa gigantesca convergência política sem ideologia. É igual em todo o lado, faz o mesmo em todo o lado.

 

Direito ao esquecimento


Luís Naves,

Na introdução a um livro que publicou em 1911, o escritor britânico H. G. Wells tentou defender-se dos críticos que exigiam rigidez na forma do conto, segundo o modelo de Maupassant. Wells ajudara a inventar um género, a ficção científica, que os peritos ainda hoje desprezam. E, no entanto, esta era uma literatura de ideias que se adaptou muito facilmente ao pequeno formato e à narrativa naturalista. No texto de Wells, após a reflexão sobre o enigma da sobrevivência da arte, que o autor admitia ter profunda ligação à liberdade e à sinceridade, surge esta frase certeira: “As coisas escritas vivem ou morrem”.

No fundo era simples, o mecanismo da vida aplicava-se também a esses produtos do espírito humano chamados ‘obras de arte’ e que, mais tarde ou mais cedo, acabariam por desaparecer, como antes tinham desaparecido os seus autores. É fascinante encontrarmos um velho romance esquecido numa pilha de livros prontos para venda ao quilo: pegamos no volume poeirento e ele deixa-se ler com agrado, apesar dos defeitos e mesmo que não se reconheça o nome de quem o escreveu. Quem seria? Mistério. Não consta das enciclopédias. Foi talvez um zé-ninguém libertado do esquecimento por causa de uma pilha de livros velhos encontrada num sótão desabitado. 

 

Wells escreveu que as histórias vivem ou morrem, e assim era no seu tempo, quando nascia uma modernidade que o autor britânico percebeu ser perturbadora. O nosso século já não tem lugar para essas pequenas insurreições contra a lei da fama. Agora, triunfa a cultura do espectáculo, o populismo das vedetas e a espuma das ideias apressadas. Tudo se resume ao domínio da técnica, da culinária de mestre à melodia sem esforço e ao romance segundo fórmulas testadas. Há mil novidades todas iguais que, sem excepção, querem transformar as nossas vidas também todas iguais, ou pelo menos assim surgem no facebook, que é um mundo virtual habitado por gente feliz.

Se hoje discutimos o direito ao esquecimento é pela simples razão de que este direito está em perigo. Não existe forma de apagarmos a memória, a não ser pela engrenagem do motor de busca, máquina que nos transcende. A poesia tornou-se frívola, mas permanente, e o autor apaga-se, embora sem desaparecer. As coisas ainda lá ficam, embora em águas profundas, sob a pressão de um imenso oceano de palavras. A impossibilidade do esquecimento é igual ao inferno de recordar tudo, mas sem cronologia, onde tudo o que existe está na prisão do hoje, impossível de distinguir do ontem e do anteontem.