Civilização


Luís Naves,

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A revista The Economist afirmava na sua capa da semana passada que, em 2020, 80% dos adultos terão um supercomputador no bolso, ou seja, um smartphone. Este número traduz a extensão do processo a que chamamos globalização e que consiste numa vaga particularmente intensa de unificação da humanidade. Não há canto do mundo imune aos efeitos das tecnologias que caracterizam o nosso tempo. As pessoas de hoje inserem-se em redes complexas e sobrepostas, onde se transmitem tremendas quantidades de informação. A internet transformou-se numa imensa biblioteca dominada pela língua franca, o inglês, que talvez acabe por absorver partes de espanhol e mandarim. Nas últimas três décadas foi criada a infra-estrutura que permitirá agora acelerar a mais veloz transformação a que a humanidade já assistiu. O planeta está a unir-se como nunca antes foi possível.

As paisagens urbanas de Blade Runner, o visionário filme dos anos 80, começam a ser relativamente comuns. Já não nos parece estranha a fusão de elementos asiáticos e ocidentais no interior de megacidades com uma profusão de estilos de arquitectura e de raças. A cultura contemporânea é mestiça, consistindo numa amálgama cada vez mais agregada de ideias com diversas proveniências. Vistos a certa distância, todos os processos são de junção, das raças à economia, da linguagem às obras de arte, da gastronomia ao comércio. Está a ser criada a primeira civilização perfeitamente global, onde se aglutinam valores dominantes comuns, e não seria espantoso que dentro de cem anos houvesse uma moeda única planetária, o embrião do governo mundial, até um sistema judicial idêntico para todos os humanos, pois há esboços destes desenvolvimentos, sobretudo na União Europeia que, ao contrário do que muitos pensam, não está em declínio nem a implodir, mas será provavelmente o principal modelo político do futuro.

Claro que há movimentos fundamentalistas, sociedades em fragmentação, Estados falhados, tiranias e autoridade, crises capitalistas, demasiados países sem tolerância para a diferença, mas trata-se de reacções à mudança. Alguns grupos tentam travar o que consideram ser maléfico, contestando a ciência, o humanismo ocidental ou os direitos das mulheres, mas os seus esforços estão condenados ao fracasso: a democracia e a justiça, o consumo, a busca da felicidade ou o casamento romântico são ideias demasiado poderosas, difíceis de arrumar numa gaveta.

Escaqueirávamos museus…


Luís Naves,

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Entre outras passagens fantásticas, encontrei num livro a referência a uma das mensagens mais antigas da humanidade. Não há ali grandes ideias filosóficas nem se trata de um testemunho incrível sobre o passado, nem sequer de algum poema sublime. Numa simples tábua de argila cozida pode ler-se, em escrita cuneiforme, o seguinte texto: “29086 medidas cevada 37 meses kushim”. Segundo a interpretação dos peritos, no documento diz-se que foram recebidas 29086 medidas de cevada ao longo de 37 meses, segue-se a assinatura do funcionário. Assim, Kushim seria contabilista sumério e um dos primeiros nomes registados pela História. Ele anotava cuidadosamente a colecta de impostos obtida há 5 mil anos na cidade de Uruk, mais tarde engolida pela areia do deserto iraquiano.

De uma civilização posterior da mesma região, a Mesopotâmia, foram entretanto destruídos no museu de Mossul artefactos com mais de 3 mil anos, para efeitos de propaganda do grupo extremista Estado Islâmico. Como se refere aqui, entre as estátuas destruídas havia reproduções, mas também objectos assírios originais, perdidos para sempre. O Estado Islâmico vende antiguidades no mercado negro, para comprar armas, e deverá estar a preparar novas atrocidades, visando corpos em carne e osso, pois entretanto capturou centenas de reféns cristãos.

Daqui a cinco mil anos talvez não sobre muita coisa do nosso tempo e seria bem estranho que, perante esse improvável vazio, se encontrassem por sorte apenas as sensacionais imagens de uns loucos a destruir estátuas antigas, sem motivo aparente, ou a mensagem enigmática de algum funcionário das finanças a contabilizar a receita do IVA. Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.

Onde estão os descontentes?


Luís Naves,

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Em texto anterior tentei defender a tese de que o próximo ciclo político deveria concentrar-se na crise social e nas dificuldades dos mais vulneráveis. O país concluiu a parte difícil do ajustamento, mas agora é a vez das pessoas. Não vale a pena ter ilusões: a campanha eleitoral será imprópria para discussões sérias e haverá quem prefira discutir minuciosamente todas as pequenas distorções da realidade. A esquerda que agora aplaude a resistência grega terá más surpresas e a maioria de direita tenciona chegar às próximas eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo.

O que surpreende nas sondagens é a ausência dos descontentes. Onde vão votar os mais de 2 milhões de portugueses que se abstiveram nas europeias do ano passado e que não costumam faltar nas legislativas? Os inquéritos de opinião não os conseguem detectar, exceptuando ligeiras oscilações entre PS e coligação e também transferências de voto entre Bloco e PCP, parecendo espantoso que os novos partidos anti-sistema somem apenas 4,5% das intenções de voto. Coligação e socialistas conquistam 70% do eleitorado, ou seja, Portugal prepara-se para votar na continuidade ou no passado recente.

O contraste com a Europa é extraordinário. Na Grécia, os radicais anti-partidos-do-costume conquistaram o poder. Entretanto, enfiaram a viola no saco e preparam-se para negociar o terceiro resgate, mas houve uma insurreição nas urnas, tal como se ameaça na França, onde as sondagens para as regionais de 29 de Março colocam a Frente Nacional em primeiro lugar, com 30% dos votos, mais um ponto do que o centro direita da UMP e dez pontos percentuais à frente do PS, que se prepara para uma humilhação histórica. A abstenção será elevada, mas estas eleições podem mudar a política local. O mesmo se aplica a Inglaterra, onde os partidos não-tradicionais podem alterar o equilíbrio parlamentar. Em Espanha, dá-se o mesmo fenómeno: os descontentes da direita preferem os Cidadãos e os da esquerda optam pelo Podemos, mas os dois, somados, podem atingir 40% do eleitorado, o que acabará com a hegemonia da dupla PSOE e PP. Isto, no fundo, foi o que já aconteceu na Grécia, embora numa escala mais calamitosa para os partidos tradicionais. Até na Alemanha há descontentes: a CDU foi esmagada nas recentes eleições de Hamburgo, com a formação anti-euro (AfD) a recolher 6,1% dos votos e os dois partidos da grande coligação a perderem mais de 8 pontos. Nos países do sul, as insurreições são de um terço do eleitorado, mas Portugal é a grande excepção e não existe razão clara. O sistema eleitoral parece imune ao descontentamento ou então o que vemos nos números será volátil.

Isto, claro, não acaba aqui: a má discussão dos assuntos sérios facilita uma campanha eleitoral cheia de demagogia, pessimismo e golpes baixos, o que favorece as formações que contestam o sistema partidário vigente. Para os grupos políticos tradicionais, o pior cenário será um mau resultado em Outubro, que os obrigue a formar um bloco central instável, com a oposição totalmente dominada por radicais.

A crise dos vulneráveis


Luís Naves,

Admitindo que nos anos do ajustamento era prioritário resolver a crise financeira, o governo precisa agora de reconhecer que em consequência da longa recessão se acentuou a crise social. O desemprego de longa duração atinge talvez mais de meio milhão de trabalhadores com escassas possibilidades de encontrar trabalho, sobretudo os menos qualificados. Portugal é hoje um país onde há níveis absurdos de violência doméstica e onde muitos velhos vivem em situações precárias, com rendimentos que não chegam para pagar remédios e até, em certos casos, que não chegam para uma alimentação normal. Este é também um país onde se ouvem apenas os protestos de alguns sectores, para os quais cada pequeno sacrifício se transformou no horror mais insustentável.

Portugal tem uma elite política hipócrita, incapaz de ver além dos seus próprios interesses. A oito meses de eleições, as sondagens sugerem que o eleitorado vai votar ao centro, que a direita tem pouco mais de um terço do voto e a esquerda pode conquistar quase 60% do parlamento. O grande mistério destes inquéritos de opinião é o facto de nenhum deles mostrar para onde vai o voto de protesto. O PS ainda não se definiu e talvez esteja a captar a simpatia de muitos descontentes, mas parece demasiado tímida a inclinação do eleitorado para os partidos que contestam o poder, tal como ele existiu na última década: em Espanha, o universo da contestação aos partidos tradicionais representa metade do eleitorado; na Grécia, é maioritário; na Itália, chega a um terço; aqui, parece não ultrapassar os 16%.

Não se ganham eleições a dizer que isto terá de continuar. Os vencedores propõem a mudança, embora para os partidos do poder, em 2015, isso seja o mesmo que enganar os eleitores, pois a margem de manobra do próximo governo será mínima. A questão está no Tratado Orçamental, que não tem ambiguidades e que todos os membros da zona euro que não desejem estar sob resgate terão de cumprir em 2018. Isto significa que haverá mais cortes na despesa pública e que as grandes tarefas políticas do próximo ciclo serão a reforma do Estado e da segurança social. Não há futuro sem crescimento económico nem se pagam dívidas, o que exige investimento, que só ocorre se houver estabilidade política e financeira, o que implica a perspectiva de cumprimento do Tratado Orçamental (ou seja, não se espere grande ajuda do investimento público).

Ora, num contexto de aperto será mais difícil resolver a crise dos vulneráveis. Como é que os desempregados de longa duração voltam ao trabalho e como é que se protegem os idosos que passam fome? Na campanha, vamos ouvir muita demagogia da esquerda em volta disto, mas se a direita reagir de forma autista, recusando a existência do problema, então não merece governar.

O mal prussiano


Luís Naves,

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Comentadores que até há pouco tempo diziam não haver liderança na Europa mostram agora a sua profunda indignação com a liderança alemã da Europa. Um governo que pareça colar-se à influência da Alemanha será imediatamente criticado (até pela própria imprensa alemã), enquanto que um governo que insulte abertamente as autoridades prussianas gozará da maior imunidade, recebendo elogios pela sua resistência.

Sendo a maior economia da zona euro e o maior credor dos países endividados, a Alemanha terá uma palavra decisiva em todo o processo da actual crise grega, que está longe de terminar. A dívida grega ficou na posse dos contribuintes; as taxas de juro da dívida a 10 anos subiram de 6,5% em Setembro para mais de 10%, tornando improvável um programa cautelar. Ou seja, a Grécia continua insolvente, vai para o terceiro resgate e Portugal será chamado a contribuir.

Na Europa, os partidos eurocépticos acham que a Alemanha manda demasiado e as elites federalistas sempre acusaram os alemães de excesso de timidez, devido à culpa em relação ao passado. Agora, todos perguntam quem deu autorização a Berlim para mandar, ainda por cima com excesso de franqueza e de forma pouco paciente. Em Portugal, onde já começou a campanha para as eleições de Outubro, este problema está a ser usado para ataques políticos internos: a partir de agora, os governantes portugueses que quiserem falar com os seus homólogos alemães terão o maior cuidado de o fazer por vídeo-conferência e em segredo, para não haver fotografias da traição à pátria. Bater o pé à Alemanha dará votos, concordar com Berlim tornou-se politicamente tóxico e fere a dignidade da nação.

Basta ler alguns dos artigos que têm sido publicados ou ouvir os principais comentadores na TV. Muitos pensam que a Alemanha não tem qualificações para liderar a Europa, por não ter razão nas teses que defende, mas esta teoria da burrice alemã nunca conduz os autores às questões que deviam ser inevitáveis: Afinal, tem a Europa falta de liderança ou excesso dela? E quem manda, se não for a Alemanha? Os dirigentes portugueses devem aparecer ao lado de quem? Deve Portugal colar-se à Grécia, apesar de não estar insolvente e de não ter os mesmos problemas de Atenas? Devemos continuar nos mercados e cumprir o Tratado Orçamental? É possível o primeiro objectivo sem o segundo? Era bom que a oposição começasse a responder a estas perguntas.

Anatomia de um afogamento


Luís Naves,

 

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Na política europeia, os partidos do governo e da oposição tinham o cuidado de não criticar as posições das delegações portuguesas nas cimeiras. O recente episódio grego acabou com esta regra informal. Um político-comentador com suposta informação privilegiada, Marques Mendes, criticava ontem a ministra das finanças por (pasme-se!) ter falado com o seu homólogo alemão. Um dirigente socialista, João Galamba, quer saber o que se passou exactamente no Eurogrupo, apesar de existir comunicado e de ali ter sido tomada uma decisão com desenvolvimentos na segunda-feira. O deputado está a tentar fazer um ataque político sem explicar ao seu eleitorado que Portugal aprovou a decisão. Sim, a avaliar pelo que tem sido publicado, até parece mentira, mas Portugal votou a favor da decisão.

O PS tenta passar a ideia de que houve uma oportunidade para reduzir a austeridade e que isso só não aconteceu devido à intransigência da ministra Maria Luís Albuquerque. A ausência de comunicação no Governo ajuda: o espaço de debate é dominado por pessoas que falam da falta de dignidade do governo, do alinhamento alemão da ministra, do fim imediato da Europa e das vantagens de sair do euro. É espantoso o silêncio do PSD enquanto a ministra das finanças é atacada por causa de um alegado alinhamento com a Alemanha, como se isso agora fosse crime de lesa-Pátria. Ninguém explica que Portugal nunca esteve isolado, enquanto a Grécia esteve sempre isolada. O ministro grego teve a suprema lata de dizer à RTP que a delegação portuguesa foi mais alemã do que a alemã, declaração pouco diplomática e até hostil, com a insinuação de que os portugueses não estão a defender os interesses do seu país, mas os da Alemanha. Portugal e Espanha estiveram sempre lado a lado, mas o grego não se atreveu a atacar os espanhóis. E dou de barato a intervenção de um dirigente do Syriza no comício do Bloco, onde há uma clara ameaça ao governo português (nunca antes tinha visto nada parecido, pois os dirigentes partidários abstêm-se de fazer este tipo de ataques quando participam em comícios de partidos homólogos).

Na opinião pública infiltra-se lentamente uma ideia perigosa: o patriotismo grego é coisa boa; o patriotismo português é coisa má; negociar com o governo alemão é subserviência se o ministro for português, mas é resistência se for grego.

 

A narrativa da intransigência portuguesa visa obter efeitos de política interna. A favor da maior dureza com a Grécia estavam pelo menos nove países: Espanha, Portugal, Eslováquia, Alemanha, Holanda, os três bálticos, Finlândia; Itália e Áustria deram uma no cravo e outra na ferradura. Pelo que tudo indica, o maior apoio a um compasso de espera veio da França e também da Comissão. Entretanto, os gregos diziam uma coisa lá dentro e duas cá fora, conforme em inglês ou em grego.

Antes da cimeira, a Grécia tentou objectivamente entalar Portugal, apostando no aumento das taxas de juro das obrigações portuguesas para pressionar a zona euro e obter cedências, provocando o pânico. Recusando o abraço do afogado, Portugal conseguiu evitar o aumento das taxas de juro, sendo bem sucedido na sua estratégia de se demarcar da Grécia. Caso Portugal tivesse tentado apoiar Atenas (tese da oposição), as taxas de juro tinham disparado, dificultando o financiamento externo da república.

Acho estranho que João Galamba não perceba isto e também acho estranho que Marques Mendes não o veja, embora o ataque a Maria Luís Albuquerque, percebida como delfim de Passos Coelho, seja relativamente compreensível num contexto de política interna. O PS quer ganhar as eleições e agarra-se a qualquer argumento, no PSD afiam-se as facas para a Era-pós Passos. Mas voltemos à decisão do Eurogrupo: a Grécia vai executar as reformas exigidas pelos parceiros, mantendo o essencial das medidas do governo anterior, e não tenho dúvidas de que a delegação grega, copiosamente derrotada na negociação, tenha agido por patriotismo, embora de forma inábil. No entanto, os interesses da Grécia não coincidiam com os nossos. Portugal já se livrou da troika e não quer novo resgate, está a pagar a dívida e financia-se nos mercados com juros historicamente baixos. A Grécia tem problemas muito diferentes, precisa de ajuda externa e vai para o terceiro resgate.

 

Sempre com dignidade


Luís Naves,

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No início do filme Serenata à Chuva, numa espécie de noite dos óscares, uma das vedetas explica à rádio, antes de entrar no teatro, como ascendeu a pulso em Hollywood fazendo cenas “sempre com dignidade”. Como se fosse a sua memória, vemos em imagens rápidas o esboço da carreira: o herói substitui um duplo que ficou desmaiado numa cena de pancadaria, depois é esmurrado, faz-se explodir, cai num precipício, lança um avião contra uma casa, odeia a actriz principal e tem discussões horríveis com ela, mas percebemos que os sucessivos filmes são cada vez mais importantes e a relação do casal maravilha mais catastrófica. Corte, regressamos ao presente, e ele diz, sorrindo imenso: “Sempre com dignidade!”

Em política, a dignidade também é uma grande farsa, como explica Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue. Ontem, numa das duas hipóteses que lhe restavam, o governo grego guardou a viola no saco e reclamou o fim da austeridade, enquanto começava a redigir a lista das medidas que prometeu cancelar. O memorando já não se chama assim e a troika muda de nome, mas Atenas tem a corda na garganta e quatro meses para negociar o terceiro resgate, enquanto cumpre o essencial do segundo, sempre com dignidade.

Nas duas semanas de crise, e com rasgado entusiasmo da nossa imprensa, o novo governo grego tentou criar uma situação de ruptura iminente na zona euro, que provocasse um pânico nos mercados e o aumento das taxas das obrigações portuguesas, italianas e espanholas. Só assim haveria condições para uma rebelião anti-alemã na zona euro. A estratégia era um bluff mal feito e pior executado, mas muitos analistas em Portugal consideraram que havia ali muita dignidade e rejeitaram a reacção defensiva do governo português. A nossa imprensa chegou a criar uma narrativa que não se encontra em nenhum jornal estrangeiro.

Não admira que parte substancial da opinião pública acredite que a delegação grega nas conferências do Eurogrupo quisesse defender os nossos interesses e que, pelo contrário, o governo português tenha agido contra os interesses nacionais. A realidade é que a Grécia prejudicou Portugal e Espanha, pois será mais difícil flexibilizar as medidas de rigor orçamental num ambiente onde a confiança entre os países da zona euro ficou seriamente abalada.

Napoleão dizia que não se deve interromper o erro de um adversário. Neste contexto, a esquerda portuguesa está a cometer um erro que o governo não tentará interromper: ao elogiar os desmiolados novos dirigentes gregos, a esquerda terá dentro de alguns meses de explicar por que razão eles fazem o mesmo que Antonis Samaras. Os indignados que batiam no peito e afirmavam que havia outro caminho, terão de explicar que caminho era esse, já que os radicais gregos também não o encontraram. Os que acham, subitamente muito patrióticos, que o governo português comprometeu a dignidade da nação, terão de explicar por que razão o terceiro resgate da Grécia lhes parece mais digno do que o financiamento nos mercados.

O momento decisivo


Luís Naves,

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Mario Vargas Llosa escreve neste texto uma crítica lúcida sobre a crise da zona euro e o momento decisivo que se avizinha. O autor peruano lança uma pergunta crucial: por que razão teriam os espanhóis de pagar pelos erros dos políticos gregos, para além de estarem a pagar os erros dos seus próprios políticos? Esta questão aplica-se também aos portugueses, vítimas dos desvarios que conduziram o país até à beira da bancarrota e à necessidade de um resgate.

Após várias versões, sempre muito elogiadas pelos comentadores nacionais, a Grécia pretende convencer a Europa a aprovar um empréstimo que permitiria congelar a situação até à conclusão de um plano de reestruturação da dívida. Entretanto, não se aplicavam as medidas de austeridade, as quais, ao contrário da lenda, deram origem em 2014 a um orçamento com excedente primário e a uma economia que começa a crescer. Atenas anunciou um programa com medidas de emergência, que pretende acabar com a austeridade, contratar funcionários e devolver verbas cortadas. O plano de Alexis Tsipras é claro: inclui mais despesa pública, reverte o que já foi conseguido e acaba de vez com as reformas estruturais e com as privatizações. Além disso, os políticos gregos culpam a Alemanha por todos os males e pedem uma indemnização que já foi perdoada em tratado internacional (por razões ligadas à Guerra Fria) e que por isso não passa de um argumento de transferência de culpa, para consumo interno. O plano grego pode ser descrito desta forma: não queremos dinheiro ligado ao resgate, queremos dinheiro incondicional, só depois conversamos; prometemos cumprir as regras, mas nas calendas gregas; até lá, não cumprimos.

Se isto fosse aprovado pelos europeus, só os gregos ganhavam. Para os outros, as consequências seriam desastrosas. O euro perderia credibilidade e nenhum país teria motivos para cumprir o tratado orçamental. Os efeitos políticos levariam, a prazo, ao estilhaçar da UE. Nos países resgatados, os respectivos governos teriam mentido aos eleitores. Passos Coelho e Mariano Rajoy perderiam as eleições de forma catastrófica. O público iria concluir que Podemos e Bloco de Esquerda tinham razão, que era possível acabar com a austeridade e expulsar a troika, renegociar a dívida e não pagar. No fundo, todos os sacrifícios eram reversíveis e teriam sido inúteis. Em França, Marine Le Pen veria confirmadas as suas teses anti-europeias e anti-austeridade. Os esforços dos reformistas eram derrotados, o Reino Unido antecipava a sua saída da UE. O princípio do benefício do infractor, inaceitável num simples jogo de futebol, era aplicado numa zona monetária sem união política. A zona euro estava condenada.

 

 

Como lembra Vargas Llosa no texto de El Pais, a Alemanha absorveu a RDA sem ajuda. O autor podia ter acrescentado que nos anos 90 ninguém auxiliou a Finlândia a sair da brutal recessão em que tinha caído. No futuro, ambos seriam forçados a pagar as dívidas de países terceiros, mas sem controlarem as condições dessa ajuda ou sem poderem mudar as elites políticas corruptas e incompetentes dos devedores. Tudo se invertia: os credores não teriam maneira de impor rigor orçamental aos deficitários e estes tinham maneira de impor aos credores o perdão das suas dívidas. Na crise seguinte, os resgates seriam impossíveis, pois nenhum governo ajuizado iria entregar dinheiro a governos sem vontade de devolver os empréstimos.

Holanda, Alemanha ou Áustria seriam progressivamente vítimas de rebeliões populistas e anti-euro, alimentadas pelo descontentamento do eleitorado, que não aceitaria pagar pelos erros de uma classe política estrangeira, ainda por cima irresponsável. Se ratificasse tal acordo, o governo finlandês perdia as eleições. Na Eslováquia e nos países bálticos haveria crises políticas, pois o salário médio local equivale a metade do futuro salário mínimo da Grécia. Os países mais competitivos teriam forte incentivo para abandonar a zona euro. Mais tarde ou mais cedo, um cenário de capitulação europeia daria origem à saída da própria Alemanha. O pesadelo tornava-se francamente mau a partir desse ponto. Para evitarem uma Europa liderada pelos alemães, os críticos da austeridade teriam uma espécie de ‘Europa’ sem a Alemanha.

 

Considerando o risco de desagregação da UE associado a uma das opções sobre a mesa, julgo que nos próximos dias o plano grego deverá ser rejeitado pelo Eurogrupo e pelo Conselho Europeu. Não se vislumbra um eventual compromisso. O governo Tsipras não quer recuar e não poderá aplicar as medidas do governo anterior, nem sequer numa versão suavizada. A rejeição do resgate é a sua única opção e tem uma implicação simples: com as taxas de juro a 20%, sem acesso aos mercados e sem financiamento a partir de Março, com a bolsa em queda e os bancos arruinados, Atenas terá de sair da zona euro, a única forma do Syriza aplicar o seu programa radical e da Grécia resolver o insustentável problema da dívida. Com excedente primário e balança corrente positiva, é possível um default organizado e com ajuda europeia, esta última amplamente justificada com o risco sistémico de tal escolha.

O Syriza é um partido de extrema-esquerda, que acredita na mitologia ideológica do seu discurso. A saída da zona euro não faz parte do programa da campanha, pelo que existe a possibilidade alternativa deste governo cair, logo que Bruxelas rejeite a posição grega. No entanto, avaliando o tom dos discursos, parece evidente que Tsipras já tem na cabeça o abandono do euro: só precisa de um bode expiatório e de criar um clima que propicie a saída. Quanto aos europeus, entre o mau e o péssimo, a escolha é evidente.

 

Borgen


Luís Naves,

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A série dinamarquesa Borgen faz uma das melhores abordagens sobre a política que já vi em ficção. Os actores são óptimos, a escrita é perfeita, o ritmo, a música, enfim, todos os aspectos técnicos funcionam. Ao contrário do que sucede em séries americanas que abordam política ou jornalismo, aqui não há situações exageradas nem maniqueísmo nas personagens. O que mais atrai em Borgen é a forma exacta como ali se expõe a realidade da democracia parlamentar, nomeadamente a necessidade de negociar, o carácter inesperado das crises, a inevitabilidade das concessões, o poder dos interesses especiais, a linha fina que separa lealdade e traição, a escassez do tempo, a não repetição das oportunidades ou ainda a crueldade de certas decisões, como deixar cair alguém de quem se gosta, enfim, o carácter solitário da política que, paradoxalmente, não pode ser praticada sem convencer muita gente através da palavra.

A dramatização e a criação de um fluxo narrativo obrigam por vezes a situações onde se desafia a suspensão da descrença, mas genericamente os autores conseguiram esboçar personagens semelhantes a jornalistas e políticos reais. A história mostra correctamente a existência de um triângulo entre três vectores inseparáveis: a política, o jornalismo e a comunicação (ou spin). Nenhum deles vive sem os outros. O spin doctor não é alguém que esconda os factos, mas um gestor de crises, com importância na explicação das decisões (veja-se por exemplo o carácter central da escrita dos discursos). Os jornalistas nem sempre procuram a verdade, muitas vezes têm motivos egoístas ou seguem pistas falsas. Os políticos, tratados pelos autores sem demagogia, vivem no medo de perder tudo por causa de uma trivialidade e nem sempre fazem o que gostariam de fazer. Borgen mostra a força das democracias parlamentares europeias e é uma crítica demolidora às simplificações populistas.

Na primeira série, Birgitte Nyborg, vítma das circunstâncias, tornou-se uma primeira-ministra mais pragmática e insensível; a personagem de maior complexidade, Kasper Jull, ganhou em cinismo e manipulação; Katrine Fonsmark tornou-se menos idealista, vítima dos seus momentos de ingenuidade.

O mundo complicado


Luís Naves,

Quando o sistema mundial tem muitos protagonistas torna-se difícil manter a estabilidade das alianças e gerir a ascensão ou o declínio relativo de uns e outros. Foi o que aconteceu nas duas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial, quando os impérios europeus estavam fragmentados em cinco potências principais (Grã-Bretanha, França, Rússia, Alemanha e Áustria-Hungria) e surgiam novos poderes ambiciosos (EUA e Japão), enquanto outros se debatiam com a consciência do declínio acentuado (Império Otomano e Itália). Na altura, havia nove actores principais, uma multidão. Depois da guerra, o cenário mudou, com a subida rápida dos EUA e a recuperação meteórica da Alemanha. Nos anos 30, havia quatro potências europeias, cinco se contássemos a Itália, mais a América e o Japão, o que dava sete, criando um conjunto ainda muito instável.

A Guerra Fria simplificou o cenário, mas progressivamente ascenderam novas potências, sobretudo Europa, Japão e China, mas igualmente outras com ambições, embora mais modestas, como Irão, Índia ou Brasil. O facto é que neste momento o sistema internacional tem excesso de participantes, pelo menos cinco principais e três secundários. Não há recursos para todos e alguns vão entrar em declínio e alta ansiedade. Para evitar a decadência, a Europa vai provavelmente acelerar a integração, porventura sem o Reino Unido. O Japão parece ter entrado num confortável ocaso, a China continua a ganhar dimensão, a Índia tem decepcionado. EUA, Europa e Japão são aliados firmes e formam um bloco poderosíssimo. Rússia e China tendem a ficar do mesmo lado, mas isso nunca é assim tão líquido. Há outras potências emergentes, (Índia, Brasil ou Irão), mas julgo que tudo isto somado aponta para um mundo instável, onde os conflitos serão cada vez mais complicados.

Também publicado aqui.

A guerra contra o terror


Luís Naves,

À primeira vista, a brutalidade dos terroristas radicais islâmicos sugere uma ameaça existencial para o Ocidente e os seus valores. A barbárie também se manifesta em zonas de guerra onde reina o terror, como no norte da Nigéria, na Síria/Iraque, na Líbia e Somália ou em territórios substanciais do Afeganistão. E, no entanto, quando temos uma visão mais abrangente do conflito, são os radicais que enfrentam uma óbvia ameaça existencial. As principais potências do mundo (EUA, Europa, Rússia e China) concordam entre si num único ponto, a necessidade de combater o radicalismo islâmico, seja na sua forma de grupos terroristas ou de movimentos separatistas. Os islamitas são perseguidos em todos os países estáveis do mundo muçulmano e estão a ser presos ou eliminados em todas as regiões onde existam grupos extremistas. As zonas dominadas pelos radicais são pobres ou palco de intermináveis guerras civis.

O extremismo islâmico combate os valores ocidentais e todas as suas manifestações, das caricaturas aos bonecos de neve, das representações divinas às taxas de juro, do cinema à educação das mulheres. Os radicais islâmicos dizem que não são precisos mais livros, pois o que não está no Corão é inútil ou errado. A vida quotidiana dos ocidentais, que se infiltra em todos os países, vai conquistando as pessoas para ideias diferentes, do casamento por amor à libertação das mulheres, que até começam a conduzir automóveis. A banal televisão ou uma simples canção na rádio representam o horror e um ataque à interpretação fundamentalista da religião. Para estes fanáticos, o ocidente está todo errado, não apenas a sua laicidade e o direito à blasfémia, mas também os valores da liberdade, dos direitos humanos e da convivência de culturas. Ou seja, o conflito entre radicais islâmicos e civilização ocidental não tem qualquer espaço para a reconciliação. Os extremistas só têm a opção de radicalizar o seu movimento, o que produzirá uma reacção cada vez mais violenta e concertada das potências do mundo contra grupos que serão isolados, caçados e destruídos.

Zombies da Al-Qaeda


Luís Naves,

Escrevi em texto anterior que os autores do atentado de Paris tinham ligações ao Estado Islâmico. Esse texto, Soldados do Califado, baseava-se em primeiras informações, que não se confirmaram. Afinal, os dois terroristas não estiveram na Síria e, aparentemente, não tiveram contacto directo com o chamado Califado. No final da sua extraordinária fuga, já cercado, um dos irmãos Kouachi fez uma breve declaração pelo telefone a um jornalista e sabe-se agora que pelo menos Said Kouachi esteve no Iémen sob a tutela de um dos principais líderes da Al-Qaeda, Anwar al-Awlaki, o imã americano, que era então considerado um dos dirigentes mais perigosos da organização. Kouachi esteve no Iémen em 2011, no mesmo ano em que Al-Awlaki foi morto com alguns dos seus companheiros pelo disparo de um drone americano. Assim, não sendo propriamente soldados do Califado, os três radicais franceses puderam preparar a vingança durante três anos, sem serem detectados. É possível que haja outras redes adormecidas, prontas para a acção. O aparecimento de um terceiro terrorista só aumentou a confusão e tornou mais difícil a captura dos dois irmãos que mataram os membros da redacção do Charlie Hebdo. Seguiu-se um ataque puramente racista, que acabou em banho de sangue numa loja de produtos kosher, embora provavelmente o alvo fosse uma escola judaica próxima. Isto serve de aviso: a Al-Qaeda parecia ultrapassada, mas tem raízes fundas; o Estado Islâmico, talvez ainda mais perigoso, tentará certamente a mesma estratégia de preparar grupos que actuam após anos de clandestinidade e silêncio. O terrorismo contemporâneo é um pouco como os filmes de zombies, haverá sempre mortos-vivos a saírem das tumbas.

 

Na blogosfera portuguesa foram publicadas boas reflexões sobre este caso, mas recomendo sobretudo a leitura de dois textos notáveis, de Pedro Picoito e de Rui Ângelo Araújo. 

A exclusão dos populistas


Luís Naves,

A exclusão da Frente Nacional de uma manifestação de unidade em França é um bom exemplo da crise de legitimidade que cresce nas democracias liberais e que, a prazo, ameaça tornar-se numa rebelião populista capaz de se transformar numa crise das próprias democracias. Embora esteja em estado de choque pelo brutal atentado de Paris, a elite política francesa parece incapaz de realizar uma simples manifestação onde participem todos os partidos. A exclusão da Frente Nacional é na realidade uma bofetada a um quarto do eleitorado. Este partido de extrema-direita ou, na sua actual versão, de populismo de direita teve 4,5 milhões de votos nas eleições europeias. Nas legislativas de 2012, ficou em terceiro lugar, com 3,5 milhões de votos, mas só elegeu 2 deputados. Muitos eleitores em França e na Europa sentem que o seu voto não conta. Embora haja grande número de jovens nestas formações populistas, a esquerda intelectual continua a dizer que se trata do passado.

 

Os populistas de direita e de esquerda estão a crescer devido aos fracasso das políticas liberais e ao aumento do desemprego e das desigualdades. Na Alemanha, onde quase não existe oposição e debate, um novo partido, Alternativa para a Alemanha (AfD), que defende a saída do euro, tem conseguido mais de 10% em eleições estaduais (12% em Brandenburgo). Em Itália, o Movimento Cinco Estrelas da esquerda populista ficou em terceiro lugar nas legislativas de 2013, com 23%, valor que conseguiu aumentar para 25% nas europeias. Em Espanha, com o Podemos, ou na Grécia, com o Syriza, os populistas de esquerda continuam a crescer nas sondagens e são possíveis candidatos à vitória em legislativas que se realizam este ano (na Grécia, dentro de duas semanas). No Reino Unido, o UKIP (que teve apenas 3% em 2010), conseguiu vencer uma eleição intercalar e surge nas sondagens com valores entre 10% e 15%. Um estudo sobre 87 círculos mostrou que este movimento populista podia vencer em seis e ficava em segundo lugar em outros 22. O UKIP está a conquistar eleitores que votavam nos conservadores, mas também a atrair votos trabalhistas. O seu impacto é uma incógnita.

 

O problema é que as elites têm um pensamento global e olham para as instituições europeias como instrumento ao serviço das suas ambições de poder, mas as populações querem apenas discutir o reforço das  comunidades e a sua segurança física e económica. É espantoso como os intelectuais continuam a não compreender que, pelo menos aos olhos do eleitorado, a imigração tem impacto no emprego, sendo este cada vez mais escasso. Nas sociedades democráticas, onde há amplas liberdades e tolerância, parte significativa da população sente que a sua voz nunca é ouvida, nem será. Estas pessoas têm alguma razão: existe tendência, nos partidos e meios de comunicação, para desprezar ou ignorar muitos eleitores, sobretudo aqueles que recusam o multiculturalismo.

O consumismo desenfreado e a indiferença aumentam esse sentimento de alienação, bem como a ausência de política, no sentido de se formar uma espécie de cartel de partidos centristas que dizem e fazem mais ou menos as mesmas coisas. O exemplo alemão é impressionante. O consenso, as falsas uniões nacionais criam uma hipnose que prolonga a grande continuidade, tornando ainda mais difícil a ruptura e a simples mudança.

Os movimentos populistas não são autoritários e querem participar no jogo democrático, atraindo o voto de pessoas que não se sentem bem representadas nos partidos tradicionais e nos meios de comunicação. O fenómeno está a crescer à direita e à esquerda, apropria-se da retórica nacionalista e reage à brutalidade do terrorismo contemporâneo com o apoio a medidas menos tolerantes. O populismo está a mudar a Europa e a sua exclusão é um erro. Aliás, o fenómeno não é apenas europeu, mas tem talvez ainda mais força na sociedade americana, onde a paralisia institucional e a ascensão de uma aristocracia constituem sérias ameaças ao futuro do Ocidente.

 

Soldados do Califado


Luís Naves,

O atentado de Paris contra o jornal satírico Charlie Hebdo foi também um ataque brutal às elites intelectuais francesas. A emoção da frase “somos Charlie” será inconsequente se não for acompanhada de uma reflexão. Os dois primeiros suspeitos do tiroteio chamam-se Cherif e Said Kouachi (à hora a que escrevo ainda não foram capturados). Os dois irmãos franceses de origem magrebina estavam referenciados pelas autoridades policiais, combateram na Síria e, no entanto, estes soldados do Califado regressaram tranquilamente a França, onde aparentemente obtiveram armamento de guerra. A ser verdade, como é que isto foi possível?

O ataque não visou exactamente a liberdade de expressão, pois os terroristas estão-se nas tintas para quem criticar a República ou o presidente Hollande. O ataque foi contra o direito de criticar o Islão, norma que não sabemos exactamente onde começa, embora seja nítido onde acaba. Os dois terroristas simbolizam o desprezo que o Islão radical tem pelo Ocidente, mas também a forma benevolente como a elite intelectual francesa (à excepção porventura de jornais como Charlie) tem tratado esse mesmo Islão radical.

Os intelectuais franceses e europeus continuam a afirmar que não existe um problema de imigração, continuam a achar que a intolerância religiosa dos radicais é uma reacção à crise económica, mas o facto é que as democracias permitiram o crescimento de um tumor que parece ser difícil de extirpar: muitos jovens muçulmanos foram radicalizados por imãs que aproveitaram as amplas liberdades da sociedade francesa, nomeadamente a liberdade religiosa. O desprezo pelos valores do Ocidente fez o resto. A França é o país europeu com mais combatentes na Síria, onde se formou uma espécie de brigada internacional, sobretudo de europeus que vão dedicar as suas vidas, previsivelmente curtas, à destruição do Ocidente.

O Islão radical é uma ideologia fanática com escassas hipóteses de triunfar no mundo, mas a sua ascensão deve-se em grande parte à ingenuidade das elites intelectuais do Ocidente, sempre velozes a condenar uma inquietação popular que é fácil classificar de “xenofobia”. Os movimentos populistas e a extrema-direita têm aproveitado habilmente o conflito social e cultural que decorre no interior dos bairros mais pobres. Quando vivi em França, nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana e ocorreu um fenómeno que os sociólogos da época tinham dificuldade em compreender: os operários, que votavam no PCF, passaram directamente para a Frente Nacional, grupo então associado apenas aos chamados ‘pieds noir’ (retornados da Argélia) e que teve os seus primeiros verdadeiros êxitos nestes anos. Nas décadas seguintes, muitas famílias muçulmanas integraram-se na sociedade francesa, mas uma parte significativa foi radicalizada quase em silêncio e as liberdades republicanas acabaram por ser suprimidas em muitos locais onde a polícia não entra e onde mandam os fanáticos.

O dilema da liberdade


Luís Naves,

O atentado de Paris onde foi chacinada a redacção do Charlie Hebdo só pode provocar nos espíritos um imenso repúdio. Os terroristas atingiram o coração do mundo moderno, pois a ideia de liberdade fica associada ao medo. As sociedades ocidentais não têm solução fácil para ataques como este: podem evitar futuros atentados se criarem Estados mais securitários, tal como já acontece nos aeroportos (ninguém aceitaria viajar de avião sem passar pelos complexos procedimentos de segurança); as comunidades islâmicas serão vigiadas mais de perto e, um dia, os imãs perderão a liberdade de radicalizar crentes, com os sermões alterados e a doutrina censurada. Soa mal, mas para as sociedades ocidentais defenderem as liberdades, haverá redução da liberdade religiosa.

Sem políticas de imigração mais restritivas, os islamitas serão reforçados e isso implica menos tolerância com o actual estilo de vida dos europeus. Portugal não tem um problema de imigração e as pessoas aqui desconhecem a tensão que existe nos bairros franceses, sobretudo com o aparecimento de uma geração de jovens radicais islâmicos (tão franceses como os outros) que não têm qualquer intenção de viver numa sociedade liberal ou de aceitar a república secular. Os partidos populistas, como a Frente Nacional, estão a aproveitar a insegurança das pessoas, como aliás escrevi ontem, a propósito de um movimento espontâneo na Alemanha. Isto não tem nada a ver com a crise financeira, mas com religião e choque de culturas. As vítimas de Charlie Hebdo mostram que em muitos aspectos os terroristas já ganharam, pois a intolerância e o silêncio têm garras bem fundas.

A rebelião populista


Luís Naves,

O eleitorado europeu está farto de medidas que não compreende, de liberalizações que prejudicam os trabalhadores, de cortes nos serviços públicos, de desemprego e estagnação. Quem tinha vidas previsíveis observa agora o horizonte da incerteza. A grande crise de 2008-2014 aumentou a angústia na opinião pública, criando um estado de pessimismo e de insegurança que os meios de comunicação exploram com misérias sociais que, existindo antes da crise, nunca antes tinham merecido tanto relevo. As percepções de corrupção, de criminalidade ou de pobreza são muito maiores do que a realidade da corrupção, da criminalidade ou da pobreza. O desemprego e o declínio do Estado criaram um sentimento de impotência.

A frustração, muito visível em países resgatados, não tem saídas fáceis: o Syriza, na Grécia, está a duas semanas de vencer as eleições e pretende renegociar a dívida e aumentar a despesa pública, com dinheiro que o país não possui: nos últimos anos, entre ajuda externa e perdão de créditos, a Grécia recebeu 380 mil milhões de euros, sempre a agravar a situação, devido à relutância em cumprir as condições do ajustamento. Agora, apostando na pura chantagem aos parceiros europeus, os populistas de esquerda acreditam poder ressuscitar uma economia de rastos deitando dinheiro dos outros para a fogueira, mas correm sério risco da torneira ser fechada de vez. É uma ilusão pensar que a Europa pagará as contas indefinidamente ou que as dívidas podem ser perdoadas sem a perda definitiva da credibilidade externa. Aliás, as contas não batem certo: sem financiamento, a Grécia terá de sair do euro, como indicam as suas taxas de juro.

Na Alemanha, entretanto, fervilha um movimento espontâneo anti-imigração, o Pegida, que está a assustar a classe política alemã. Embora sejam pessoas comuns, os manifestantes pacíficos são apresentados como xenófobos e racistas, o que apenas aumenta a irritação com uma democracia que, à partida, pretende ignorar a sua voz. Os partidos tradicionais têm dificuldade em lidar com formas de protesto que surgem fora do respectivo controlo, como aliás acontece na França, Espanha, Itália ou Reino Unido. Os populistas de esquerda e da direita proliferam no terreno fértil do cansaço. A ansiedade torna difícil manter as reformas económicas de inspiração liberal, cujo fracasso político é cada vez mais evidente. Assim, 2015 será porventura o ano da rebelião populista.

A propósito do ano de 2015


Luís Naves,

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Quem quiser antecipar para 2015 um ano de potenciais desgraças deve lembrar-se que em 1915 o mundo estava envolvido numa terrível guerra mundial, com milhões de soldados a viverem em trincheiras improvisadas e no perigo constante da aniquilação. A Europa sofreu uma das suas piores calamidades e esta guerra, que só terminou em 1918, após 9 milhões de mortos, foi certamente uma das causas da terrível epidemia de gripe que viria a matar mais dez milhões de pessoas. A Primeira Guerra Mundial destruiu quatro impérios europeus e lançou as sementes de uma guerra ainda mais destrutiva, que iria dizimar a geração seguinte.

O ano de 1815 não foi mais auspicioso do que 1915. Houve dois momentos explosivos, a fuga de Napoleão da ilha de Elba e a erupção do vulcão do monte Tambora, na actual Indonésia. O primeiro episódio culminou na batalha de Waterloo, em Junho, onde um tempo anormalmente húmido perturbou seriamente as tácticas militares: as armas não disparavam e a artilharia francesa não provocou o efeito esperado, apesar de Napoleão ter esperado uma hora (crítica) antes de lançar o ataque, na esperança de que o campo de batalha secasse. A chuva e a lama foram talvez a consequência imprevista da distante erupção vulcânica, que provocou um pequeno Inverno na Europa. O ano seguinte seria o famoso ano sem Verão, que provocou uma mortandade devido à fome e à doença. A década de 1810 teve um mínimo solar e foi uma das mais frias e húmidas dos últimos 300 anos.

Se 1815 não foi um ano bom, pode afirmar-se que 1715 não teve grande história e foi até auspicioso, pois a Guerra da Sucessão Espanhola terminara em 1714, com resultado medíocre para Portugal, que no papel foi um dos vencedores. Visto mais à lupa, este período deu início a uma longa fase de consolidação dos grandes poderes europeus, sobretudo do Reino Unido e da Áustria, ao mesmo tempo que ocorreu o declínio lento dos pequenos impérios, sendo Portugal uma das vítimas, apesar do ouro do Brasil descoberto nesta época.

A Europa estava em transição e vinha de uma longa série de conflitos, o maior dos quais, a Guerra dos Trinta Anos, começou em 1618. Este foi um período particularmente negro, com milhões de vítimas provocadas pela fome, batalhas, massacres, doenças e puro ódio religioso. E podia ter sido diferente. Em 1615 ocorrera um momento de vitalidade artística e científica, mas era como o canto do cisne: a literatura teve uma das suas maiores glórias nesse ano, com a publicação do segundo volume de D. Quixote, meses depois de ser publicado em Lisboa A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. William Shakespeare terminara anos antes a sua notável carreira e, tal como Cervantes, morreria em 1616. No início da década, Galileu fizera as primeiras observações com telescópio, mas entretanto enfrentava crescentes dificuldades com as autoridades eclesiásticas, devido à sua defesa do modelo heliocêntrico do sistema solar proposto por Nicolau Copérnico.

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Os grandes cientistas e escritores são o melhor símbolo do final de dois séculos de intensa mudança de mentalidade. Se recuarmos cem anos, em 1515 estava em rápido movimento o período dos Descobrimentos. O rei português Manuel I enviou ao papa um rinoceronte vivo, que muito impressionou quem o viu. Nesse ano ocorrera também uma autêntica revolução na arte, na botânica, na geografia, na matemática, na astronomia, na alimentação e na guerra. Os portugueses encontravam-se na vanguarda da exploração e da ciência, mas tinham rivalidades insuperáveis, espírito de facção e falta de disciplina. Vítima de intrigas palacianas, o vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, um dos primeiros construtores dos impérios europeus, foi destituído vergonhosamente pelo monarca e morreu nesse mesmo ano de 1515, segundo dizem atingido pelo desgosto, proferindo uma frase célebre que resume toda a frustração de quem gastara a vida a lutar pelo insolúvel dilema do poder: “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei”.

A frase continua a ser um dos melhores sumários dos dois séculos portugueses. A aventura começara em 1415, com a tomada da cidade de Ceuta, na costa marroquina, episódio marcado pelo espírito das cruzadas típico da velha época, mas já com o embrião de uma nova curiosidade que mudaria o destino de toda a civilização europeia. Foi em Ceuta que começou a Era dos Descobrimentos, de forma porventura irreflectida, mas desencadeando um processo de acumulação de conhecimentos que levou o Ocidente à supremacia.

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Cem anos antes, em 1315, ninguém diria que isso era possível. A Europa viveu nesse ano o início de uma grande fome que matou porventura 10% da população. Muitos sobreviventes ficaram debilitados e viriam a ser vítimas fáceis da Peste Negra que se propagou a partir de 1348, com vários surtos em anos posteriores. Segundo se julga, a Grande Morte dizimou um terço da população europeia. É quase inexplicável que a Europa tenha sobrevivido ao século XIV, para mais com as desgraças associadas à guerra dos Cem Anos, vários períodos de fome e vagas de peste que actuavam como tsunamis regulares a devastar a população.

O mesmo se pode afirmar do século XIII, quando um momento de pura sorte evitou a provável destruição da Europa Central pelas hordas mongóis (1241), o que apesar de tudo não evitou a destruição de metade do poderoso reino húngaro, onde ocorreu um verdadeiro genocídio. Os mongóis tinham conseguido o seu primeiro grande triunfo externo em 1215, com a conquista da actual Pequim e respectivo massacre da população que, em desespero, usara artilharia primitiva e, à falta de ferro para as munições, teve de recorrer a ouro e prata. Nesse ano, desconhecendo as desgraças alheias, a Europa poderia estar despreocupada, mas era palco de um fanático fervor religioso e de cruzadas contra o Islão mas também contra as heresias cristãs. Os cátaros, por exemplo, foram massacrados de forma impiedosa. Este mundo medieval era cruel e pobre cem anos antes e também dois séculos antes. O ano de 1115 não foi melhor, nem 1015: a vida dos europeus era curta e penosa; as pessoas, analfabetas e supersticiosas, trabalhavam agarradas à terra onde nasciam, até ao dia em que morriam.

O Meu Amante de Domingo


Luís Naves,

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Não conhecia a ficção de Alexandra Lucas Coelho, apenas as brilhantes reportagens e crónicas, mas depois de ler o seu mais recente romance, O Meu Amante de Domingo, não vou perder mais nenhum livro da autora. Trata-se de um texto dilacerado, cruel, comovente, com humor negro e sem contemplações na linguagem. Nenhum leitor lhe poderá ficar indiferente.

A história é simples: uma mulher de 50 anos, ferida por uma traição amorosa, sonha com a vingança e perde-se num labirinto de dor, desejo, insatisfação, raiva e desespero. No meio, a literatura, sobretudo a literatura brasileira, e a fantasia do sexo, embora os homens sejam aqui uma espécie de lugar comum entre o ridículo e o insensível, homens objecto que constituem uma forma de punição. “A vingança é uma espécie de amante, toma o lugar do morto na cama”, explica em certa passagem a narradora.

O livro tem páginas de grande beleza e outras com linguagem desbragada e propositadamente chocante, mas isso explica-se pela profunda indignação da personagem central, que tem dois planos de discurso, um em que fala directamente aos leitores, provavelmente em pensamento, e outro em que escreve um suposto romance chamado O Meu Amante de Domingo. A prosa de Alexandra Lucas Coelho é apurada e rica, como mostra este exemplo de uma descrição da paisagem alentejana: “Todos os dias subo ao Castelo a pé, para que os olhos corram como um cão que estava preso, até onde a terra cai do outro lado”.

As personagens não têm nome, mas designação genérica: Sancho Pança ou o mecânico, Nosferatu ou o futuro Nobel, o caubói, Apolo; a narradora nunca se identifica, embora se descreva várias vezes; sabemos, pois, que é uma mulher baixa, loira, magra, revisora literária, que vive sozinha. Através desta figura, a autora constrói um texto sarcástico, com linguagem brutal e que, ao estilo da literatura brasileira, não usa reticências. As palavras proibidas são usadas sem poupança e as cenas de sexo explícito surgem sem condescendência ou pudor. E, no entanto, há por aqui uma ilusão de realismo: o sexo é insatisfatório e sem emoções, quase parece ginástica, como na pornografia; no fundo, torna-se uma parte do delírio da personagem, elemento central da sua vingança. Sublinho a dificuldade desta escrita e julgo que não existe um único momento de mau-gosto.

 

Os diálogos são hábeis, o ritmo de prosa é alucinante, o estilo poderoso e eficaz. Em cada página encontramos frases espantosas, por exemplo, “a minha fúria é mais forte do que o meu lamento”. Algumas destas frases contêm indícios da intenção estética da autora, sobretudo na discussão com Nosferatu, onde este diz que não está interessado no explícito, ou ainda no diálogo um pouco anterior, quando a narradora diz ao amigo para escrever depois de “meter o dedo na ferida”. No primeiro caso, o oposto do que se pretende; depois, o intuito da exploração da dor íntima.

Neste livro tão bem escrito é notável a prosa aflita do capítulo onde se revela a razão da vingança, como se a personagem, ali, perdesse o pé e o fôlego. Há no texto um constante exagero, nos delírios, na riqueza do vocabulário, na brutalidade dos insultos e nas referências literárias. A meu ver, este último excesso, demasiada literatura, é o maior defeito do livro, embora se possa argumentar que faz parte da caracterização da narradora, onde existe boa dose de histeria. O fio da narrativa tem igualmente fragmentação invulgar na fase final, quando tudo acelera e o foco se engasga. As personagens secundárias são demasiado efémeras e desaparecem, há igualmente digressões que, apesar do interesse, parecem inúteis para o desenvolvimento do romance: cito apenas a história de Euclides da Cunha, metida um bocado a martelo, boa para uma crónica, desnecessária naquele contexto.

Tirando estes pormenores menos felizes, O Meu Amante de Domingo é um livro inteligente, desassombrado e profundamente original. O título evoca os “condutores de domingo”, aquelas figuras inábeis e desajeitadas que infernizam a vida aos que têm pressa. Os homens, aliás, são ineptos e tolos, ou apenas cruéis. As mulheres estão desprotegidas perante uma brutalidade masculina que não aceitam. Como explica a narradora, “os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar refém deles”. Neste romance, Alexandra Lucas Coelho consegue subtilezas que fazem pensar e atinge um grau de inquietação que, no fundo, nos fala do medo da mudança, do envelhecimento e do declínio. A maior traição, parece, é não suportarmos a verdade. E como isso é actual.

 

Os habitantes do aeroporto


Luís Naves,

Recomendo a leitura deste espantoso texto sobre os estranhos habitantes do terminal ultra-moderno do aeroporto de Barajas, em Madrid. Para além da escrita brilhante de Daniel Verdú, que evita as armadilhas do sentimentalismo, esta reportagem de El Pais mostra a fauna de um eco-sistema secreto. Os protagonistas (da ordem de três dezenas) são invisíveis a quem por ali passar, apesar de comerem os restos que os passageiros deixam nas mesas do fast-food e de usarem os lavabos, apesar de andarem pelo terminal como se fossem apanhar algum avião, até arrastando malas vazias. Para os ver, é preciso estar atento, por isso ninguém repara neles. Nunca levantam voo, nunca chegam ao destino, pois não têm propriamente um destino. Um destes fantasmas diz receber uma pequena pensão de 300 euros, o que o dispensa de comer restos; e até usa computador portátil, navegando no sistema wi-fi do sofisticado terminal de 6200 milhões de euros, considerado espaço público. Nem todos conseguem esta camuflagem perfeita, mas os viajantes do vazio andam limpos, parecem passageiros em trânsito, escondem-se entre a multidão, passam ali os dias e as noites, protegidos do frio, sem jamais embarcarem em qualquer um dos mil voos diários. Alguns usam truques para pedir esmola, geralmente envolvendo complicações com o passaporte. Neste aeroporto, não há nenhuma vedeta de Hollywood que nos provoque simpatia especial, apenas gente incorpórea e anónima, os de nenhum lugar.

O ano de 2015


Luís Naves,

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A mitologia da catástrofe criou uma mentalidade que tarda em desaparecer. Torna-se penoso mencionar factos, quando estes apontam para a melhoria da situação económica e social, pois muitas pessoas simplesmente recusam a possibilidade de já não estarmos em crise. As lojas estão cheias e nos restaurantes é difícil encontrar mesa, mas o espírito da indignação continua bem vivo.

A situação na Europa parece mais positiva do que nos diz a comunicação social. Em 2015, a baixa do preço do petróleo e o aumento da confiança na Alemanha terão impacto favorável, isto apesar de não terem desaparecido todos os riscos políticos. As presidenciais gregas podem implicar uma eleição antecipada (veremos no final do mês) e prossegue a ascensão do Podemos, mas o facto é que há várias economias em recuperação. As incertezas sobre a Rússia e os efeitos das sanções não podem ser ignorados, mas a Europa apresenta boas perspectivas para o próximo ano.

Tudo indica que em Portugal o défice de 2014 ficará abaixo de 4%, o que facilitará o cumprimento da meta do próximo ano sem novas medidas de austeridade. As exportações estão a crescer mais depressa do que se esperava e o preço do crude, a manter-se durante alguns meses, será uma boa oportunidade para se conseguir crescimento acima de 1,5% em 2015. O bom desempenho das exportações associado à recuperação da procura interna é compatível com a preservação dos excedentes da balança corrente e de capitais. Isto significa que o País tem condições para se financiar nos mercados e para reduzir a sua elevada dívida pública.

O Banco de Portugal espera mais investimento, mais exportações e a renovação do saldo positivo da balança externa, o que significa que o aumento do consumo não implica endividamento insustentável. O crescimento acima do valor para a zona euro é ainda modesto e criará emprego de forma insuficiente, mas no último ano foram criados cem mil postos de trabalho (mesmo que um terço resulte de políticas activas de emprego, é um número positivo). Crescimento acima da zona euro significa convergência com o rendimento médio europeu, ou seja, uma boa medida de final da crise.

Apesar de todos estes indicadores favoráveis, só vejo análises deprimentes. Os comentários nas redes sociais e na imprensa estão cheios de demagogia e tremendismo. Continua a indignação com trivialidades, como se os pessimistas que nos mandaram desistir ao longo dos últimos três anos, porque era impossível e íamos morrer todos, agora nos quisessem afogar na praia.