No momento em que escrevo, os conservadores britânicos já têm garantida a maioria na Câmara dos Comuns, com um mínimo de 323 eleitos, quando ainda faltam 12 lugares. A maioria é de 326, mas os republicanos irlandeses não tomam posse, por isso o número anterior será suficiente. Na realidade, David Cameron poderia governar com os votos unionistas ou fazendo acordos pontuais com deputados independentes. Ontem, quando foram conhecidas as sondagens à boca das urnas, a vitória do primeiro-ministro britânico era quase certa, mas continha um grau de incerteza. No final, há maioria estável e o governo não dependerá de terceiros.
As sondagens até não falharam muito (as percentagens estão dentro das margens de erro), mas o desvio em número de eleitos é surpreendente. Os trabalhistas foram sobreavaliados e perderam votos para os nacionalistas escoceses e para os eurocépticos do UKIP (este segundo efeito não era de todo esperado, mas provocou várias derrotas em feudos tradicionais do Labour). Luís Moreira, aqui, faz uma interpretação correcta, bem mais lúcida do que a narrativa que já ouvi e que atribui a vitória conservadora à ‘radicalização’ de Cameron. O centro-esquerda europeu tem crescente dificuldade em apresentar alternativas que o eleitorado considere viáveis, mas a esquerda portuguesa embarca no disparate palavroso e recusa-se teimosamente a ver o óbvio.
Cameron terá vencido estas eleições devido à sua personalidade (Ed Miliband não foi convincente), por causa dos nacionalistas escoceses, mas sobretudo por causa da economia, pois o eleitorado reconheceu que há trabalho disponível e, sobretudo, não quis correr riscos nesta fase de recuperação ainda frágil. Os efeitos da crise foram profundos e muitos britânicos não sentem ainda os benefícios da retoma, mas mudar de políticas continha uma incógnita difícil de aceitar, sobretudo após grandes sacrifícios. Os ingleses não se deixaram convencer pela retórica da desgraça. Em Portugal, onde tudo parece empatado (como parecia em Inglaterra), a discussão eleitoral será provavelmente também centrada na economia e num dilema semelhante ao britânico: vale a pena arriscar uma mudança ou é preferível manter um rumo que, tendo sido doloroso, parece resultar?


PASOK, PSF, Trabalhistas, o Costa só tem é amigos exitosos…
Cameron terá vencido estas eleições
Venceu-as certamente em número de deputados eleitos, mas venceu-as também em termos de percentagem de votos?
A minha questão é: o partido conservador teve maior percentagem de votos agora do que na eleição anterior? Pode o Luís Naves esclarecer-me?
A questão está obviamente mal colocada, mas a resposta é sim. Em 2011, os conservadores tiveram 36,1% do eleitorado, 10,7 milhões de votos e elegeram 306 deputados. Ontem, conseguiram 36,9%, 11,3 milhões de votos, elegendo 331 deputados. No sistema britânico, como sabe, o partido mais votado até pode ter menos eleitos. O que conta é o parlamento.
Podemos dizer que os sistema britânico é obsoleto, permitindo que um partido com 36% tenha maioria absoluta (o que não aconteceria em Portugal), mas o problema da legitimidade não se coloca numa democracia que funciona desta forma por ser suficientemente antiga. É a tradição deles e não tem havido motivos de queixa.
Lembro-lhe que o Syriza também teve 36% e, por ter ficado em primeiro lugar, conseguiu um brinde de 50 deputados adicionais. Esse partido foi eleito com a promessa de obrigar a Europa a mudar de rumo em relação à dívida grega, mantendo a Grécia na zona euro. Está a correr tudo muito bem…
Caro Luís Menezes Leitão,
Concordo com os vencedores, mas discordo da ordem dos vencidos. Os Liberais-Democratas ficaram muito pior que os Trabalhistas. As conquistas dos Conservadores aos trabalhistas foram na sua maioria marginais (i.e. poucos pontos de diferença), enquanto as perdas dos LibDem (para Tories, Labour ou o SNP) foram avassaladoras. No caso dos trabalhistas, só me admira como alguém tão fraco como o Milliband chegou à frente do partido (morava lá na altura e fiquei absolutamente estupefacto). A grande perda do Labour foi a Escócia, que pagaram com língua de pau o apoio ao “não” no referendo.
Quanto a Cameron, não sei até que ponto está mais comfortável que ontem. Cameron é um Conservador “à moda antiga” (classe alta, educação em Oxford, uma noção de “noblesse oblige” e uma visão mais alargada do mundo), não é uma Margaret Tatcher. Os LibDem davam-lhe a desculpa de “apoiar” ideias impopulares com uma tranche mais “dura” dos Conservadores: o não-referendo à UE (que agora vai ser difícil de voltar atrás), algum cuidado na limitação à imigração, o apoio ao NHS. Sem esse apoio, agora tem de lidar com backbenchers que só não mudaram para o UKIP porque tiveram (algum) juízo. Por estranho que pareça, Cameron vai ter de agir mais contra-natura após estes resultados.
Por falar em UKIP, espero que agora desapareçam de cena como partido de protesto e bando de avariados que são. Veremos…
Por falar em UKIP, espero que agora desapareçam de cena
O UKIP foi um dos grandes vencedores das eleições de ontem, ao aumentar a sua percentagem de votos de 3% para 12,8%. Acha que isso é razão para desaparecer de cena???
Caro Luís Lavoura,
Não, foi um dos grandes derrotados. Não se esqueça que o que interessa não é a percentagem de votos, mas sim os lugares no Parlamento. O UKIP tinha por objectivo conquistar 3-5 lugares e, acima de tudo, Thanet South (Nigel Farage). Pelo contrário perdeu um dos lugares (Rochester and Stroud) e em Clacton reduziu a maioria de 12.000 votos para 3.500.
O que aconteceu é que o UKIP transformou-se no que é na realidade – um partido de protesto, de agenda única, muito similar ao Green Party (este à esquerda). Com a desvantagem que, ao contrário dos verdes, estava muito dependente do líder que agora se demitiu. Veremos, mas o futuro não é risonho.
Já se sabia que esquerda na Europa está fraca, não existe liderança carismática. É mais gente do mesmo saco, sinceramente não faço ideia como vão ser os resultados da batalha de Setembro.