As eleições britânicas.


Luís Menezes Leitão,

Há dois vencedores claros das eleições do Reino Unido: os conservadores e os nacionalistas escoceses.

 

O primeiro vencedor são os conservadores. Ao conseguir a maioria absoluta, o partido conservador tem agora campo livre para continuar a governar o país, dispensando o incómodo apêndice dos liberais-democratas. Cameron está assim em condições de cumprir a promessa de referendar a permanência na União Europeia, o que contribuirá ainda mais para pôr Bruxelas em sentido e liquidar definitivamente o UKIP.

 

Quanto aos nacionalistas escoceses passaram a ser praticamente um partido único na Escócia. A derrota no referendo acabou assim por ser positiva para o SNP que consegue o melhor de dois mundos: vota as questões da Escócia no parlamento escocês e ainda vota as questões da restante parte do Reino Unido no parlamento de Londres. Resta saber quanto mais tempo vão os ingleses aceitar esta situação.

 

Quanto aos derrotados, o maior é o partido trabalhista. Deu uma gigantesca guinada à esquerda, com o seu líder Ed Miliband, o Red Ed, e agora paga o preço dessa condução desastrosa com o colapso eleitoral do seu partido. O outro são os liberais-democratas com Clegg a pagar o preço da sua ambivalência na união com os conservadores.

 

Estas eleições são por isso um bom aviso para os políticos portugueses. António Costa, que também prometeu uma viragem à esquerda no PS, pode ver as consequências. Já Portas teve o cuidado de voltar a coligar-se com o PSD, pelo que não terá pelo menos o destino de Clegg. Na verdade, estou convencido que, se o CDS fosse sozinho às urnas, seria trucidado.

0 comentários em “As eleições britânicas.”

  1. O Luís comete um grave erro de análise ao olhar apenas para os resultados eleitorais em termos de deputados eleitos, em vez de olhar para eles em termos de percentagem de votantes.
    Se olhasse para as percentagens de votantes, veria que os Trabalhistas aumentaram a sua percentagem de votantes em 1,5 pontos, pelo que não podem liminarmente ser considerados “derrotados” nas eleições. Ou, mesmo que possam, não podem ser extrapoladas quaisquer lições do Reino Unido para Portugal, dado que em Portugal, com um sistema eleitoral diferente do do Reino Unido, os trabalhistas não teriam sido considerados derrotados – teriam sido vencedores.

    1. O comentário é dirigido ao texto de Luís Menezes Leitão, mas não resisto a meter-me na conversa: com estes resultados e com um sistema eleitoral semelhante ao português, os trabalhistas teriam perdido estas eleições. O que conta é o sistema eleitoral britânico, que resulta de uma longa e admirável tradição democrática. Não vale a pena tentar desvalorizar estas eleições usando exemplos inúteis de outros sistemas. Os trabalhistas foram esmagados na Escócia e perderam lugares no norte de Inglaterra devido à transferência de votos para o UKIP. Os lugares escoceses não parecem ser recuperáveis e, do ponto de vista do centro-esquerda, deve ser preocupante ver fugir votos das classes trabalhadoras (a base sociológica do partido) directamente para uma formação anti-imigração e anti-Europa. A esquerda devia estar a discutir este problema e não a presumível “radicalização” de Cameron, como ouvi hoje na rádio.

    2. O sistema eleitoral inglês é talvez o mais antigo do mundo, e durante centenas de anos tem servido perfeitamente. Para que é que serve analisar as eleições do RU à luz do nosso sistema eleitoral que eles não utilisam nem querem utilisar, a não ser para tentar desvalorizar uma vitória eleitoral esmagadora dos Conservadores e para tentar arranjar explicações escanifobéticas para mais uma derrota da familia politica dos socialistas portugueses.
      Cameron levou a cabo uma politica de austeridade que tirou a Inglaterra do buraco onde estava metida, e vai continuar: vai cortar mais de 40 mil milhões de libras nas despesas do estado com o aval dos eleitores britanicos.
      Está claro que um governo que submeteu os seus concidadãos a um processo de austeridade e depois ganhou as eleições com maioria absoluta está a pôr a esquerda portuguesa “em parafuso”. Como é que é possivel? perguntam eles.
      Provavelmente porque os britanicos sabem separar as histórias da carochina da realidade.

    3. É uma falácia tentar contrapor resultados obtidos num sistema eleitoral com os que poderiam ser obtidos num sistema eleitoral completamente diferente e que não obedece às mesmas regras. Os partidos, quando concorrem, sabem perfeitamente quais são as regras e que têm que vencer com base nelas. Quando Bush ganhou a presidência em 2000 a Gore, apesar de ter perdido no voto popular, disse isso mesmo: Se quisesse ganhar o voto popular, faria campanha apenas nos estados mais populosos. Como precisa de ganhar o colégio para ser eleito, faz campanha em todos os estados em que pode vencer, sendo eleito se ganhar no colégio eleitoral o maior número de grandes eleitores. No Reino Unido é círculo a círculo que se vê quem ganha, não somando os votos populares gerais. E nesse critério os conservadores esmagaram os trabalhistas, que deixaram fugir quase todos os círculos da Escócia, onde habitualmente venciam, para o SNP.

      1. A “talho de foice”: também o mítico John Kennedy perdeu nas urnas e ganhou no colégio eleitoral, Richard Nixon teve mais votos do que ele. Houve quem dissesse na época que Nixon perdeu as eleições porque não fez a barba antes de um debate na tv: parecia um Metralha.

  2. Estas eleições mostram que os ingleses ainda pensam à inícios do século XX, caso contrário, pensariam que Cameron, não lhes proporcionou uma vida digna, dum país com recursos como poucos na Europa têm. Daqui a muito pouco tempo, veremos as manifestações e o reboliço, no país de sua majestade.

  3. Cumprimento-o.

    Mas há outras leituras. Os ingleses – refiro-me aos ingleses e não aos britânicos – acabaram de perceber duas coisas:
    1 – A hegemonia governativa terminou;
    2 – Referendar a permanência na UE é encaminhar a Escócia para a independência e acabar com o Reino Unido.

    Mas não nos ficamos por aqui. A votação nos conservadores não determina a ratificação das políticas destes. O que vai suceder nos próximos anos no UK é a alteração ao modelo eleitoral e governativo.

    Desengane-se quem pensa que as eleições no RU são um indicador fiável para qualquer política acéfala da austeridade. 23% de sua população vive em estado de pobreza e os bancos alimentares são uma realidade em todas as paróquias do Reino.
    Significa isto que a concentração da riqueza em detrimento das classes médias e dos mais vulneráveis determinará a queda dos regimes ditos rigorosos e eficazes.
    Quem pensa que a vitória dos conservadores é uma vitória do Reino engana-se. Estas eleições só mostraram que os ingleses estão cada vez mais isolados.

    Os trabalhistas mantiveram a certeza do apoio de uma boa parte de sua base eleitoral, mas foram comidos, tal como os conservadores, pela saudável onda nacionalista que começa a varrer a Europa.
    E é tão saudável esta onda quanto insalubre e putrefacta se revela a ditadura de uma nomenclatura que por vias institucionais submete um continente a seus próprios caprichos.
    O caso do PSD e CDS são a face visível desta submissão e também a demonstração de que agem como um canal de financiamento da referida nomenclatura. A dívida portuguesa, pela emissão de obrigações e das consequentes taxas de juro que as vinculam, aumentou em 21 Mil Milhões de Euro.
    Significa isto que ratificar o empobrecimento assim como a concentração do capital nas mãos de quem não gera produção e equilíbrios é uma atitude clara de acefalia.

    Tive oportunidade de referir há uns dois anos, creio que em um de seus posts, que a política de criação de favelas ao fim de um determinado período faz parecer que a economia cresce. Mas não é esta que cresce, é a pobreza e a miséria que se consolida.

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