Naquele tempo, o mundo era diferente. As pessoas vestiam-se de outra maneira, não existia internet e ninguém usava telefones portáteis, só havia linhas fixas e as ligações tornavam-se difíceis quando muitas pessoas telefonavam ao mesmo tempo. Era criança, mas lembro-me. As cidades tinham crescido demasiado depressa e, por vezes, nos novos subúrbios não havia água ou faltava a electricidade. O metropolitano possuía uma linha única e era um luxo, vinham pessoas de fora só para ver aquela maravilha. A auto-estrada acabava logo, prolongava-se por 30 quilómetros apenas; e, tirando pequenas ilhas de modernidade, o país continuava tão atrasado como sempre fora; os comboios pareciam velhas carcaças que se arrastavam por ferrovias antiquadas, entre estações onde a História parecia ter parado.
Construíram-se fábricas e grande bairros de apartamentos, mas a vida manteve-se lenta e pausada. As rádios eram todas idênticas (nem sei se havia muitas estações) e só passavam a música permitida. Éramos católicos, líamos jornais censurados e recebíamos informação rigorosamente controlada. Os discos, esses objectos valorizados, riscavam-se com um gesto mais brusco e faziam um ruído estranho quando a agulha do gira-discos deslizava sobre eles, num suave movimento de ondulação. Nos escritórios, ouvia-se o infernal batuque das máquinas de escrever e era difícil dactilografar sem erros: tudo tinha de ser escrito várias vezes. Ninguém tinha impressoras, nem música digital, nem sequer livros electrónicos, mas havia vendedores de enciclopédias que iam de casa em casa.
Naquele tempo, o País tinha o coração cinzento, das fardas dos polícias e dos carros oficiais, do excesso de sotainas, da literatura provinciana e dos estudos retóricos, das televisões a preto e branco. Muita gente emigrava e esses emigrantes regressavam no Verão, com um falar esquisito e guiando carros caros, trazendo mulheres loiras que se bronzeavam em biquíni e dizendo que lá fora é que era bom. Por aqui, havia futebol e ouvia-se fado, respirava-se a tristeza de um mundo, que resistindo ainda, adivinhava os seus dias contados. Da guerra em África, falava-se pouco, como se falava pouco de sexo ou política. Este era um país de cidades ainda meio feitas e habitadas pela nostalgia das aldeias dispersas em vales pobres, todas muito parecidas umas com as outras, com as suas casas caiadas de branco, o largo da igreja, a torre sineira, o chafariz público, o cheiro dos estábulos, as moscas, o posto de correio e a taberna escura.


Se não estou em erro, havia umas 4 (vá lá, 5) estações de rádio – a Emissora Nacional, de que fazia parte o Programa 2 (que apenas passava música erudita), o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença e os “Emissores Associados de Lisboa” – tudo a transmitir em “onda média”. Nenhuma funcionava 24 hora por dia e, chegada a semana da Páscoa, de Quinta-feira até Sábado à tardinha ou emudeciam ou davam só música de carácter religioso.
Já existia FM, mas os Portugueses já se esqueceram o quanto avançamos.
Lembro-me perfeitamente de ver as reportagem (Natal)das tropas na Guerra e das minhas tias a olharem para mim em lágrimas.
E o que fez as tropas saírem dos Quartéis a 16 de Março e no 25 de Abril…
A primeira emissão FM em Portugal decorreu no ano de 1954, quando o Rádio Clube Português instalou um emissor construído por técnicos da estação na sede da Philips Portuguesa, que na época se situava na Rua Joaquim António de Aguiar, em Lisboa. Em meados de 1955, a então Emissora Nacional de Radiodifusão (atual RTP) instalou os primeiros emissores de frequência modulada em Lisboa e na Serra da Lousã. Refira-se que as primeiras emissões FM estéreo da Emissora Nacional ocorreram em 1968.
(É só consultar a Wikipedia)
Excelente texto, Luís. A nostalgia prega-nos às vezes partidas muito surpreendentes.
Quanto ao Metro, não foi assim há tanto tempo que ainda havia apenas uma linha em Y: iniciava-se no Rossio e ia alternadamente um comboio para Entre-Campos e outro para Sete-Rios (onde ficavam os dois outros terminais).
Houve uma altura bastante caricata, em que circulavam composições mais compridas que certas estações, na altura ainda não ampliadas, e se tornava impossível a quem tivesse inadvertidamente entrado nas duas últimas carruagens sair do comboio nas estações em que isso sucedia. Coisas mesmo à portuga.