«Gostei do seu comentário “de bonne guerre”. De facto, como não vivo de Acordo à ilharga, com frequência (que falta nos faz o trema, não é?) me foge a tecla para o vício antigo. Escrevo o Verão com maiúscula porque gosto do sol-e-praia (com o Acordo, perdem-se estes hífens), desse tempo de “não fazer a ponta de um chavo”, como se diz na minha terra. Já o outono, mês da nostalgia da malta das rimas e do início da chatice da gabardine, esse merece amplamente ser amesquinhado com a minúscula. E, na minha liberdade de cidadão, continuarei muitas vezes a dar deliberados pontapés na gramática nova. Como, por exemplo, a acentuar, orgulhosamente o A (como a porta 10A) na frase “ninguém pára o Sporting”. Pode não ser verdade, mas é assim.»
Do nosso leitor Francisco Seixas da Costa. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.

Como se escrever correctamente, dando ao AO90 o lugar que lhe pertence: o de lixo imprestável, fosse um “vício antigo”… Desconsiderar liminarmente quem pensa de modo diverso é já prática muito comum entre os seguidores dessa mistela indefensável, tomar como cedência a um vício a adopção das boas regras e como “viciado” quem respeita a boa ortografia é apenas mais um sinal – como se fosse necessário – da incapacidade de defender, racional e fundamentadamente, esse aborto.
Mesmo que se seja um embaixador com “mundo”.
Costa
Ó Costa,
o meu francês anda tão mauzinho que me lembrei da guerra da “bonne”, que congeminava a troca de talheres ao patrão como uma tomada da Bastilha.
O vendaval está bom para apanhar bonnés.
Vou ali e já venho.
Eu tenho, sabe, crescentes e cada vez mais insuportáveis dificuldades em tomar como de “bonne guerre” a atitude de quem persiste em defender ou pelo menos aceitar pacificamente o AO90, depois de todo este tempo já passado e ao longo do qual a iniquidade da coisa foi tão copiosamente demonstrada.
Porque só consigo enquadrar essas pessoas em três categorias: a de quem, mesmo que (evidentemente) de forma inconfessada está enfeudado a interesses deletérios e por isso indignos de consideração; a de quem, mesmo que sem entusiasmo, mesmo que a contragosto, aceita o AO90 como um mal menor e necessário, prontificando-se com isso a abdicar do respeito e orgulho pelo legado cultural, de identidade, de rigor científico, de evolução sedimentada que o seu idioma – se devidamente estimado – encerra, recusando-se a ver que o objectivo unificador que tudo parece justificar é, afinal, tão claramente impraticável como fundamentalmente inútil, jacobinamente absurdo e inaceitavelmente humilhante; a de quem é pura e simplesmente estúpido, inculto, boçal e por isso acolhe como bens supremos e necessariamente bondosos tudo o que lhe seja apresentado como “moderno” ou “simplificador”.
Face a quem eu me sinta forçado a integrar numa, pelo menos, dessas três categorias, é grande – muito grande – a minha dificuldade em tomar como de “bonne guerre” (credora da minha compreensão, do meu respeito, legítima ainda que diversa do que eu faria) a sua actuação.
Costa
Ah … eu acho muito mal as Donas Estações do Ano e também os Srs. Meses, terem sido reduzidos à mais cruel insignificância ao perderem assim, do pé pra mão, a letra capital. Absurdo. E os hifens? Difícil viver sem. A graça dos tracinhos saltitantes entre letras … enfim, assim se esvai todo o glamour de uma língua que, não sendo, embora, tão boa para filosofar quanto o alemão … fez de cada português um poeta. Agora, não sei, não …
Convinha fazer, ao menos, uma pequenina ideia dos hífenes (que no Brasil tanto são hífenes como hifens) que o AO mantém. Logo por aí se vê que maravilha de coisa que nos calhou em sorte.
Do meu artigo «A força e a técnica», incluído no meu livro «Um Novo Portugal» (Fronteira do Caos, 2012):
«(Francisco Seixas da Costa) admitiu no seu próprio blog que não gosta deste AO porque “está cheio de incongruências, tem soluções menos boas e induz, por vezes, à confusão”, mas que, porém, “como cidadão, sendo o Acordo uma lei da República, acho que devo cumpri-la, goste dela ou não”! Ah, “valente”! Só faltou acrescentar “a bem da Nação”! Parece que “temos” homem! Ou será que é “omem”?»
“Já o outono, mês da nostalgia…”
Usa-se hífen:
– Nas palavras compostas por justaposição cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido:
ano-luz, porta-chaves, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, guarda-noturno, norte-americano, sul-africano;
afro-asiático, primeiro-ministro, segunda-feira, guarda-chuva, etc.
Nota: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente:
girassol, madressilva, pontapé, paraquedas, etc.
– Nas palavras compostas que designam espécies na área da botânica e da zoologia, ligadas ou não por preposição: couve-flor, erva-doce, feijão-verde, brincos-de-princesa, etc.
* Em topónimos compostos iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigos:
Grã-Bretanha, Abre-Campo, Entre-os-Rios, Trás-os-Montes, etc.
Não se usa hífen:
* Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais (salvo algumas exceções já consagradas pelo uso, como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, à queima-roupa):
cão de guarda, fim de semana, sala de jantar, cor de café com leite, cor de vinho, etc.
Sandra Duarte Tavares :: 29/11/2010
(Cara, cadê a simplificação? Só se fôr no “adjetival”…)