Extinções e mudança: uma polémica


Luís Naves,

brontosaurus.jpg

 

André Abrantes Amaral considera aqui que interpretei incorrectamente o que escreveu. O autor afirma que “os objectivos do 25 de Abril se esgotaram em 1986”, pois o “regime saído de 74 não foi capaz de evoluir”. Mas este é o ponto que tentei criticar, sublinhando que vivemos em contexto europeu e num país industrializado com democracia normal. Após a resposta continuo sem compreender a razão para o autor separar o antes e o depois de 86. Julgo que se refere à adesão europeia, que foi um dos maiores triunfos do 25 de Abril.

Um regime que não evolua tem falta de flexibilidade e resiste à mudança. Não parece ser o caso português, pois nos últimos 40 anos, a sociedade sofreu uma transformação acelerada e sem precedentes. Por outro lado, André Abrantes Amaral acusa-me de escrever um texto politicamente correcto, embora sem definir o que é isso. Será politicamente correcto pensar que esta mudança resultou da adesão europeia, por sua vez proporcionada pela liberdade do 25 de Abril?*

“O regime não dá respostas”, considera o autor, centrando a análise na questão da dívida pública: o desenvolvimento foi conseguido à custa de uma dívida que se transformou numa ameaça ao desenvolvimento, diz. Esta ideia também é difícil de sustentar, já que em 2006 a dívida pública portuguesa rondava 63% do PIB, o que então dificilmente se podia considerar um nível insustentável. Claro que os erros de política já lá estavam, também se pode afirmar que essa dívida era superior ao nível permitido pelos compromissos europeus, fora a parte escondida, mas o facto é que havia países mais desenvolvidos com proporções bem superiores.

Enfim, sendo recente, a dívida que nos levou ao resgate e agravou de maneira dramática a nossa passagem pela crise não parece resultar do carácter do regime. Os erros políticos que a causaram têm proprietários. As responsabilidades não são difusas e não podem ser atribuídas a um sistema que, englobando toda a gente, desculpa toda a gente.

 

2

Insisto: o regime político que resulta do 25 de Abril é normal no quadro europeu e esse é o maior elogio que se lhe pode fazer. Os objectivos de 74 foram cumpridos: banalidade democrática e problemas suportáveis. As clivagens parecem irrelevantes (nem a crise causou insurreições), o que explica a falta de debate político: lembro que na campanha eleitoral britânica também não há discussões por aí além e os candidatos se entregam a uma estranha obsessão com as selfies; há ainda exemplo de países menos felizes onde o debate político é sintoma de profundas divisões sociais, religiosas ou étnicas, mas não é esse o modelo que queremos.

O ponto que mais me incomoda nos posts que tentei criticar foi a tentativa implícita de atribuir a crise que atravessámos aos defeitos do 25 de Abril. Além disso, a ideia que paira nestes textos conduz à necessidade de se pensar num novo regime. Precisamos de políticos mais competentes e círculos uninominais? Provavelmente, apesar de alguns distritos serem quase círculos uninominais e isso não mudar muito as práticas habituais em relação aos candidatos partidários ou a actuação dos eleitos no parlamento. Precisamos de contas equilibradas e menos pobreza? Claro, mas pergunto se isto não se pode fazer sem alterar o sistema político. O que impede o aparecimento de novos partidos, de movimentos cívicos, de reformas económicas? O que impede o aparecimento de novas ideias? O regime saído do 25 de Abril não se adaptou à mudança? Pelo contrário, ele permitiu grandes alterações na sociedade portuguesa. Os dinossauros é que nunca se adaptaram ao seu século e acabaram extintos (o Estado Novo, a Primeira República, a Monarquia Constitucional). Não quererá Abrantes Amaral explicar melhor o que o leva a dizer que estamos perante outro dinossauro?

 

* para mim, o politicamente correcto é uma perversão da linguagem que altera o sentido das palavras e nos impede de ver o óbvio. Julgo estar inocente.

0 comentários em “Extinções e mudança: uma polémica”

    1. O 25 de Abril não tem culpa(senão fosse o 25 era outro dia qualquer)mas sim os personagens e partidos que “tomaram conta” do regime saído do imbróglio pós abrilesco(começando logo a 25 de Abril até ao 25 de Novembro)tendo nós como consequência um Estado semi-falhado(para ser simpático)que nem é Socialista nem é liberal-capitalista,(talvez falte um verdadeiro partido social-democrata)e onde se criou as condições para a instalação da corrupção,da mentira e da mediocridade.

  1. O Regime do 25 de Abril é Populista, e vive de prometer sempre muito mais do que aquilo que pode dar, vivendo da ignorância do povo que fomenta por via dos media do regime…

    Que alguém como José Sócrates tenha subido ao topo do Partido do Regime foi um sintoma, não uma causa dos nossos problemas.
    E essa causa é a visão do mundo que a cultura do 25 de Abril criou durante 40 anos. Populismo desenfreado.

    Só se ganham eleições nestes 40 anos com défices, constantes défices, que só foram possíveis devido à baixa dívida publica vinda da Ditadura.
    Ironia da História, a Democracia provavelmente sobreviveu por causa das contas sãs vindas da Ditadura.

    Para demonstrar a irracionalidade do regime passar de 15% de Dívida Publica para 60% não foi suficiente, subimos para 130% aos primeiros ventos contrários. Pois era preciso manter o simulacro, a aparência em vez de enfrentar a baixa produtividade para o que gastávamos.

    Se a Democracia tivesse mantido os 15% de Dívida vinda da Ditadura aí veríamos quanto duraria o regime, na cultura que construiu.

    Note-se que défices sucederam durante uma parte do período mesmo com a bonança dos subsídios da União algo que não existia na Ditadura.

    Como prova desta cultura ninguém do complexo Político-Jornalista alguma vez defendeu 0 Zero Défice em Democracia.

    Mas o futuro é:

    – Zero de défice
    – Menos subsídios
    – Pressão demográfica

    No lado positivo teremos a evolução tecnológica, mas da qual nós somos muito pouco responsáveis. Aliás é a maior razão para a nossa melhoria de vida nestes 40 anos, nada teve que ver connosco.

  2. Caro Luis,
    o antes e depois de ’86 deve-se, em meu entender, unicamente à oportunidade perdida, feita pelo sr. Silva – primeiro-ministro nesse ano, que, com a lenga-lenga do «bom aluno», desbaratou a oportunidade que lhe foi oferecida de bandeja pelo sr. Soares: a integração europeia! Os nossos males de hoje, resultam, em muito, do mau aproveitamento, como se deve recordar, desse «novo ouro do Brasil» que foram os fundos comunitários, e, como muito bem diz o sr. Abrantes, iniciou-se em 1986!
    Sobre as considerações sobre o nosso actual regime que esse senhor faz, aproveito o texto do «el comandante» do sítio onde, esse senhor, escreve: «seria expectável que os “abrantes” tivessem mais tempo para verificar os dados. Verdade seja dita que essa nunca foi a sua preocupação primordial.»
    In: http://oinsurgente.org/2014/10/15/um-abrantes-sera-sempre-um-abrantes/
    A definição está dada!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *