O maior espectáculo do mundo


modosdever,

A troika ainda não cedeu a deixar cair a nova contribuição sobre as reformas, o que levou o primeiro-ministro a admitir aplicar a medida que o líder do CDS disse ser inaceitável. Mais uma encenação. Nem Passos Coelho esteve alguma vez a sério sobre um eventual recuo no ítem nem Paulo Portas, basicamente interessado em manter a cabeça à tona da água, realmente convencido que o PM ou a troika cederiam ao seu protesto. Mas vamos ver. Paguei bilhete, e bem caro, e quero assistir ao espectáculo até ao fim. 

Temos?


modosdever,

Temos que pagar. Temos que cortar. Temos que compreender. Temos que trabalhar. Temos que ver, ouvir e calar. Temos que deixar. Temos que emagrecer. Temos que ceder. Temos que vergar. Temos que obedecer. Temos que aguentar. Temos que nos resignar. Temos que rezar. Temos que fazer filinhas de gente caladinha, calminha, enfiadinha, disciplinadinha, de nariz no chão. Temos… Temos… Temos…

Blogue da Semana


modosdever,

 

Uma casa na folhagem, suspensa num céu de pássaros, poesia e oxigénio, uma ilustração de liberdade. Espreitem que tem lá gente – Sara’s Illustration Blog. Animadora, da fornada da Arts University College at Bournmouth de 2009, Sara Naves trabalhou por exemplo no Kali, o pequeno vampiro, da ultra-premiada Regina Pessoa, nomeado para a melhor curta dos Annie Awards, os prémios da indústria da animação americana. Também ilustra. Também ensina – na Universidade do Algarve. É o meu blogue da semana.

Em jeito de abraço


modosdever,

Era culto sem espalhafato, ladino e mordaz, e, a par disso, um ser leal e atento e um homem sem vergonha da doçura. Daí termos ficado cúmplices sem saber de quê. A sua ironia às vezes incomodava-me mas o seu humor repunha a qualidade das tantas conversas que tivemos, olhos nos olhos, dos Açores a Gaia, que era como gostava de olhar para o mundo e as pessoas. Ofereceu-me das melhores gargalhadas que já dei quando, uma vez, a meio da doença, o acompanhei a mudar um penso, e, à pergunta da recepcionista da clínica sobre o nome, respondeu prontamente e com o ar mais sério do mundo: “Júlio Machado Vaz.” Não me aguentei. “É que às vezes nos confundem.” E ele a seguir, que também gostava de rir, gargalhou também. Gostava de falar, mas ouvia como vivia: com a alma toda. Firme nos seus motivos, sabia ainda perder – “Touché”. Ele era assim, o João, um amigo cheio, de quem me recuso a despedir. Até porque tínhamos combinado, há poucas semanas, um café para um dia destes…

A inventona da Horta


modosdever,

Quem não acompanhou o noticiário sobre a alegada tentativa de agressão por parte de um jornalista, pouco depois identificado como o Nuno Ferreira, antigo repórter do PÚBLICO, ao ministro Relvas, na Horta, pode arrumar as ideias no Blogue do Provedor, do diário. José Queirós resume o essencial do processo inventivo, cujos pormenores foram mudando ao longo dos dias. É fácil ver quem fica mal no retrato. Mas é preciso ir mesmo – mesmo! – até à última linha. 

Malditos mensageiros!


modosdever,

A fabricação de inimigos internos é uma escola antiga. Já pagámos para isso. Vem sempre de cima e tem sempre o mesmo propósito: virar o bico ao prego. E se os maus são os jornalistas, tanto melhor. O Nuno Ferreira a tentar agredir o ministro Relvas? Espantoso, para quem trabalhou com o primeiro e acompanha a “obra” do segundo. O repórter, antigo quadro do Público, vai hoje a tribunal, na Horta, onde, nas suas deambulações pelo mundo tropeçou com as do ministro pela política, momento em que terá querido esmurrá-lo – diz quem o acusa. Mas a menos que o polvo tenha tomado de assalto a própria justiça, sairá obviamente absolvido da maquinação. Isto está bonito, está!…

Mas que cambalhota!!


modosdever,

“A palavra racionamento, no jargão da política da Saúde, Economia da Saúde e Bioética é um termo absolutamente benigno, e significa otimizar os recursos racionalmente, não desperdiçar e não haver ineficiência”, ou seja, não significa cortar no essencial. Extraordinário! Mas que cambalhota! Miguel Oliveira da Silva é bem um artista português! Palmas! Quando sair do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida tem emprego assegurado.

Cama 306


modosdever,

… não estou aqui, imagino que não estou aqui, estou numa cama de um hospital, a cama 306, já não tenho a inteligência ligada à saúde, tenho só o corpo ligado a tubos e a esperança ligada à vida, imagino que os médicos se enganaram, ou que não previram tudo, que tenho mais do que dois meses de vida, imagino um milagre, eu, finalmente entre a morte e a fé, imagino o meu neto que nascerá dentro de três meses, aquele abraço que devo, o muro que não acabei de mandar abaixo, a novela a que só me falta um capítulo e mais umas coisas que o meu sentimento de eternidade foi adiando; imagino que me vieram perguntar, um senhor muito gentil, muito, muito compreensivo, do economato, se não me importava de morrer no prazo certo, ou se possível mais cedo, pois gastam comigo fortunas devidas à dívida soberana. Não estou aqui, estou numa cama de um hospital, público, português, corre Setembro de 2012, já não tenho a inteligência ligada à saúde, apenas rezo, eu, que sempre achei a oração como um desperdício da razão, para que os médicos se tenham enganado, o que às vezes acontece, ou haja um milagre, o que também não é raro, ou então para que me apague como uma pessoa e não uma rubrica do Orçamento de Estado. 

Comissão de Serviço XXIV


modosdever,

O ÁS DE PAUS

 

Por qualquer motivo, naquele dia fui atrás dos pés até à caserna da minha secção, um lugar esconso nas traseiras do DRM.

Depois do pequeno quintal, uma nesga de luz debaixo da porta mostrava que estavam todos ainda a pé; eram nove da noite, hora incomum para visitas em Moçambique.

Como também ouvi um sussurrar, bati.

– Quem é? – perguntou uma voz, que não percebi logo de quem, enquanto o sussurro morria.

Respondi e abriram-me a porta.

Encontrei todos os soldados, todos pretos, à volta de uma mesa, com um baralho de cartas, no meio, virado sobre um ás de paus. Jogavam. Mas todos estranhamente sentados sobre papéis, que lhes saíam indiscretos de debaixo do rabo.

O pouco à vontade do grupo convidou-me depressa a arranjar uma desculpa e a sair. Só meses depois viria a saber que não interrompera um jogo mas uma reunião frelimista.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Blogue da semana


modosdever,

 

A imagem certa é a que ilustra ou a que também informa? Baaah!… Não vamos entrar na discussão! Deixemos isso aos seminários. Sugiro antes que cliquem no 400ASAS, de Adriano Miranda, aliás um dos 12 do projecto 12.12.12. Trabalhei com ele. E quantas vezes me ajudou a olhar para as coisas! “A fotografia não é gira ou bonita. Não é adorno. A fotografia é agressiva e fere”, explica lá. “Quando temos ministros com canudos tipo aprenda inglês em 24 horas ou se suspende a Constituição por um ano, não podemos brincar aos postais.” AM não brinca aos postais. A foto de cima é dele. 

Comissão de Serviço – XXIII


modosdever,

[Motivos passageiros descontinuaram estas memórias, que agora voltam]

 

MAUSER

 

O 7 de Setembro (1974) foi uma data traumática para Moçambique. Mas para mim também.

Aborrecidos com os acordos de Lusaca, grupos de naturais brancos, incluindo soldados, quiseram travar o processo de independência e instaurar uma solução rodesiana, ocupando instalações importantes, por exemplo as emissoras.

Soares e Machel tinham apertado a mão. Crespo estava a caminho de Lourenço Marques para integrar o Governo de Transição. Para o engenheiro Jardim e outros descontentes o tempo esgotava-se.

Confusão. Revoltosos e grupos da Frelimo desataram as tiros uns nos outros, opositores da independência tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique. Daniel Roxo, o Diabo Branco, líder das milícias do Niassa, chamou a sua gente. 

Em Nampula, fazendeiros e familiares cercaram, num anel, o emissor da estação, mulheres e crianças à frente. Tensão ao minuto.

Os quartéis fecharam os portões. A ordem foi que nos armássemos para manter as unidades e neutralizar a revolta.

Foi o que fiz também, claro. O problema é que a arma que me puseram nas mãos, uma velha Mauser, estava emperrada. Que nervos!

Valeu-me – valeu-nos a todos! – um expedito oficial que, mandado reocupar o emissor da RCM, não longe dali, subiu a um poste, cortou a corrente aos microfones e o sonho rodesiano morreu por ali. 

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

O Correio da Manhã no seu melhor


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Portugal esteve no sábado à beira de uma revolução, segundo o Correio da Manhã de segunda-feira. Escrevo-o só hoje porque tive de beber entretanto duas grades de água das pedras. Quem leu nas páginas 8 e 9 do tablóide o que preparavam quatro grupos de “radicais violentos” com certeza que se benzeu no último parágrafo. Agentes das Equipas de Reacção Rápida apreenderam – ao fim de duas horas – um arsenal a que só faltava uma bomba de neutrões – oito escudos artesanais, vinte e três paus, quatro capacetes, duas tochas, 60 petardos, uma garrafa de ácido muriático e alumínio para o fabrico de bombas artesanais, um megafone, cinco latas de spray, um saco de smoke balls, um par de caneleiras, três canivetes, 33 bandeiras verdes, pretas e vermelhas e cotoveleiras. Parece que também havia “explosivos”. Depois do cerco do perigoso exército, as forças de segurança detiveram um indivíduo não identificado por trazer consigo um “petardo” e um francês (desta vez não era um alemão, nada mau) no qual descobriram uma “faca” de dimensões não ditas (um dos canivetes?). Os restantes “radicais” puderam voltar para casa tranquilamente com os restantes 59 petardos – que deverão reaparecer na próxima “notícia”. Os revoltosos mostraram bem do que são capazes mandando ovos e balões de tinta contra a fachada do CDS, no Largo do Caldas. Fontanário do CM: os acostumados “relatórios” e “fontes” policiais sem nome nem departamento. A fechar o vómito, quatro caixinhas sobre outros tantos “movimentos de risco”, incluindo os muito, muito, muito perigosos tocadores de tambor Ritmos de Resistência – portugueses, do que escapámos! – da altamente subversiva “rede internacional libertária” GAIA. Extraordinário! Com correios assim as nossas polícias e quem as usa não precisam nem de conferências de imprensa nem de comunicados para criar oportunas diversões. 

Comissão de Serviço – XXII


modosdever,

O BLUFF

 

Todos de acordo, decidimos ir jogar cartas para a prisão militar.

No recinto, do qual R. era nessa semana o oficial de serviço, conviviam tipos com azar, outros com menos azar e por fim gente que se habituara a viver sem nada a perder.

Suspenso o recolher obrigatório para uma noitada de póker, debaixo de um telheiro onde um dos condenados pintara a Última Ceia, com um dos apóstolos com o braço cheio de relógios, ganhos às cartas, a coisa correu bem durante um par de horas.

O problema foi que às onze da noite os nossos companheiros se recusaram a regressar  às celas, faltando ao acordo que tínhamos feito.

Nampula estava quente e o céu estrelado. 

Da parte de fora, os guardas juntaram-se e foram buscar as armas. Pediram a R. que os deixasse entrar, o que ele recusou afirmando que resolveria o tumulto.

Num pequeno diálogo com os chefes do que não chegou a ser um motim, o problema foi sanado ao fim de poucos minutos sob a ameaça de que não voltaria a haver nem mais noitadas nem mais póker.

Ainda hoje estou para saber se ganhámos ou perdemos esse último jogo, pois nunca mais houve soirées nem cartas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Carlos Fuentes


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Carlos Fuentes. Sangravam-lhe os dedos quando escrevia, para mais quando o fazia sobre o México. Era inovador, ousado, corajoso. Leiam o Adão no Éden, acabado de editar entre nós e vejam pelos vossos próprios olhos. Era um escritor comprometido com o seu mundo, que é também o nosso. Topava os esquemas e arrancava máscaras, e isso a reinventar sempre a escrita. Esta noite olho para a minha estante e não me apetece ler sequer. Acho que vou sair e beber um copo. A ele. 

Comissão de Serviço – XXI


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LACRIMA CHRISTI

 

Nunca tinha dormido numa igreja mas a experiência acabou por não ser má.

Era véspera de Natal e decidira deitar-me mais cedo. Mas mal fechava os olhos ouvia ao longe, na metrópole, copos e risos, e alguém a pedir que lhe passassem o peru.

Por isso voltei a vestir-me e saí para a cidade, deserta, entre grilos nos quintais e cânticos por detrás das janelas. Passava da meia-noite.

Com tudo fechado, abri a capela militar e instalei-me na sacristia. Pus Haendel. Mas o Messias ainda me deprimiu mais, motivo porque abri um armário e saquei de lá duas garrafas de vinho de missa Lacrima Christi (Adriano Ramos Pinto, se bem me lembro) – as que havia.

Acordou-me horas depois o capitão e padre Valente de Matos, que tinha uma forma muito persuasiva de pedir as coisas:

– Não sei onde vai arranjar vinho igual, ou, vá lá, um que se beba, mas tem até ao meio-dia para mo trazer.

Já não me lembro onde desencantei o vinho, mas Nampula teve a sua Missa de Natal.  

(Notinhas de uma guerra engolida)

Uma imensa lição de vida


modosdever,

 

“A coragem que se atreve sem reconhecimento, sem a atenção dos media, é uma coragem que nos dá humildade e inspira e reforça a nossa fé na humanidade”, escreveu uma vez Aung San Suu Kyi [Cartas da Birmânia]. Quarenta de 45 lugares postos a concurso podem não parecer muito, atendendo aos mais de mil que a junta militar birmanesa controla nas duas câmaras do Parlamento. Mas para quem soube esperar é uma tremenda vitória da paciência sobre a cólera. Esta mulher extraordinária é uma imensa e inspiradora lição de vida. Ousou sem esperar por reconhecimento, e sem cólera, e vergou um dos mais ferozes regimes militares de sempre. Haja quem aprenda.

Cadáver esquisito (7)


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1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA

7

O MEDALHÃO

 

Eduardo não pregou olho, atento ao relógio de ponteiros brilhantes e ao trinco da porta da rua, ruído que conhecia bem por motivos que não vêm agora para o caso.

À hora que se arrependia de não ter ido também aos Freixos, desesperava João com as instruções amorosas da bifa – to the left, to the left – e pela tardança que se fazia para as escavações das ruínas, donde lhe chegava agora um gemido de vem, vem, vem, a que, num salto, decidiu acudir; ao sinal luminoso da torre juntava-se o sonoro.

– Sorry, tenho de ir.

– What the fuck? – queixou-se Stella.

Por isso, quando ouviu o trinco, e logo a seguir outro, Eduardo saiu para o corredor e entrou sem bater no quarto de João, que obviamente não o esperava às 4 da manhã:

– FO-FO-DA-SE, PÁ! – soltou o recém-chegado.

– Shuuuuuu! Caaalma!

Valeu aos dois que o interesse de Eduardo em saber como tinham corrido as pazadas correspondia à ânsia de João em mostrar o espólio da noitada; há dias que era só torrões, uma chatice. Até tinham encontrado um clip.

– Olha – convidou, num tom de tensa expectativa, o cavador.

Despejando os bolsos tirou uma moeda de 5 escudos, uma chave ferrugenta, talvez de um cofre, e um medalhão de São Rafael Arcanjo, patrono dos cegos, dos viajantes e dos encontros felizes, que aberto nas costas mostrava um retrato desfigurado pela humidade.

– Tenho de mostrar isto a Vivelinda – disse João.

Tarde. À porta, acordada pelos pequenos ruídos e sussurros que as noites aumentam, a criada, desgrenhada e de camisa de noite, com os olhos esbugalhados postos no medalhão, levou a mão ao peito, deu um grito que arrepiou o solar e caiu como um saco.

 

(Este é o sétimo capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Helena Sacadura Cabral.)