LACRIMA CHRISTI
Nunca tinha dormido numa igreja mas a experiência acabou por não ser má.
Era véspera de Natal e decidira deitar-me mais cedo. Mas mal fechava os olhos ouvia ao longe, na metrópole, copos e risos, e alguém a pedir que lhe passassem o peru.
Por isso voltei a vestir-me e saí para a cidade, deserta, entre grilos nos quintais e cânticos por detrás das janelas. Passava da meia-noite.
Com tudo fechado, abri a capela militar e instalei-me na sacristia. Pus Haendel. Mas o Messias ainda me deprimiu mais, motivo porque abri um armário e saquei de lá duas garrafas de vinho de missa Lacrima Christi (Adriano Ramos Pinto, se bem me lembro) – as que havia.
Acordou-me horas depois o capitão e padre Valente de Matos, que tinha uma forma muito persuasiva de pedir as coisas:
– Não sei onde vai arranjar vinho igual, ou, vá lá, um que se beba, mas tem até ao meio-dia para mo trazer.
Já não me lembro onde desencantei o vinho, mas Nampula teve a sua Missa de Natal.
(Notinhas de uma guerra engolida)

E fizeste tu muito bem, Fernando. Mas que bem escolhido esse nome Lacrima Christi, não há mais adequado para uma missa!
Pena a marca ter sido entretanto… descontinuada.
Acabo de ler, de seguida, todos os seus posts neste blog (que terminologia !), incluíndo comentários seus aos comentários (que português !).
Normalmente não comento o que leio, mas desta vez não resisti. Que bo, para si, e para nós que o lemos, que consiga falar desta “sua vida” com tanta sensibilidade. Continue.
Rosa Maria
(sua homónima, no apelido, e sua contemporânea, na estadia em Nampula, na qualidade de conjuge de um seu homónimo, no próprio e no apelido; Que diabo de português, dirá. Foi escrito com a sensibilidade, e a memória, na ponta dos dedos)
Obrigado, Rosa Maria. É que um dia apercebi-me que as grandes histórias esmagam as pequenas, pelo que decidi salvar pelo menos as minhas, com o jeito e o cuidado que consigo.
Que as suas histórias continuem a chegar-nos com o “jeito e o cuidado” que muito apreciei.
Rosa Maria