A presidência fechada.


Luís Menezes Leitão,

 

Pelos vistos Cavaco Silva acaba de se deixar arrastar pelo desastre em que o Governo se enredou nesta semana em torno da reposição dos subsídios e do diploma secreto sobre o congelamento das reformas antecipadas.

 

Em relação ao congelamento das reformas, Cavaco Silva invoca o “interesse nacional” para promulgar em segredo os diplomas do Governo. Sabemos assim que as regras sobre a transparência na actividade governativa e a liberdade de informação já nada valem e que o Governo e o Presidente se entenderão sempre para aprovar qualquer legislação clandestina, bastando para isso a invocação de uma arbitrária razão de Estado. Podemos imaginar a quantidade de diplomas que a partir de hoje podem ser elaborados e publicados na clandestinidade, de que os cidadãos só saberão quando lerem o diário da república electrónico.

 

Já em relação à reposição dos subsídios cortados (e já agora dos salários também cortados na era Sócrates), Cavaco Silva considera “prematura” a discussão, ao mesmo tempo que se recusa a esclarecer se ele próprio continua ou não a receber esses mesmos subsídios. O problema é que sempre se afirmou — e foi isso que o Tribunal Constitucional sancionou — que esses cortes eram temporários, e o que é temporário tem que ter um limite temporal definido. Afirmar que a reposição dos subsídios, como se diz do Natal, ocorrerá quando um homem quiser, implica ter-se praticado uma monumental fraude aos cidadãos, com o qual o Presidente não deveria contemporizar, enquanto garante do Estado de Direito. Ora, pelos vistos não apenas aceita essa situação, como também não esclarece o seu caso pessoal, quando é absolutamente inaceitável que possa não estar sujeito às mesmas regras que promulgou.

 

Não há nada pior para um político que não compreender os sentimentos dos cidadãos. Mário Soares gabava-se de fazer presidências abertas. Cavaco acabou de fechar a sua.

3 comentários em “A presidência fechada.”

  1. Justas as críticas às Mentiras. Tirando isso só ignorantes pensam que é temporário.

    Se o rendimento do país era Produção+Dívida, Divida que pagava 20% do ordenado de funcionários publicos e pensões obviamente se se tirar o dinheiro dos Mercados é evidente que ou aumenta a riqueza produzida ou os cortes são definitivos.

    Portugal vai ter de mudar. Este Governo está a fazer os possíveis para manter tudo na mesma só mais magro, piorando aliás os incentivos para produzir mais riqueza.

  2. Ao invocar o interesse nacional o Presidente não faz mais que dizer aquilo que grandes traidores e carrascos da História Mundial já disseram.

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