Comissão de Serviço III


modosdever,

UM PRETO EM OSSO

 

O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos.

Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo – sons que se conhecem, enfim, de ouvido.

Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez.

Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.

– Aaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ninguém acudiu, muito menos o criado – a designação que na altura equivalia a um psssssssssst –, também preto, mas este de jaqueta branca, que parara entre as mesas, e as biscas, e os aaaais, com os olhos na rua e a bandeja de cervejas – a aquecerem.

– SERVE, PÁ! Tás a dormir? – mandou um sargento de garganta seca. E estava, há muitos anos. Mas a acordar.

Na rua, o preto, inexistente, deixou de gritar. Levaram-no meia hora depois.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Escritor em greve de fome contra ditadura “benevolente” de Obiang


modosdever,

 

 

Festeje-se depressa a queda de Mubarak, porque há muito a fazer: um escritor da Guiné Equatorial, Juan Tomás Laurel, declarou-se hoje de manhã em greve de fome, durante a visita ao país de José Bono Martínez, presidente do Parlamento espanhol, atraído pelo mesmo que levou lá Luís Amado no ano passado – o aroma inebriante do petróleo do senhor Teodoro Obiang Nguema, cuja ditadura os Estados Unidos consideram benevolente. O protesto foi anunciado pelo grevista, pelo próprio punho, no Facebook e numa carta enviada ao seu editor em Espanha. Merece a pena lê-la e mandá-la c/c ao nosso MNE e a todas as empresas que foram com ele ao coração das trevas do homem que governa a tiro e a tortura os guineo-equatorianos há mais de três décadas. Aqui vai ela, senhor ministro e senhores do Grupo CGD, Grupo Fominvest, Galp, Marfilipe, EuroAtlântico, Grupo Pestana, BKAT Consulting, Alert, Cunha & Vaz Assoc., MSF Engenharia, Soares da Costa, Manuel Costa Alves, ETERMAR, ENSUMECI e ADRIPARTE, SGPS, e ainda representantes dos sectores de actividade Banca, Energia e Ambiente, Petróleo e Gas, Mármores e Granitos, Aviação, Hotelaria, Serviços de Saúde, Gestão de Eventos, Turismo e Telecomunicações, Construção Civil e Serviços. Mesmo que não ganhem nada em lê-la, pelo menos ficam ao corrente, o que poderá vir a ser útil.

Facebook devolve conta a Leslie


modosdever,

O Facebook devolveu esta manhã à chilena Leslie Power a conta que lhe cancelou por ter publicado uma foto a amamentar o filho. O escândalo foi tão grande, que a empresa de Alto Palo não teve outro remédio senão emendar a mão. Mas como se pode ler na carta que mandou à lesada, a rede social, ancorada na leitura que faz da sua Declaração de Direitos e Responsabilidades, insiste na aberração e pede à dona da conta que “não publique fotos que incluam nus, gráficos ou outros conteúdos sexuais”. Isto é mesmo, mesmo doentio. Não dá para acreditar.

Comissão de Serviço II


modosdever,

TIROS AOS PÁSSAROS

 

O inferno não tinha que ser, afinal, um buraco em chamas, com corpos aos estalidos – ai Dante, Dante! Podia ser uma parada com uma bola de fogo suspensa a dez metros da cabeça de cem homens semi-nus, de peitos cruzados por fitas de balas e com cinturas de granadas, acabados de sair da selva, surdos e cheios de arranhões por uma ideiazinha de pátria. – Cem homens, menos um pássaro!

– FORMEM! – Mas a turba, ora, ora!

– A gente tem é fome, ó periquito! Deixa-te de merdas! – “Periquito” era o nome dado aos pássaros caídos do céu, verdinhos e de listas castanhas, tenrinhos e de penas passadas a ferro, que ainda não sabiam onde tinham pousado.

Mas era hora de almoço no inferno – massa guisada –, o que decidiu a coisa; ainda que ao preço de uma porta escavacada, duas mesas viradas, um pronto atropelado e uma gamela entornada.

– Bom dia, Moçambique! Piu!

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Facebook volta a censurar


modosdever,

 

Uma psicóloga chilena, Leslie Power, pôs no Facebook uma foto onde aparece a dar de mamar ao bebé. Resultado: a rede social cancelou-lhe a conta por considerar a fotografia ofensiva e violadora das condições de uso da empresa. Esta é apenas a última da teia de Zuckerberg-Saverin. O escândalo está na rua. Enquanto nos fixamos nuns ditadores, outros, não menos perigosos, esfregam as mãos de contentes – quando não estão a contar dinheiro.

Comissão de Serviço I


modosdever,

[Pus aqui uma foto, mas tirei-a; é só minha]

 

ADEUS ETERNIDADE

 

– Vá, pá. Mexe-te! A guia?

Era Primavera e cheirava a querosene.

No chão ficava um grupo aos gritos de nem mais um soldado para as colónias, e outro, o da minha gente, que à medida que eu voava – tinham-me tirado umas asas de algodão e trocando por umas de ferro -, ia ficando mais pequeno, e mais distante, um mundinho que provavelmente nunca tinha existido.

Então um avião era aquilo!

Fora-se o garotinho de calções, o pião, as caricas, os cromos; as tranquilas meias-estações, as fatias recheadas [depois dou-vos a receita], as baínhas-abaixo, os Verões, os amores – dos muito-a-medo aos totais e para-sempre -, as batatinhas fritas da praia de São Martinho. As tardes na ITAU.

– Adeus eternidade!

Tinha deixado a cama feita.

Levava no bolso mais medalhas do que moedas.

– Continuem a comprar-me a Vida Mundial! [Ainda a guardo toda]

Não senti medo – ficaria para mais tarde; senti abandono.

Tinha 21 anos.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

As revoluções JÁ levam muito tempo


modosdever,

O grito de liberdade que alastra no Norte de África e vai no Médio Oriente é galvanizador. É impossível ficar indiferente. Multidões pedem reformas políticas, sociais e económicas JÁ! Mas onde irá desaguar a onda é um mistério. Anos depois da conferência de Viena sobre a Declaração Universal de Direitos Humanos – a quem ninguém ligou peva, literalmente – as teses relativistas, defendidas, entre outros, pela generalidade dos países árabes, cedem perante as universalistas. Mas por muito que isto signifique um avanço promissor ao encontro de tudo o que há de mais fundo e comum no homem, há que pensar. O grito mais sagrado das democracias modernas – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – andou até nas ruas de Xangai, durante a Guerra do Ópio, mas não pegou – como se sabe e vê. Os russos saltaram do feudalismo para o comunismo, o futuro-mais-que-perfeito, e tiveram de recuar com a implosão da URSS, desaguando nessa coisa informe que agora têm que é o regime Medvedev-Putin. Pelo contrário, todos os sobressaltos dos países da América Latina, desde as independências, têm um enquadramento cultural, quase diria um alinhamento, bem claro. É bem possível que as revoluções, para produzirem alguns efeitos imediatos, mesmo contando com os passos que dão atrás, tenham de assentar numa matriz e caminhar por etapas, que é o que me escapa nestas aparentemente em curso. Todos os fenómenos políticos têm ancoradoros históricos nas culturas e nas mentalidades, não bastam as motivações. Quais são os destes? Pergunto, porque não sei.

Dentro do tempo, o que é que vales exactamente?


modosdever,


Dentro de uns anos – e não passarão muitos – alguém fará de nós um número, um fantasma, o que quer que seja, condescerá de que fomos importantes sem saber provavelmente em quê, para uma mudança que também não se saberá em que é que deu. Esgravatar no tema pode ser no entanto um bom exercício sobre o valor do efémero antes de passarmos à arqueologia. Vamos ver o que é que Impressões, que vai estrear na Malaposta, tem para nos dizer sobre isso, para além do sangue que sempre correu desde que o homem fez de si mesmo o pior sócio. Porque pelo meio também terá havido momentos bons, digo eu, dentro, sei lá, de um valor cósmico qualquer, raios! Confesso que estou curioso.