UM PRETO EM OSSO
O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos.
Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo – sons que se conhecem, enfim, de ouvido.
Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez.
Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.
– Aaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Ninguém acudiu, muito menos o criado – a designação que na altura equivalia a um psssssssssst –, também preto, mas este de jaqueta branca, que parara entre as mesas, e as biscas, e os aaaais, com os olhos na rua e a bandeja de cervejas – a aquecerem.
– SERVE, PÁ! Tás a dormir? – mandou um sargento de garganta seca. E estava, há muitos anos. Mas a acordar.
Na rua, o preto, inexistente, deixou de gritar. Levaram-no meia hora depois.
(Notinhas de uma guerra engolida)




