O Facebook devolveu esta manhã à chilena Leslie Power a conta que lhe cancelou por ter publicado uma foto a amamentar o filho. O escândalo foi tão grande, que a empresa de Alto Palo não teve outro remédio senão emendar a mão. Mas como se pode ler na carta que mandou à lesada, a rede social, ancorada na leitura que faz da sua Declaração de Direitos e Responsabilidades, insiste na aberração e pede à dona da conta que “não publique fotos que incluam nus, gráficos ou outros conteúdos sexuais”. Isto é mesmo, mesmo doentio. Não dá para acreditar.
Facebook devolve conta a Leslie
modosdever,

Tem que se entender que isto é apenas um exemplo da tara americana com as mamas. A cultura americana está convencida da ideia de que as mamas são uma atraçãos sexual determinante e irresistível, são mesmo o atributo sexual por excelência. Nestas condições, a visão de um terço de mamilo de uma mulher enquanto amamenta é algo de brutalmente sexual. Para um americano isto é evidente. Para qualquer outra pessoa do mundo, é um disparate.
Entretanto, a ironia é que, segundo me diz a minha mulher, que frequenta essas paragens, o Facebook está, de facto, cheio de sexo e de imagens de conteúdo sexual bem explícito…
… Não há-de aquela gente andar aos tiros nas escolas, nos super, no Afeganistão!…
Admitindo que o Facebook possa estar cheio de sexo, a verdade é que a falha em fazer cumprir as próprias regras não significa que tais regras deixem de ter validade.
“No utilice el sitio para contactar con personas que no conozca. No puede enviar solicitudes de amistad ni mensajes no deseados a desconocidos”
Mas isto não é a essência do facebook?? Ou alguém acredita que pessoas com cinco mil “amigos” os conhecem todos pessoalmente?
Claro. Tal como também é a essência do Facebook mostrar-se aos amigos aquilo de que se gosta, incluindo, nalguns casos, objetos sexuais explícitos (sítios pornográficos, etc).
Os americanos são loucos.
Enviar pedidos de amizade ou mensagens não desejados, sobretudo a pessoas desconhecidas, cai no âmbito do assédio (harassment). Aqui, o Facebook caminha sobre o fio da navalha, precisamente porque a sua expansão resulta, tanto de se encontrar amigos feitos, como de se fazer novos amigos. Todavia, o site tem de se proteger contra a possibilidade de haver queixas por assédio. E só age se elas forem apresentadas.
Por outro lado, concedo que a referência desta condição específica na carta tenha segundas intenções, visando fazer pressão para que a queixosa não desencadeie nenhuma campanha maciça de apoio à sua causa.
A regra/compromisso no Statement do Facebook:
3.7. You will not post content that (…) contains nudity (…).
Não vem lá definido o que se deve entender por “nudity”, mas, pelo senso comum, deduz-se ser a apresentação das chamadas partes íntimas de forma desnudada. Nas senhoras, para além da genitália, os seios.
Pergunto: alguém se opõe a este princípio, tal como está formulado? Alguém o considera uma aberração? Revela falta de ética? É atentatório das liberdades e garantias de um qualquer cidadão do mundo?
Talvez o problema não esteja então na regra, mas na sua aplicação ao caso em concreto.
Mas novamente pergunto: objectivamente, o dito seio da dita senhora apresenta-se, ou não, desnudo?
Talvez o problema não esteja então na regra, nem na sua aplicação objectiva, mas em não se ter em conta elementos circunstanciais, particulares, concretos e subjectivos, pois que cada caso é um caso.
E de novo pergunto: alguém acha possível, exequível, uma gestão em massa de conteúdos através de juízos casuísticos?