
A resolução não é grande coisa, mas dá para perceber quem são os protagonistas deste outro Presépio, de acordo com a Igreja Metodista da Califórnia. E o recado, em jeito de aviso às famílias que procurem saltar o muro de Trump, parece óbvio.

A resolução não é grande coisa, mas dá para perceber quem são os protagonistas deste outro Presépio, de acordo com a Igreja Metodista da Califórnia. E o recado, em jeito de aviso às famílias que procurem saltar o muro de Trump, parece óbvio.
Gente boa, sobra por aí alguma lágrima, pequenina que seja, uma gotita, também pela sem-abrigo cujo filho foi encontrado numa lixeira? Só para saber. Não é para trocar nobrezas. Só para adivinhar em que grau de seca vamos chorando o mundo.
Lembram-se do caso dos agentes da PJ acusados de terem torturado Leonor Cipriano no quadro da investigações sobre o desaparecimento da filha? Então também se lembram que o tribunal que os julgou, o de Faro, deu como provada a acusação declarando-se no entanto incapaz de saber quem foi e de o condenar. Pois o corporativismo policial voltou a funcionar: o tribunal de Guimarães absolveu ontem os onze agentes da PSP acusados de agredir um adepto do Boavista, em 2014, deixando-o cego, dando como certa a agressão mas não tendo, também aqui, conseguido saber quem foi, limitando-se por isso a puxar as orelhas a todos. Recado para aquele – ou aqueles – que tiverem as orelhas mais quentes do que os outros: vocês metem nojo.
O coração também bate nas pedras. É muito, muito simples.
Estava quase a largar este Javier Marías, este de Quando os Tontos Mandam, mas decidi continuar. Chateiam-me as prosas aristocráticas, moralistas. JM daria um grande bloguista. E decidi isso porque a certa altura o homem, traduzido em mais de quarenta línguas, o que deve querer dizer que a minha irritação vale o que vale, escreve isto: “Se se vetasse o exercício das suas tarefas a todas as pessoas com um antecedente de depressão ou de desequilíbrio leve (crise de ansiedade, por exemplo) não sobraria ninguém apto para trabalho nenhum”. É verdade. Ia na página 49. Vou continuar, mas não prometo nada: o livro, as crónicas que Marías publicou no El País Semanal entre 2015 e 2017, tem 304.
Não sou um grande blogonauta. Em geral falta-me o tempo, o jeito e ultimamente até a paciência. Mas quando nada disso acontece revisito um ou outro blogue entre os que acho que valem a pena. É o caso do 2 Dedos de Conversa. Os posts de Helena Araújo são notas frescas, memorandos, impressões vivas sobre concertos ou festivais que precisam de determinados olhares, como a Berlinale 2019. (São tão pouco comuns estes olhares!) Sim, o 2 Dedos é um trabalho notável, tranquilamente culto e maduro “sobre o que nos desaquieta”. É um determinado olhar.
Sabiam que hoje é o Dia de São Lourenço e ainda o das Cinco Chagas do Senhor? Que é Quarto Minguante? Que este mês os dias aumentam em Lisboa 1 hora e 2 minutos e no Porto 1 hora e 8 minutos? Que as mulheres nascidas por agora deverão ser belas e os homens inconstantes? Que é o tempo de semear alface e alhos-porros? Que este é o Ano do Porco, o da Tabela Periódica e ainda o da Moderação? Que o céu rosado ao fim do dia pressagia bom tempo? NÃO SABIA? O tempora, o mores! Não sabia porque não lê o Borda d’Água, que faz anos, 90 anos, quase um século a trazer-nos tudo o que precisamos de saber sobre astros, oráculos, dias de mercado, santos e legumes, com pequenas incursões sobre o que somos e perdemos tempo a fingir. Parabéns Mineeeeerva!!

Os juízes dos juízes concluíram que o desembargador do Porto, Neto de Moura, esteve mal nos seus infelizes considerandos de há dois anos. Mas ficaram-se por uma advertência registada. Nada mau, quando se chegou a temer que a coisa fosse arquivada ou assim. Mas nada bom quando a decisão foi tomada com muita dificuldade e o juiz-arguido, condenado por ter usado expressões “ofensivas, desrespeitosas e atentatórias dos princípios constitucionais e supraconstitucionais da dignidade e da igualdade humanas”, nas palavras do presidente do Conselho Superior da Magistratura, António Piçarra, anunciou que vai recorrer. E quando a justiça portuguesa é criticada pela brandura com que trata a violência doméstica que neste princípio do ano já matou dez mulheres.
O Conselho Superior da Magistratura recusou arquivar o caso do juiz Neto Moura, do Tribunal da Relação do Porto, que em 2017 desvalorizou uma agressão grave praticada pelo marido contra a “mulher adúltera”. Muito bem. Fiquemos agora preocupados por a decisão ter sido tomada por uma diferença de um único voto – oito a favor e sete contra. E receosos ainda por a eventual punição em que o homem incorre poder ficar-se por uma mera repreensão e o correlativo risco de continuação dos actos repreendidos. Neto Moura assinou, com a sua colega Maria Luísa Arantes, um acórdão com considerações tão repugnantes que ainda dão náuseas lembrar.
Estive mais de uma vez para escolher o Horas Extraordinárias nesta rubrica. Por isto ou por aquilo nunca aconteceu. Calhou agora, atraído outra vez pela escrita da autora, a Maria do Rosário Pedreira, uma escrita sincera, limpa de vaidades, limpa de moralismos, para falar apenas de dois dos pecados da blogosfera, e ainda por me trazer novidades como a publicação, para breve, de alguns dos meus maiores, como Frost ou Conrad. Fica reparado o adiamento.
À vista do que se propôs, e do que aí está, parece um texto morto. E no entanto ninguém pode garantir que sem ela, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, essa velhinha sorridente que faz hoje anos, 70, a coisa não estivesse mais preta. Apesar de tudo nascemos hoje mais iguais em dignidade e em direitos do que em 1948. Os direitos humanos já não são só de barões, de homens, homens brancos, branquinhos e baptizados, e europeus, graças a Eleanor, P. C. Chang, Cassin, Malik e outros, um saco de gatos por quem na altura ninguém deu muito. Faltam ainda muitos direitos no texto, pois faltam, os de terceira e os de quarta geração, e até já se fala dos de quinta, mas eles virão todos, é uma questão de tempo mesmo que não calhe no nosso. E que o direito à busca da felicidade seja um deles pois não somos menos do que o bom povo de Virgínia. Não sei se se andou pouco, sei que se andou um bocado e só não se irá mais longe se a marca de água dos dias que correm, o pessimismo, falar mais alto. Há pactos, ainda hoje vai nascer um em Marraquexe, ainda que coxo, e instrumentos de acompanhamento, e até de castigo, mesmo que pelo meio haja muita música. E há muita! É tudo muito larvar, tudo muito no princípio, tudo muito cheio de armadilhas, olhem só o que aconteceu aos jovens peritos da ONU no Zaire, a Zaira e o Sharp, traídos por quem os mandou para lá! Mas se o caminho não for o começado há 70 anos, é qual? Portanto e por muito que isso custe a relativistas, islamistas e outros istas, parabéns, declaração – apesar de tudo!


Nelson Mandela
Mvezo, 18 de Julho de 1918 — Joanesburgo, 5 de Dezembro de 2013
«Compreender o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos.»
Susan Sontag, in Renascer
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Primeiro foi o Halloween, agora é o Thanksgiving. A seguir será o Mamby on the Beach na praia de Carcavelos, o Bay to Breakers na Ponte 25 de Abril, o Fun Fun Fun Fest no Meco, o Saint Patricks Day, e, por fim, o 4 de Julho e majoretes na Avenida da Liberdade? Que país tão poroso, raios!…
Dia Mundial da Filosofia de 2018: Filosofia e Humanismo: podemos acreditar na Humanidade? Sim, podemos, se queremos acordar melhor amanhã. Só um aviso: cuidado com a moda do relativismo.
Agora sempre que vou à FNAC não encontro o (livro) que procuro. Tenho que andar nos alfarrabistas, e às vezes nem aqui tenho sorte, além de que é um lugar péssimo para a asma. Alguém tem por aí a Ilha dos Condenados, do Stig Dagerman?
Ergueu-se Abraão, rachou a lenha e partiu
E consigo levou a chama e um cutelo.
E quando juntos se quedaram ambos,
Isaac, filho primeiro, assim falou: `Meu Pai
Tudo está preparado, o ferro e o fogo
Mas qual é o cordeiro a imolar nas chamas?`
E Abraão prendeu o jovem com cinturões, correias,
Em redor construiu trincheiras, parapeitos
E empunhou o cutelo para matar seu filho.
Dos céus um Anjo lhe bradou então
E disse: `Não levantes a mão contra esse jovem
Nada tentes contra ele que é teu filho.
Vê! Um cordeiro preso está ali naquela sarça.
De orgulho oferece um sacrifício em vez do jovem.`
Mas por não querer assim, matou o velho o filho
E um por um também metade dos filhos da Europa.
Parábola do Jovem e do Ancião, de Wilfred Owen, poeta inglês morto nas trincheiras uma semana antes da assinatura, há cem anos, do Armistício da Guerra de 1914-18, in Elegias.
Uma pergunta: se durante uma lide o touro der uma cornada num desses moços apertadinhos em sedas, adornos, luces, fru-frus, aos gritos de hei, hei, o animal tem direito a palmas, ou fica mal? Só para saber.
Quando a vi agora na imprensa chilena percebi logo que tinha morrido, ela, Ana de Recabarren, que só os anos, 93, e a doença calaram. Conheci-a em 98, em Santiago do Chile, na sede da Associação dos Familiares dos Detidos Desaparecidos, de que fora uma das fundadoras, e nunca mais esqueci o seu olhar já seco e a sua voz apostada: “Vivos mos levaram, vivos os quero!” Em 1976, a DINA levou-lhe o marido, Manuel, dois filhos, e uma nora, grávida. Ana maldisse então tudo o que mexia na terra e no céu mas depressa secou as lágrimas e arregaçou as mangas.E nunca mais baixou os braços. Até há dias. São estas pessoas que são o sal da terra.

Faz hoje anos, 43, que Marrocos se apoderou do Sara Ocidental, perante a passividade da Espanha franquista. Foi a Marcha Verde. Os sarauis nunca foram ouvidos. Só para lembrar.