Post-it


modosdever,

Estava quase a largar este Javier Marías, este de Quando os Tontos Mandam, mas decidi continuar. Chateiam-me as prosas aristocráticas, moralistas. JM daria um grande bloguista. E decidi isso porque a certa altura o homem, traduzido em mais de quarenta línguas, o que deve querer dizer que a minha irritação vale o que vale, escreve isto: “Se se vetasse o exercício das suas tarefas a todas as pessoas com um antecedente de depressão ou de desequilíbrio leve (crise de ansiedade, por exemplo) não sobraria ninguém apto para trabalho nenhum”. É verdade. Ia na página 49. Vou continuar, mas não prometo nada: o livro, as crónicas que Marías publicou no El País Semanal entre 2015 e 2017, tem 304.

0 comentários em “Post-it”

  1. Pois que hei-de dizer, talvez que tenho uma obra do autor (dois volumes) para ler e não me apetece. Mas acredito que possa vir a fazê-lo. Na praia ou assim.

    1. Pois faça-o. Não quero responsabilidades nisso. Estas coisas a certa altura são muito pessoais. Mas depois diga-me o que achou. Pode até ser que eu esteja em maus dias.

  2. Estou a terminar o Os Enamoramentos do Javier e até nem desgosto do estilo. A acção propriamente dita é curta, talvez se faça de quatro momentos que posteriormente levam a um debate moralista, de consciência e de previsão. Creio que é um escritor que gosta de julgar personagens, do confronto de consciências e de sentimentos. É um escritor difícil, mas este debate que estabelece nos seus livros é relevante para um despertar de consciência e para a empatia que é essencial no dia a dia.

    1. Estou de acordo consigo, João Filipe. Na continuação da leitura encontrei outros subsídios para o despertar das consciências de que fala – e que quero crer que é o que ele procura. Procurarei ter mais paciência para o Javier Marías.

  3. Talvez seja mal comparado, mas comparo muito o Javier Marías com o Vasco Pulido Valente.
    Costumo até chamar-lhe (só para mim) o Vasco Pulido Valente espanhol. Com um pouco menos de política e um pouco mais de literatura. Com as qualidades e defeitos que reconheço a ambos.
    Entre as qualidades, há uma que muito prezo: ambos dizem (escrevem) aquilo que pensam.
    Em Espanha, com habitantes bastante mais loquazes do que os portugueses, talvez não faça assim tanta falta. Em Portugal faz. Porque a diferença entre aquilo que se pensa e aquilo que se exprime continua a ser enorme entre nós. Passam as décadas, sucedem-se as gerações, e este defeito persiste. Imutável.

    1. Não, Pedro, a tua comparação é boa, incluindo nas ressalvas! Ambos escorrem bem na tinta e no vinagre pelo que – concordo – fazem falta nos respectivos países. Temo apenas que exagerem na concordância entre o que pensam e o que dizem, e toquem, mesmo não querendo, a vaidade e o moralismo. Dito de outra maneira: depois de cada um só mesmo o dilúvio. E isso pode empobrecer a crítica. Ou mesmo matá-la.

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