Pensamento da semana


modosdever,

«Compreender o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos.»

 

Susan Sontag, in Renascer

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

 

52 comentários em “Pensamento da semana”

    1. Susan Sontag não faz propriamente uma afirmação, antes propõe uma reflexão sobre os limites da razão e do sentimento, pelo menos na leitura que faço do que ela escreveu.

    1. Não vou fora disso, Maria Dulce. Li no entanto o que Susan Sontag escreveu como se a questão nunca me tivesse ocorrido: com o enorme poder da dúvida. E achei que nalgum momento do meu passado percebi melhor alguma coisa olhando sem envolvência, sem contaminação.

  1. Podemos entender sem sentimento,
    mas nunca compreender. Compreender é como um entendimento sentido.

    A Razão permite- nos entender o significante da palavra Amor. Mas para compreendermos o significado do Amor é necessário ter-se amado.

    O Mundo geológico percebe-se sem sentimento, mas não o Planeta Humano.

    1. Este seu comentário está enfim mais seco que o anterior e perto do caroço da questão; Susan Sontag pretende a meu ver distinguir compreensão (razão) da actuação, sendo que o gatilho desta envolve necessariamente o sentimento. Pegando no seu exemplo podemos discutir racionalmente o amor mas não é isso que nos leva a amar.

    1. Tire lá a “distopia” da questão para podermos olhar para ela sem cortinas. Susan Sontag sabia certamente quando propôs esta reflexão que compreensão e sentimento andam de mãos dadas, que os seres humanos não vieram de planetas destemperados, não são Spocks. Quis porventura – porventura! – distinguir o olhar do meteorologista do gozo de um ocaso sentido como um poema.

  2. Pelo contrário, seria impossível compreender o mundo desligado dos nossos sentimentos.
    Sem sentimento, grosso modo, o mundo nem sequer passaria do estado de uma energia pura.
    Atração, repulsa, relação… não haveria mundo sem elas.
    João de Brito

  3. É simples. Claro que não podemos observar o mundo abstraindo completamente os nossos sentimentos do olhar com que o observamos. Isso é uma evidência. Mas também é evidente que a parte do mundo que nos é exterior, quase todo ele, existe e evolui independentemente de nós. Um primeiro passo para tentar compreender o mundo é reconhecer e ter isto presente. No entretanto, os sentimentos não se evaporam, nem ficam congelados, podemos ficar descansados.

      1. Se me permitem. No “nosso” juízo procuramos mais não perder a “razão” do que encontrar a verdade. Talvez um computador consiga um juízo puramente matemático, ou talvez com o passar do tempo enviese-se em beneficio dos seus “irmãos” – sinal de consciência de grupo

          1. Se bem que, Pedro, tanto quanto o Público, penso que foi o Público, escreveu então sobre a tese de Damásio, ele debruçou-se mais sobre as emoções não sobre os sentimentos. De todo o modo vou ver.

          2. Sim, mas presumo que todo o sentimento se faça acompanhar de uma emoção – ex: a repulsa do sentimento moral (justiça vs injustiça) deriva da mesma estrutura cerebral (insula do córtex cerebral) responsável pela repulsa emocional (ex: nojo por algo repulsivo, pelo seu cheiro, aspecto visual, etc)….quando sentimos nojo perante uma imoralidade activamos a mesma área cerebral responsável pelo cheiro de algo repugnante – por isso sentimos, fisicamente (por vezes ficamos até nauseados) a repugnância da imoralidade.

            Exemplo pessoal:
            Recentemente quase vomitava para cima de um admirador do fascismo/ditaduras.

          3. LOL! Pena não ter vomitado, Pedro. Talvez não tivesse provado que sentimentos, e eventualmente também as emoções, não ajudem a compreender o mundo mas que têm certamente consequências.

          4. “Recentemente quase vomitava para cima de um admirador do fascismo/ditaduras.”

            Mas ainda não vomitou para cima da nossa Constituição? caminha para o Socialismo…

  4. concordo, embora o sentimento possa dar uma compreensão mais profunda e até diversa, também pode prejudicar um juízo que se quer objectivo, ou o mais objectivo possível. Diz-se que ser juíz em causa própria não é o melhor e existem profissões que o proíbem.

  5. Traduziria esta frase antes por “Perceber o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos”.

    Porque perceber exige a razão, a crueza de ver para lá do que sentimos sobre o que vemos – exige força, (tentar) arredar a cortina.
    Já compreender significa abarcar, abraçar – e se a mente pode tentar voar a direito, o abraço é redondo e é carne: doem-lhe as arestas. Muito menos compreendemos o que nos é indiferente.

    1. Compreender, perceber, entender… A certa altura qualquer dos recursos não dispensa a razão, em maior ou menor grau. E a julgar pelo grosso dos comentários esta também não respira sem o sentimento – em maior ou menor grau.

      1. Não dispensa, de todo – nem pode, somos animais: racionalizamos os sentimentos, educamos as emoções, ressentimo-nos quando nos percebem mal 🙂

  6. Só do lado de fora se compreende inteiramente o mundo de dentro.
    A vida não será em vão se, em algum momento, sair do que está cá dentro.

  7. Mas desligar dos sentimentos também é filtrar informação que pode ajudar.

    A intuição não incluí sentimento?

    1. Tenho muito mais confiança no meu raciocínio lógico do que na minha intuição, se bem que aceite que de alguma maneira esta pode ajudar à tomada de uma decisão. Mas isto é só o que eu penso.

        1. Nunca fiz nenhuma grande descoberta (que me lembre) mas aceito sem dificuldade como penso que deixei dito (provavelmente não fui claro) que nalguma medida a intuição intervém numa decisão – ou descoberta.

      1. Sim mas o raciocínio lógico implica também que tenhamos toda a informação necessária . Ou julgarmos que a temos. Que é outra decisão dentro da decisão.

        A maior parte das vezes isso não acontece.

          1. Não, como então vamos discutir qual o melhor vinho com raciocínio lógico ? 🙂

          2. A Tinta-Roriz, a Touriga-Nacional e a Tinta-Barroca, casadas, dão frequentemente um bom Douro; é então provável que a Cova do Monte, Reserva, me faça hoje boa companhia ao almoço. Poderei no entanto sofrer algum imponderável.

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