Olhe, pense e adivinhe – V


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Ervas, lixo, entulho, latadas mortas, um poço seco é tudo o que resta do campo imediato à casa [que um comentador já adivinhou] de Salazar, no Vimieiro. Aqui passeou Christine Garnier, a jornalista francesa autora de Vacances avec Salazar, no Verão de 1951, aqui se concertaram destinos, aqui se fez fotografar o ditador com trabalhadores rurais, honrados pelo convívio. A paisagem era bem outra. Hoje, é um matagal nas bermas da IP3. “Tá a ver? É ou não é preciso dar a volta? Mas ninguém dá a volta, não; vêm só tirar retratos à parte da frente” – disse a minha guia.

Comissão de Serviço XI


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CELESTINO II

 

Estava naquele dia para fechar a secção quando, de repente, o rapaz entrou. Levou tempo a começar.

– Preciso de falar consigo, mê furrié.

– O que se passa?

– É que… quero ser padre… – disse, baixando os olhos, embaraçado, e a coçar comichões inventadas.

– PADRE? Porquê, Celestino?

Voltei atrás, sentámo-nos, respirei fundo; perguntei-lhe onde tinha ido buscar a ideia, se sabia o que isso significava; se era mesmo o que queria. Respondeu a tudo, insistente, determinado.

– Amanhã de manhã aqui, às nove horas.

No dia seguinte peguei num jipe e levei-o estrada fora, por cinco quilómetros, na direcção de Nacala, ele feliz, eu calado, concentrado nos buracos da estrada e numa salada de sentimentos desencontrados, até ao seminário hoje chamado Mater Apostulorum.

Ainda parei no caminho para lhe perguntar se era mesmo o que queria.

– É sim, mê furrié.

– Não sou teu furrié! Não me trates assim!

– Sim, mê furrié.

No seminário, o reitor falou com ele dois minutos e comigo outros dois.

– Ele quer é onde dormir e comer, e talvez estudar.

No regresso, vi-lhe lágrimas. Na cidade, deixei-o donde tínhamos partido.

– Amanhã aqui outra vez às nove horas.

– Sim, mê furrié.

No dia seguinte fomos ao liceu de Nampula, depois comprar livros e cadernos, lápis, borrachas, canetas, calções e mais T-shirts. Passou a dormir na camarata dos soldados. Não sou capaz de descrever a felicidade da cara dele – tudo o que me ficou do meu pequeno amigo.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Olhe, pense e adivinhe – IV


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“Mal empregado, não acha?” – perguntou a vizinha, sobre um carro adormecido, há anos, debaixo do telheiro. A passagem, perto, de uma patrulha da GNR, em marcha lenta, obrigou-me a abandonar o quintal. Não cheguei a ver a marca da lata velha. Pareceu-me só que não era um Cadillac 75, nem um Chrysler Imperial nem um Mercedes-Benz 700, alguns dos carros que ele usou. Mesmo assim talvez devesse estar no museu onde estão os outros: ouviu conversas que nos condicionaram a todos.

Olhe, pense e adivinhe – III


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O portão rangeu, protestou, resistiu mas a minha curiosidade foi mais forte do que os pudores da História. Imaginei debaixo destas ervas um chão de granito, um menino a brincar, entre patos e galinhas, e mais tarde um homem feito a ler dossiers. “Vinha cá poucas vezes, mas quando vinha o quintal ficava cheio de gente!” – gritou a cicerone. “Já reparou aí debaixo do telheiro à sua direita? Espreite! Espreite! [próxima foto]. Não tenha medo que não vem ninguém! As pessoas nunca dão a volta, nunca vêm a este lado. Não querem saber! Ninguém quer saber!”

Olhe, pense e adivinhe – II


modosdever,

 

“Lá ao fim! Lá ao fim! Tá a ver? Aquela portinha? Era a adega! Aquilo é que era bom vinho!” – atirou a excitada moradora da casa ao lado. “E aí, à direita, nessas portinhas era onde guardavam os cereais, enxadas e coisas assim!” Mas o abandono secou as traves, os tectos começaram a ceder e as ervas foram tomando o adro onde gente humilde privou com gente grande – ninguém diria. “Mas entre, entre. Empurre o portão!…”

Olhe, pense e adivinhe – I


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Uma mulher tão antiga como este portão e estas ruínas abeirou-se do terceiro andar da casa vizinha e gritou: “Dê a volta, dê a volta e vai ver!” Eu fui. Ela já estava debruçada da janela do outro lado. “Vê? As pessoas nunca dão a volta! Não sabem!” Você, leitor, sabe? Espreitou por cima deste muro? 

Dias de vómito


modosdever,

Um grupo de fuzileiros da escola de Vale de Zebro agrediu violentamente, no ano passado, um companheiro em circunstâncias que estão por esclarecer – ou já o foram e estão escondidas. O Público e o Expresso dão a notícia. Interrogada pelo diário, a Marinha fecha-se em copas, não se sabe se por segredo de Estado se por mera vergonha. Mas o registo de vídeo, publicado pelo semanário, é bem elucidativo. Aparentemente os corajosos militares da garbosa academia terão sido punidos com cinco dias dentro do quartel, desconhecendo-se como os aproveitaram pois não terá sido a primeira vez que se dedicaram a sovar camaradas. É impossível não ligar este caso ao das miúdas que pontapearam uma colega e foram mandadas para prisão preventiva. Quando a tropa premeia com cinco diazinhos de castigo um bando que veste a lustrosa farda dos fuzileiros e um juiz civil não consegue enxergar na lei outra medida para jovens zaragateiros de 15, 16 e 18 anos que não seja a prisão preventiva não temos mesmo quem nos defenda – nem as forças armadas nem a justiça. Portugal está mesmo à deriva, balança, enjoa quando não dá vómitos. Bem pode o Presidente da República pedir justiça, como os jovens advogados oficiosos no fim dos julgamentos nos quais pesaram pouco ou nada…

Comissão de Serviço X


modosdever,

[Por motivos absolutamente alheios à minha vontade, e do Delito de Opinião, tive de interromper durante algum tempo estas notinhas de uma guerra engolida. Elas voltam agora, para continuar.]

 

VIDAS EM CARVÃO

 

Sete e meia, a manhã aquece, os jipes roncam.

– Tudo pronto?

– Tudo pronto, meu capitão.

– Então vamos que se faz tarde.

Arrancámos, com as metades de trás dos carros a abarrotarem de papéis e armados de G3. Rodámos uns 45 minutos na direcção do mais próximo dos inselbergs de Nampula e parámos à beira de uma ravina.

– Desçam! – ordenou o oficial.

Os soldados amontoaram a papelada no fundo da escarpa. A coisa durou uma meia hora. Eram caixas e caixas de processos individuais, com nomes, datas, acções, condecorações, lotes de meias-vidas do então chamado recrutamento provincial – dos nascidos e crescidos em Moçambique, quer dizer, pretos na esmagadora maioria.

No fim, o capitão Franco mandou que nos afastássemos.

– Fogo nisso! – disse.

Acendi um fósforo. Os papéis gostaram. Os nomes, as datas, as acções e as medalhas ficaram reduzidos a nada, entre chamas e fumo, numa hora.

No cimo, do lado oposto aos nossos jipes, dois da Frelimo; a guerra acabara há poucas semanas, vigoravam acordos de cooperação.

– Não liguem. Não farão nada.

Ficámos até às cinzas.

Já de partida, seis guerrilheiros desceram, quase a rebolar, para remexer nos restos. Mas já só havia carvão. Ninguém a quem pedir contas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Blogue da semana


modosdever,

Andava eu meio perdido na busca do meu primeiro blogue da semana quando de repente fui assaltado por saudades do José Milhazes. Trabalhei com o Zé Milhas durante anos até que as coisas da vida no levaram cada um para seu lado. Hoje, ou lhe falo via Skype ou espero que venha a Lisboa lançar mais algum livro. Vi e convivi com o seu sentido de rigor e camaradagem. Para quem acha que já não há nem jornalistas nem a Leste nada de novo, que espreite no Da Rússia, blogue residente do Público.

Uma campanha barata


modosdever,

Se eu tivesse alguma coisa a ver com o PS ou o engenheiro Sócrates, nos dias que correm não gastava nem um cêntimo na campanha eleitoral: os dois estão tão presentes no nosso universo bloguista que não é preciso deitar dinheiro à rua – no sentido mais literal do termo. É assustador! E não estou a dizer nada que todos não saibamos desde que o general Humberto Delgado afirmou, com uma argúcia hoje desaparecida, que pouco lhe importava que dissessem mal dele, desde que falassem dele. Perdeu, como se sabe, e pelos motivos que se conhecem também. Mas se estes dois principais arguidos não perderem em toda a linha no próximo dia 5, por tudo o que também sabemos, e isto a admitir que não aconteça pior, o nosso mundo de posts e comentários bem pode pôr as barbas de molho.

Traços e cores que tocam


modosdever,

 

Uma oferta amiga da Maria José Ferreira, que aceitei sem pestanejar. A sensualidade da sua obra – que podem ver na Biblioteca do Museu República e Resistência – teve sempre em mim um admirador, pelos seus traços quentes e as suas cores luminosas. E por achar que estas coisas não devem ser propriedade privada, trago-a aqui para lhe darem uma olhadela. Venham as críticas, se quiserem, e até os comentários, mas aviso que o dispositivo de moderação está activado.

Delituosos na Madragoa


modosdever,

 

Ainda há milagres, sim senhor. Aos 13 de Maio do Ano da Graça de Nosso Senhor, e depois de várias tentativas, reuniram-se, num jantar, seis dos delituosos membros deste blogue para não deixarem morrer a tradição, que seria o mesmo que perderem a memória e com ela a história. E já comecei como não queria: a roçar o estilo de uma acta de condomínio – dessas de que fugimos chegando o mais tarde possível. Reuniram-se, para que se saiba e conste, como agora se diz, para memória futura, tanto em nome próprio como dos ausentes, que pelos motivos mais diversos não puderam estar – a Ana Vidal bem tentou. Não foi em Camelot nem à volta de uma távola redonda, mas no Mercatudo, numa rectangular e à volta de uma sangria, e de um tinto de que não guardei o rótulo mas o paladar, de um bacalhau com broa, de que, esse sim, ficou o sabor, e de temas que escorreram com a arritmia própria dos grupos que querem matar meses de saudade em apenas três horas – que foi o que durou a demanda. Para quem já se conhecia, notou-se o brilho com que amizade sai pelos olhos. Para mim, cuja chegada atrasada não me salvou desta acta, foi o tentar ligar as caras aos nomes de tantos adorados apontamentos aqui – do Pedro, da Teresa, da Ana, da Leonor, do Zé Bandeira. Depois do período-de-antes-da-ordem-da-noite, com breves leves alusões às ausências, e olhares de esguelha para os lugares vazios dos Lancelotes, à mistura com pasta de azeitona e um belíssimo queijo de cabra, os condóminos resistiram à actualidade política – inacreditável! – entretendo-se a falar ora dos filhos ora de quem deixou de escrever, momento em que tive de enfiar o nariz no bacalhau, ora dos comentários aos posts, detendo-se num ou noutro chato. Uma novidade: o Zé vai casar-se. Neste passo não tive pena de não ter ficado em frente dele – teria tido dificuldade em disfarçar o espanto que ainda me causam estes heróis dos tempos modernos. Frase da noite: “Toda a gente para mim é boa até prova em contrário.” Veio da Ana e ninguém torceu o nariz – que eu tivesse visto – ou tossiu – que eu tivesse ouvido. Também assinei. Uma conversa ficou inacabada quando eu disse – a propósito sei lá já de quê – que a felicidade é também um dever, não apenas um direito. Mas já era meia-noite na Madragoa, que a partir de certa hora é mais para quem bebe do que para quem pensa – se é que àquela hora nós próprios estávamos em condições de alinhavar duas ideias. Sobre o próximo jantar, os delituosos desejaram que volte a ser tão concorrido como os primeiros, porque a vida de facto não é virtual e a linguagem não é só a escrita – tem formas, gestos, cores, sons, tons. Tem gente, que antes de saber escrever já comunicava com isso tudo. Como esta, bonita, com quem jantei num dia de milagres, por acaso numa sexta-feira, dia 13.  E por ser verdade, e a contar com a compaixão de todos pelas omissões ou esquecimentos, e com a promessa de encaixar os reparos, assina aquele que encarregaram da tarefa de relatar aos que não foram, do que falaram os que foram, que aqui abraço e beijo.

 

Post Scriptum: Nosso muito, muito querido amigo João Carvalho, não voltes a arranjar desculpas para não aparecer. De espécie nenhuma. Podes ler isto como intimação – de todos.

Comissão de Serviço IX


modosdever,

O DESERTOR

 

– Está lá fora um senhor que precisa de falar consigo. Parece tenso.

– Quem é?

– Não quis dizer.

O homem esperava , em pé, no jardim do DRM. Era magro, escuro, de cabelos e olhos negros, provavelmente indiano, da comunidade goesa imigrada depois de 1961. Português, portanto. Disse, olhando-me com ansiedade, que precisava de uma licença militar, urgente, para viajar por motivos familiares, o que com certeza eu compreenderia, estendendo-me um envelope com o bilhete de identidade e sete notas de mil escudos.

– É para cobrir as despesas – explicou, com um sorriso a morrer nos cantinhos da boca.

Respondi-lhe, surpreendido, que uma licença não custava tanto, umas vinte vezes menos, devolvi-lhe o BI e o dinheiro, e pedi-lhe que passasse no dia seguinte. Concordou, com pouca vontade.

Fui eu mesmo, curioso, à procura do seu processo. Estava separado dos outros. Era um negociante, procurado por deserção. Entalado entre a Frelimo, que tinha  pouca simpatia pelos monhés, e as autoridades portuguesas, estava aflito por abandonar o território.

Não voltou a aparecer, nem no dia seguinte nem noutro qualquer.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço VIII


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O CANÁRIO

 

– Hoje sou um pássaro! Um canário!

R. entrou na secção, com a farda do avesso, eufórico, olhos vermelhos, enfim, com os sinais todos do estado, subiu para a secretária, encolheu uma perna, abriu os braços e começou a agitá-los.

– Espaço! Dêem-me espaço! Vou voar, vou sair desta gaiola!

Os homens olharam-se, depois fingiram ler ou escrever, diante da inesperada metamorfose de R., furriel, um branco do recrutamento local, vulgo coca-cola, que empurrava com as botas, para o chão, processos e carimbos. Um cinzeiro de pau-preto caiu com estrondo.

– DESCE! – disse-lhe.

Naqueles dias não havia muitas formas de evasão, primeiro da guerra, depois daquela espécie de paz. Voar das duas era um desejo comum, urgente, que se realizava tomando um avião – nas circunstâncias difícil! – ou fumando suruma, a canábis moçambicana, vendida nas esquinas ao lado do caju e das hortaliças.

R. não desceu propriamente, estatelou-se, mas, recomposto, bateu as asas a caminho da porta de armas, a única vez que vi sentinelas perfilarem-se a um canário, que deverá ter ido para muito longe porque nunca mais apareceu.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço VII


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A GARANTIA

 

Os ramos que o Sebastião soltava batiam-me, mas mal os sentia, a caminho do enxame de luzinhas nervosas da cidade. Ali aguentava-me a braços, as árvores dançavam com a noite à minha volta.

Regressava, o único branco da festa, do casamento de Filomeno, numa aldeia de colmo e adobe, onde durante horas comera e bebera à volta de um porco que um grupo de rapazes ia rodando numa fogueira. Acompanhara, copo a copo, todos os vivas ao casal.

Às vezes era o único: – VIVA! VIVA!

Trocava os passos, ria, parava, dava abraços, voltava a rir-me, tropeçava, caía, debaixo de uma lua tão cheia que deixava pouco espaço ao céu. No chão, meio a dormir, desci lentamente sobre o Mar da Tranquilidade.

– E SE A FRELIMO APARECE? – Endireitei-me.

Sentado, com o Sebastião a segurar-me, Ali pôs-se de cócoras, tomou-me a cara entre as duas mãos, olhou  para o companheiro, depois para mim, com uns olhos enormes, e disse-me:

– Meu furriel, a Frelimo não vai aparecer. Posso garantir-lhe. Venha, estamos perto.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço VI


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ORDEM PARA QUEIMAR

 

Habituada ao ritmo da guerra, a cidade não soube onde pôr as mãos quando ela acabou. A paz não passou de uma notícia nem mereceu um brinde.

Antes não havia dia sem saídas para o mato, colunas de camiões cheios de soldados, ainda compostos e de barba feita, ou sem regressos de contingentes rendidos, meio-despidos e de rostos cinzentos, cansados e esfomeados.

O frenesi guerreiro tinha acabado.

Companhias inteiras espalhavam-se agora ociosas pelas esplanadas, jogavam às cartas e ao futebol, bebiam sem limite, armavam pancadarias; iam às amigas no bairro do aeroporto ou levavam-nas para as suas vivendas, de quartos vazios e paredes vermelhas, iluminados por  luzes desmaiadas, para longas noites de tudo, álcool e suruma.   

No Cinema Militar passavam filmes e sessões do MFA.

Os indianos com mais pressa em sair do território facturavam febrilmente.

A mim mandaram-me para o DRM, onde me deram seis homens, incluindo um civil, Ali, e uma tarefa muito especial: passar milhares de processos individuais a pente fino, separar os da metrópole e queimar os do contingente local.

Durante meses, reduziria milhares de nomes, datas, castigos, feitos heróicos e distinções, várias por lealdade e mérito, a cinzas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço V


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CELESTINO I

 

– Cabrão do puto! Já viste isto? JÁ VISTE ISTO?

O homem estava fulo. Mostrava-me uma camisa verde, onde, na zona do peito, no lugar onde às vezes aparecem nódoas de um azar de comida, ou de falta de cuidado, saltava à vista uma mancha esbranquiçada e um pequeno rasgão. Fora o mainato.

– Então não é que o sacana do preto, para tirar uns pinguitos de azeite esfregou, esfregou, esfregou com uma pedra?

Porrada de criar bicho, despedimento.

O miúdo, um magricela de 11 anos, estava na parte de fora da flat, sentado dentro de uns calções a desfazerem-se, tudo o que vestia, encostado à parede. Chorava, com a cabeça entre as mãos e os joelhos sujos. Chamava-se Celestino, era macua, não tinha ninguém e a sua casa eram as ruas de Nampula.

– Queres trabalhar para mim?

Em troca do dobro do que o sargento lhe pagava, de roupa e da promessa de aprender a usar o sabão, aceitou, secando os olhos. Seria o meu mainato. Fiel, leal, disponível, cúmplice. Até ao fim. Fi-lo rir-se. Só nunca lhe tirei os olhos tristes.

 

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço IV


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FORMIGAS ESMAGADAS

 

Jipes e berliets avançavam sem vontade, romromrom, num túnel de vegetação e serpentes donde espreitavam mil olhos e canos calados…

[…]

Adiantava-me, ausente, à leitura de uma ordem de serviço colada na porta da CCS, a convocar-me para uma coluna de abastecimentos – cartas, comida, água, remédios, balas –, a partir antes do nascer do sol e do braseiro.

Devia apresentar-me uma hora e meia antes para levantar as armas, conhecer os homens, com corações nos bícepes tipo Amor de Mãe, e receber ordens.

O medo – agora, sim – espalhava-se a partir do peito, para a garganta, seca, para o estômago, para as pernas, num corpo sem peso.

Raios, ainda agora tinha chegado!!

O ar cheirava a formigas esmagadas, a óleo rançado.

Passei a tarde entre cervejas e aerogramas, por causa de uma guerra quase no fim, a dias de passar para as cidades, que invadiria de destroços e tensões;  uma tarde a escorrer de lembranças, incluindo muitas de que razoavelmente nem me poderia recordar; uma tarde inútil pois a operação seria cancelada.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)