FORMIGAS ESMAGADAS
Jipes e berliets avançavam sem vontade, romromrom, num túnel de vegetação e serpentes donde espreitavam mil olhos e canos calados…
[…]
Adiantava-me, ausente, à leitura de uma ordem de serviço colada na porta da CCS, a convocar-me para uma coluna de abastecimentos – cartas, comida, água, remédios, balas –, a partir antes do nascer do sol e do braseiro.
Devia apresentar-me uma hora e meia antes para levantar as armas, conhecer os homens, com corações nos bícepes tipo Amor de Mãe, e receber ordens.
O medo – agora, sim – espalhava-se a partir do peito, para a garganta, seca, para o estômago, para as pernas, num corpo sem peso.
Raios, ainda agora tinha chegado!!
O ar cheirava a formigas esmagadas, a óleo rançado.
Passei a tarde entre cervejas e aerogramas, por causa de uma guerra quase no fim, a dias de passar para as cidades, que invadiria de destroços e tensões; uma tarde a escorrer de lembranças, incluindo muitas de que razoavelmente nem me poderia recordar; uma tarde inútil pois a operação seria cancelada.
(Notinhas de uma guerra engolida)
