Comissão de Serviço IX


modosdever,

O DESERTOR

 

– Está lá fora um senhor que precisa de falar consigo. Parece tenso.

– Quem é?

– Não quis dizer.

O homem esperava , em pé, no jardim do DRM. Era magro, escuro, de cabelos e olhos negros, provavelmente indiano, da comunidade goesa imigrada depois de 1961. Português, portanto. Disse, olhando-me com ansiedade, que precisava de uma licença militar, urgente, para viajar por motivos familiares, o que com certeza eu compreenderia, estendendo-me um envelope com o bilhete de identidade e sete notas de mil escudos.

– É para cobrir as despesas – explicou, com um sorriso a morrer nos cantinhos da boca.

Respondi-lhe, surpreendido, que uma licença não custava tanto, umas vinte vezes menos, devolvi-lhe o BI e o dinheiro, e pedi-lhe que passasse no dia seguinte. Concordou, com pouca vontade.

Fui eu mesmo, curioso, à procura do seu processo. Estava separado dos outros. Era um negociante, procurado por deserção. Entalado entre a Frelimo, que tinha  pouca simpatia pelos monhés, e as autoridades portuguesas, estava aflito por abandonar o território.

Não voltou a aparecer, nem no dia seguinte nem noutro qualquer.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

4 comentários em “Comissão de Serviço IX”

    1. Um suborno é um recurso que suscita sempre dúvidas, quando não rompe princípios, e neste sentido é sempre um escolho para se conseguir algo, mesmo que seja justo. Além do mais, a licença em última análise nunca seria assinada por mim. Portanto, Cristina, a resposta é não.

  1. Eu não quis pôr em causa a justeza, ou não, do pedido. Só que ontem confesso que não apanhei bem o sentido do texto, faltava-me qualquer coisa. Agora, penso entender que o Fernando não se apercebeu logo das dificuldades do indivíduo e estranhou ele ter-lhe passado para a mão tanto dinheiro. Que, naquele tempo, sete notas de mil escudos… Oh lá lá!

    1. De facto não me apercebi imediatamente do que ele queria. Enfim, tinha 21 anos. Mas como escrevi, estranhei e fui à procura do processo. E tudo ficou claro. E sete notas naquela altura era muito, sim.

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