ORDEM PARA QUEIMAR
Habituada ao ritmo da guerra, a cidade não soube onde pôr as mãos quando ela acabou. A paz não passou de uma notícia nem mereceu um brinde.
Antes não havia dia sem saídas para o mato, colunas de camiões cheios de soldados, ainda compostos e de barba feita, ou sem regressos de contingentes rendidos, meio-despidos e de rostos cinzentos, cansados e esfomeados.
O frenesi guerreiro tinha acabado.
Companhias inteiras espalhavam-se agora ociosas pelas esplanadas, jogavam às cartas e ao futebol, bebiam sem limite, armavam pancadarias; iam às amigas no bairro do aeroporto ou levavam-nas para as suas vivendas, de quartos vazios e paredes vermelhas, iluminados por luzes desmaiadas, para longas noites de tudo, álcool e suruma.
No Cinema Militar passavam filmes e sessões do MFA.
Os indianos com mais pressa em sair do território facturavam febrilmente.
A mim mandaram-me para o DRM, onde me deram seis homens, incluindo um civil, Ali, e uma tarefa muito especial: passar milhares de processos individuais a pente fino, separar os da metrópole e queimar os do contingente local.
Durante meses, reduziria milhares de nomes, datas, castigos, feitos heróicos e distinções, várias por lealdade e mérito, a cinzas.
(Notinhas de uma guerra engolida)

São consequências de uma revolução (?) mal parida. Não, não era revolução que eu queria dizer, era antes… mudança. Mudança que nos trouxe, a mim, pouco de bom. Estou a gostar destas histórias de tempos ainda recentes, mas que vale a pena ler. No fundo, historias que fazem história.
Bfs.
Obrigado, zeparafuso. Afinal, são as pequenas histórias que fazem as grandes – ou deviam ser.
“Noites longas de tudo” – Grande frase, apesar de muito curta.
…pois. Foi a continuação da guerra com os restos dela.
Uma cidade chegar ao ponto de não saber “onde pôr as mãos”, quando a guerra acaba…
Reduzir a cinzas o que se pode tornar incómodo, enfim, o procedimento habitual…
É verdade. Mas o pior acabara. E teria sido ainda muito pior se milhares de antigos moçambicanos tivessem sido perseguidos ou mortos por terem servido o lado inconveniente.
Sem dúvida. Não conhecia esse lado da questão. Sei pouco sobre a guerra colonial, o meu pai teve sorte, ficou em Portugal a preparar os que para lá iam. Também por isso, acho estes seus apontamentos interessantes. Sei que há literatura sobre o tema, mas ainda não me dediquei a ele.